Ubermensch by Debord

Semente McLuhaniana parte 2: Palavra Falada vs. Palavra Escita vs. Internet

Publicado em despise for humans por pedro em 06/19/2008

“Nossa nova tecnologia elétrica, que projeta sentidos e nervos num amplexo global, tem grandes implicações em relação ao futuro da linguagem. A tecnologia elétrica necessita tão pouco de palavras como o computador necessita de números. A eletricidade indica o caminho para a extensão do próprio processo de consciência, em escala mundial e sem qualquer verbalização. Um estado de consciência coletiva como este deve ter sido a condição do homem pré-verbal. A língua, como tecnologia de extensão humana, com seus conhecidos poderes de divisão e separação deve se haver configurado na torre de Babel pela qual os homens procuraram escalar os céus. Hoje os computadores parercem prometer os meios de se poder traduzir qualquer língua em qualquer outra, qualquer código em outro código – e instantaneamente. Em suma, o computador, pela tecnologia, anuncia o advento de uma condição pentecostal de compreensão e unidade universal. O próximo passo lógico seria, não mais traduzir, mas superar as línguas através de uma consciência cósmica geral, muito semelhante ao inconsciente coletivo sonhado por Bergson. A condição de ‘imponderabilidade’, que os biólogos tomam como promessa de imortalidade física, pode ser acompanhada pela condição de ‘infalibilidade’, que asseguraria a paz e a harmonia coletiva e perpétua”.

Herbert Marshall McLuhan, Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem (Understanding Media), 1964, p. 98 e 99.

Assim nosso já querido “Herbie” termina o capítulo introdutório da segunda parte de seu livro, chamado A Palavra Falada. Antes de mais tenho uma colocação.

- Eu, como ‘verde’ estudioso da temática do maquinismo vs. maquinismo invadindo coisas essencialmente não maquinística, tenho aqui um porém: “homem pré-verbal”. Existiria tal coisa? Há quem exagere e afirme com certezas filosóficas e históricas que o homem, per se, nasceu na Grécia Helênica. Eu, não sendo personagem de romance fantástico de H.G. Wells* nem sendo o Scott Bakula em Quantum Leap, não afirmaria nada com certeza sobre o passado (entrarei nesse ponto mais adiante). O Homem não é simplesmente o conjunto de nossos genomas nem nossas técnicas e conhecimentos. Somos seres únicos por nos comunicarmos a partir (e isso em todos os cantos do mundo antigo ou moderno) através de formas de linguagem. A idéia da palavra, conjunto de símbolos (afinal de contas não podemos esquecer da Libras e das muitas línguas de sinais para deficientes auditivos), gestos ou sons que, de maneira abstrata, definem a noção de nomenclatura; ou seja, a palavra (seja ela em que forma) define arbitrariamente uma coisa do mundo táctil e mental. Então afirmo que quando um dos ancestrais humanos desenvolveu essa capacidade – que suponho preceder em vários séculos o advento das línguas escritas – ele deixou de ser uma classe de antepassado humano para se tornar o ser-humano como concebemos e (mesmo que de maneira parcial) entendemos hoje.

Esse livro foi escrito 44 anos atrás. McLuhan ainda é tido como fonte de inspiração teórica e de visão de mundo para diversos pesquisadores, pensadores e até mesmo profissionais da área. Entretanto, ele morreu há 18 anos atrás. “Nossa nova tecnologia elétrica, que projeta sentidos e nervos num amplexo global, tem grandes implicações em relação ao futuro da linguagem. A tecnologia elétrica necessita tão pouco de palavras como o computador necessita de números.” De alguma forma esse grande pensador deixou de perceber que o cerne dos meios eletrônicos de extensão do homem (hoje um conjunto muito mais vasto incluindo telefonia móvel, telefones via satélite, transmissão de video, etc.), pelo menos até 1994, eram puramente orais. Na televisão as pessoas querem ouvir os comentadores, atores, no rádio e cinema a mesma coisa. O aspecto visual – na TV e no cinema – são claramente marcantes, mas desde o advento do cinema falado inexistem películas que não se utilizem de tal ferramenta (pelo amor de Deus! Até Chaplin se rendeu ao som). De certa forma, nos 100 e tantos anos do cinema e 50 e tantos anos da televisão, estas extensões (nisso concordo com “Herbie” profundamente) serviram até para reforçar, rearranjar e ilustrar os aspectos linguísticos de milhões de pessoas. Eu tenho 26 anos e tenho a convicção plena de que o aparelho de televisão serviu-me como grande mestre das palavras.

Marshall, estranhamente, teve um glimpse do futuro que seu corpo não lhe permitiu. Ele viu as pretenções prometeicas da tecnologia elétrica antes que ela atingisse seu verdadeiro apogeu. Heidegger, alguns anos antes, anunciava a sua “armação” como a tomada da lógica humana pela lógica da máquina, em marcha desde o séc. XVII. Os computadores pessoais – hoje mais do que nunca – unidos às diversas articulações do imaginário tecnológico replicadas pelos meios de produção cultural (filmes, tvs, etc.) prometem uma era de sublimação do ser humano; ligados todos os seres humanos estariam a nível mental. Nossos cérebros como interfaces de conexão direta; sem escrita, sem fala.

Mas Marshall viveu nos anos 60, repletos de uma negatividade fáustica em relação às tecnologias (quem é que poderia dizer que a TV, o cinema, as tele-comunicações não poderiam parir a nova bomba H?).

“Graças à sua ação de prolongar o nosso sistema nervoso central, a tecnologia elétrica parece favorecer a palavra falada, inclusiva e participante, e não a palavra escrita especializada. Nossos valores ocidentais, baseados na palavra escrita, têm sido consideravelmente afetados pelos meios elétricos, tais como o telefone, o rádio e a televisão”.

Herbert Marshall McLuhan, Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem (Understanding Media), 1964, p. 100 e 101

“Herbie” não pôde ver a Internet. E peca ao não antecipá-la no início (citação à cima) do segundo capítulo da segunda parte de sua grande obra, chamado A Palavra Escrita. A Internet, uma rede de informação, comunicação e – me arrisco a dizer – interação que só agora começa a disponibilizar serviços ligados ao som e, mesmo assim, sem perder seu cárater amplamente gráfico (Skype seria o melhor exemplo, contrastado com o uso diário por milhões de pessoas do MSN). Tudo é escrito. Li há alguns meses um artigo numa revista norte-americana (acho até que era na Wired) afirmando que os ocidentais nunca, em toda a história do Ocidente, leram tanto. Claro que não livros (ficcionais ou não), mas sim Internet. Tudo que se faz na Internet requer a alfabetização. Na verdade, requer o alfabeto. Invenção muito querida por McLuhan e por mim; o autor a define como sendo o vernáculo de todas as tecnologias e possibilidades tecnológicas. Eu concordo. “O alfabeto significou poder, a autoridade e o controle das estruturas militares à distância” (Idem) fala Marshall quando se referindo ao mito de Cadmo (legendário rei grego que teria fundado o alfabeto a partir de dentes de um dragão, que quando semeados germinaram um exército de homens armados). E o alfabeto – e o alfabetismo mais ainda – são realmente libertários e permissivos, mesmo quando estamos falando de alfabetos não-fonéticos (ou como McLuhan chama, visuais ou pictóricos). Entretanto a análise de McLuhan me parece um tanto falha visto os dados arqueológicos que estão sendo encontrados nas ruínas de civilizações como a egípcia. Ele clama que a alfabetização das populações e o papiro teria causado transferências de poder, entretanto em um documentário do Discovery Channel bem recente, historiadores, egiptólogos e arqueólogos chegaram a espantosa constatação de que os chamados escribas da antiguidade seriam alfabetizados oficiais; a população normal, como construtores de pirâmides, agricultores e artesões teriam domínio sobre os hieróglifos simplicados e trocariam mensagens de cunho pessoal por lascas de pedra-calcários.

O alfabeto fonético – mais do que a fibra óptica, mais do que programadores e capacidade de armazenamento de daods – foi o que, de fato, permitiu a Internet. E nada fáustico se deu: a palavra escrita, apesar de não ter se especializado (como parecia querer McLuhan) e, na verdade, ter se tornado, como com os trabalhos egípcios, simplificada (“thanx“, “See U“, “Pq”), continua viva, forte (a Blogosfera como exemplo lancinante disso) e correndo o mundo com mais velocidade e peso do que a palavra falada jamais fez no rádio e na televisão.

Minha conclusão: o mundo é construído pela palavra. A palavra é, essencialmente, a característica humana. Os meios tecnológicos são sim extensões, como diz “Herbie”, e o são extendendo todas as características de nossa existência – nosso córtex pré-frontal e frontal com um certo destaque. Todas ela: as boas, as ruins. Os dentes do dragão construiram, a priori, um exército armado (físico e tangível). hoje, ele é fantasmático e ideológico: procura nossa redenção – seja ela por nosso extermínio fáustico nas mãos de um poder que na verdade só nos causa narcose e nada mais, seja pela pira prometeíca de conseguirmos nos aperfeiçoar até não podermos mais nos reconhecer.

* Ironicamente, H. G. Wells se chama Herbert George Wells e em 1911, quando McLuhan nascia em Edmonton, ele publicava em Londres seu livro The New Machiavelli (aí tem o livro em .txt no Project Gutenberg).

Uma resposta

Subscreva aos comentários comRSS.

  1. [...] comunidade dedicada a homenagear nosso querido Herbie M. McLuhan [aqui e aqui], encontro um tópico assinado pelo dono da comunidade, dizendo o [...]


Deixe uma resposta