Ubermensch by Debord

Corpo Perfeito, Atleta Perfeito ou Máquina Humana?

Publicado em despise for humans por pedro em 07/18/2008

Em 1997 eu fui atropelado andando de bicicleta no centro de Gramado. Danifiquei o menisco do meu joelho esquerdo e por mais que fizesse exercícios e fisioterapia, jamais voltou a ser o mesmo. Quando chove ou fica muito frio dói muito e fica rígido.

Esta história é um preâmbulo do assunto – prometido antes – deste post.

No Discovery e em vários outros canais e programas esportivos – além de publicações e sites também – só o que se fala ultimamente é das Olímpiadas. O Paradigma último da auto-superação chega ao seu segundo capítulo no séc. XXI e vemos um país inteiro, a China, voltado para isso. Nos documentários e programas o foco é seguidamente o árduo treinamento.

As Olimpíadas colocam em xeque, de certa forma, o meu assunto de interesse: a lógica da máquina invadindo o espaço não máquina da vida. Vendo os atletas chineses treinar me assustei profundamente. Termos como manutenção (ainda acompanhados de exemplos do tipo: Ah, é que nem um carro…), produtividade e eficiência sendo usados para o funcionamento do corpo.

E é seguidamente colocada a questão do corpo perfeito. O preparador físico pega e diz: “Fulaninho tem um físico perfeito…” mas daí, no seguimento do programa, vemos ele sofrendo em sessões praticamente diárias de fisioterapia para combater as inúmeras lesões causadas pelo esforço ininterrupto. Corpo Perfeito? Saúde Perfeita? Eu não vejo dessa forma. Ao forçarem o corpo biológico do homem a se portar como maquinário esportivo, ele atinge seu ápice cedo demais. O documentário mostra as crianças – não muito diferente daqui do Brasil – com apenas 4 ou cinco anos treinando para serem ginastas. Superação dos limites? É lindo, claro. E um objetivo quase que plenamente humanista: superarmos através do próprio corpo, do esforço e da determinação idiossincráticas ao ser humano nossa condição. Mas vejo também que há a penumbra do trans-humanismo cegando as pessoas: os corpos realmente deformados das crianças de 7 ou 8 anos são verdadeiramente assustadores. Meninas de 16 anos sem quadris e sem seios (e que não menstruam), meninos de 18 medindo menos de 1,60 metros.

Isso me levou a notar que a deformação sistemática do corpo humano é, em si, uma parte central de diversas e antigas culturas humanas (como os índios que modificam as cartilagens do corpo, como as tribos africanas que alongam os pescoços, como os pré-colombianos que deformavam os crânios dos bebês ou mesmo as chinesas que obliteravam seus pés para ficarem de acordo com a lógica da beleza). Não pode ser plenamente considerado como um aplainamento da condição humana. Entretanto, no que diz respeito ao treinamento dos atletas, eu vejo que é sim. Arquitetar o corpo humano para que desde de jovem ele produza seu melhor desempenho. Tudo bem. Até aí não vejo realmente nada de mal, vejo na verdade uma das partes mais práticas e fizíveis das Utopias do corpo, descritas por Lucien Sfez, entre outros. Devemos mesmo preservar nossos corpos para que eles tenham seu melhor desempenho e nos forneçam a melhor qualidade de vida possível. Mas daí chegamos verdadeiramente ao ponto: onde fica esse zéniti? As dores que o atleta chinês retratado no programa sentia não pareciam ser the proper health of the body. O atleta americano tinha que usar aqueles sedativos dérmicos para conseguir terminar seus exercícios nos aros, pois a cada queda no chão, se intensificava o dano aos seus joelhos e pernas.

O atleta americano esse cercado de técnicos usando sensores e monitores eletrônicos para entender o funcionamento dos seus músculos e corpo. O atleta chinês cercado de médicos e fisioterapeutas para amenizarem suas lesões e quantificar seu desempenho.

Há no próprio paradigma grego dos jogos uma vontade e desejo de superação humana. Mas, remetendo a Nietzsce, estaria essa superação latente no nosso corpo ou estaria ela esquecida em nossas mentes? O esforço do atleta é, também, mental. Mas o leva a ter uma mente além do homem? Ou seria a lógica da batalha contra o próprio corpo a exata lógica da qual falam os filósofos no que concerne o ser do homem?

Penso que nessa era em que usamos nossos artefatos maquinísticos para desvendar o corpo do homem e levá-lo ao seu zéniti funcional há de fato algo a ser tratado com delicadeza e conhecimento.

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Este post terá continuação…

2 Respostas

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  1. Cleon Gostinski said, on 07/18/2008 at 4:39 pm

    O que Stephen Hawking nos diria sobre isto, considenrando sua condição física?

  2. oxyghene said, on 07/18/2008 at 5:18 pm

    bá, vazou o tema do meu próximo post…

    é exatamente isso. a mudança da percepção do que é mente e do que é corpo, de como se relacionam e interferem um no outro…


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