Ubermensch by Debord

Douchebagging

Publicado em despise for humans por pedro em 12/01/2009

Vamos fazer uma lista das coisas mais douchebags que tem?

Primeiro da lista: COMENTÁRIO ANÔNIMO.

E não é esse o problema de hoje em dia?

Publicado em despise for humans por pedro em 11/20/2009

Eu não surfo. Mas sempre achei a coisa mais legal de surfar o fato de que é no mar.

E talvez seja essa a característica mais marcante do nosso mundo: enquanto uma pessoa acha uma coisa repulsivamente nojenta outra acha genial.

Mas o pior mesmo é que, pelo que entendi, esses são ou eram alunos da PUC. Isso, tecnicamente, deveria ter-lhes ensinado melhor sobre a composição do gentil Arroio que margeia a avenida Ipiranga.

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Porque não dá pra dizer “Guerra do Afeganistão”

Publicado em despise for humans por pedro em 11/18/2009

“Guerra não se caracteriza pela explosão bruta de violência, mas pela sua organização e o seu estatuto de direito. E, por conseguinte, por um contrato: através do acordo comum que estabelecem, dois grupos decidem entregar-se a batalhas, ordenadas ou outras. Em breve encontramos, consciente ou mesmo escrito, contrato tácito dos contendores”

Michel Serres, O contrato natural, p.29.

Deve-se aceitar que essa prolongação de quase 8 anos (indo pra 9) de uma guerra errática coloca certas questões sobre o que a guerra se tornou. Depois da II Guerra o esfriamento foi marcado por grandes nações se distanciando de grandes conflitos. AS máquinas de guerra (para definir) de todas as grandes potências se distanciaram de combates em grande escala: os EUA, mais marcadamente, escolheram pontos ao redor do planeta para atitudes colonizadoras-militares e poucas foram frutíferas. Vietnã e Coréia são as mais conhecidas e seus resultados, bom, estão aí pra qualquer um ver. Os EUA não ganharam nada com isso e esses países apenas superficialmente, já que também estavam apenas superficialmente envolvidos nessas batalhas. A USSR tentou em alguns lugares ações de mesmo porte.

Mas aqui queremos ignorar o esfriamento e pensarmos em termos atuais. O mundo tem estado, nesse séc. XXI, eternamente imerso em guerra. Ou pelo menos é isso que se vê na mídia e é o que se fala cotidianamente. Iraque, depois Afeganistão. No Iraque E NO Afeganistão devemos apontar que apenas, também, superficialmente o que ocorreu (e ocorre é guerra). Deve-se aceitar que o Talibã e a contínua insurgência no Iraque é uma forma estabelecida e, mesmo que precariamente, organizada. Deve-se, portanto, no mínimo estipular que temos duas ideologias (ou formas de conceber o mundo, pra tranquilizar os mais anti-comunistas/socialistas de plantão) que se propõe posições diametralmente opostas com afirmações bem ferrenhas de guerra. Tudo bem. Até aí ainda temos o que entendia-se classicamente como guerra.

Mas até onde isso vai? Até onde podemos aceitar isso? Aceitar que o que ocorre com, por exemplo, a região afegã e paquistanesa é uma guerra? Em certo período de tempo poderia-se apontar o Talibã como forma instituída de governo. Mas e hoje? É impossível traçar os ranks desses soldados. Claro, os líderes intelectuais/religiosos/ideológicos são facilmente identificáveis, entretanto, sua destruição ou mera anulação de forma alguma significa sua destruição e/ou anulação.

Com Obama estamos tendo a imagem clara de que de ambos os lados desse noise temos apenas a mesma nota: uma narrativa pré-concebida de mundo. Na verdade, duas narrativas pré-concebidas de mundo. Ambas armadas e aparatadas pelas formas mais populares, respectivamente, de armação e aparatagem (se me é permitido esse quase neologismo) em cada mundo: a grande mídia e a grande religião.

Então, talvez, e em certos termos, pode-se dizer que há um contrato. Mas de forma alguma ele é necessariamente de direito. Está mais pra ficcional mesmo…

FC

Publicado em despise for humans por pedro em 11/13/2009

Retuitando retuíte da Adriana Amaral, bem legalzinho esse curta do uruguaio Federico Alvarez.

Esperança no horizonte de uma FC pra TV/Cinema que não venha da Inglaterra ou dos EUA.

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Publicado em despise for humans por pedro em 11/11/2009
filha

Minha filha. Querida, sempre imitando o papai.

Via Porco Voador.

X Seminário Internacional da Comunicação: Imaginário e Cotidiano

Publicado em despise for humans por pedro em 11/10/2009

Acabei me emocionando com as comemorações dos 20 anos da queda do muro (ontem passei o dia assistindo as redes internacionais de notícias e suas coberturas) e esqueci de fazer um post (nem que modestamente) sobre o seminário internacional.

Bom, primeiro vou falar das palestras. Existe um preconceito e uma perucagem sobre esses franceses. A Famecos e a PUC tem programas de intercâmbio com várias universidades francesas e alguns dos principais professores (como o Juremir Machado e a Cristiane Freitas) obtiveram seus doutorados lá. Isso gera uma faca de dois legumes: de um lado um pessoal que abomina os franceses e de outro lado um pessoal que deixa os testículos (e eu diria até as gravatas borboletas) deles molhadinhos de saliva.

Eu, pessoalmente, como já disse aqui, tento ser um inclusivista. Procuro em todos os autores com quem entro contato (seja por livros, artigos, ensaios ou palestras) pegar alguma coisa, formatar conhecimentos, sabe? Meu provável futuro orientador de doutorado, o Rudiger, tem suas grandes reservas sobre esses franceses, mas eu os considero úteis. Muitos deles são aglutinadores de pensamento, como eu gosto de chamá-los: eles pegam outros caras e servem como portas de entrada para conhecimentos mais específicos e/ou complexos. Por isso vou tentar fazer um relato, coerentemente comigo, inclusivista.

E começarei pela grande atração desse #SICom09: Michel Maffesoli. Ele não apenas ganhou um título Honoris Causa da PUC/Famecos como teve duas falas, na abertura e no fechamento do evento. Na abertura ele se propôs a fazer uma fala mais aberta e errática e, estranhamente, remontou suas origens fenomenológicas fazendo um imenso elogio a Heidegger e ao seu Dasein. Maffesoli explicitou uma desconfiança minha: seu être-ensemble, o estar-junto, vem de uma modulação desse estar lá heideggeriano e foi, a despeito de muito pouco didática, uma das falas que mais mexeu comigo. Eu comecei estudando Estudos Culturais, então tenho uma grande fascinação pelo interesse acadêmico acerca do cotidiano e penso mesmo, aos moldes do formismo simmeliano, que é um campo extremamente fértil dos estudos de comunicação e da sociedade.

Na sua segunda fala ele foi mais específico e construiu um ótimo paralelo em negativo entre Augusto Comte e a pós-modernidade. Pra quem já leu os trabalhos dele não houveram grandes novidades, mas é sempre legal ver um grande pensador da atualidade falando ao vivo e respondendo perguntas (mesmo que eu não tivesse nenhuma pergunta pra ele).

As outras falas do evento foram até meio previsíveis. Patrick Tacussel falou sobre o silêncio, Armindo Bião deu um show (SIMPLESMENTE UM SHOW) falando sobre a Hermes e como o conhecimento só pode ser construído através das encruzilhadas. Assisti essa pela internet e, sério, me emocionei muito em casa.

Uma das minhas falas favoritas foi a do Muniz Sodré. Juremir apresentou a mesa nesse dia e abriu a fala de Sodré dando a real: maior pesquisador de comunicação brasileiro. Ele enredou seu trabalho sobre a cultura negra no Brasil com o pensamento de Maffesoli construindo uma relação (que depois o próprio Maffesoli continuou) entre arkhé-tipo e neó-tipo. Foi um abre-olhos incrível e adorei que ele não teve nenhum medo de usar um termo tão temido hoje em dia: ideologia. Falou sobre dominação e mencionou uma coisa que eu ando trabalhando ultimamente: dentro dos povos dominados, por exemplo, os negros durante a escravidão, existia uma classe alta que difundia uma ideologia de continuação hegemônica, ou seja, existiam negros que acreditavam na escravidão e eles eram colocados em posições de liderança não apenas pelos escravocratas, mas pela própria ’sociedade’ escrava.

Achei isso demais. Me emocionei tanto durante a fala dele que meus colegas depois ficaram tirando sarro de mim porque eu ficava falando sozinho e fazendo gestos.

Os GTs não foram assim tão emocionantes. Devido ao imenso número de trabalhos aceitos para apresentação o tempo dado a cada trabalho foi muito pequeno (apenas 15 minutos para exposição e 10 para Q/A). Eu apresentei a minha dissertação e quando o coordenador da mesa, o Marcelo Trasel, avisou que faltava um minuto ainda faltava muito pra eu apresentar. Por sorte a minha queridíssima Adriana Amaral estava na platéia e também tinha apresentado na correria e fez a exata pergunta que me permitiu terminar a explicação. Também foi legal que o Erick Felinto estava assistindo e pareceu apreciar meu trabalho o que foi, sendo repetitivo, extremamente legal porque eu uso o livro dele, A Religião das Máquinas, em vários momentos do meu trabalho. De fato, acho que cabe aqui fazer a ressalva de que ler o livro dele foi extremamente legal e revigorante, já que ele é um dos poucos autores que fala sobre cibercultura, novas tecnologias e imaginário tecnológico da pós-modernidade/modernidade sem esquecer que a Escola de Frankfurt não foi um erro ou tolice.

No mais as apresentações foram sempre assim. O grande Bruno Costa apresentou com muita autoridade e competência o nosso trabalho do CINESOFIA (grupo de pesquisa do qual participo na Famecos que estuda as relações entre cinema e filosofia) fazendo algumas menções que só podem ser chamadas de geniais sobre o movimento futurista italiano e a relação entre guerra e técnica. Pro tempo que ele dispunha foi realmente, realmente genial.

Nosso querido ex-colega de Melhor do Peór (que parece ter morrido lentamente) e também colega e também co-autor do texto do grupo, Jayme Camargo, também apresentou. A apresentação dele a despeito de uma pretensão legal acabou ficando meio engasgada e até virou meio motivo de brincadeiras no twitter (principalmente do Erick Felinto). Ele resolveu ler seu artigo na sua integralidade e isso não combinou muito com o pouquíssimo tempo para a apresentar. Mas no fim Jayminho acabou convidado pra exclusivíssima feijoada França-Brasil que o Juremir organizou pra homenagear os professores franceses e tudo ficou na boa.

O #SICom sempre é muito bom e uma oportunidade pra, nem que seja pelos corredores e na mesa do bar do 7, trocar umas idéias com gentes interessantes. Mal posso esperar pelo próximo.

20 anos do muro de Berlim

Publicado em despise for humans por pedro em 11/09/2009

Epílogo

Legal a parte de opinião do NY Times de hoje sobre a queda e mais legal é uma parte que completa (ou corrobora?) essa minha interpretação um pouco (ou talvez muito) lacaniana. Meses depois…

… when the sublime mist of the velvet revolutions was dispelled by the new democratic-capitalist reality, people reacted with an unavoidable disappointment that manifested itself, in turn, as nostalgia for the “good old” Communist times; as rightist, nationalist populism; and as renewed, belated anti-Communist paranoia.

na matéria, escrita pelo próprio Slajov Zizek, ele fala bastante sobre o aftermath da queda do muro. Sobre o que aconteceu nos país antes comunistas que com o desmanche do sistema foram se tornando capitalistas-democráticos. Mas é interessante como ele coloca muito bem essa questão lacaniana, como eu disse antes, da travessia da fantasia. Para os anti-Comunistas de então, a mudança de regime era uma transformação esperada e fantasiada. Realmente era uma fantasia, orquestrada a partir do desejo de liberdade. E quando a realidade do sistema da eficiência lucrativa se mostrou menos doce do que prometida, Zizek aponta, movimentos anti-Comunistas se reforçaram no discurso de que essas democracias que surgiram em países como Ucrânia, Polônia, a Eslovênia, não eram verdadeiramente capitalismo, nem democracia.

It is because, many believe, we are not really in capitalism: we do not yet have true democracy but only its deceiving mask, the same dark forces still pull the threads of power, a narrow sect of former Communists disguised as new owners and managers — nothing’s really changed, so we need another purge, the revolution has to be repeated …

What these belated anti-Communists fail to realize is that the image they provide of their society comes uncannily close to the most abused traditional leftist image of capitalism: a society in which formal democracy merely conceals the reign of a wealthy minority. In other words, the newly born anti-Communists don’t get that what they are denouncing as perverted pseudo-capitalism simply is capitalism.

O que remete ao que eu dizia no meu post anterior de hoje mesmo: as pessoas não queriam capitalismo ou democracia, elas queriam dignidade. E a fantasia era de que já que o sistema comunista é opressor e maquínico e ele é antagonista do sistema democrático-capitalista a única lógica possível é a de que esse segundo sistema é, pelo menos, menos opressor e maquínico. Mas ele não era.

When people protested Communist regimes in Eastern Europe, the large majority of them did not ask for capitalism. They wanted the freedom to live their lives outside state control, to come together and talk as they pleased; they wanted a life of simplicity and sincerity, liberated from the primitive ideological indoctrination and the prevailing cynical hypocrisy.

Em outras palavras, como eu disse, dignidade. A liberdade não de oprimir ou de escapar as responsabilidades, mas de ter uma família, amigos, associações. O gregarismo forçado do partido contrastava com a censura e perseguição, com a arregimentação da sociedade (é o que alguns autores vão se referir como caráter gregário-individualista da modernidade).

Zizek vai terminar seu texto falando do duplo desertor Kravchenko, que desertou, primeiro, do Oriente e, depois, do Ocidente, quando entendeu – antes de todo mundo – que as diferenças entre comunismo soviético e capitalismo norte-americano eram mais sutis do que se pensava. E ele reforça um discurso que eu corroboro muito (inclusive colocando num lugar de muita visibilidade um termo um tanto quanto temido nos dias de hoje – ideologia): é preciso construirmos novos discursos, novas ideologias, que consigam, finalmente, se desconectar das velhas dicotomias que ficaram com os destroços do muro (ele mesmo, agora há pouco a CNN mostrava, continua existindo em diversas forças. Algumas delas, em uníssono com o meu post anterior, muito remixadas). O desertor escolheu primeiro a liberdade e percebeu na América que a liberdade Ocidental é um contexto antes de um conceito, é fluído através de compartimentalizações e comprometimentos.

How did we come to this? Deceived by 20th-century Communism and disillusioned with 21st-century capitalism, we can only hope for new Kravchenkos — and that they come to happier ends. On the search for justice, they will have to start from scratch. They will have to invent their own ideologies. They will be denounced as dangerous utopians, but they alone will have awakened from the utopian dream that holds the rest of us under its sway.

20 anos de pós-modernidade histórica?

Publicado em despise for humans por pedro em 11/09/2009

É muito aceito nos meios acadêmicos e artísticos que a pós-modernidade foi (e é) um fenômeno de massas marcado pela lógica da colagem. Política, economia, artes plásticas, visuais e musicais (a sociedade em si) se tornou um remix, uma lógica plural de inserção, de variedade.

O que também é muito aceito é que esse fenômeno de massas/essa era só foi possível devido ao desmanche, fracasso ou falência dos grandes centralizadores ideológicos. É de praxe mencionar a socialização democrática-capitalista que os país mais ocidentais vivenciaram e a democratização-capitalização socialista. Hoje, há 20 exatos anos a Alemanha curava sua última ferida da II WW recosturando o país.

Penso eu ser esse o único momento histórico mesmo que pode definir a pós-modernidade ou, melhor, delinear seu início (na verdade, seu marco mesmo pouco importa, estou mais preocupado com o começo dessa definição em termos bem sociais). Naquele dia, mais do que a reunião de um país rasgado, o mundo viu todas as mentiras numa linda colagem de esperança. Berlinenses ocidentais (ou capitalistas) e berlinenses orientais (ou comunistas) não tiveram diferenças ideológicas para colocar em prática a derrubada de uma estrutura de concreto que dividia o país, a cidade, o mundo. Na verdade, dizer isso é quase um axioma hoje.

Longe de uma trégua ideológica, a queda do muro foi a substituição ideológica. A polarização leste/oeste vivida desde a queda da velha Berlim de Hitler foi levada às últimas consequências de seu argumento:  daqui uns anos, quando a sentença final do muro passar legitimamente para a idade adulta, aposto, será ainda mais fácil perceber isso. Perceber o que mesmo? Perceber que não se trata tanto de uma grande revolução social ou ideológica quanto um grande e fenomenal (em todos os seus sentidos filosóficos) engano. O sentido das palavras, dos discursos; é isso que ali esteve em jogo e finalmente as entrelinhas, as trocas tão arquitetadas, exageraria e diria: a positividade racional dos discursos de ambos os pólos encontraram-se com a maior parte das teorias acadêmicas (filosóficas, sociológicas e diria até psicológicas) no que elas discursavam libertariamente desde o início do séc. XX.

Não se tratou de uma grande revolução popular (como a Rev. francesa ou russa), não se tratou nem de uma revolução burguesa ou operária e nem correria o risco de dizer teórica. Não foi um governo falido admitindo a derrota, não foi o Ocidente vencendo o Oriente (nem o Oriente sendo derrotado pelo Ocidente); foi apenas um engano. Um uso mal guiado de palavras que levou as pessoas a verem o desbaratamento não de um sistema social, mas da desesperança. É preciso perceber que a inação foi mais importante, em certos termos, do que a derrubada do muro. Poucas vezes nesses 20 anos eu me lembro de ter ouvido alguém fazer uma pergunta tão clara: como é que ninguém impediu? Numa era (e eu reforço esse termo, pela conjectura de que ali se ensaiou o momento de virada) em que a censura, arregimentação social (a própria existência do muro é um exemplo primeiro em toda a sua estrutura e controle: afinal, o muro era burocraticamente permeável) e propaganda ainda era presente é incrível que soldados, oficiais, funcionários, entre tantas outras categorias, pudessem demonstrar tamanha desdoutrinação.

No meu post anterior eu comemorava o 5 de Novembro e lendo em várias fontes sobre essa semana (5 a 12 de Novembro) é impossível não perceber uma certa lógica. A despeito de meus momentos de puro ateísmo sempre me pego sendo esperançoso e um tanto místico. É impossível para mim, portanto, não suspeitar da origem/natureza mística-mágica que esse início de mês tem para o mundo. Não é um mês de grandes e geniais líderes, isso seria apenas outra mentira. Se trata de um levante.

E 9 de Novembro de 1989 não foi nada além disso. Não foi um levante com adendos adjetivos como ‘popular’, ‘burguês’, foi apenas um levante. Não foi um levante pela liberdade, pela glória, estado, justiça ou verdade. Foi apenas um levante. Eu exageraria dizendo que foi realmente o que Gaston Bachelard chama de tomada de consciência. Vários autores modulam esse fenômeno em suas teorias (Maffesoli, Baudrillard e Morin são os mais óbvios, recentes e famosos) e eu quero aqui modulá-lo em termos amplos, ideológicos e históricos.

It’s not necessarily mob behavior. Eu sempre penso naquela expressão meio icónica as massas cansadas. O resultado da guerra ideológica foi, em uma das minhas muitas percepções, o cansaço das massas. A disputa foi cansativa ao ponto de se tornar axiomático que ambos os sistemas rumariam fatalmente para a falência e que o que se queria, bem alinhado com as teorias mais contemporâneas (dos estudos culturais à sociologia compreensiva), era uma coisa mais cotidiana: viver num mundo (não da vida, não dos homens, não da natureza, mas mundo) onde se pode trabalhar e ter dignidade.

O “vida-como-poderia-ser” se tornou fundamentalmente menos importante. Era dignidade que estava envolvida nessa tomada de consciência. De certo, como foi permeado o cenário internacional a partir dali, o que se propunha era uma sincronia entre liberdade e dignidade. E não necessariamente uma liberdade simplesmente geográfia (de ir e vir); propunha-se uma liberdade multidirecional. Uma multiplicidade cúmplice do que chamamos de pós-modernidade. Como eu vi esses dias, vivemos muitas eras. O comunismo de estado aos moldes soviéticos ainda existe parcialmente. Pelo menos do séc. XVI até o XXI coexistem quase pacificamente numa estranha e paradoxal colagem. A era moderna engendrou isso: muros, compartimentalizações.

Estamos não apenas no escopo da História e das sociedades, culturas e civilizações. O individualismo/gregarismo ideológico tão característicos da modernidade tardia foi a concretização do projeto cartesiano de mundo: cada coisa em seu lugar. O muro era isso também. Não era apenas a expressão (des)agregadora dos pólos, era também a expressão de uma forma de entender o mundo excitada ao máximo pelos dois lados.

De todas as fotos da queda do muro, a mais interessante é mesmo das pessoas sobre o muro. Sentadas, sorrindo, dando marretadas, não importa, todas parecem exprimir o desejo de estar em cima do muro, de estar entre.

Nietzsche pode também aparecer aqui com sua metáfora: o homem é uma corda bamba estendida entre o abismo da animalidade bestial e o platô (Platão) da sobrenatureza. Não é a vida-como-a-conhecemos nem muito menos a vida-como-poderia-ser: é simplesmente vida. Não é acidental a arqueologia dos nossos tempos que marca os anos 1990 como início de um processo fundamental de modificação acelerada do mundo. O muro imperou durante algumas décadas; o positivismo durante séculos (no mínimo dois). E obviamente os processos, fenômenos e caracterizações do que chamamos de pós-modernidade começaram, incipientemente, ainda no séc. XIX.

Estar sobre o muro era prova de uma dignidade que depois de 11 de Setembro de 2001 começou a ter um diagnóstico crescentemente distinto. Estar sobre o muro era estar no mundo, estar ali, mas era, mais que isso, a verdadeira sensação de religação ética; era a religação ética, não com o partido ou com a liberdade de comprar e vender, mas com a espécie – já que só podemos falar em dignidade, a essa altura do campeonato, em termos de espécie.

O sonho capitalista e a fantasia marxista (em seus termos como aplicados socialmente) queria a mesma coisa, queriam o que todos nós queremos mesmo (ou pelo menos deveríamos querer): conseguir construir um mundo melhor através do trabalho. No mundo capitalista queria-se emprego. Quantas vezes se gastaram as massas na América industrializada no discurso dos salários, de apoiar seu país comprando produtos. A entrega do consumo parecia (e talvez seja mesmo) mais libertária: os governos, os partidos, poeticamente falando, as mentiras, continuariam a existir. A opressão em todas as suas formas (ultimamente andamos vendo ela até em sua forma mais drástica, a censura) continuaria existindo. E a despeito da realidade (como nossos meios de percepção e imaginário articulam o Real) o que se ousou é algo que ando percebendo ser mesmo uma das grandes características da era em que vivemos: a travessia da fantasia.

Devo isso aos colegas do grupo de pesquisa (thnx guys and gals) e ao Slavoj Zizek e suas demonstrações muito bem sucedidas da psicanálise lacaniana.

O que se ousou foi tomar as armas e seguir através da fantasia que era o muro.

Remember, remember the 5th of November

Publicado em despise for humans por pedro em 11/05/2009

“Remember, remember the 5th of November. The gunpowder, treason, and plot. I know of no reason why the gunpowder treason should ever be forgot”


“Good evening, London. Allow me first to apologize for this interruption. I do, like many of you, appreciate the comforts of every day routine- the security of the familiar, the tranquility of repetition. I enjoy them as much as any bloke. But in the spirit of commemoration, thereby those important events of the past usually associated with someone’s death or the end of some awful bloody struggle, a celebration of a nice holiday, I thought we could mark this November the 5th, a day that is sadly no longer remembered, by taking some time out of our daily lives to sit down and have a little chat. There are of course those who do not want us to speak. I suspect even now, orders are being shouted into telephones, and men with guns will soon be on their way. Why? Because while the truncheon may be used in lieu of conversation, words will always retain their power. Words offer the means to meaning, and for those who will listen, the enunciation of truth. And the truth is, there is something terribly wrong with this country, isn’t there? Cruelty and injustice, intolerance and oppression. And where once you had the freedom to object, to think and speak as you saw fit, you now have censors and systems of surveillance coercing your conformity and soliciting your submission. How did this happen? Who’s to blame? Well certainly there are those more responsible than others, and they will be held accountable, but again truth be told, if you’re looking for the guilty, you need only look into a mirror. I know why you did it. I know you were afraid. Who wouldn’t be? War, terror, disease. There were a myriad of problems which conspired to corrupt your reason and rob you of your common sense. Fear got the best of you, and in your panic you turned to the now high chancellor, Adam Sutler. He promised you order, he promised you peace, and all he demanded in return was your silent, obedient consent. Last night I sought to end that silence. Last night I destroyed the Old Bailey, to remind this country of what it has forgotten. More than four hundred years ago a great citizen wished to embed the fifth of November forever in our memory. His hope was to remind the world that fairness, justice, and freedom are more than words, they are perspectives. So if you’ve seen nothing, if the crimes of this government remain unknown to you then I would suggest you allow the fifth of November to pass unmarked. But if you see what I see, if you feel as I feel, and if you would seek as I seek, then I ask you to stand beside me one year from tonight, outside the gates of Parliament, and together we shall give them a fifth of November that shall never, ever be forgot”

É preciso hoje, mais do que nunca, lembrar em todas as suas instâncias o que foi o cinco de novembro. Não apenas em Fawkes, não apenas pela menção no que eu considero uma das três melhores histórias em quadrinhos (graphic novel) de todos os tempos; é preciso lembrar que essa data foi marcada, em toda a história pela luta contra a opressão, contra a mentira e a dominação. Susan B. Anthony, Fawkes, Obama, entre tantos outros, estão inextrincavelmente ligados por essa data, ligados pela realidade do que essa data deve fazer-nos lembrar. Devemos lembrar do homem, da emancipação de tudo aquilo que pretende absolutizar a vida. Devemos lembrar de quão pesados são os grilhos da estupidez e ignorância e usar esse peso para fazer valer a verdade e a justiça. SIM! Ainda há verdade e justiça nesse mundo fluído e mutante. Há a verdade (como ontem no SICom09 na PUC também lembrou André Lemos) e essa verdade é a verdade custosa do custo. Do custo humano que os delírios e ideologias tiveram, do custo humano que o pretenso fim desses delírios e ideologias também tiveram (e ainda terão).

Numa nota pessoal, em uníssono com a fala do Lemos de ontem, proponho que esse Cinco de Novembro seja, em especial, uma homenagem a África e um lembrete de que as ideologias passantes nestes fluxos pós-modernos que nos falam da inutilidade latente daquele continente esquecem de mencionar que o custo do mundo ocidental foi o estupro de tantos, mas tantos povos.

Nesse Cinco de Novembro, lembremos.

Who are you?
Who? Who is but the form following the function of what and what I am is a man in a mask.
Well I can see that.
Of course you can. I’m not questioning your powers of observation I’m merely remarking upon the paradox of asking a masked man who he is.
Oh. Right.
But on this most auspicious of nights, permit me then, in lieu of the more commonplace sobriquet, to suggest the character of this dramatis persona.
Voilà! In view, a humble vaudevillian veteran, cast vicariously as both victim and villain by the vicissitudes of Fate. This visage, no mere veneer of vanity, is a vestige of the vox populi, now vacant, vanished. However, this valorous visitation of a by-gone vexation, stands vivified and has vowed to vanquish these venal and virulent vermin van-guarding vice and vouchsafing the violently vicious and voracious violation of volition.

The only verdict is vengeance; a vendetta, held as a votive, not in vain, for the value and veracity of such shall one day vindicate the vigilant and the virtuous.

Verily, this vichyssoise of verbiage veers most verbose, so let me simply add that it’s my very good honor to meet you and you may call me V.
Are you like a crazy person?
I am quite sure they will say so. But to whom, might I ask, am I speaking with?
I’m Evey.
Evey? E-V. Of course you are.
What does that mean?
It means that I, like God, do not play with dice and I don’t believe in coincidences.

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SICom09 (parcial)

Publicado em despise for humans por pedro em 11/04/2009

Só deu Dasein nesse Seminário Internacional.

Depois que acabar faço um post decente.