Ubermensch by Debord

Encerra-te, Olimpo

Publicado em despise for humans por pedro em 08/25/2008

Seguindo na esteira da Lúcia, também me presto a um post de encerramento das Olímpiadas.

Bom, como é de praxe o Brasil foi, no mínimo, inexpressivo nessas Olímpiadas. Sua maior vitória não foi nos pódios nem nas quadras ou pistas: foi uma vitória de gênero. As mulheres, e a mídia genial brasileira percebeu isso rapidamente, se saíram melhor do que nunca. Ouro no salto em distância, ouro no vôlei feminino (e muito bem merecido)… mas o que fica mesmo são os gostos amargos de derrotas simplesmente inexplicáveis.

Falou-se de dopping, eu falo em entregar o jogo. Futebol feminino parecia cusco em tiroteio. Vôlei masculino parece ter ganho cachê pra entregar o jogo pra um time tecnicamente igual, pouco criativo e que superou o Brasil em cima das suas ineqüitudes: não conseguiram, apesar da transparência da rede, perceber o jogo dos americanos e simplesmente permitiram que eles continuassem sem que nada fosse feito além de saques forçados.

Eu acompanhei muito dos jogos, pois estou numa espécie de férias que infelizmente acabaram ontem, e pude ver que, como no post da Lúcia diz, o Brasil peca em envolvimento. Tanto emocional quando físico com os esportes. Os jogadores parecem estar eternamente desequilibrados emocionalmente e o esporte em si parece estar eternamente desequilibrado fisicamente. O que quero dizer? Bom, o apoio material aos esportes, e é sabido, sempre se limita aqueles esportes mais, digamos, bem sucedidos. Vôlei, tanto de quadra como de praia, futebol, judô… enquanto isso outros esportes, que o tipo físico brasileiro poderia privilegiar, ficam na mesma. Falou-se do Sr. Bolt e da Sra. Jamaica e o que acontece lá é uma institucionalização do esporte. Ele não é só esporte; faz da parte da vida mental, física, econômica, social do país.

O grande vencedor desses jogos foi a própria China com sua meia centena de medalhas e seu “Show Olímpico”. Mas o grande perdedor foi o mundo (como aponta nossos queridos da NovaCorja.org): muitos – mais do que se imagina – se recusaram a perceber a malevolência e ditatorialismo do governo chinês, preferindo a visão midiática, não-etnocêntrica do “deixe eles viverem como querem”. Descobriu-se que mais de 30 pessoas, só em Pequim, foram expulsas das imediações da cidade ou presas em seus domicílios. Só se imagina quantas mais ninguém vai ficar nem sabendo… quantas não estão mortas ou sendo torturadas nesse exato momento por algo tão simples quanto protestar. A derrota foi, e não em termos, do mundo inteiro. Rússia e Geórgia que o digam. Perdemos todos pela legitimação continuada de todas as formas do mal; aquele mais de “fora direitos humanos” do que bíblico. No grande esquema das coisas, Cezão Ciello e seu ouro inédito ficam esmaecido pelo ofuscante brilho dos fogos de artifício montados por crianças, do lancinante ardor dos trabalhadores que possibilitaram o ‘milagre olímpico’ e foram expulsos de Pequim e de outras localidades sem seus salários, depois de centenas de horas extras para terminarem os estádios e facilidades em tempo.

Como soviéticos, americanos e nazistas, os chineses cometem novamente o maior erro da humanidade: acreditar na sua própria catequese de superioridade e infaliabilidade. E para tal, como sempre, fica o tótem (no sentido mais acadêmico e simbólico possível): o prédio da televisão pública chinesa, estagnado em meio a Pequim. Figurou durante todos os jogos nas vinhetas de dezenas de países e agora é a lembrança eterna, para o mundo e para a China, de que nem eles e seu governo autocrata maoísta podem tudo. Corrupção, desvio de recursos e paralização dos operários são algumas das respostas ocidentais para a falha chinesa. Legitimados por suas tantas medalhas, a China parece resignada em sua soberania. Agora, ao final dos jogos o ocidente parece mais temerário e finalmente começa a, clara e didaticamente, revelar os reais dados sobre o país de quase dois bilhões de pessoas e eles são assustadores.

A crescente classe média chinesa (risos) hoje tem pouco mais de 100 milhões de membros.

Pouco mais de 7% da população. Se acreditarmos nos dados estatísticos fornecidos pelos próprios chineses.

E esta nova classe intrinsecamente capitalista, nem começa a ser comparável com classes semelhantes em países como França, Alemanha ou mesmo Estados Unidos. Presa entre o governo inatingível e a massa imóvel, jamais chegará ao poder efetivamente, relegado aos “partidários” e seus próprios interesses que podem (ou não) serem os mesmos da classe intermediária da sociedade chinesa.

Enquanto isso, 93% da população transita na faixa inultrapassável dos 0,13 (ou um pouco mais) centavos de dólar por hora de trabalho. Reside na estagnação de praticamente um mundo inteiro de pobreza, ignorância e doença em fábricas supridas pelo óleo sujo (se é que o óleo ainda pode ser mais sujo) do Sudão e seu genocídio miniatura. Riquezas infindáveis acumula o país da Grande Muralha, todas oriundas de suas exportações agora tão necessárias para a tecnocultura capitalista; onde estaríamos se chips, tênis, calças jeans fossem feitos por mão-de-obra com direitos?

O mundo, então, jubila-se recebendo a China como nova imperatriz do esmagamento das massas. E o prédio da televisão pública chinesa fica como o marco disso: até os sistemas de censura e manipulação mais avançados e institucionalizados não garantem 100% de aproveitamento.

E enquanto eu escrevi esse post, centenas de calças jeans foram feitas, todas pelo preço de uma numa loja do Shopping Iguatemi.

Uma resposta

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  1. Lúcia said, on 08/26/2008 at 12:52 pm

    a questão que mais me deixa de cara com o desempenho brasileiro – que não foi nada de mais mesmo – é a indignação que as pessoas ficam pelas derrotas (como se estivessem surpresas que o país não tem chances em todos os esportes). Ninguém se importa se a ginastica olimpica (artística dammit) ganha campeonatos fora da olimpíada, não faz a menor diferença pra ninguem mesmo que sejam competições importantíssimas, mas na olimpiada todos querem ouro, não importa o que o atleta fez fora disso, essa é a unica competição a que dão valor
    É claro que alguns resultados poderiam ser melhores, Diego Hipolyto, o futebol feminino, o volei de praia (o volei masc de quadra na minha opinião foi um simples caso de que não se pode ganhar todas), mas não é justo colocar todo o peso do mundo nessas pessoas quando a condição que muitos tem pra trabalhar é muito ruim.
    Tem muita culpa tb a mídia que coloca como se todos tivessem grandes chances, embora em muitas categorias não tenham a mínima condição, mas colocam como se fossemos uma potencia, e as pessoas acreditam.


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