Enriquecer depois de morto
Eu odeio o Orkut. Odeio mesmo, acho péssimo. Na minha opinião, a única utilidade dessa tal rede social é fuçar na vida dos outros [o que todos fazem, sem exceção]. Never the less, eu ainda assim uso. Tenho lá meu perfil [que já foi deletado e refeito várias vezes] que se nega a ter mais de cem amigos [não tenho nem 40 amigos na vida real, é deprimente...]. Hoje, num acesso de tédio, fui lá entrar em algumas comunidades e ler algumas das merdas que se fala por lá, e não é que é bem com merda que me deparo.
Na comunidade dedicada a homenagear nosso querido Herbie M. McLuhan [aqui e aqui], encontro um tópico assinado pelo dono da comunidade, dizendo o seguinte:
Galera
Todos sabem q os e-books não rendem ao autor os direitos sobre a obra q ele tem direito.
Por isso, excluirei todas as postagens relativas a isso.
Compreendam por favor, q existem comunidades especializadas nesse tipo de ação criminosa.
Atenciosamente
J Z Sollberg
Então fiquei pensando. Herbie morreu em 1980. “Não rendem ao autor os direitos sobre a obra que ele tem direito”, até onde eu saiba, os mortos não sacam cheques, nem os de royalties.
Então fico pensando. Não será mais justo, com a humanidade e com muitos desses autores [do tipo do McLuhan], que tinham em seus corações melhorar o entendimento da humanidade, que tais obras sejam tornadas patrimônio do mundo e gratuítas? Tudo bem, se meu pai inventou a fábrica de Coca-Cola, quando ele morrer, continuarei com seu império capitalista e continuarei produtivo. Entretanto, que direito tem os filhos de McLuhan em enriquecer com os despojos intelectuais de seu pai? Ainda se fosse alguma obra póstuma, deixada para trás em alguma gaveta, mas se trata de uma obra que MATERIALMENTE já concedeu ao seu autor e sua família, quando este ainda em vida, riqueza, poder, influência e notoriedade.
Vejam as obras dos clássicos, Platão, Aristóteles, claro que é bem possível que existam descentdentes diretos e indiretos desses autores, entretanto suas obras são comercializadas por diversas editoras e sites, a preços irrisórios ou inexistentes, pois ninguém está ganhando direitos sobre essas obras.
Não é chegada a hora de percebermos que conceitos como open source, free, right to knowledge, redux e remix inferem [se não escancaram] que a lógica mercantilista não pode mais ser levada em consideração quando falamos de conhecimento? Claro, durante muitos séculos conhecimento realmente foi poder, e isto ainda vale hoje, em termos de inteligência militar, engenharia de produção, entretanto, em diversas outras áreas, se percebe cada dia mais que a cooperatividade, o acesso irrestrito, a inteligência coletiva, geram muito mais resultados do que aquele cientista ou investigador sentado em seu escritório escrevendo suas fórmulas matemáticas e descobertas em códigos ininteligíveis. Vivemos um mundo da coletividade e almejamos um mundo de coletividade. O conhecimento – seja do código de um software, seja de obras intelectuais – deve ser livre. Veja a medicina, obviamente se ganha dinheiro com grandes descobertas, entretanto, elas seriam inúteis se não fossem largamente disponibilizadas.
O mesmo vale para diversas outras áreas. Vejam o Jazz, por exemplo. Muitos de seus ‘autores’ estão mortos. Charlie Parker, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, nosso querido Chet Baker – do post anterior, entre tantos outros e, quando de suas mortes, deixaram direitos de suas obras para seus descendentes que superam as riquezas de muitos que trabalharam a vida inteira em setores altamente rentáveis. Enquanto isso, gerações inteiras – como meu irmão de 17 anos e vários coelgas e amigos da minha idade – desconhecem totalmente esses trabalhos e pouco se importam.
Fala-se de música ilegal, mas ilegal é manter o conhecimento, a arte, a beleza, a estética, trancafiada em lojas de músicas que te cobram 40 reais por uma mídia CD, enquanto que no super-mercados (onde é caro) custam pouco mais de um real. Como cobrar por algo que, a partir da tecnologia vigente, não pode ser mais preso?
Fala-se muito dos programas livres de computador, entretanto parece esquecido [e soterrado nos milhões de dólares das empresas fonográficas e cinematográfica] que vivemos uma época de libertação das amarras. Uma época na qual pagar um provedor de Internet e ter uma máquina com algum espaço [ou um gravador de mídia qualquer] permite acesso ilimitado ao conhecimento. E percebe-se a estreiteza da mente humana nesse início de milênio: enquanto que qualquer besteirada hollywoodiana, no dia de seu lançamento, já está disponível online para baixar em programas P2P, como torrents, obras literárias e poéticas (mesmo clássicos imortais como Shakespeare, Byron e Poe) dificilmente são encontradas em sites ou para download. O ser humano, ocidental, pelo menos, não vive só de comida, água, sociedade… vivemos de cultura. E quanto mais somos expostos à cultura mais conseguimos desenvolver cultura. E o que falta é a cultura da liberdade de cultura: livros, HQs, jornais, música, filmes, programas de TV, são partes intrínsecas de nossa cultura mais querida e deveríamos ter direito ao acesso ilimitado à elas.
Filmes ganham dinheiro com bilheterias, e mesmo quem baixa filmes em casa nunca deixa de ir ao cinemas. Música e os músicos jamais ganharam dinheiro com vendas de álbuns (vejam que o Roberto Carlos é um dos artistas no mundo que mais ganha com vendagem de discos e ele não ganha nem um dólar por disco vendido), sempre se ganhou dinheiro com aparições em programas de TV, merchandising e shows, principalmente shows. Artistas plásticos ganham dinheiro com a vendagem de seus originais e jamais perderão dinheiro com a disponibilização de suas obras na Internet. Programas de TV ganham dinheiro com propaganda, então porque não disponibilizá-los na rede gratuitamente como milhões de blogs e sites que ganham dinheiro exclusivamente da mesma maneira? E a TV ainda ganha com product placement. Jornais, revistas, HQs, além de consumirem preciosos recursos naturais (papel, tintas à base de petróleo e outros produtos químicos), também ganham dinheiro da mesma forma que blogs e sites, com anúncios. Já as obras literárias, que ganham dinheiro com as próprias vendagens dos livros é que se encontram no dilema: obviamente ninguém quer escrever um best-seller e não ganhar nada com isso. Fala-se em vender e-books, mas eles logo seriam transformados em versões piratas, indiferentemente das formas de proteção eletrônica.
A solução? É de uma maturidade tamanha que, penso agora escrevendo, talvez seja até tolice propor tal avanço moral e ético da humanidade. Claro, Paulo Coelho pode continuar vertiginosamente ganhando dinheiro com seus romances boca-de-bueiro, entretanto, quando de sua eventual e certa (e muito antecepada por este que vos escreve) morte, seus livros deveriam se tornar patrimônio do mundo. Afinal de contas, o mundo pagou por isto. Vejam em matérias de revistas e da Globo onde o “Mago” (nojo total) tem diversos apartamenteos, diversos carros, diversos barcos, diversas roupas. Seus espólios, claro, serão deixados para sua família, e isto deveria bastar. Não se deveria sustentar sua família durante anos devido aos seus feitos em vida. Entretenimento? Não, cultura. E cultura deveria ser de todos, disponível para todos, em qualquer momento e em qualquer lugar.
É um sonho legal, apesar de soar tolo e inocente. Sabemos que a humanidade não está pronta para esse nível de maturidade existencial, porém, não custa nada sonhar…
Enquanto isso Marshall vai descontando seus cheques no Heaven’s ATM.
E pra provocar, só porque é legal (provocar e disponibilizar coisas), uma músicas de duas “gentes” morta pro pessoal ouvir de graça. Eu só pago pra pessoas tocarem, não pra máquinas reproduzirem. Culpe o Edison. Aliás, Ella morreu em 1966 e Louis em 1973. 42 e 35 anos respectivamente. E a coletânea na qual está esse disco é de 1977.
Ella Fitzgerald e Louis Armstrong cantando Let’s Call the Whole Thing Off, certamente, uma das minhas favoritas.

