Ubermensch by Debord

provérbios 25:2

Publicado em despise for humans por Pedro Henrique em 07/26/2008

A glória de Deus é ocultar as coisas, e a glória dos reis é pesquisá-las. A altura do céu, a profundidade da terra e a mente dos reis são coisas insondáveis.

Novamente spoilers.

Bom, assisti hoje no início da noite ao segundo filme do Arquivo X, X-Files: I Want to Believe. Espantei-me ao perceber, logo nos primeiros minutos, que este filme não seria sobre abduções, conspirações alienígenas/governamentais nem espíritos do além ou avanços tecnológicos ameançando a sobrevivência da humanidade. Bem pelo contrário. O filme aborda uma temática muito, mas muito comum mesmo nas formas de ficção fantástica hoje evidenciadas à extensões assutadoras na televisão e entre certas camadas da humanidade: mediunidade. A habilidade de perceber o passado jamais vivido, de entender o futuro indizível. Séries como Medium, protagonizada por Patricia Arquette (e que este que vos fala assistiria ininterruptamente, em parte pela própria Patricia, que eu adoro e sempre adorarei – gótica, em Stigmata, perfeita em Lost Highway, melhor filme do Lynch, e mãe de família genial, querida, afetuosa e fogosa na série), vê-se esse tipo de coisa o tempo todo. Há outras séries e até programas no Discovery e History Channel. Pessoas com uma afinidade especial com o universo. Eles não são mutantes nem híbridos com alienígenas e muito menos são robôs ou inteligências artificiais. Como o próprio personagem Padre Joe (assustadoramente: Father Joseph Crissman), interpretado pelo genial Billy Connoly, que é um pedófilo condenado que estuprou 37 coroinhas (entre eles, o próprio vilão do filme), são pessoas  com defeitos, pecados, pouca inteligência (Ghost Whisperer); pessoas falhas. Enfâse em pessoas.

Como alguns sabem, meu objeto de pesquisa é a série de TV Arquivo X, principalmente a maneira como a série articula e revela certos aspectos de uma nova e premente ideologia que parece afetar todas as camadas da sociedade e muitas, mas muitas das culturas do mundo, sendo percebida, até, como uma Nova Utopia. Na verdade, meu objeto de pesquisa é, em si, a maneira como todos nós lidamos com as novas tecnologias. Os avanços da humanidade, sejam eles quais forem, acabam por (in)advertidamente transformarem fundamentalmente a maneira como vemos o mundo.  E, penso eu, muito da maneira como vemos, compreendemos e apreendemos o mundo se revela através dos construtos midiáticos e dos produtos culturais (mesmo aqueles que, para alguns, nefastamente, vem da malvadona indústria cultural). Entretanto, certos avanços já em curso no mundo – a ubiqüidade da Internet, um exemplo simplesmente muito simples – figuravam até algumas décadas como sonhos, figuras de uma imaginação fantástica, zénitis de um pensamento utópico que sonhava soluções fantasmáticas para as questões humanas. Mas, como posto, certos avanços se tornam fundamentalmente reais. A cura de doenças, verdadeiros manuais para a longevidade e maiores potencialidades de vida, de produtividade e de progresso (?), além, é claro, da esmagadora presença total da idéia de saúde perfeita.

Minha premissa pessoal sempre foi a mesma. E me vejo respaldado em certos autores e pensadores (mesmo alguns tão distantes quanto Platão): EXISTE UMA COISA CHAMADA CONDIÇÃO HUMANA. Somos seres humanos. SOMOS humanos. E isto nos define. Os avanços e suas repercussões são CONDIÇÕES DE HUMANIDADE.

Digo isso, pois, o filme, em questão, mostra exatamente isso. As visões do Father Joe são altamente morais. O mundo humano é moral. Ele procurava sua própria redenção, inclusive admitindo ter se castrado aos vinte e tantos anos, por entender, em sua alma (se me leitor permitir), que aqueles “desejos sujos” – como ele mesmo coloca – eram errados e deveriam ser ceifados. Suas previsões eram sobre pessoas (a ligação dele com elas era que o ‘chefe’ foi uma de suas vítimas) usando experiências com células troncos e desenvolvimento celular para conseguir fazerem operações de transplante de corpos inteiros (tira-se a cabeça de um corpo e inserem ela em outro); the catch: os corpos usados eram de pessoas inocentes seqüestradas. It’s not Frankenstein, it’s human bodychop.

O uso que fazemos daquilo que nos é dado o

u que inventamos é humano. Sofro ao ver certas pessoas chamando coisas como tortura e irresponsabilidade como ‘desumanas’. Vlad, o Impalador, que ganhou o mundo com a lenda do Drácula, era humano. Nasceu, como diriam os antigos, das entranhas de uma mulher. E sabemos hoje que nada nasce das ‘entranhas’ de uma mulher e não é humano. Sabemos que serpentes não são homens. Penso no caso daquele garoto que os ladrões, ao roubarem o carro de sua mãe, falharam ou simplesmente ignoraram o fato de que ele ficara pendurado pelo cinto de segurança e fora arrastado por algumas quadras. Isso é humano. Claro que bondade, solidariedade e sacrifício também são inerentes ao SER do humano, porém certos aspectos menos contemporaneamente aceitáveis também são. Tortura, assassinato, chacinas, estupro, ganância, preconceito, vingança, inveja, ciúme. O homem é mais do que o próprio homem pode conseguir explicar. Entristeço-me ao ver programas como Fantástico e extensas séries de documentários do Discovery e de outros tantos canais como BBC descrevendo homens, mulheres, crianças que ainda nem sabem escrever como fatos calculáveis e predizíveis. Toda a vida é imprevisível. Talvez este seja o porém de ter ganho tal nome: Vida. O humano é algo complexo, definido por jogos constantes de poder, de inteligência e, por mais que certos neguem, de emoção. Gostamos das coisas. Das pessoas. Dos dias. Das noites. De doce. De salgado. E mais do que isso, gostamos de gostar. Gostamos tanto de gostar e desejamos tanto desejar que nos definimos por isso. Muitos negam, mas o humano é interesse. Não aquele interesse bobo que colocam na palavra interesseiro. Todos somos interesseiros. “Meu interesse é continuar vivendo, por isso como”. Um dos nossos maiores interesses, este mesmo, continuar vivo, está intrinsecamente disposto no próprio mecanismo de nossos cérebros. Entretanto, mesmo que este seja mesmo um mecanismo, o transpomos. Na verdade, o transpassamos. Ultrapassamos o – como dizem esses tão prolixos tecnófilos – nosso software e o nosso hardware. Somos mais. Assim como lobos, somos capazes de amputarmos nossas pernas e braços para sobreviver, assim como somos capazes de devorar nossos iguais a fim de que possamos procriar mais uma geração, mesmo que ainda existam outros seis bilhões de espécimes humanos. Entretanto, a natureza, antes, talvez, do próprio Deus, nos deu a capacidade de abstrair. E abstraindo…

Daí decapitar uma mulher que jamais conhecemos para que possamos reanimar um ente querido se torna fácil. Exterminar sistematicamente uma outra raça, credo, classe social se torna realmente muito fácil. “Os judeus é que são o problema”, era muito dito há 70 anos atrás e ainda é dito hoje em dia (once a nazi, always a nazi).

Talvez eu tenha essa percepção de maneira ainda apressada. Talvez a pesquisa realmente valide outras idéias. Entretanto, no momento, penso o seguinte, calcado em minhas conclusões prévias:

Abstraindo o homem chegou até onde está.

Entretanto, de tanto abstrair, acabou abstraindo a si próprio e descobrindo que o mundo pode continuar existindo com inteligência, cultura, tecnologia e progresso sem que sua existência seja um requisito.

Eu não sou o mais carola. Nem me considero ateu. Mas penso que a existência ontológica de Deus, de certa forma, nos coloca em nossos lugares. Pecadores inadvertidos que parecem almejar a próprio destruição. Vejo que muitos imaginam nossa existência como algo supra-natural. Como se o que fizéssemos transpassasse ou superasse a natureza. Nós, homens, somos a natureza. Aquecimento global, destruição do meio ambiente, tantas outras tormentas naturais fizeram isso, eliminaram milhares de espécies. Não sei, penso como no provérbio. Deus, ou o próprio universo, tem a qualidade essencial de ser o mistério…

Nós é que devíamos ter mais a qualidade essencial de desvendá-los, ao invés de simplesmente utilizá-los…

5 Respostas

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  1. Cleon Gostinski said, on 07/26/2008 at 4:09 pm

    “Entretanto, de tanto abstrair, acabou abstraindo a si próprio e descobrindo que o mundo pode continuar existindo com inteligência, cultura, tecnologia e progresso sem que sua existência seja um requisito.”

    Não estarias caminhando de encontro a concepção da ecologia profunda de Capra, ou serpententeando ao encontro das últimas posições de Maturana?

  2. Pedro Henrique said, on 07/27/2008 at 6:19 pm

    Muito além de Capra e Maturana. Estamos no reino da pós-humanidade. Estamos vivendo a real e soturna possibilidade de que criemos algo, à nossa imagem e semelhança, que nos substitua.

  3. bobbymadhatter said, on 07/28/2008 at 7:49 pm

    Olá!

    Sou novo aqui! Gostei muito do blog…

    Mas na verdade mesmo eu estou muito curioso pra saber como vc consegue colocar esses celinhos ai do lado.. ¬¬’
    O meu tbm é wordpress… e eu queria muito colocar o “diga não ao projeto do senador Azeredo”
    Você pode me ajudar?

    Obrigado!

    Abraço!

  4. Pedro Henrique said, on 07/28/2008 at 8:20 pm

    poderia ter deixado teu endereço e eu já te colocava nos favoritos.
    :P

    olha, eu faço da seguinte forma. Eu criei uma outra categoria de links, chamada extras, e daí ao invés de simplesmente colocar um novo link nessa categoria, eu vou até lá embaixo na página de add link e tem espaço pra colocar uma imagem como sendo o link. eu simplesmente subo as imagens no tamanho que eu quero pro próprio wordpress (via add image to post, no qual tu acessa tua biblioteca de mídia e pode adicionar até 3 gb de arquivos) e o endereço que o wordpress me dá de onde está imagem eu uso como imagem do link. eu os ordeno pelo nome do link.

    existem outras formas de fazer isso, mas neste template, e no wordpress eu ainda não descobri.

    apareça aí de novo e deixa teu endereço. e caso descubras uma outra forma ou tiver alguma dúvida de seguir o meu jeito também entre em contato.
    :D

  5. bobbymadhatter said, on 08/28/2008 at 6:27 pm

    Opá!… É, eu queria aprender a usar melhor o wordpress mesmo!

    ^^

    Sou novo aqui e só uso os recursos básicos!

    Estou comemorando as mil visitas hj!

    O link é: “www.cadernetadas.wordpress.com”

    ok?

    Então eu posso adicionar o seu aos meus favoritos? (blogroll?)
    Abrasss!


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