PLC 89/03 - parte 2

3 Julho, 2008 at 4:40 pm (despise for humans) (, , , , )

Façamos algo gente. Aqui vai, tirado do blog do André Lemos, mais uma parte do texto rídiculo dessa lei:

como diz o projeto de lei é crime “obter ou transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular, quando exigida”

Esta lei é absurda e ofenda as liberdades constitucionais de todos os brasileiros.

Como o próprio André disse: se essa lei - essa citada ai anteriormente - passar, então cancelem suas assinaturas de Virtua, Brasil Telecon e Speed pq a Internet vai acabar. Todos os browsers executam o crime explicitado nessa lei automaticamente. As universidades fazem isso. É absurdo.

Aqui deixo os endereços de e-mail dos nossos “queridos” senadores gaúchos e peço que enviem massivamente e-mails para eles requerendo sua participação na derrocada desse absurdo.

paulopaim@senador.gov.br - PAULO PAIM/PT

simon@senador.gov.br - PEDRO SIMON/PMDB

zambiasi@senador.gov.br - SERGIO ZAMBIASI/PTB

E remeto vocês para o meu fotolog para mais informações:

www.fotolog.com/oxyghene

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PLC 89/03

2 Julho, 2008 at 6:24 pm (despise for humans) (, , , , )

Tá.

Na esteira da politicagem rídicula que se tornou esse país mais um velhaco bicha quer avacalhar as pouquíssimas coisas legais desse planeta.

Então que geniais nerds inventam a Internet pra um Senador CAGADO DE CADEIRA, UM VELHOTE DE MERDA, re-inventar a ditadura “internet style”

PCL 89/03:

Enquanto vários prefeitos estão abrindo o sinal de Internet wireless para sua população, a Comissão de Constituição e justiça do Senado aprova o PLC 89/2003 que responsabiliza o provedor de acesso por alguma
ação ilegal que parta da sua rede. Também torna a “delação” uma obrigação do provedor. O resultado será um estado de vigilantismo. A consequência será incentivar redes cada vez mais fechadas, sem possibilidades de uso de P2P (bem ao gosto das operadoras e da MPAA e da RIAA), de implementar projetos como seti@home, de usar tecnologias novas.

Por que? Porque o provedor terá a obrigação de notificar as autoridades competentes (leia: polícia) que um pacote de dados é suspeito. O problema é como o provedor irá identificar, por exemplo, se uma pessoa que está usando uma aplicação BitTorrent estará ou não realizando um ato ilegal (baixando um filme protegido por copyright). É provável que se escolha entre dois caminhos: invadir a privacidade e olhar os pacotes baixados ou simplesmente proibir o uso do Torrent para evitar um processo posterior. Um terceiro caminho (mais absurdo ainda!) é inundar a polícia com listas semanais de usuários do provedor que acessaram redes P2P.

(tirado do blog do Sergio Amadeu)

Eu particularmente sou sempre um abolicionista de todas as formas de controle. Cresci ouvindo punk rock COPIADO EM FITAS K7, virei pós-adolescente na época dos CDs (um tubo de 100 cds por 50 reais) e já copiei centenas de discos, desde Sigur Rós (que o pai do Gustavo, meu amigão, trouxe dos EUA), Placebo, Radiohead, todos os do Led e do Black Sabbath. Participei como usuário da revolução do Napster e do alvorecer das bandas divulgando suas músicas na Internet (inclusive disponibilizando as músicas da minha finada e querida banda, a California Black, no site da TramaVirtual). Participei, sem nem saber, do que era o início da Web 2.0, sendo uma das primeiras pessoas no meu círculo de amizades e conhecidos a ser convidado pra entrar no Orkut (lembram quando só entrava com convite?). Tenho FotoLog desde 2004, conta no Hotmail desde 96 (quando surgiu e tinha 2 Mb de espaço). E eu não sou diferente de tantos outros caras e meninas de 25 ou 26 anos, que viram Kurt estourar os miolos, Freddie Mercury e Cazuza morrerem de Aids quando ainda éramos jovens de mais pra entender aquilo direito. Quanta bosta a minha geração não engoliu forçosamente “porque era a única coisa que tinha”.

Excelentíssimo Senado Azeredo, vá prender espancador nordestino de esposa, vá prender Yeda, Busatto e toda essa corja que manda no Bovinão. Vá forçar o Google e os servidores a te entregar material sobre pedofilia, sobre as gangues, sobre terrorismo. Deixe-nos com nossos downloads e redes sociais em paz.

INÉPCIA é a palavra de ordem. Antes de legislar sobre as batatas, coma batatas.

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Apoio Incondicional

2 Julho, 2008 at 5:36 pm (despise for humans) (, , , , )

A Internet tem o fato estranho de que a gente se sente próximo (e até amigo) de umas pessoas com quem a gente verdadeiramente nem conversou. Minha avó tinha isso com a TV.

Neste post eu gostaria de extender meu total e completo apoio aos caras da NovaCorja.org nesta rídicula situação pela qual eles estão passando de ter um de seus integrantes processado por um jornalista rídiculo que nem vale a menção.

Apoio que se calca no fato deles serem honestos, gozadores, irônicos, nem um pouco preocupados com publicidades e afins. Meu apoio é cimentado no respeito que eu tenho por eles como leitor assíduo de seu blog, de seus posts. Conheço pessoas que os conheço e mesmo sem os conhecer pessoalmente os admiro em muito pelo grande serviço que fazem: EVIDENCIAR O RÍDICULO QUE O MUNDO DA POLÍTICA SE TORNOU, principalmente aqui no Bovinão (como eles dizem). Como os comentários e posts anunciam, é pura demência.

Demência desse “senhor” em sua loucura transviada de pessoa ignorante que parece desconhecer as novas regras do jogo: “there are no rules“. Crime é o que essa consignação de poderes faz com o estado há mais de 40 anos. Criminoso em cima de criminoso. Todos convenientemente protegidos por seus próprios poderes. Entretanto adentramos - em termos - uma nova era de democratização do pensamento, do conhecimento, da ciência e da palavra. A Internet tem isso. Permite-nos abrirmos nossas bocas sobre qualquer coisa, mesmo que seja mentira.

Vale conferir a entrevista desse “senhor”.

E fica aquela coisa que nossas mães costumavam dizer: se fosse tão inocente quanto diz que é não tava fazendo tanto alarde.

E fica aquilo que meus professores de jornalismo cansam de tentar esconder: foda-se a verdade, eu quero é audiência, pageviews, dim-dim.

Fica também, talvez, uma lição tirada do nosso Andrew Keen (que hoje eu apresentei no, infelizmente, último dia de aula da ótima disciplina do Alex Primo lá na UFRGS) do qual falávamos em posts anteriores:  a Internet é realmente permissiva. Ela permite a calúnia, a difamação, de maneira praticamente incorrigível, entretanto, ela também permite a liberdade de pensamento, de imprensa. Não é só quem tá nas garras de conglomerados de corrupção e mídia que tem a voz. Qualquer cara, com força de vontade e tempo pra escrever, pode colocar no ar um blog que nem o dos rapazes e realmente chegar ao ponto de incomodar verdadeiramente uma pessoa de destaque.

Entretanto ainda permance a sombra daquela coisa mcluhaniana: estendemo-nos eletronicamente e neste ato levamos e estendemos nossas próprias idiossincrasias. Nossas características mais próprias são transmutadas todos os dias em bits e bytes e giram o mundo para se encontrarem com seu espelho. E enquanto quem tem bilhões multiplica seus centavos, a maior parte da população permanece na inércia econômica e, principalmente, de mentalidade. Parece clichê, mas é muito fácil mudar. Seguindo o conselho de um dos meus queridos mestres, Lucien Sfez, “só precisa destruir tudo que tá aí agora. Não adianta plantar alface em cima de cenoura”.

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Chinese DemoCRAZY* - Ten Years

29 Junho, 2008 at 6:07 pm (despise for humans) (, , , )

Então não é que depois de 10 anos de espera informal - e seis anos de atrasos - nosso querido e já tão passado Axl Rosa lança seu tão caro Chinese Democracy.

Baixei e agora enquanto vos falo estou escutando este pecado da música.

13 milhões de dólares pra fazer um disco de hard rock. Only in America…

Como era, claro, de se esperar o disco é uma verdadeira verborragia do post-poser. As guitarras são tão distorcidas que mal se consegue ouvir os ganidos do Sr. Rosa - que aliás está no pior de sua forma. Músicas totalmente inexpressivas, emulando tristemente um mundo que morreu faz tanto, tanto, tanto tempo…

Uma música que pode até ser considerada como somente lipossolúvel. Aquela energia toda do Guns ou era oriunda de seus outros integrantes ou simplesmente se afogou nos McLanches e sorvetes que o Sr. Rosa certamente anda comendo industrialmente. Mesmo com a participação do guitarrista do Queen o disco é no mínimo desimportante. De forma alguma reflete um classicismo em termos de Rock. Tenta ser bonito, entretanto os riffs de guitarra são “tardios” e, na falta de uma melhor expressão, realmente inexpressivos. Solos sem graça (que remontam até as nossas conterrâneas e falhas bandinhas de hard rock).

O disco fica bem como lápide. Lápide de uma era MTV que se deteriorou na velocidade do consumo das essências: as coisas perdem seu sentido rapidamente hoje em dia, e coisas sem sentido, estranhamente, não ganham novos sentidos. Ironicamente há uma música chamada “There Was a Time”, com um solo de quase três minutos daqueles que não se consegue entender nem ao menos uma nota. Eco profundo da deterioração de uma geração de calças tão apertadas que torcemos para uma não-reprodução. Remontando um ‘modernismo blues’, as faixas são todas iguais. Indago-me como demorou tanto tempo pra lançar um disco que parece ser só ganidos e solos indecifráveis de guitarristas verborrágicos: duas características do Rock que prefiro deixar para Black Sabbath, Led e Queen; eles faziam (e nos Ipods ao redor do mundo) e ainda fazem.

Sr. Rosa, por favor… aposente-se. Contente-se com o fatídico esquecimento reservado a todos os medíocres que tiveram a sorte de enriquecer vertiginosamente durante a década de 90. Até o Bill Gates já pendurou as chuteiras, ou seja, acabou-se a era dos usurpadores. A era da tragédia MTV terminou com uma imensa explosão chamada INTERNET.

* Esta brincadeira é na verdade o suposto nome que o Offspring colocaria em um de seus discos recentes, gozando dos múltiplos atrasos do disco do sr. Rosa.

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RadioReggae

27 Junho, 2008 at 6:21 pm (despise for humans) (, , )

Há alguns anos alguém chegou pra mim e disse: “Cara, procura o disco OK Computer do Radiohead em versão Reggae”. Eu pensei: “Quê?” - com ares do mais profundo espanto. Era real. Pensava que aquilo seria totalmente improvável. Este disco, OK Computer, de 1997, foi considerado por muitos como o melhor trabalho de rock dos anos 90, eclipsando bandas como Nirvana, REM, entre tantas outras e eu pessoalmente o considero um dos grandes discos de todos os tempos. Tá, fui e lá e baixei o tal Radiodread. A pessoa que me indicara o disco tinha escutado apenas algumas faixas (se não me engano só uma ou duas músicas) e não teve muito a me dizer a não ser “era diferente”. Prontifiquei-me a ouví-lo por inteiro, gravei até num CD pra por no carro.

Para meu ainda maior espanto deparei-me com pura qualidade.

Em momentos, nem se percebe que é o disco do Radiohead e algumas músicas - uma delas sendo com certeza Let Down, a faixa 5 - são simplesmente geniais, talvez até melhor que a do Radiohead (marco aqui que a composição dessa obra prima é dos rapazes do Radiohead). Na verdade, parece até que a versão reggae é a versão original. Tudo muito bem arranjado. Fica realmente genial.

O nome deste agrupamento criativo é Easy Star All-Stars. Sua versão do disco do Radiohead é faixa a faixa e como o editor do seu perfil na Wikipedia aponta, denota uma coisa bem diferente que talvez identifique melhor a existência, pelo menos conceitual de uma nova lógica - que alguns chamam, na minha opinião erroneamente, de pós-moderna. Uma mentalidade de multiplicidade. E não só aquela ‘humanista’, mas artística; a transmutação da obra do Radiohead é fantástica. Conheço gente que não gosta de reggae e gosta desse trabalho e gente que não gosta de Radiohead e gosta desse trabalho.É fascinante. Princípio, segundo uns e outros, do que seria a utilização da Internet hoje em dia. As músicas são em versão reggae, dub e ska, e seus artistas e formações se alteram (em horas com naipes de metal fazendo os solos que pertenciam à guitarras cheias de efeitos), o que deixa cada música com uma cara toda especial. Não parece que é o mesmo artista de reggae, ska ou dub tocando todas as músicas. Parecem que são cinco ou seis artistas fazendo versões de músicas determinadas.

É muito bom. Eles, anteriormente, tinha feito uma versão reggae, dub, ska como essa do Radiohead com o Dark Side of The Moon do Pink Floyd. Apesar de legal, não chega nem perto dessa versão com o Ok Computer. É assustador.

E muito bom. Recomendo.

Faixas:

RadioDread
1. Airbag (featuring Horace Andy)

2. Paranoid Android (featuring Kirsty Rock)

3. Subterranean Homesick Alien (featuring Junior Jazz)

4. Exit Music (For A Film) (featuring Sugar Minott)

5. Let Down (featuring Toots & The Maytals)

6. Karma Police (featuring Citizen Cope)

7. Fitter Happier (featuring Menny More)

8. Electioneering (featuring Morgan Heritage)

9. Climbing Up The Walls (featuring Tamar-kali)

10. No Surprises (featuring The Meditations)

11. Lucky (featuring Frankie Paul)

12. The Tourist (featuring Israel Vibration - Skelly Vibe)

13. Exit Music (For A Dub)

14. An Airbag Saved My Dub

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Daft Internet

22 Junho, 2008 at 11:14 pm (despise for humans) (, , , , , , )

Retomando um pouco o que o falávamos referente ao Andrew Keen e o tal “Culto do Amador”.

O Daft Punk - que no bom português pode ser “desimportância sem sentido”, mas é claro se trata de uma boa gargalhada em cima do termo daft (que seria, formalmente, ’sem sentido’) e o estilo musical dos anos 70 -, talvez por serem um dos mais interessantes e criativos grupos de música eletrônica (na verdade dupla) desde o Kraftwerk (já ouvi muita gente chamando o Daft Punk de novo Kraftwerk ou herdeiros do Kraftwerk - concordo mais com a segunda) - se encontrou muito bem com os novos meios digitais. Seja por disponibilizarem suas músicas (e até um dos seus álbuns inteiros) na rede gratuitamente (muito antes do Arctic Monkeys e do Radiohead), seja por causarem uma certa revolução imagética, principalmente no YouTube.

Falo sobre isso porque (vi no blog da Gisele) o Weezer está lançando o seu primeiro clipe do “Álbum Vermelho” - seu mais novo disco, lançado há poucas semanas - e o clipe é uma coleção de menções à vídeos famosos no YouTube (para ver os 24 vídeos citados no clipe vá aqui em valleywag.com). Entretanto, desses 24 vídeos, dois são na verdade inteligentes brincadeiras com os jogos de palavras que o Daft Punk costumeiramente faz em suas músicas (como em Technologic, Harder, Better, Faster, Stronger e Around the World). Um desses clipes, feito por duas meninas usando “capacetes” de papel alúminio (uma barata imitação das roupas usadas no clipe de Around the World) tenta recriar através do movimento de seus corpos as brincadeiras com as palavras de Harder, Better, Faster, Stronger.

Então percebe-se algo que Keen parece realmente não perceber: o mainstream, os meios antigos, não só contribuem para esses novos meios como de certa forma - ênfase nesse ‘certa forma’ - até trabalham realmente como gatekeepers, dando espécie de matéria-prima para o trabalho do amador. O vídeo esse das meninas (que segue embed no fim deste post) é simplesmente demais. Além do fato delas serem bonitinhas de corpo (seus rostos não aparecem), elas fazem a sincronia com as palavras ditas na música e seus corpos (que tem em suas coxas, ombros, braços e torso escrito as palavras da música) de forma bem engraçada e divertida.

Por outro lado (como mencionado no post anterior) o Sigur Rós lançou seu clipe de Gobbledibook e ao disponibizá-lo no YouTube encontrou a restrição de idade.

Enquanto os amadores fazem o que querem na Internet (nota especial para as centenas de sites de pornografia amadora que se acha na internet facilmente questionando o Google com palavra como “amateur” e “free porn”) os MainStream tão queridos de Keen são cada vez mais barrados. É fácil fazer um clipe com pessoas correndo nuas quando ninguém nunca ouviu falar do teu site, da tua produtora, da tua banda, etc.

O ponto central para Keen parece ser além: se temos esses meios, deveríamos ter algo à dizer; e não temos. O clipe das meninas é uma pura replicação, enquanto que liberdade de conteúdo da Internet, usada ao extremo pelos rapazes islandeses do Sigur Rós não encontra o eco dessa liberdade digital. O que se vê - pelo menos em maior grau - são realmente replicações. Talvez Ridley Scott estivesse certo e o futuro é de espaço-naves solitárias e replicantes. Replicar uma idéia em videozinhos engraçados até o infinito parece ser o motto de uma geração engasgada com sexualidade pugente e que abraça um moralismo manco.

O clipe do Sigur Rós (que linkei novamente neste post) é lindo; como todos os do Sigur Rós. E, ao contrário de mulheres insidiosas e homens ’sarados’ (abomino esse termo), mostra pessoas de verdade vivendo numa comunidade quase “Sociedade Alternativa”, todos nus, em volta de fogueiras, brincando, como se fosse a infância da humanidade novamente. Parece um pouco brega, mas na verdade, pelo menos pra mim, é um insight para essas questões digitais: estamos mais próximos do que nunca mas na verdade vemos cada vez menos do outro. O que era os ‘bons costumes’ agora são representações eletrônicas enviadas à velocidade da luz para qualquer canto do mundo.

E pergunto novamente: é uma vida mediada ou por procuração?

A simplicidade podia ser o motto. Talvez se nos entregassemos mais…

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Com um zunido nos ouvidos nós tocamos eternamente…

21 Junho, 2008 at 5:45 pm (despise for humans) (, , , )

Pois então que depois de longa espera (pelo menos pra mim) chega o disco novo do Sigur Rós.

Með suð í eyrum við spilum endalaust, ou, em bom inglês with a buzz in our ears we play endlessly, chega às lojas ao redor do mundo na segunda-feira, dia 23. Porém a versão digital (para download no site dos caras) já está disponível desde ontem, dia 20. Pela caridosa mão de algum cara que, ou é mais fã do que eu ou simplesmente tem mais dinheiro (ou pelo menos uma bosta de um cartão de crédito, porque nem isso eu tenho) colocou o disco no mininova.org (que quiser é esse o link) eu, hoje pela manhã, insone, acordo para descobrí-lo ali, só me esperando. Já baixei e já ouvi umas três vezes (coloquei no celular e fui almoçar ouvindo o disco).

O disco é, como anunciado, bem diferente dos anteriores. Claro que se mantém no estilo Sigur Rós de fazer música: uma forma de composição um tanto quanto etérea e, para mim pelo menos, verdadeiramente imaterial.

A primeira música (que tinha sido disponilizada previamente ao lançamento do disco) já mostra isso de maneira muito clara. O som está um tanto quanto ainda mais élfico, mas de um modo como se fosse uma festa.

Aqui coloco a lista das músicas:

1. Gobbledigook
2. Inní mér syngur vitleysingur
3. Góðan daginn
4. Við spilum endalaust
5. Festival
6. Með suð í eyrum
7. Ára bátur
8. Illgresi
9. Fljótavík
10. Straumnes

11. All Alright

O disco é bem diferente. Realmente diferente. A seqüência entre a primeira e a segunda música do disco já mostram isso. E a terceira música mostra a conhecida faceta um tanto mágica do Sigur Rós mas de uma maneira bem diferenciada; cheia de nuances e com vocais lindos. Porém, as críticas prévias anunciavam um disco com sonoridades mais alegres. Discordo. O disco é 50/50. Metade é realmente mais alegre, como se fossem músicas conduzindo uma multidão para a felicidade, entretanto a segunda metade - a parte final do disco especialmente - é realmente triste, bem ao estilo Sigur Rós.

Não vou me extender muito porque sou suspeito pra ficar falando. Achei o disco ótimo e ele, estranhamente como os outros discos do Sigur Rós, me encontra numa fase com a qual ele parece combinar perfeitamente. Minha vida está também 50/50 quanto a felicidade e tragédia. Na verdade, agora 51/49 pra felicidade. Vou ouvir esse disco até gastar.

Obrigado, Islândia.

E tá aí o vídeo de Gobbledigook, que foi foda pra encontrar, mesmo no Youtube pq tem cenas de homens primitivos e nudez explícita.

GOBBLEDIGOOK

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My Screen Name is Ubiquity

20 Junho, 2008 at 9:57 pm (despise for humans) (, , , , , )

Estou lendo artigos e matérias sobre e do autor Andrew Keen para um trabalho para a cadeira do Alex Primo.

Ele clama que a Internet estaria destruindo nossa cultura, principalmente a chamada Web 2.0 por destruir o conceito de gatekeeping (que seriam os guardiões do conteúdo; as pessoas - editores, produtores musicais, companhias de transmissão que decidem o que “vai ao ar” e o que fica na gaveta) e, permitindo que todos sejam produtores (user produced content), na verdade não haveria mais autoridade ou credibilidade nas informações. Tudo se tornaria, essencialmente, miscelânea.

O contraste com meu post anterior: há 44 anos atrás Marshall McLuhan temia o fim do mundo escrito, enquanto que Keen teme que nos afoguemos na infinitude da página digital.

Vou ao meu ponto: antes mesmo da Internet (eu me lembro, lá nos meus 11, 12 anos) a mídia, as formas literárias e artísticas, todas (ao mesmo tempo) anteviam um caótico mundo futuro e um presente afogado em miséria, violência, perversão. Como dito antes, faz quase meio século do estudo de McLuhan, entretanto a noção ainda permanece: os meios (tecnológicos de todos tipos) são, de fato, extensões da humanidade.

Keen parece ser um dos poucos pensadores que, deixando de lado sua louca apologia aos meios tradicionais (louca por ser descontextual: não dá pra desinventar a Internet e seu impacto na sociedade; materialidade histórica, né?), parece realmente (ênfase nesse REALMENTE) perceber que junto para o ‘ciberespaço’ de W. Gibson carregamos nossas inequações. Porém mesmo percebendo isso, ele parece não entender.

Muito de seu livro preocupa-se com o tal “Culto ao Amador”, que parece ser o motto da Web 2.0. Este “Culto” não seria nada mais do que a ubiqüidade de acesso e produção dentro dos novos espaços da Internet. Entretanto o autor caí facilmente no “Culto ao Editor”. Falha em perceber (se vocês tiverem saco de assistir a entrevista dele no Authors@Google de uma hora verão isso claramente) que assim como há uma confusão em relação aos limites entre conteúdo e publicidade dentro dos espaços Web 2.0, este nublado sobre as linhas também se estende até os meios clássicos (nenhum jornal vai denunciar seus anunciantes). Na televisão se vê isso (muito devido ao advento do TiVo e da programação acessível na Internet - seja ela em downloads ou streaming) de forma cada vez mais premente: na série de televisão House os aparelhos de escaneamento e análise médica mudaram repentinamente de marca, todos eles. Product placement agora não é mais publicidade? Os editores e produtores dos grandes meios fazem há anos (e isso no meu ver não é denúncia, mas afirmar uma obviedade) esse tipo de publicidade e relacionam seus produtos cultuais com produtos físicos: os tênis Nike e as múltiplas menções à Pepsi nos filmes De Volta para o Futuro, os mundos Ford, GM e Chrysler das séries de televisão (onde todos parecem dirigir modelos da mesma marca), os cigarros nos filmes preto-e-branco (Hitchcock vendeu câncer durante anos).

Ele menciona a credibilidade do MainStream por anomalias como os Beatles, Bob Dylan, entretanto, em entrevista no rádio, reconhece o sucesso de bandas como Arctic Monkeys, que só chegaram ao estrondoso sucesso porque pegaram as ferramentas de divulgação de música em suas próprias mãos. Em algumas entrevistas eles até falam que o interesse de grandes gravadoras só veio depois do reconhecimento dos fãs. Keen fala do talento; como este sistema não tem experts que possam reconhecer e “polir os talentos” (palavras dele mesmo na entrevista mencionada anteriormente para um rádio de São Francisco, Califórnia) quem vence na Internet são os experts em vendas e marketing. (Ensurdecedor barulho de frenagem) Peraí… alguns dos caras do Arctic Monkeys não tinham nem 20 anos quando estouraram: ficamos no impasse entre “será que eles realmente são não só muito bons como já estavam totalmente prontos pro sucesso” ou “com certeza, então, eles são os mais inatos ‘marketeiros’ de todos os tempos”.

A democratização das ferramentas é uma grande ilusão.

Obviamente a Internet não é democrática. Não ao pé da letra. A humanidade não é democrática, e como o próprio autor diz: “eu vejo a internet como um espelho da sociedade e não podemos cair numa espécie de narcisismo digital”; parece-me, em contrapartida, que é exatamente isso que ele faz. Caí numa Narcose (como Narciso) em relação a função de intermediação dos meios clássicos como asseguradora da visibilidade e manutenção dos talentos (remeto aos três posts sobre o Debord: 1, 2 e 3). Os gatekeepers tem a palavra keep no nome por uma razão bem clara: para reter, deter alguns de passarem pela porta. A Web 2.0 é obviamente falha, pois com os portões derrubados qualquer um pode entrar e como são portões imateriais, pode-se cruzá-los mais de uma vez com diversas identidades, percepções e objetivos. Abre-se o canal para que como por uma extensão elétrica o aparelho eletrônico receba energia de uma tomada mais distante do que seu pequeno braço de cobre encoberto por plástico e borracha possa alcançar; extende-se a humanidade até o reino de Gibson e com ela vão, logicamente, suas idiossincrasias já que não existem filtros (a não ser os autopoiéticos).

Novamente o contraste: o que McLuhan percebeu tão bem, Keen parece falhar em ver. A Internet, sendo o que ela se tornou, é essencialmente uma extensão da sociedade que a utiliza. A busca por anonimato e as perversões ali feitas são, ao meu ver, intrínsecas de um sistema que precede e a Internet e seu enclave ubíquo. Este mundo pré-existente credita e legitma formas de pensamento das mais variadas e com as mais diversas justificativas. Keen questiona Chris Anderson (autor de A Cauda Longa da Internet): diz que ele tem uma visão prometeíca das novas tecnologias. Anderson vê que qualquer tropeço (econômico e social) seria apenas um desafio para a eventual (e certa) libertação máxima através destes meios.

Não quero soar fáustico, mas não vejo dessa forma. A rede carrega consigo seus usuários, de forma que este braço mecânico (anônimo ou não) é criado por seres humanos, concordo quando Keen afiram que devemos lidar com as conseqüências destas tecnologias que criamos, entretanto não vejo que elas - assim como a técnica em geral - possam ser delimitadas como objetivo final. Em parte, nos definimos por seu uso, pois essas tecnologias (à lá McLuhan) com certeza absoluta são uma extensão de nossos sistemas nervosos (assim como nossa visão e audição contribuem prementemente para nossa formação identitária), entretanto também nos definimos por sensações, percepções, desejos, ligações e ideologias que são essencialmente exteriores à rede. Nossos olhos, ouvidos e mãos é que apreendem e modificam a rede, entretanto sempre de forma externa; ainda não há como entrar, materialmente, na Internet. Somos sujeitos à ela, e suas qualidades serão sempre, essencialmente, as qualidades externas que denotamos. Uma conotação absurda é pensar prometeicamente; não há salvação mágina, entretanto também não é (exagerando) o fim do mundo ou, como o subtítulo da obra de Keen diz, a morte da cultura. Cultura é sempre pré. Pré-condição, pré-existente; o que nasce é realmente uma nova cultura. Se ela é da descrença, da mentira, e do analfabetismo midiático não seria a primeira.

Em nossas vidas privadas e pessoais, mesmo fora do mundo de Gibson, percebemos a intrusão. As mentiras, boatos, inverdades, circulam por aí muito antes da Arpanet. A publicação de obras sérias e creditadas cheias de mentiras e inverdades (volto-me para um post passado sobre esse assunto no que toca a atualidade) acontece desde o primeiro livro já impresso, que caso vocês não saibam foi A Bíblia - Constantine Edition: legitimada há pelo menos mil e quinhentos anos como verdade absoluta da vida e da morte na esmagadora maior parte do mundo Ocidental e em considerável parte do Oriental e, senhor Keen, TOTALMENTE ANÔNIMA. Sabe-se lá se aquelas coisas realmente aconteceram, quem realmente escreveu aquilo. E vejamos bem: a Bíblia teve um dos mais icônicos gatekeepers de toda a história, um conselho de editorial regido por um Imperador Romano. A lenda, o mito, a mentira, the deception, poderia-se dizer, são condições da humanidade há muito mais de dez séculos. Constantino não deixaria nada na Bíblia que ofendesse, prejudicasse ou representasse mal o seu governo e suas idéias.

Talvez seja porque ando lendo muito Rüdiger (e suas idéias sobre um modo de pensar o mundo invadido pela máquina), Sfez (e sua visão certeira de que há uma migração dos relatos ficcionais utópicos para projetos reais utópicos) e McLuhan, mas minha visão, de repente, seja a mesma de alguém que está de fora: a Internet prolonga a vida offline; não há verdadeiramente nada novo, só a extensão imaterial de nossas qualidades externas. McLuhan achava que a escrita especializada desapareceria (e me corrijo aqui em relação ao post passado) e na verdade o que aconteceu é o oposto: a escrita se tornou essencialmente especializada. Meu blog, como em vários outros casos, é especializado (claro que em fazer posts gigantescos sobre devaneios filosóficos e idiotices). Tudo na Internet só procura a especialização. Há quem acredite que é o conteúdo que está de fato desaparecendo; entretanto é só o que se vê. Keen acha que são as linhas entre publicidade e conteúdo que estão desaparecendo. Talvez eu esteja sendo heideggeriano demais, mas temo que o que realmente está em fase de desaparecimento é o homem em si: a preocupação com o homem, o antrapocentrismo..

Teria McLuhan sido curto em sua tese? Estaríamos nós não só extendendo-nos nos meios como, de certa forma, deixando nossa apreensão numa estranha situação de “por procuração”? Estaríamos apreendendo um mundo digerido pela Internet ao invés que de um que ecoa pela Internet? Será que nossos processos de consciência estão “ao estilo da Internet” mais do que mediados por ela? O meio é a mensagem mas a mensagem parece ser cada vez menos uma interação ou mediação, uma troca cultural, e cada vez mais uma percepção, um processo de formação de consciência e de identificação.

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Semente McLuhaniana parte 2: Palavra Falada vs. Palavra Escita vs. Internet

19 Junho, 2008 at 6:41 pm (despise for humans) (, , , , , )

“Nossa nova tecnologia elétrica, que projeta sentidos e nervos num amplexo global, tem grandes implicações em relação ao futuro da linguagem. A tecnologia elétrica necessita tão pouco de palavras como o computador necessita de números. A eletricidade indica o caminho para a extensão do próprio processo de consciência, em escala mundial e sem qualquer verbalização. Um estado de consciência coletiva como este deve ter sido a condição do homem pré-verbal. A língua, como tecnologia de extensão humana, com seus conhecidos poderes de divisão e separação deve se haver configurado na torre de Babel pela qual os homens procuraram escalar os céus. Hoje os computadores parercem prometer os meios de se poder traduzir qualquer língua em qualquer outra, qualquer código em outro código - e instantaneamente. Em suma, o computador, pela tecnologia, anuncia o advento de uma condição pentecostal de compreensão e unidade universal. O próximo passo lógico seria, não mais traduzir, mas superar as línguas através de uma consciência cósmica geral, muito semelhante ao inconsciente coletivo sonhado por Bergson. A condição de ‘imponderabilidade’, que os biólogos tomam como promessa de imortalidade física, pode ser acompanhada pela condição de ‘infalibilidade’, que asseguraria a paz e a harmonia coletiva e perpétua”.

Herbert Marshall McLuhan, Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem (Understanding Media), 1964, p. 98 e 99.

Assim nosso já querido “Herbie” termina o capítulo introdutório da segunda parte de seu livro, chamado A Palavra Falada. Antes de mais tenho uma colocação.

- Eu, como ‘verde’ estudioso da temática do maquinismo vs. maquinismo invadindo coisas essencialmente não maquinística, tenho aqui um porém: “homem pré-verbal”. Existiria tal coisa? Há quem exagere e afirme com certezas filosóficas e históricas que o homem, per se, nasceu na Grécia Helênica. Eu, não sendo personagem de romance fantástico de H.G. Wells* nem sendo o Scott Bakula em Quantum Leap, não afirmaria nada com certeza sobre o passado (entrarei nesse ponto mais adiante). O Homem não é simplesmente o conjunto de nossos genomas nem nossas técnicas e conhecimentos. Somos seres únicos por nos comunicarmos a partir (e isso em todos os cantos do mundo antigo ou moderno) através de formas de linguagem. A idéia da palavra, conjunto de símbolos (afinal de contas não podemos esquecer da Libras e das muitas línguas de sinais para deficientes auditivos), gestos ou sons que, de maneira abstrata, definem a noção de nomenclatura; ou seja, a palavra (seja ela em que forma) define arbitrariamente uma coisa do mundo táctil e mental. Então afirmo que quando um dos ancestrais humanos desenvolveu essa capacidade - que suponho preceder em vários séculos o advento das línguas escritas - ele deixou de ser uma classe de antepassado humano para se tornar o ser-humano como concebemos e (mesmo que de maneira parcial) entendemos hoje.

Esse livro foi escrito 44 anos atrás. McLuhan ainda é tido como fonte de inspiração teórica e de visão de mundo para diversos pesquisadores, pensadores e até mesmo profissionais da área. Entretanto, ele morreu há 18 anos atrás. “Nossa nova tecnologia elétrica, que projeta sentidos e nervos num amplexo global, tem grandes implicações em relação ao futuro da linguagem. A tecnologia elétrica necessita tão pouco de palavras como o computador necessita de números.” De alguma forma esse grande pensador deixou de perceber que o cerne dos meios eletrônicos de extensão do homem (hoje um conjunto muito mais vasto incluindo telefonia móvel, telefones via satélite, transmissão de video, etc.), pelo menos até 1994, eram puramente orais. Na televisão as pessoas querem ouvir os comentadores, atores, no rádio e cinema a mesma coisa. O aspecto visual - na TV e no cinema - são claramente marcantes, mas desde o advento do cinema falado inexistem películas que não se utilizem de tal ferramenta (pelo amor de Deus! Até Chaplin se rendeu ao som). De certa forma, nos 100 e tantos anos do cinema e 50 e tantos anos da televisão, estas extensões (nisso concordo com “Herbie” profundamente) serviram até para reforçar, rearranjar e ilustrar os aspectos linguísticos de milhões de pessoas. Eu tenho 26 anos e tenho a convicção plena de que o aparelho de televisão serviu-me como grande mestre das palavras.

Marshall, estranhamente, teve um glimpse do futuro que seu corpo não lhe permitiu. Ele viu as pretenções prometeicas da tecnologia elétrica antes que ela atingisse seu verdadeiro apogeu. Heidegger, alguns anos antes, anunciava a sua “armação” como a tomada da lógica humana pela lógica da máquina, em marcha desde o séc. XVII. Os computadores pessoais - hoje mais do que nunca - unidos às diversas articulações do imaginário tecnológico replicadas pelos meios de produção cultural (filmes, tvs, etc.) prometem uma era de sublimação do ser humano; ligados todos os seres humanos estariam a nível mental. Nossos cérebros como interfaces de conexão direta; sem escrita, sem fala.

Mas Marshall viveu nos anos 60, repletos de uma negatividade fáustica em relação às tecnologias (quem é que poderia dizer que a TV, o cinema, as tele-comunicações não poderiam parir a nova bomba H?).

“Graças à sua ação de prolongar o nosso sistema nervoso central, a tecnologia elétrica parece favorecer a palavra falada, inclusiva e participante, e não a palavra escrita especializada. Nossos valores ocidentais, baseados na palavra escrita, têm sido consideravelmente afetados pelos meios elétricos, tais como o telefone, o rádio e a televisão”.

Herbert Marshall McLuhan, Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem (Understanding Media), 1964, p. 100 e 101

“Herbie” não pôde ver a Internet. E peca ao não antecipá-la no início (citação à cima) do segundo capítulo da segunda parte de sua grande obra, chamado A Palavra Escrita. A Internet, uma rede de informação, comunicação e - me arrisco a dizer - interação que só agora começa a disponibilizar serviços ligados ao som e, mesmo assim, sem perder seu cárater amplamente gráfico (Skype seria o melhor exemplo, contrastado com o uso diário por milhões de pessoas do MSN). Tudo é escrito. Li há alguns meses um artigo numa revista norte-americana (acho até que era na Wired) afirmando que os ocidentais nunca, em toda a história do Ocidente, leram tanto. Claro que não livros (ficcionais ou não), mas sim Internet. Tudo que se faz na Internet requer a alfabetização. Na verdade, requer o alfabeto. Invenção muito querida por McLuhan e por mim; o autor a define como sendo o vernáculo de todas as tecnologias e possibilidades tecnológicas. Eu concordo. “O alfabeto significou poder, a autoridade e o controle das estruturas militares à distância” (Idem) fala Marshall quando se referindo ao mito de Cadmo (legendário rei grego que teria fundado o alfabeto a partir de dentes de um dragão, que quando semeados germinaram um exército de homens armados). E o alfabeto - e o alfabetismo mais ainda - são realmente libertários e permissivos, mesmo quando estamos falando de alfabetos não-fonéticos (ou como McLuhan chama, visuais ou pictóricos). Entretanto a análise de McLuhan me parece um tanto falha visto os dados arqueológicos que estão sendo encontrados nas ruínas de civilizações como a egípcia. Ele clama que a alfabetização das populações e o papiro teria causado transferências de poder, entretanto em um documentário do Discovery Channel bem recente, historiadores, egiptólogos e arqueólogos chegaram a espantosa constatação de que os chamados escribas da antiguidade seriam alfabetizados oficiais; a população normal, como construtores de pirâmides, agricultores e artesões teriam domínio sobre os hieróglifos simplicados e trocariam mensagens de cunho pessoal por lascas de pedra-calcários.

O alfabeto fonético - mais do que a fibra óptica, mais do que programadores e capacidade de armazenamento de daods - foi o que, de fato, permitiu a Internet. E nada fáustico se deu: a palavra escrita, apesar de não ter se especializado (como parecia querer McLuhan) e, na verdade, ter se tornado, como com os trabalhos egípcios, simplificada (”thanx“, “See U“, “Pq”), continua viva, forte (a Blogosfera como exemplo lancinante disso) e correndo o mundo com mais velocidade e peso do que a palavra falada jamais fez no rádio e na televisão.

Minha conclusão: o mundo é construído pela palavra. A palavra é, essencialmente, a característica humana. Os meios tecnológicos são sim extensões, como diz “Herbie”, e o são extendendo todas as características de nossa existência - nosso córtex pré-frontal e frontal com um certo destaque. Todas ela: as boas, as ruins. Os dentes do dragão construiram, a priori, um exército armado (físico e tangível). hoje, ele é fantasmático e ideológico: procura nossa redenção - seja ela por nosso extermínio fáustico nas mãos de um poder que na verdade só nos causa narcose e nada mais, seja pela pira prometeíca de conseguirmos nos aperfeiçoar até não podermos mais nos reconhecer.

* Ironicamente, H. G. Wells se chama Herbert George Wells e em 1911, quando McLuhan nascia em Edmonton, ele publicava em Londres seu livro The New Machiavelli (aí tem o livro em .txt no Project Gutenberg).

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Tecnologia Longe da Perfeição

18 Junho, 2008 at 6:33 pm (despise for humans) (, , , , )

Há mais ou menos 12 anos, quando a Internet chegou mesmo no Brasil e em outros países, ela logo foi maculada (e de forma premente) por sua faliabilidade técnica. Claro que estas falhas eram originárias de uma tecnologia que não estava preparada para o advento da troca de dados (que afinal de conta é, per se, o que a Internet realmente é: indiferentemente dos conteúdos, a rede mundial de computadores consiste em impulsos eletrônicos sendo trocados, replicados). Uma conexão de 128 kbytes/sec era luxo. Imagine hoje, 12 ou 13 anos depois, vou uploader esse texto com uma conexão banda larga de 2 Mb. E este tipo de conexão, em alguns países, como o Japão, é considerado ultrapassado.

Entretanto a conexão não era o único problema. Mesmo com nossas conexões discadas íamos e tentávamos nos conectar (dessa vez, a princípio a segunda). ICQ, mIRC, ah! os primeiros. Lembra como era? A conexão já era ruim, e os servidores de mIRCs, ICQs e mesmo de sites que começavam a ganhar a denominação de portais simplesmente caiam por dias. Eu me lembro do inverno de 1998, mais ou menos essa época, e um amigo ficou de me mandar uma coisa por e-mail. Ele, de fato, enviou, entretanto meu e-mail do Hotmail estava completa e irremediavelmente fora do ar. E assim permaneceu durante vários e vários dias.

Quando apareceram as primeiras mp3 - e pela falta de informação e ação dos sistemas legisladores - haviam dezenas de sites dos quais se podia baixá-las diretamente. Claro que só uma por vez (coisa que às vezes demorava mais do que aquelas horas que se passava conectado. na verdade, geralmente para baixar 4 ou 5 Mb tinha-se que ter a sorte de naquele determinado dia o tempo estar bom e ser uma hora de baixo fluxo, como pela de manhã, pra que a velocidade de download chega-se à 1.5 kb/s; hoje, casualmente, eu baixo a 125 kb/s). E mesmo esses sites, geralmente de domínio realmente privado (pertencentes à uma pessoa ou pequeno grupo de pessoas) caiam constantemente. Quando do aparecimento do Napster, até ele ficava horas (ocasionalmente um dia inteiro) fora do ar.

Essas falhas - ou melhor, limites dos sistemas - foram gradativamente sendo superadas. Hoje pouco se fala de páginas fora do ar (a não ser pela atuação de modelos/atrizes/namoradas de jogador de futebol e suas loucuras desvairadas; o vídeo e a repercussão), pouco se fala de programas ou redes de download - como eMule, Soulseek e até os torrents - que ficam inesperadamente fora do ar. O que talvez se veja é o funcionamento incorreto das tão avançadas ferramentas on-line.

Neste exato momento: o WordPress (incrível host) experiencia o problema de sua página de postagem estar reduzida a como ela seria há quase 5 ou 6 anos atrás. O autor se vê obrigado a digitar tudo com aquelas chatices de < e >com negrito sendo strong e itálico um pequeno i. Pra postar uma imagem é um saco, ao invés de tu mover e redimensionar a foto como faria na interface de qualquer editor cagado de texto fica uma imensa frase entre colchetes. E justificado ainda permanece um segredo. Tudo bem, gente. Eu entendo que no fundo é assim mesmo, mas francamente…

O último episódio veiculado até agora da décima segunda temporada de South Park (o sexto), chamado Over Logging (não me arrisco à traduções), toca exatamente nesse assunto. Certo dia as famílias de South Park vão para suas camas e ao acordarem no dia seguinte descobrem-se totalmente desprovidas de conexão (ainda a segunda). Nem mesmo a cafeteria StarBucks (famosa por ser uma zona de free wi-fi) tem. E eles se vêem literalmente desplugados do mundo: sua principal fonte de conexão (daí a verdadeira) com o mundo era pela via Internet. O pai de Stan diz: “Where did we go for news before de Internet? … Oh… TELEVISION”, entretanto nem as emissoras de TV tem notícias - claro, eles também se conectam com o mundo via Internet (lembra daquele tempo que as notícias chegavam por telégrafo, Herbie?). O pai de Stan resolve - depois de oito dias - colocar as coisas no carro “and go West. They say there is Internet there”. Então eles vão pra Califórnia, como que numa corrida pelo ouro que culmina com um imenso “internet refugee camp” no qual cada pessoa tem direito há quarenta segundos de Internet. Enquanto isso, Kyle, que ficou no Colorado, acompanha as notícias pela televisão (que agora recebe notícias via fax) e pensa ter descoberto como resolver o problema da Internet (transformada em matéria na foram de um imenso modem wi-fi daqueles azuis com luzes verdes escondido numa base militar secreta no meio do deserto). O governo não consegue se comunicar com a internet e nem descobrir o que ela quer para voltar a funcionar (novamente afirmando a naturalização). Então Kyle propõe sua idéia e pela falta de idéias e completo desepero permitem que ele tente. Kyle respira fundo, vai até a tomada do gigantesco modem azul e o desliga da parede, religando em seguida. A luz vermelha que denotava a falha do aparelho volta a acender verde brilhante e todos recuperam a internet.

O episódio é ótimo. E toca - da maneira forte e sem meias palavras do South Park - numa questão fundamental que foi vista até por McLuhan: nossa dependência dos meios e, mais, nossa incrível capacidade de naturalização. A Internet está totalmente naturalizada mas, como o episódio esse busca mostrar, estaríamos naturalizados às suas falhas? Se ela, de fato, um dia viesse a experienciar uma colossal falha saberíamos nós, mesmo os mais inteligentes, como realmente consertá-la? E isso já não aconteceu? O modem da moral e do bom uso certamente há anos pisca com um avermelhado fogo. E não estou sendo moralista (o pai do Stan tem o direito de ver estudantes asiáticas trocando vômito), entretanto é a imperfeição quanto à lesões (tanto sociais como econômicas) que de fato me assusta. A fragilidade do castelo de cartas é um tanto quanto evidente. Como com a irmã de Stan e seu namoradinho virtual Amir, nossos laços através dessas incríveis extensões são realmente magníficos, diria até fortíssimos. Ao mesmo tempo também parecem ser (de maneira bastante presente) laços tristes. Não pela distância; mas pelo verdadeiro mal uso dos próprios laços e possibilidades que esses laços trazem.

Disseram-me hoje que tá rolando golpe até no Orkut. Bom, pedofilia e comunidade de gangue já tinha; completou.

Quem quiser ver os episódios do South Park de graça, em streaming, com uma ótima qualidade é só ir no SouthParkStudios.com que tem todos de todas as temporadas.

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