Übermensch by Debord: edição olímpica
Este blog surgiu a partir da minha emergência pessoal em extravasar certas idiotices, tragédias, crimes, entre tantas outras coisas que acontecem normalmente no dito mundo do conhecimento que vivemos hoje.
Aquém da tecnologia e de suas repercussões práticas, sociais ou culturais, minha preocupação sobre as formas de transcendência do Homem não são exatamente ligadas aos fenômenos que ensejariam em si esse evento; minha ‘pulga atrás da orelha’ é sobre algo talvez muito mais complexo que se relacione diretamente com um imenso número de disciplinas e escolas de pensamento. Desde psiquiatria e psicologia (inclusive social), medicina, biologia, neurologia, sociologia, fisolofia, comunicação. Como pode? Simples. Minha preocupação tem suas raízes nas palavras do francês que disse muita besteira mas evocou o mundo do estudo aprofundado de tudo que é essencialmente Homem a decifrar uma senha irresistível: o espetáculo.
2008 será, com certeza, lembrado durante muito tempo como um dos anos mais fundamentais dessa década de 00 do séc. XXI e, coerentemente, esta década será lembrada – penso – como a derradeira parteira da lógica humana do esvaziamento espetacular. Claro, 2001 e seus prédios flamejantes ganham a corrida, entretanto 2008 reforça o que a fronteira final rompida no primeiro ano do século. O ano kubrickiano – se me permitem – anunciou não o nascimento da vida inteligente, nem o varar humano através do tecido do universo; ninguém mora na Lua, não há menir negro nem Hal. Nada foi vivido secretamente, acabando em psicodelia. O espetáculo foi para grande público; o menir, na verdade, existiu: de vidro, concreto e metal decretou que este século seria regado a muito sangue, muita guerra, muita tragédia, muito engodo, muitas meias verdades e verdades totalmente mentirosas. Três aviões, dizem, se chocaram contra pontos estratégicos naquele dia… mas ninguém fala muito daquele que aparentemente, ao se chocar, evaporou como a esperança de que o tão antecipado século XXI fosse de esperança, de descoberta, de superação.
Superação, por enquanto, só jamaicana. Tantos teóricos e suas teorias de remixes, de tragédias culturais, de redenção eletrônica e o mundo está crescentemente se admitindo falho e pesado demais: russos, americanos, chineses, japoneses… até mesmo franceses, espanhóis, alemães e tantas outras nações ditas evoluídas, cultural e tecnologicamente avançadas esbarram cada dia mais e mais nas idiossincrasias de seus povos e da própria humanidade. Até no Canadá – país reconhecido por seu pacifismo, retidão e bom senso – se afoga cada dia mais no que alguns chamam de vírus norte-americano mas que eu digo ser próprio do Homem.
E enquanto isso, continua o espetáculo do super-homem. Não, o übermensch de Zaratustra não vem para salvar, para redimir, ele nem mesmo veio para substituir o Homem. O Super-Homem veio realmente a cárater, veio com dança, show e ginga para divertir. Para o totalmente desnecessário. Um ônibus espacial, quando de seu lançamento, precisa atingir a absurda velocidade de ONZE QUILÔMETROS POR SEGUNDO para conseguir escapar da gravidade da Terra e se lançar ao espaço. Entretanto, grande assombro porque apenas um homem – que não é Homem – consegue correr 200 metros em menos de 20 segundos. São 10 metros por segundo. Claro, é absurdo e, em termos, muito louvável. Como superação dos limites, prova da irrefutável capacidade não só evolutiva como emocional e física do Homem – e do homem, Usain Bolt. Mas o que fica, pelo menos para mim, é sempre a contínua espetacularização.
Repórteres nas cidades desertas da Ossétia do Sul, praticamente aos prantos contidos. O recorde histórico de Bolt fica obscurecido pelas acusações de dopping, pela sua, segundo críticos, falta de sentimento desportivo, ao comemorar sua vitória nos 100m antes mesmo de cruzar a linha, pela comparação inevitável com Michael Johnson. Libertem o Tíbete. Satélite iraniano. Milhares de baixas militares americanas no Iraque. O invade/não-invade da Geórgia. As repercussões reais, e diretas, desses eventos raramente são sentidas pela população em si. E quando Chávez toma a fábrica de cimento ou a refinaria de petróleo, o povo continua pobre, continua tendo que trabalhar, porém fica a imagem do povo celebrando, do show da democracia torta. E tudo é show. Britney no seu melhor: show. No seu pior: show. A mediação entre nós deixou de ser sobre aspectos realmente FULMINANTES. O aspecto volátil do Homem se reconstrói na repetição à exaustão de imagens, ditas pelos próprios narradores e apresentadores, como espetaculares. E o que, penso eu, poucos teóricos prestam atenção é no fato de que isso, assim como qualquer tipo de diarréia, espirra pelo vaso inteiro e se for no chão, bá, daí escorre pra todo lado. A gravidade insuperável das citadas idiossincrasias do Homem leva tudo para todos: o espetáculo esguicha para a vida cotidiana, plural e simples das pessoas. A roupa, o cabelo, o marido, o carro, a casa, o emprego, estudos, os amigos, jantares, festas, conhecidos, comidas, bebidas, drogas, música, gostos, atitudes, pensamentos, idéias, sonhos, aspirações, ambições, desafios, dificuldades, doenças, religião, lazer, entretenimento, cultura, consumo, arrependimentos, orgulhos, até a maldita pasta de dente, tudo se torna, essencialmente espetáculo. Se não totalmente, pelo menos sujo e corrompido por ele.
“Minha roupa é um show para os outros”, eu ouvi certa vez quando recém começava a sair, beber, namorar. Esse individualismo que todos falam não pode estar mais distante de ser verdade: precisamos desesperadamente dos outros. Seja para validação, seja pela inveja. O sexto pecado capital, tão dificilmente comprovado – até porque raramente se vê alguém dizendo “fiz tal coisa por inveja”, “tenho inveja de fulano” – corrobora, em certos pontos, a minha tese. Ninguém quer ser o Super-Homem, ninguém – a não ser por alguns atletas muy bien intencionados – que ser Usain Bolt. Queremos olhá-lo à exaustão. Queremos gastar sua imagem com nossos olhos, corroer seus méritos com nossa admiração/inveja, axioma nominal da contemporaneidade.
Então, o ciborgue, messias filosófico, inteligência artificial, ser de energia, espírito iluminado, Buddha, Jesus, pra mencionar a predição broadwaydiana, se tornou espetáculo, show, concerto, peça, evento. O Fait Divers de Barthes, com o relógio dos Power Rangers, diz: “It’s morphing time” e tudo que era fato diverso, buraco na rua, homem morde cachorro, pode potencialmente se tornar o maior espetáculo do mundo, ou no mínimo da nação. Isabela. Semanas antes de seu pai e madrasta a precipitarem pela grade da janela, outra menina, em algum lugar esquecível do país, era libertada de um cativeiro de anos onde era torturada, humilhada, tratada como escrava. Isabela caiu para a morte, rápida e midiaticamente interessante. A pobre garota sem nome, carregará para sempre as cicatrizes de seu sofrimento. Mas ela era pobre. Ou pelo menos pouco mais que pobre. Isabela era neta de gente importante. Filha de playboy. Eu também posso me definir como playboy, mas pelo menos estudo. Diferente do pai de Isabela, que por não se formar em Direito – ou talvez esse seja a exata razão de não ter se formado – não conseguiu mentir suficientemente bem. Mas isso é além do ponto. Quero é definir a questão de que ele, o papai e a madrasta malvada, são o pós-humano também. “O que eles fizeram com a filha nenhum ser humano faz”, dizia uma velhinha em protesto, na época, em frente a casa em que estavam os algozes da menina. Isabela era humana, mas seus pais não. Eles eram o que convencionei chamar de Übermensch by Debord, o espetacular super-homem. Além dos limites da compreensão social, cultural, científica, assim como os tantos assassinos seriais, assim como as tropas russas posando para as fotos da BBC mostrando seus possantes tanques, carteiras de cigarro, pistolas e infímos órgãos sexuais.
E fica o show de Bolt, repetido ao infinito, para retornar, como tudo retorna desde o séc. XVII, quando outro Johnson, outro Bolt, outro qualquer superar…

