Megaloi Logoi
Em Homero, a palavra de ordem era Aien aristeuein kai hypeirochon emmenai allon (”ser sempre o melhor e destacar-se entre os outros”).
Arendt, entre outros, cita isso como acontecimento da Antigüidade porém, numa percepção pessoal, vejo que esse moto, de certa forma, em sua essência, continua vivo e forte no conjunto tanto da esfera pública, como da esfera social e privada.
Na Ilíada, durante o discurso da Fênix, diz-se: mython te rheter emenai prektera te ergon (”teu pai encarregou-me de ensinar-te tudo isto, para seres um dizedor de palavras e um fazedor de feitos”).
Os lemas e ideais da Antigüidade parecem ainda muito vivos na sociedade ocidental contemporânea. Claro, são reduxes e distorções. Não são tradições naturalmente carregadas pelos vinte séculos que nos separam. Foram encontrada, trazidas de volta e reinterpretadas. As unidades familiares, hoje, delegam à instituições, profissionais da área médica/psicológica, ao governo a certeza da infaliabilidade de seus genes. Ou seja, pais e mães delegam a instrução de suas proles para outros, sejam eles instituições ou profissionais especializados. A fênix, há mais de 2 mil anos, também era o delegado da instrução para a ágora e para a guerra. Como as universidades hoje são a instrução para a ágora e o exército – por exemplo o dos Estados Unidos – são para a guerra.
Claro que a ágora desapareceu, por mais que centenas de críticos, teóricos e políticos teimem em considerar a democracia transviada em despotismo da maioria como a revalidação ou evolução do modelo grego. Tantas outras instituições, invenções e colóquios tentaram ao longo pelo menos do último século substituir o lugar da ágora. ONU, parlamentos, Internet, entretanto, mesmo que esses o sejam, uma ágora redux, verdadeiramente não há a instrução para tal.
A instrução, tanto para a possível ágora quanto para a inevitável guerra, agora, figura como esvaziada de conteúdo. Ela denota um maquinismo, uma busca por eficiência. Tanto faz o que se sabe, desde que o que se sabe seja usado de maneira socialmente útil, lucrativa.
Nossa sociedade, figura, nem que em parte, como uma meritocracia. Até no front do tráfico de drogas, quanto mais bem sucedido se é nas funções e deveres designados maior a probabilidade de que lhe sejam confiados cargos e funções com maior retorno de recursos (financeiro) ou mesmo de influência (poder). O lema dos heróis homéricos continua (risos) homericamente presente na sociedade: ser o melhor, melhor que os outros. E percebe-se claramente que nossa sociedade é sim voltada essencialmente para isso. Obama e McCain não disputam votos mas a percepção de quem já é verdadeiramente o melhor, os votos serão a mera representação disso.
Isso é tão premente e urgente que está estampado em todas as searas da vida contemporânea ocidental e, em muito, oriental também. A competência é o representante máximo da (risos) máxima homérica. E este entendimento sobre o objetivo e sobre a condição humana, claro, perpassa o que hoje conhecemos como cibercultura, front derradeiro da evolução tecnológica e relacional.
Expressões como “technologic literacy”, “tech-savy” e mesmo a quantidade absurda de cursos, aulas, livros, conhecimento em geral requisitada e colocada a disposição desse entendimento é assustadora. Como Ballard diz em seu livro “Introduction to Crash”, ou aprendemos essa língua ou nos mantemos mudos. E o silêncio oriundo da ilusões coletiva de que a própria cibercultura permeia a socieadade em sua totalidade é a mais assustadora das distorções pós-modernas. Fala-se de inclusão digital, mas o que se vê na realidade é uma IMENSA POPULAÇÃO que é profundamente tecnologicamente analfabetizada e um população tecnologicamente inserida mas que peca em perceber as conseqüências e reverberações dessa situação.
O porteiro do prédio dos meus pais, meu antigo prédio, que trabalha lá há dez anos, que possuí diversos cursos profissionalizantes, ensino fundamental e médio, certa vez me perguntou onde ele deveria ir pra entrar na Internet. Numa aula da Fabico, uma colega de alto nível intelectual e acadêmico, numa certa apresentação de um seminário sobre alguns textos referentes a cibercultura, diz, em frente a toda a aula e com pulmões cheios que “cultura é algo que a gente escolhe”.
A fênix da Ilíada não poderia ser capaz de instruir tanta ignorância e nem seria capaz de orientar os conceitos com a finalidade de que eles sejam acessíveis. Mesmo as pessoas que são “tech-savy”, que possuem extensos e profundos conhecimentos sobre a marcha da tecnologia informática parecem estar totalmente desprovidas das facetas, conceitos, categorias e noções necessárias a compreensão de um fenômeno amplamente social e de sociabilidade. Indaga-se muito sobre a tal Interação Mediada por Computador quando a interação direta ainda permanece um sombrio e evasivo mistério. Coloca-se demasiada importância em certos aspectos profundamente tecnófilos quando o aspecto humano é que baliza esses fenômenos. Mesmo em áreas diversas da minha (comunicação, sociologia, filosofia) como economia, política, medicina, farmácia, ciências exatas e “duras” em geral e mesmo as ciências informáticas e da informação se carece de um alfabetismo filosófico.
Percebe-se a máquina; ignora-se o homem. O problema é de ordem técnica, mas nem a técnica é um problema de ordem técnica. Então onde ficamos?
and I admit that I ain't no angel I admit that I ain't no saint I'm selfish and I'm cruel but you're blind if I exorcise my devils well my angels may leave too
and when they leave they're so hard to find

Tá, hj tu exagerou um pouco na dose de pessimismo, mas concordo em parte, ainda mais com a grande panacéia da inclusão digital… mas isso fica pra outro dia q estou aqui corrigindo trabalhos rs
hehehehhehe…
é que eu to lendo Hannah Arendt, Platão, Rüdiger, Steve Matrix…
então estou propenso ao exagero…
Mas nem todo exagero é exatamente um exagero… As vezes é só um ponto de vista!
^^
hehehehe
Cara, com relação à entrega do artigo, não sei dizer a data. Já entreguei o meu.