Atchim
Não estou pra dizer que a medicina socializada brasileira é a oitava maravilha do mundo, quero simplesmente levantar a questão mais fomentada na mídia nos últimos tempos nos EUA.
Não vou babar o ovo do Obama também, até porque tenho um post que estou acabando sobre ele que quem gosta dele não vai gostar.
Meu propósito aqui não é nem mesmo apontar pensamento político, é apenas uma análise do discurso que anda sendo jogado pra todos os lados principalmente pelos republicanos.
Vendo os senadores (principalmente) falando na CSPAN, exaltados nos recortes da CNN e do Daily Show, eu não consigo evitar de ficar totalmente chocado. E não é um choque político, é um choque moral. A imoralidade (porque quem quer que leia vai ter que me desculpar, é a única palavra que cabe nessa situação) desses homens e mulheres ultrapassa todos os limites. A maior parte deles, os mais vocais, pra dizer a verdade, emitem o seguinte argumento: a proposta de Obama consiste numa burocratização do sistema de saúde, aonde um burocrata estará a cargo dos serviços de saúde da população e, por causa disso, você passará por um processo de seleção e não conseguirá o tratamento (sejam cirurgias necessárias, eletivas ou apenas remédios).
A questão é a seguinte: não sou um adorador de Michael Moore. Tendo feito meu trabalho de conclusão da graduação sobre um de seus filmes e o tendo pesquisado extensamente, o acho um idiota. Um simplista que procura usar as mesmas armas da direita conservadora para provar argumentos da esquerda liberal. Não passa, portanto, de mais um ideologistazinho despreperado. Mas é divertido, não posso negar. Seu filme Sicko, na verdade, não é nenhuma novidade (fora os exageros e mentiras grosseiras): há muito já se sabia, através até mesmo de sériezinhas de TV que o sistema de saúde norte-americano tem problemas graves da ordem humanística. Ela consiste, simplesmente, no fato de que num determinado momento se optou pela forma privada de saúde: ao invés de um sistema pública, pago através de impostos, cada pessoa escolhe sua própria seguradora. Até aí, tudo bem. O que me incomoda é que não é nada difícil encontrar corroboração para histórias parecidas com que Moore espetaculariza: o sistema vigente HOJE nos Estados Unidos consiste na falta de liberdade de escolha e de acesso, pois existem dezenas de processos de seleção e avaliação executados por burocratas.
Ou seja, os senadores republicanos, oposicionistas ao plano de saúde universal, estão alertando, na verdade, para uma realidade que não é latente, nem virtual; o sistema de saúde privada já funciona dessa forma. A prioridade do lucro faz com que burocratas que agenciam a saúde da população busquem formas de negar atendimento, de todas as formas, geralmente resultando em danos irreversíveis à saúde.
Eu poderia me lixar ainda menos pra isso. O mundo em que vivemos, que, na verdade, aristotelicamente falando, é o mundo que construímos para nós mesmos, é inegavelmente cruel. Não apenas na sua natureza inevitável (morte, doença, as fragilidades e limitações do homem), mas também na sua ordem racional engendrada por nós. Eu me lixo, falando assim coloquialmente, para o que em certo tempo poderia ter sido chamado de discurso do aburso ou discurso absurdo (Camus), mas que eu chamaria de discurso esquizoide. O que talvez pudesse ser chamado de trégua ideológica (Adorno/Horkheimer) aparece mais, na contemporaneidade, como uma estranha esquizofrenia ideológica e discursiva, pra não dizer midiática.
O outro lado não é santificado, de forma alguma. Os apoiadores (inclusive o senhor Obama) colocam suas fichas na aposta de que ainda seria possível uma medicina universal nos EUA. E, mais do que isso, que sendo possível, isso seria a resolução de problemas incríveis e levaria a nação mais próxima de uma nova era de ouro.
Dã, é a única coisa que me vem a mente. O Brasil – e foi por isso que eu comecei fazendo aquela ressalva – possuí já o modelo que Obama pretende instalar: o SUS é o sistema único de saúde, gratuito e livre para todos. Entretanto, ainda existem os planos privados de saúde. A rede pública de saúde (hospitais, centro de saúde, laboratórios) é incrivelmente não coesa: existem hospitais públicos de renome e outros que só podem ser descritos como caindo aos pedaços, quando ainda existem pedaços. A rede privada possuí hospitais muito bons (e falo principalmente aqui em Porto Alegre). Ou seja, é um sistema misto.
O que nós vemos? Minha ressalva era exatamente sobre isso. O Brasil não tem uma admistração de recursos passível de ser assim, tão levianamente comparada com a norte-americana. E mesmo lá, nos EUA, temos a condição de que não sabemos ao certo como e quanto dinheiro ao longo de quanto tempo será a medida da constituição da rede pública. Existem duas instâncias: de um lado o Medicaid, que já é o sistema público que existe lá para os idosos, e de outro a lógica de que os segurados por esse sistema são atendidos na rede privada que é paga pelo governo.
A passividade é, na verdade, a de que a formatação e a construção mesmo de um sistema que nem esse acarreta a possibilidade inegavel de corrupção. O próprio Medicaid já mostra indícios claros disso. Daí caímos na realidade de que essa projeção pode não passar de um sonho utópico, de tolice digna de um blá, blá, blá obâmico (a tão falada demagogia).
O que me leva ao ponto principal do meu interesse: a loucura total que está sendo a discussão política desse programa. Geralmente podia-se dizer, mesmo inserido diretamente no joguete político norte-americano, que um dos lados estava agindo em plena inocência. Democratas E Republicanos já foram chamados disso, entretanto me escapa um dado histórico sobre se isso já aconteceu simultaneamente. É isso que ocorre agora. De um lado temos os Republicanos, os direitistas conservadores, clamando que o projeto acarretará uma realidade que já é, e do outro lado temos os Democratas, os (no máximo dos máximos) centro-direitistas liberais (e às vezes nem tanto, né, senhor Obama), clamando que o projeto acarretará a mais magnífica era de ouro dos Estados Unidos.
Pelo menos desde de Gore vs. Bush que temos essa crítica de que ambos os lados falam, na verdade, a mesma coisa.
Não cheguei à conclusões sobre isso. A mídia (a perna do banquinho que faltava) ainda me parece estranhamente insegura sobre esses assuntos. Ao mesmo tempo em que existem comentadores fervorosos de ambos os lados, também existe um certo ar de dúvida não resolvida. Coloco essa questão para quem quer que leia, na verdade, não para formular respostas rápidas ou uma grande dissertação assertiva, mas para que também levem no seu cotidiano essa dúvida e esse inquérito.

