Estou lendo artigos e matérias sobre e do autor Andrew Keen para um trabalho para a cadeira do Alex Primo.
Ele clama que a Internet estaria destruindo nossa cultura, principalmente a chamada Web 2.0 por destruir o conceito de gatekeeping (que seriam os guardiões do conteúdo; as pessoas - editores, produtores musicais, companhias de transmissão que decidem o que “vai ao ar” e o que fica na gaveta) e, permitindo que todos sejam produtores (user produced content), na verdade não haveria mais autoridade ou credibilidade nas informações. Tudo se tornaria, essencialmente, miscelânea.
O contraste com meu post anterior: há 44 anos atrás Marshall McLuhan temia o fim do mundo escrito, enquanto que Keen teme que nos afoguemos na infinitude da página digital.
Vou ao meu ponto: antes mesmo da Internet (eu me lembro, lá nos meus 11, 12 anos) a mídia, as formas literárias e artísticas, todas (ao mesmo tempo) anteviam um caótico mundo futuro e um presente afogado em miséria, violência, perversão. Como dito antes, faz quase meio século do estudo de McLuhan, entretanto a noção ainda permanece: os meios (tecnológicos de todos tipos) são, de fato, extensões da humanidade.
Keen parece ser um dos poucos pensadores que, deixando de lado sua louca apologia aos meios tradicionais (louca por ser descontextual: não dá pra desinventar a Internet e seu impacto na sociedade; materialidade histórica, né?), parece realmente (ênfase nesse REALMENTE) perceber que junto para o ‘ciberespaço’ de W. Gibson carregamos nossas inequações. Porém mesmo percebendo isso, ele parece não entender.
Muito de seu livro preocupa-se com o tal “Culto ao Amador”, que parece ser o motto da Web 2.0. Este “Culto” não seria nada mais do que a ubiqüidade de acesso e produção dentro dos novos espaços da Internet. Entretanto o autor caí facilmente no “Culto ao Editor”. Falha em perceber (se vocês tiverem saco de assistir a entrevista dele no Authors@Google de uma hora verão isso claramente) que assim como há uma confusão em relação aos limites entre conteúdo e publicidade dentro dos espaços Web 2.0, este nublado sobre as linhas também se estende até os meios clássicos (nenhum jornal vai denunciar seus anunciantes). Na televisão se vê isso (muito devido ao advento do TiVo e da programação acessível na Internet - seja ela em downloads ou streaming) de forma cada vez mais premente: na série de televisão House os aparelhos de escaneamento e análise médica mudaram repentinamente de marca, todos eles. Product placement agora não é mais publicidade? Os editores e produtores dos grandes meios fazem há anos (e isso no meu ver não é denúncia, mas afirmar uma obviedade) esse tipo de publicidade e relacionam seus produtos cultuais com produtos físicos: os tênis Nike e as múltiplas menções à Pepsi nos filmes De Volta para o Futuro, os mundos Ford, GM e Chrysler das séries de televisão (onde todos parecem dirigir modelos da mesma marca), os cigarros nos filmes preto-e-branco (Hitchcock vendeu câncer durante anos).
Ele menciona a credibilidade do MainStream por anomalias como os Beatles, Bob Dylan, entretanto, em entrevista no rádio, reconhece o sucesso de bandas como Arctic Monkeys, que só chegaram ao estrondoso sucesso porque pegaram as ferramentas de divulgação de música em suas próprias mãos. Em algumas entrevistas eles até falam que o interesse de grandes gravadoras só veio depois do reconhecimento dos fãs. Keen fala do talento; como este sistema não tem experts que possam reconhecer e “polir os talentos” (palavras dele mesmo na entrevista mencionada anteriormente para um rádio de São Francisco, Califórnia) quem vence na Internet são os experts em vendas e marketing. (Ensurdecedor barulho de frenagem) Peraí… alguns dos caras do Arctic Monkeys não tinham nem 20 anos quando estouraram: ficamos no impasse entre “será que eles realmente são não só muito bons como já estavam totalmente prontos pro sucesso” ou “com certeza, então, eles são os mais inatos ‘marketeiros’ de todos os tempos”.
A democratização das ferramentas é uma grande ilusão.
Obviamente a Internet não é democrática. Não ao pé da letra. A humanidade não é democrática, e como o próprio autor diz: “eu vejo a internet como um espelho da sociedade e não podemos cair numa espécie de narcisismo digital”; parece-me, em contrapartida, que é exatamente isso que ele faz. Caí numa Narcose (como Narciso) em relação a função de intermediação dos meios clássicos como asseguradora da visibilidade e manutenção dos talentos (remeto aos três posts sobre o Debord: 1, 2 e 3). Os gatekeepers tem a palavra keep no nome por uma razão bem clara: para reter, deter alguns de passarem pela porta. A Web 2.0 é obviamente falha, pois com os portões derrubados qualquer um pode entrar e como são portões imateriais, pode-se cruzá-los mais de uma vez com diversas identidades, percepções e objetivos. Abre-se o canal para que como por uma extensão elétrica o aparelho eletrônico receba energia de uma tomada mais distante do que seu pequeno braço de cobre encoberto por plástico e borracha possa alcançar; extende-se a humanidade até o reino de Gibson e com ela vão, logicamente, suas idiossincrasias já que não existem filtros (a não ser os autopoiéticos).
Novamente o contraste: o que McLuhan percebeu tão bem, Keen parece falhar em ver. A Internet, sendo o que ela se tornou, é essencialmente uma extensão da sociedade que a utiliza. A busca por anonimato e as perversões ali feitas são, ao meu ver, intrínsecas de um sistema que precede e a Internet e seu enclave ubíquo. Este mundo pré-existente credita e legitma formas de pensamento das mais variadas e com as mais diversas justificativas. Keen questiona Chris Anderson (autor de A Cauda Longa da Internet): diz que ele tem uma visão prometeíca das novas tecnologias. Anderson vê que qualquer tropeço (econômico e social) seria apenas um desafio para a eventual (e certa) libertação máxima através destes meios.
Não quero soar fáustico, mas não vejo dessa forma. A rede carrega consigo seus usuários, de forma que este braço mecânico (anônimo ou não) é criado por seres humanos, concordo quando Keen afiram que devemos lidar com as conseqüências destas tecnologias que criamos, entretanto não vejo que elas - assim como a técnica em geral - possam ser delimitadas como objetivo final. Em parte, nos definimos por seu uso, pois essas tecnologias (à lá McLuhan) com certeza absoluta são uma extensão de nossos sistemas nervosos (assim como nossa visão e audição contribuem prementemente para nossa formação identitária), entretanto também nos definimos por sensações, percepções, desejos, ligações e ideologias que são essencialmente exteriores à rede. Nossos olhos, ouvidos e mãos é que apreendem e modificam a rede, entretanto sempre de forma externa; ainda não há como entrar, materialmente, na Internet. Somos sujeitos à ela, e suas qualidades serão sempre, essencialmente, as qualidades externas que denotamos. Uma conotação absurda é pensar prometeicamente; não há salvação mágina, entretanto também não é (exagerando) o fim do mundo ou, como o subtítulo da obra de Keen diz, a morte da cultura. Cultura é sempre pré. Pré-condição, pré-existente; o que nasce é realmente uma nova cultura. Se ela é da descrença, da mentira, e do analfabetismo midiático não seria a primeira.
Em nossas vidas privadas e pessoais, mesmo fora do mundo de Gibson, percebemos a intrusão. As mentiras, boatos, inverdades, circulam por aí muito antes da Arpanet. A publicação de obras sérias e creditadas cheias de mentiras e inverdades (volto-me para um post passado sobre esse assunto no que toca a atualidade) acontece desde o primeiro livro já impresso, que caso vocês não saibam foi A Bíblia - Constantine Edition: legitimada há pelo menos mil e quinhentos anos como verdade absoluta da vida e da morte na esmagadora maior parte do mundo Ocidental e em considerável parte do Oriental e, senhor Keen, TOTALMENTE ANÔNIMA. Sabe-se lá se aquelas coisas realmente aconteceram, quem realmente escreveu aquilo. E vejamos bem: a Bíblia teve um dos mais icônicos gatekeepers de toda a história, um conselho de editorial regido por um Imperador Romano. A lenda, o mito, a mentira, the deception, poderia-se dizer, são condições da humanidade há muito mais de dez séculos. Constantino não deixaria nada na Bíblia que ofendesse, prejudicasse ou representasse mal o seu governo e suas idéias.
Talvez seja porque ando lendo muito Rüdiger (e suas idéias sobre um modo de pensar o mundo invadido pela máquina), Sfez (e sua visão certeira de que há uma migração dos relatos ficcionais utópicos para projetos reais utópicos) e McLuhan, mas minha visão, de repente, seja a mesma de alguém que está de fora: a Internet prolonga a vida offline; não há verdadeiramente nada novo, só a extensão imaterial de nossas qualidades externas. McLuhan achava que a escrita especializada desapareceria (e me corrijo aqui em relação ao post passado) e na verdade o que aconteceu é o oposto: a escrita se tornou essencialmente especializada. Meu blog, como em vários outros casos, é especializado (claro que em fazer posts gigantescos sobre devaneios filosóficos e idiotices). Tudo na Internet só procura a especialização. Há quem acredite que é o conteúdo que está de fato desaparecendo; entretanto é só o que se vê. Keen acha que são as linhas entre publicidade e conteúdo que estão desaparecendo. Talvez eu esteja sendo heideggeriano demais, mas temo que o que realmente está em fase de desaparecimento é o homem em si: a preocupação com o homem, o antrapocentrismo..
Teria McLuhan sido curto em sua tese? Estaríamos nós não só extendendo-nos nos meios como, de certa forma, deixando nossa apreensão numa estranha situação de “por procuração”? Estaríamos apreendendo um mundo digerido pela Internet ao invés que de um que ecoa pela Internet? Será que nossos processos de consciência estão “ao estilo da Internet” mais do que mediados por ela? O meio é a mensagem mas a mensagem parece ser cada vez menos uma interação ou mediação, uma troca cultural, e cada vez mais uma percepção, um processo de formação de consciência e de identificação.