Ubermensch by Debord

Semente McLuhaniana

Publicado em despise for humans por pedro em 06/05/2008

Estranhamente não vemos, neste início de séc. XXI, novas formas de articular nossa imaginação e nossos medos e temores. Parece-me que estamos interinamente inseridos nos sonhos e fantasias de – aproximadamente – 10 séculos atrás. Enquanto que tecnicamente vivemos confortavelmente no ‘mundo do futuro’, moralmente ainda vivemos em cavernas.

Há 44 anos atrás um canadense nada muito convencional já clamava por uma surpreende volta – se não reversão. Para mim, faço sempre a comparação de que Marshall McLuhan ou era, de fato, um ser extra-terrestre ou ele veio na escalada um tanto quanto dramática de dramaturgos como Ed Wood e Rod Serling. Desejava ele um mundo – e isto, lendo qualquer trabalho dele – melhor e mais vasto. Arriscaria-me a dizer que ele almejava e traçava um mundo mais infantil. Como fiz com Debord em alguns artigos passados, farei também com este grande intelectual, que de certa forma, foi relegado a segundo plano ao mesmo tempo em que foi, massivamente, divinizado. Pelo amor de Deus! Até em filme ganhador do Oscar do Woody Allen ele apareceu… e ele é canadense.

“[...] temos visto, em nosso século, a zombaria aos mitos e lendas tradicionais transformar-se em estudo reverente. à medida que começamos a reagir em profundidade à vida e aos problemas sociais de nosso globo-aldeia, tornamo-nos reacionários. O envolvimento que acompanha nossas tecnologias imediatas transforma as pessoas mais ’socialmente conscientes’ em pessoas conservadoras.

Quando o primeiro Sputnik entrou em órbita, uma professora de ginásio pediu aos seus alunos da segunda série que escrevessem versos a respeito. Um deles escreveu:

As estrelas são tão grandes,

A Terra é tão pequena:

Fique como está.

Para o homem, o conhecimento e o processo de obter conhecimento possuem a mesma magnitude. Nossa habilidade em compreender, ao mesmo tempo, galáxias e estruturas subatômicas é um movimento de faculdades que as inclui e transcende. O ginasiano que escreveu os versos acima vive num mundo muito mais vasto do que aquele que pode ser descrito por conceitos ou medido por instrumentos de um cientista de nossos dias. Sobre esta reversão, escreveu W. Butler Yeats: ‘O mundo visível já não é mais uma realidade e o mundo invisível já não é mais um sonho’.”

Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem (understandig media), Herbert Marshall McLuhan, 1964, p. 52-53.

44 anos atrás. Não existia telefonia móvel, nem internet, mal e mal existia a noção de transplante, quanto menos bancos de órgãos. Incrível como certas mentes consegue manifestar uma “Síndrome de Prometeu”; manifestar de forma concreta o futuro e permanecerem, até o fim das sombras que nos iludem chegue, acorrentados. Hoje vivemos num mundo que para o McLuhan de 1964 seria completamente impensável. 28 anos de sua morte no aniversário do meu pai, 31 de dezembro. O cara não pode nem ver a completa deterioração da cultura norte-americana durante a década de 80. Não pode ver o muro cair. E estranhamente, lendo suas páginas de 20 anos antes de Berlim enfurecida declamar o final de uma era, vê-se claramente a apologia a isso. Ele via um mundo aldeia no qual raças, credos, culturas, todas, inexoravelmente, iriam convergir. E todos os dias isso recomeça com mais força, mais torque, sempre em direção a uma estranha – e eu diria até confortável – totalização da humanidade.

McLuhan, infelizmente, faleceu aos 69 anos de idade sem conseguir mergulhar de cabeça na chamada era do conhecimento. Será que ele sabia que hoje, apesar de todas as complexas extensões do homem, elas somente serviriam para ‘extender’ nosso ódio e nossas diferenças? O garoto ginasiano que ele cita hoje, certamente, é um adulto. Provavelmente até mesmo um idoso. Se ele estava na segunda série teria 8 anos em 1957, hoje, 51 anos depois, será que ele percebe o impacto, não só de seus versos, mas daquilo que pôde, pelo momento, presenciar? O mundo hoje ignora o muro, ignora o fatídico satélite, e, em muito, ignora Marshall também. O mundo tão lindo do conhecimento que McLuhan via nascer agora morre na mira de um sniper vingador no arenoso Iraque pós 11 de Setembro e Hitler suspira aliviado para seus comparsas por ter sido quase que totalmente esquecido. A última criança de Auschwitz-Birkenau está para se recolher definitivamente. Meios quentes e frios convergem hoje no mais extensor de todos os meios e leva ignorância e ódio até os últimos cantos da terra. Quem quiser pode ler as jutificativas deste Cortez moderno para seus playgrounds de qualquer canto do mundo na língua mater do neo-capitalismo inclusivo.

O livro de Constantino também está lá. Assim como o de Maomé e de Moisés. Há, sim, Marshall, o conhecimento. E ele se tornou tão fácil e ao mesmo tempo tão desnecessário. O cerceamento das liberdades “in the land of the free” também está disponível. Sim, querido, Marshall, os meios – e não só os de comunicação como os tecnológicos – são sim extensões do homem. Mas até onde queremos, ou melhor, podermos, extender o homem antes que seja tarde demais?

Se Marshall visse o mundo hoje em dia acharia que estava vendo Rod Serling ou veria, de maneira nada mais do que dramática, que ele também semeou-o? Ou será que de repente nosso querido Herbert veria com olhos baudrillardianos um mundo que jamais mereceu a dádiva de Prometeu?

Mesmo enriquecidos permanentemente pelo meio quente da escrita – levado à sua epítome pela Internet – ainda sim vivemos em cavernas, afastando nossos inimigos, predadores e possíveis colaboradores com as mais antigas formas técnicas. Continuamos perpetrando medo, preconceito, ódio e uma idiótica adoração por coisas que jamais teremos a capacidade de incitar.

Mas o pior mesmo é o ódio… esse, ah!, se extende em meios quentes, frios, escaldantes e congelados. E se não tem o que odiar, ah!, a gente inventa.

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