Ubermensch by Debord

Bicho de Sete Cabeças Revisited

Publicado em despise for humans por Pedro Henrique em 07/07/2008

Em 2001, o queridinho inocente Rodrigo “Agora sou astro de Hollywood” Santoro participou de um excelente filme com a participação de Othon Bastos, Cássia Kiss, Caco Ciocler, entre outros. O filme se chamava “Bicho de Sete Cabeças” e retratava a história real de um garoto comum de uma das grandes cidades brasileiras que se vê, em sua adolescência, as voltas com a nossa boa e velha ganja, a maconha. Mal aconselhados por velhacos de cadeira (como vários ainda hoje em atividade), os pais do garoto o internam numa instituição mental. A garoto vai das agitadas ruas e de seus programas de juventude para um verdadeiro inferno na Terra… só porque fumou um baseado (na verdade, tecnicamente ele nem fumou, porque os pais encontram o baseado na jaqueta dele. Ou seja, foi internado porque IA FUMAR).

A história em si é uma lição de vida – principalmente sobre a vida real do personagem Neto – sobre as exasperações de pais e ditos “doutores” sobre a questão de uma droga que só foi criminalizada por pressão dos EUA nos anos 40 e 50. Que apresenta tantos malefícios quanto cigarro (câncer) e bebida (entorpecimento dos sentidos, problemas de memória, etc.), e muitos dos perigos dela foram descreditados (levando-a a ser inclusive legalizada em diversos países, e, em vários, EUA inclusos, como remédio). Essencialmente o filme é um alerta: maconha não é cocaína, se o cara fuma maconha não quer dizer que ele é viciado, não quer dizer que ele vai começar a roubar pra comprar maconha, não quer dizer que ele sofra de gravíssimos distúrbios mentais dignos de uma internação. Na verdade há uma controvérsia muito grande sobre a existência verdadeira de um processo de dependência química ligada a Cannabis sativa, indica ou ruderalis.

ENTRETANO…

Ontem, me espanto ao ver no nosso tão creditado Fantástico (”O show da vida”… até porque só se for show mesmo…) uma matéria iô-iô: um garoto inglês “VICIADO EM MACONHA” que se vê as voltas com seus pais, cientes disso, num torpor psíquico de ignorância sobre o que fazer. Quando do final da matéria (que mostrava explicitamente o garoto fumando maconha e ficando fisicamente deformado, fumando enlouquecidamente como se o conteúdo de seu narguilé fosse crack ou metanfetamina), prontamente se pôs uma pesquisa eletrônica na qual 44% das pessoas (quem será que liga pra essas merda?) disse que a melhor solução era INTERNAÇÃO.

Cês não viram Bicho de Sete Cabeças, não? (ou pelo menos a matéria anterior a essa sobre a clínica do Rafael Ilha, do Polegar, e os abusos, acusações da saúde pública, infrações médicas……).

A maior parte dos estudiosos REALMENTE SÉRIOS, QUE PUBLICAM LIVROS SÉRIOS E NÃO SÃO ENTREVISTADOS PELO FANTÁSTICO, GLOBO, E AFINS, vão te dizer que as drogas SÃO UM SINTOMA (eu pessoalmente não considero maconha uma droga, e o Brasil, graças a Deus – diferentemente de outras leis absurdas – já tem leis que protegem os usuários, principalmente de maconha). As pessoas não “caem nas drogas” como se fosse escorregar numa casca de banana ou pisar num coco de cachorro. A família do garoto inglês mais parecia a família do Alex, de Laranja Mecânica. Um padrasto totalmente emocionalmente desligado do resto da família, incapaz de abraçar a mãe mesmo quando essa chora desesperada. A mãe, uma troglodita aos gritos e cobranças. “O garoto aos 16 anos deixou os estudos e os esportes”, diz, dramaticamente a narração. Entretanto em nenhum momento se aponta as relações, o colégio, ou mesmo as inter-relações da família. “Ele some de casa durante dias”, mas é claro! Quando ele aparece em casa é tratado aos gritos.

Então depois da votação (ABSURDA!!!) passa-se pra entrevistados nacionais, jovens, pais e so called especialistas. Um dos especialistas, que denota uma boa característica e feição de ‘velhaco de cadeira’ aponta que realmente a melhor solução é a internação. Já os jovens apontam automaticamente a questão: a mãe grita com o filho, não conversa. E eu, em minha opinião um tanto quanto non-expert digo que esses problemas que levaram ele a todas essas atitudes não tem nada a ver com as drogas; elas são conseqüência.

Eu penso que os anos 60 e 70 provaram sem dúvida que o uso de drogas não é necessariamente insipiente a criminalidade, ao under-achievement e a perda de funções mentais.

A bebida destrói a vida. No entanto, aí está uma megaindústria internacional de produtores, distribuidores e revendedores de bebidas. Cigarro dá câncer. E ao invés de proibir aumentam os impostos (como forma imbecil de coibir o uso) e só fazem aumentar as alícotas do próprio estado (que posteriormente serão devidamente desviadas). Armas matam pessoas, e o Brasil é um dos maiores (a Taurus) produtores de handguns do mundo (além de ter uma das maiores redes internacionais de tráfico de armas e de desvio de armamentos das forças armadas). Mais de dez minutos de um dos principais programas de uma das principais de redes de tv do Brasil gastos com essa babaquice.

Na bem da verdade, o programa de ontem do Fantástico foi um dos mais puramente ideológicos que já tive o desprazer de assistir na minha vida. Elogios gastos e matérias horrivelmente dramáticas sobre os reféns das FARC (que há dez anos todo mundo sabia onde estavam e não fizeram nada. Fala sobre isso, Patrícia), depois o já popular ‘testezinho do bafômetro’ (que em cada jornal, programa, emissora, site, blog, tem resultados diferentes) esclarecendo o absurdo da lei (diz o doutô: “Ah, se você beber UM COPO DE VINHO tem que ficar no mínimo TRÊS HORAS SEM BEBER PRA PODER DIRIGIR COM SEGURANÇA) e explicitando “mais uma das desvantagens de ser mulher” (o médico falou isso, gente. De verdade!) e “uma das poucas vantagens de ser (morbidamente) gordo” (”os gordinhos se deram melhor” diz o repórter).

Drogas, queridos editores do Fantástico, tem na Rua Comendador Azevedo, no bairro Floresta de Porto Alegre, há menos de 5 quadras do centro da cidade. Ali tu encontra drogas. Ali tu encontra gente que largou os esportes e a escola pra se drogar com droga de verdade, que arruina famílias, carreiras. Gente que realmente gasta todo o seu dinheiro com drogas (ao contrário do garoto inglês esse que não só trabalhava como conseguiu guardar dinheiro suficiente pra comprar uma Scooter). Drogado não guarda dinheiro. Viciado não tem objetivo de vida, não tem desejos, não tem ambições. Crack, cocaína, metanfetamina, Ecstasy, isso sim é droga.

Tem tantos problemas hoje em dia no mundo. Penso que deveríamos nos centrar nos problemas de verdade, os jornais e editores deveriam se preocupar com coisas realmente assustadoras. Fumar maconha, na pior das hipóteses, é uma fase. E a pior das hipóteses num programa que nem o Fantástico era uma matéria bem extensa com os garotos da Fase (antiga Febem) que, em seus poucos anos de vida, já tem marcado nos olhares a dor e o sofrimento de pais bebâdos e drogados, de irmãos afundados no mundo da droga e do crime, de meninas (primas e irmãs, namoradas e amigas) se prostituindo na Voluntários da Pátria antes mesmo dos 15 anos por uma pedra de 5 reais de crack, quando não são eles mesmos os viciados (que começam com coisas muito piores do que maconha, como cola, tinner, solvente, benzina). Façam uma matéria mostrando a quantidade de artistas da Globo mesmo (e fontes ao longo dos anos confirmam essas histórias, e eu mesmo confirmo: quando de um Festival de Cinema no qual trabalhei um famoso artista brasileiro -que prefiro não comentar o nome pela minha admiração ao seu trabalho – muito famoso mesmo – veio me inquerir sobre onde ele conseguiria COCAÍNA momentos antes de subir ao púlpito para apresentar outro prêmio) que usam cocaína. Mostrem as filmagens veladas das festinhas mostrando isso, e daí vocês podem começar a dizer que o pobre ruivinho inglês é ‘viciado em maconha’.

E enquanto isso o sr. Azeredo corre solto no Senado Federal.

E enquanto isso O MINISTRO DA JUSTIÇA, Tarso Genro, dá nota aos meios de imprensa dizendo que a lei do álcool zero é INCONSTITUCIONAL.

E enquanto isso o Detran põe nota em seu site dizendo que não vai mais comprar nem distribuir bafômetros para as polícias.

E enquanto isso os juros só sobem, a inflação tá em 6%, o quilo da carne tá 9 reais (a carne mais chinela), o mercado imobiliário enfrenta sua pior crise, o Políbio Braga processa a NovaCorja.org, e um monte de gente esqueceu o que é nazismo e ditadura militar.

Aé, e desde a votação da lei (que, ironicamente tenta coibir o alcool e acaba incentivando o uso de outras substâncias recreativas à direção que os pobres PMs e Policiais Rodoviários não tem instrução nem aparelhagem para fiscalizar) os acidentes de trânsito aumentaram mais de 14% em relação ao mesmo período do ano passado.

Esse país não tem mais espaço pra hipocrisia.

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Uma resposta

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  1. adriamaral said, on 07/08/2008 at 1:32 pm

    eu e o marido vimos isso e ficamos profundamente irritados… fantástico sucks
    bjoo


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