Compactuando a Macomunagem
Algumas relações entre coisas do mundo são feitas por sua simples obviedade, entretanto outras são de uma abstração tão grande que podem francamente beirar a idiotice ou loucura.
Peguemos o “Senhor” Isaac Newton. Até então, obviamente tudo cairá na terra. Se pegassemos uma pedra, e a lançassemos para o ar, num ângulo de 90 graus, digamos, ela certamente subiria, pararia por um pequeno instante no ar e cairia. Uma gota de água escorreria lentamente até o chão, uma maçã, eventualmente, se despreenderia de seu galho e cairia. Newton, porém, pensou essas simples observações de uma forma bem diferente, alterando, poderíamos dizer, os eixos das forças. Não era a maçã que caía, era o Planeta Terra que a puxava.
Pros tempos de Newton, loucura total, como diriam alguns amigos meus. Hoje somos totalmente cercados por um mundo técnico-científico construído ao redor destes princípios; até certo ponto, nós mesmos somos moldados por esta mudança no entendimento de como a realidade opera.
O que quero dizer, é que nossa percepção da realidade, suas conexões principalmente, às vezes nos escapam totalmente, deixando-nos simplesmente levar por fabulações, glorificações e principalmente parcialidade. Obviamente um católico ferrenho não pode e nem jamais poderia acreditar em Darwin: não existiram 60 milhões de anos; a idade teológica do universo é, e sabe-se, infinitamente menor que isso.
Mas não pára por aqui. Esse tipo de, chamemos, fabulação acontece nas mais variadas categorias. Eu, pessoalmente, tenho uma preferência pelas fabulações do tipo B, sofisma. Como, de certo forma, anda rolando nas terras do cáucaso. Eu digo que o russo é bobão, sempre foi bobão e não quer parar de ser bobão. O russo diz que eu que comecei sendo bobão muito antes, que eu nunca deixei de ser bobão, e que as bobagens tem que parar. Ou o Bush dizendo que é deplorável dois países de Segundo Mundo, um deles com, se não me engano, a maior frota de tanques militares do mundo, trocarem umas bombinhas bem no meio dos Jogos Olímpicos.
De certa forma, essa fabulação incrível é uma sofisma por induzir ao erro de pensar que as coisas, de fato, estão acontecendo num plano linear e cartesiano, de causa e conseqüência, causa e conseqüência, causa e conseqüência até o final dos tempos quando na verdade, estamos falando de pessoas. SERES HUMANOS. Com desejos e vontades que superam e sublimam causa e conseqüências. Na verdade, este é, segundo algumas pesquisas, uma das maiores causas de doenças psicológicas e ligadas ao estresse: sublimamos nossa capacidade de sofrer, esquecendo a dor propositalmente ela fica guardada numa caixa num canto muito, muito escuro. Detesto essas transposições de psicologia para sociologia ou psicologia social, mas nações, povos, grupos sociais, de certa forma também operam nesse eixo de força: a opressão assim como a tortura sempre terá seu breaking point quando, mesmo vivo, o torturado já está morto. E mesmo morto, o torturado vive.
A liberdade quer acontecer tanto quanto a opressão e ambas agem no mesmo eixo, eu penso.
E isso, também a meu ver, nos leva aonde eu queria chegar, que é o lado sombrio desse entendimento: queremos encontrar os espiões, aqui na China, porque eles estão impedindo o governo de nos dar melhores vidas. A mentira (verdade) da opressão e a verdade (mentira) da liberdade andam de mãos juntas não no soldado dentro do tanque russo invadindo uma cidade georgiana, nem nas tropas de elite americanas tomando conta do jardim-da-infância chamado Iraque, elas estão sempre trocando pés nas estrada de ouro do imaginário humano. Vemos as coisas maiores do que são. Menores do que devem. Temos certezas científicas sobre coisas que daqui dez anos serão absurdos científicos. Erros e fraudes científicas, além é claro, da óbvia miopia inerente ao ser humano, acontecem todos os dias, mas o mundo continua acreditando nas pesquisas, estatísticas, objetivações e quantificações do gado humano, da reação química sociedade e do desenvolvimento viral de ditaduras e guerras.
Mas nem precisa ir tão longe: o próprio discernimento das pessoas já faz essas conclusões absurdas, essa demonização/glorificação das coisas, como a ciência faz com vegetais, gorduras, exercícios e hábitos. O pulo e a objetivação são as coisas mais comuns. Como se objetiva as ligações e conseqüências de nossas atitudes quando, a subjetividade delas indica certamente uma resposta alternativa.
E eu um questionamento:
Quem é o criminoso quando um adolescente norte-americano, branco, de classe média-alta, compra numa grande loja como Wal Mart, a preços acessíveis, uma calça jeans que foi produzida por uma garota de 14 anos numa fábrica na China que paga seus funcionários menos de 0,15 centavos de dólar por hora de trabalho com jornadas de trabalho que podem chegar a 20 horas diárias? Quem é o vilão quando a gente vai até o camelô do centro de Porto Alegre e compra algum produto, como um pequeno rádio de pilha pra ouvir o jogo no Estádio, e este produto foi contrabandeado do Paraguai, onde chega a preços rídiculos, vindos da mesma China, numa fábrica, digamos, ao lado daquela primeira? Não seríamos TODOS nós, em todos os níveis, culpados ou no mínimo coniventes e patrocinadores desse sistema?

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