Ubermensch by Debord

Daft Internet

Publicado em despise for humans por pedro em 06/22/2008

Retomando um pouco o que o falávamos referente ao Andrew Keen e o tal “Culto do Amador”.

O Daft Punk – que no bom português pode ser “desimportância sem sentido”, mas é claro se trata de uma boa gargalhada em cima do termo daft (que seria, formalmente, ’sem sentido’) e o estilo musical dos anos 70 -, talvez por serem um dos mais interessantes e criativos grupos de música eletrônica (na verdade dupla) desde o Kraftwerk (já ouvi muita gente chamando o Daft Punk de novo Kraftwerk ou herdeiros do Kraftwerk – concordo mais com a segunda) – se encontrou muito bem com os novos meios digitais. Seja por disponibilizarem suas músicas (e até um dos seus álbuns inteiros) na rede gratuitamente (muito antes do Arctic Monkeys e do Radiohead), seja por causarem uma certa revolução imagética, principalmente no YouTube.

Falo sobre isso porque (vi no blog da Gisele) o Weezer está lançando o seu primeiro clipe do “Álbum Vermelho” – seu mais novo disco, lançado há poucas semanas – e o clipe é uma coleção de menções à vídeos famosos no YouTube (para ver os 24 vídeos citados no clipe vá aqui em valleywag.com). Entretanto, desses 24 vídeos, dois são na verdade inteligentes brincadeiras com os jogos de palavras que o Daft Punk costumeiramente faz em suas músicas (como em Technologic, Harder, Better, Faster, Stronger e Around the World). Um desses clipes, feito por duas meninas usando “capacetes” de papel alúminio (uma barata imitação das roupas usadas no clipe de Around the World) tenta recriar através do movimento de seus corpos as brincadeiras com as palavras de Harder, Better, Faster, Stronger.

Então percebe-se algo que Keen parece realmente não perceber: o mainstream, os meios antigos, não só contribuem para esses novos meios como de certa forma – ênfase nesse ‘certa forma’ – até trabalham realmente como gatekeepers, dando espécie de matéria-prima para o trabalho do amador. O vídeo esse das meninas (que segue embed no fim deste post) é simplesmente demais. Além do fato delas serem bonitinhas de corpo (seus rostos não aparecem), elas fazem a sincronia com as palavras ditas na música e seus corpos (que tem em suas coxas, ombros, braços e torso escrito as palavras da música) de forma bem engraçada e divertida.

Por outro lado (como mencionado no post anterior) o Sigur Rós lançou seu clipe de Gobbledibook e ao disponibizá-lo no YouTube encontrou a restrição de idade.

Enquanto os amadores fazem o que querem na Internet (nota especial para as centenas de sites de pornografia amadora que se acha na internet facilmente questionando o Google com palavra como “amateur” e “free porn”) os MainStream tão queridos de Keen são cada vez mais barrados. É fácil fazer um clipe com pessoas correndo nuas quando ninguém nunca ouviu falar do teu site, da tua produtora, da tua banda, etc.

O ponto central para Keen parece ser além: se temos esses meios, deveríamos ter algo à dizer; e não temos. O clipe das meninas é uma pura replicação, enquanto que liberdade de conteúdo da Internet, usada ao extremo pelos rapazes islandeses do Sigur Rós não encontra o eco dessa liberdade digital. O que se vê – pelo menos em maior grau – são realmente replicações. Talvez Ridley Scott estivesse certo e o futuro é de espaço-naves solitárias e replicantes. Replicar uma idéia em videozinhos engraçados até o infinito parece ser o motto de uma geração engasgada com sexualidade pugente e que abraça um moralismo manco.

O clipe do Sigur Rós (que linkei novamente neste post) é lindo; como todos os do Sigur Rós. E, ao contrário de mulheres insidiosas e homens ’sarados’ (abomino esse termo), mostra pessoas de verdade vivendo numa comunidade quase “Sociedade Alternativa”, todos nus, em volta de fogueiras, brincando, como se fosse a infância da humanidade novamente. Parece um pouco brega, mas na verdade, pelo menos pra mim, é um insight para essas questões digitais: estamos mais próximos do que nunca mas na verdade vemos cada vez menos do outro. O que era os ‘bons costumes’ agora são representações eletrônicas enviadas à velocidade da luz para qualquer canto do mundo.

E pergunto novamente: é uma vida mediada ou por procuração?

A simplicidade podia ser o motto. Talvez se nos entregassemos mais…

Uma resposta

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  1. Peter said, on 06/23/2008 at 12:25 am

    te esqueces que Daft, enquanto gíria do inglês britânico é usado como “estúpido” ou “idiota” … Daft Punk seria então Punk idiota ou Punk burro.


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