Ontem eu quase apanhei por ser mais inteligente? (com a interrogação fica menos arrogante)
Eu vou, depois, com mais calma, explicar essa história mais a fundo.
Mas vale mencionar:
Estavámos no Bambu’s, bebendo, rindo, conversando sobre amenidades e até algumas coisas importantes, tipo indústria cultural e a homegeinização cultural pela qual o Ocidente, e, marcadamente, Porto Alegre, vem passando nos últimos 20 anos.
Estava, portanto, falando, sempre amigavelmente quando um bando de cabeludos que estava ao nosso lado descaradamente ouvindo a conversa resolveram se meter. A princípio foi uma intervenção bem positiva e engraçada: o assunto era como a cultura de hoje fagocita tudo e quem acha que tá fora do ’sistema de produtos mercantilizáveis’ é inocente or plain stupid.
Então que começamos a falar sobre como os grupos étnicos foram sendo excluídos e inseridos nas sociedades ocidentais e, mais recentemente, também nas orientais. Estávamos falando sobre a China. Quinta-feira sendo o vigésimo aniversário de Tiananmen, apontavámos que a senzala hoje é a China: senzala que tem seus rumos dirigidos pelos próprios escravos – uma verdadeira comuna de trabalhos quase-forçados que sustenta o Ocidente capitalista e consumista-individualista com os tão necessários produtos industrializados.
Então um desses cabeludos começa a falar dos judeus, e de como eles estão sofrendo há 2 mil anos. Papo imbecil de um cara imbecil que nem sequer consegue perceber o claro anti-semitismo em seu discurso. 2 mil anos? Peraí, cara. Os judeus perseguiram cristãos. Colonizar a Europa. E só bem depois, só há mil anos é que começaram a ser, de fato, perseguidos da forma como seu discurso clamava acontecer ainda hoje. Hoje, eu disse, eles tem até um país só deles, cara.
No calor, o Floco e eu começamos a tirar com a cara do cara. “A história não é uma linha retinha, meu”. E daí eu disse: “cara, quando tu terminar tua faculdadizinha volta aqui e a gente conversa”. Ele começou a gritar e espernear e o Floco deu o golpe de misericórdia: “Que faculdade tu faz?” Quando o cara respondeu, com o peito cheio de total arrogância “economia”, eu e meu querido amigo caímos na gargalhada. “Cabeludo, metaleiro e faz economia”…
Nesse momento eu só vi o peito do cara se enchendo ainda mais e um de seus punhos que, francamente, eu nem vi direito qual, porque, francamente, nem prestei muita atenção no cara, levantando. Um dos amigos segurou ele e rapidamente o grupo desbandou.
“Digamos que o que permite tornar inteligível o real é mostrar simplesmente que ele foi possível”
Já dizia nosso bom Foucault lá nos anos 70. O que ele, assim como vários outros pensadores, falhou em perceber foi a ruína do pensamento cotidiano; quando discursos e ideologias estão tão desgastados pelo uso midiático, perde-se a linha-guia do pensamento. Qual é o real? Como mostrar que o real é aquilo que de fato aconteceu quando tem gente por aí negando a factualidade de certas coisas?
Não dá pra ser assim. Não é que todos tenhamos que pensar igual, mas não dá pra entrar em discussões sobre o que tu acha do céu ser azul… o céu é azul e pronto. Gostar, não gostar, achar, não achar, é IRRELEVANTE.
Relevante é considerarmos criticamente quais discursos são falsos e verdadeiros e que tipo de ideologia, discurso, sociedade, cultura, civilização, não apenas os permite como incita. A História tá lá, é só parar de ouvir Craddle of Filth ou Pantera e pegar um livro pra ler.
Ou melhor, Google.
O pior de tudo foi o cara me dizendo: “ah, tu não tem fundamento pra falar isso”.
Quem tem fundamento é tu, babaca. Tu e a tua faculdade canalha de crunchin’ numbers. Quer discutir o Dow? Vai fundo, disso tu sabe. Agora falar de condição humana, história das religiões e filosofia analítica, existencial e hermenêutica, porra, vai ler um livro antes, cara. Qualquer um. Te dou até umas dicas.
E repito:
“A competência e a perícia são proscritas como arrogância de quem se acha melhor que os outros
Encerra-te, Olimpo
Seguindo na esteira da Lúcia, também me presto a um post de encerramento das Olímpiadas.
Bom, como é de praxe o Brasil foi, no mínimo, inexpressivo nessas Olímpiadas. Sua maior vitória não foi nos pódios nem nas quadras ou pistas: foi uma vitória de gênero. As mulheres, e a mídia genial brasileira percebeu isso rapidamente, se saíram melhor do que nunca. Ouro no salto em distância, ouro no vôlei feminino (e muito bem merecido)… mas o que fica mesmo são os gostos amargos de derrotas simplesmente inexplicáveis.
Falou-se de dopping, eu falo em entregar o jogo. Futebol feminino parecia cusco em tiroteio. Vôlei masculino parece ter ganho cachê pra entregar o jogo pra um time tecnicamente igual, pouco criativo e que superou o Brasil em cima das suas ineqüitudes: não conseguiram, apesar da transparência da rede, perceber o jogo dos americanos e simplesmente permitiram que eles continuassem sem que nada fosse feito além de saques forçados.
Eu acompanhei muito dos jogos, pois estou numa espécie de férias que infelizmente acabaram ontem, e pude ver que, como no post da Lúcia diz, o Brasil peca em envolvimento. Tanto emocional quando físico com os esportes. Os jogadores parecem estar eternamente desequilibrados emocionalmente e o esporte em si parece estar eternamente desequilibrado fisicamente. O que quero dizer? Bom, o apoio material aos esportes, e é sabido, sempre se limita aqueles esportes mais, digamos, bem sucedidos. Vôlei, tanto de quadra como de praia, futebol, judô… enquanto isso outros esportes, que o tipo físico brasileiro poderia privilegiar, ficam na mesma. Falou-se do Sr. Bolt e da Sra. Jamaica e o que acontece lá é uma institucionalização do esporte. Ele não é só esporte; faz da parte da vida mental, física, econômica, social do país.
O grande vencedor desses jogos foi a própria China com sua meia centena de medalhas e seu “Show Olímpico”. Mas o grande perdedor foi o mundo (como aponta nossos queridos da NovaCorja.org): muitos – mais do que se imagina – se recusaram a perceber a malevolência e ditatorialismo do governo chinês, preferindo a visão midiática, não-etnocêntrica do “deixe eles viverem como querem”. Descobriu-se que mais de 30 pessoas, só em Pequim, foram expulsas das imediações da cidade ou presas em seus domicílios. Só se imagina quantas mais ninguém vai ficar nem sabendo… quantas não estão mortas ou sendo torturadas nesse exato momento por algo tão simples quanto protestar. A derrota foi, e não em termos, do mundo inteiro. Rússia e Geórgia que o digam. Perdemos todos pela legitimação continuada de todas as formas do mal; aquele mais de “fora direitos humanos” do que bíblico. No grande esquema das coisas, Cezão Ciello e seu ouro inédito ficam esmaecido pelo ofuscante brilho dos fogos de artifício montados por crianças, do lancinante ardor dos trabalhadores que possibilitaram o ‘milagre olímpico’ e foram expulsos de Pequim e de outras localidades sem seus salários, depois de centenas de horas extras para terminarem os estádios e facilidades em tempo.
Como soviéticos, americanos e nazistas, os chineses cometem novamente o maior erro da humanidade: acreditar na sua própria catequese de superioridade e infaliabilidade. E para tal, como sempre, fica o tótem (no sentido mais acadêmico e simbólico possível): o prédio da televisão pública chinesa, estagnado em meio a Pequim. Figurou durante todos os jogos nas vinhetas de dezenas de países e agora é a lembrança eterna, para o mundo e para a China, de que nem eles e seu governo autocrata maoísta podem tudo. Corrupção, desvio de recursos e paralização dos operários são algumas das respostas ocidentais para a falha chinesa. Legitimados por suas tantas medalhas, a China parece resignada em sua soberania. Agora, ao final dos jogos o ocidente parece mais temerário e finalmente começa a, clara e didaticamente, revelar os reais dados sobre o país de quase dois bilhões de pessoas e eles são assustadores.
A crescente classe média chinesa (risos) hoje tem pouco mais de 100 milhões de membros.
Pouco mais de 7% da população. Se acreditarmos nos dados estatísticos fornecidos pelos próprios chineses.
E esta nova classe intrinsecamente capitalista, nem começa a ser comparável com classes semelhantes em países como França, Alemanha ou mesmo Estados Unidos. Presa entre o governo inatingível e a massa imóvel, jamais chegará ao poder efetivamente, relegado aos “partidários” e seus próprios interesses que podem (ou não) serem os mesmos da classe intermediária da sociedade chinesa.
Enquanto isso, 93% da população transita na faixa inultrapassável dos 0,13 (ou um pouco mais) centavos de dólar por hora de trabalho. Reside na estagnação de praticamente um mundo inteiro de pobreza, ignorância e doença em fábricas supridas pelo óleo sujo (se é que o óleo ainda pode ser mais sujo) do Sudão e seu genocídio miniatura. Riquezas infindáveis acumula o país da Grande Muralha, todas oriundas de suas exportações agora tão necessárias para a tecnocultura capitalista; onde estaríamos se chips, tênis, calças jeans fossem feitos por mão-de-obra com direitos?
O mundo, então, jubila-se recebendo a China como nova imperatriz do esmagamento das massas. E o prédio da televisão pública chinesa fica como o marco disso: até os sistemas de censura e manipulação mais avançados e institucionalizados não garantem 100% de aproveitamento.
E enquanto eu escrevi esse post, centenas de calças jeans foram feitas, todas pelo preço de uma numa loja do Shopping Iguatemi.
Übermensch by Debord: edição olímpica
Este blog surgiu a partir da minha emergência pessoal em extravasar certas idiotices, tragédias, crimes, entre tantas outras coisas que acontecem normalmente no dito mundo do conhecimento que vivemos hoje.
Aquém da tecnologia e de suas repercussões práticas, sociais ou culturais, minha preocupação sobre as formas de transcendência do Homem não são exatamente ligadas aos fenômenos que ensejariam em si esse evento; minha ‘pulga atrás da orelha’ é sobre algo talvez muito mais complexo que se relacione diretamente com um imenso número de disciplinas e escolas de pensamento. Desde psiquiatria e psicologia (inclusive social), medicina, biologia, neurologia, sociologia, fisolofia, comunicação. Como pode? Simples. Minha preocupação tem suas raízes nas palavras do francês que disse muita besteira mas evocou o mundo do estudo aprofundado de tudo que é essencialmente Homem a decifrar uma senha irresistível: o espetáculo.
2008 será, com certeza, lembrado durante muito tempo como um dos anos mais fundamentais dessa década de 00 do séc. XXI e, coerentemente, esta década será lembrada – penso – como a derradeira parteira da lógica humana do esvaziamento espetacular. Claro, 2001 e seus prédios flamejantes ganham a corrida, entretanto 2008 reforça o que a fronteira final rompida no primeiro ano do século. O ano kubrickiano – se me permitem – anunciou não o nascimento da vida inteligente, nem o varar humano através do tecido do universo; ninguém mora na Lua, não há menir negro nem Hal. Nada foi vivido secretamente, acabando em psicodelia. O espetáculo foi para grande público; o menir, na verdade, existiu: de vidro, concreto e metal decretou que este século seria regado a muito sangue, muita guerra, muita tragédia, muito engodo, muitas meias verdades e verdades totalmente mentirosas. Três aviões, dizem, se chocaram contra pontos estratégicos naquele dia… mas ninguém fala muito daquele que aparentemente, ao se chocar, evaporou como a esperança de que o tão antecipado século XXI fosse de esperança, de descoberta, de superação.
Superação, por enquanto, só jamaicana. Tantos teóricos e suas teorias de remixes, de tragédias culturais, de redenção eletrônica e o mundo está crescentemente se admitindo falho e pesado demais: russos, americanos, chineses, japoneses… até mesmo franceses, espanhóis, alemães e tantas outras nações ditas evoluídas, cultural e tecnologicamente avançadas esbarram cada dia mais e mais nas idiossincrasias de seus povos e da própria humanidade. Até no Canadá – país reconhecido por seu pacifismo, retidão e bom senso – se afoga cada dia mais no que alguns chamam de vírus norte-americano mas que eu digo ser próprio do Homem.
E enquanto isso, continua o espetáculo do super-homem. Não, o übermensch de Zaratustra não vem para salvar, para redimir, ele nem mesmo veio para substituir o Homem. O Super-Homem veio realmente a cárater, veio com dança, show e ginga para divertir. Para o totalmente desnecessário. Um ônibus espacial, quando de seu lançamento, precisa atingir a absurda velocidade de ONZE QUILÔMETROS POR SEGUNDO para conseguir escapar da gravidade da Terra e se lançar ao espaço. Entretanto, grande assombro porque apenas um homem – que não é Homem – consegue correr 200 metros em menos de 20 segundos. São 10 metros por segundo. Claro, é absurdo e, em termos, muito louvável. Como superação dos limites, prova da irrefutável capacidade não só evolutiva como emocional e física do Homem – e do homem, Usain Bolt. Mas o que fica, pelo menos para mim, é sempre a contínua espetacularização.
Repórteres nas cidades desertas da Ossétia do Sul, praticamente aos prantos contidos. O recorde histórico de Bolt fica obscurecido pelas acusações de dopping, pela sua, segundo críticos, falta de sentimento desportivo, ao comemorar sua vitória nos 100m antes mesmo de cruzar a linha, pela comparação inevitável com Michael Johnson. Libertem o Tíbete. Satélite iraniano. Milhares de baixas militares americanas no Iraque. O invade/não-invade da Geórgia. As repercussões reais, e diretas, desses eventos raramente são sentidas pela população em si. E quando Chávez toma a fábrica de cimento ou a refinaria de petróleo, o povo continua pobre, continua tendo que trabalhar, porém fica a imagem do povo celebrando, do show da democracia torta. E tudo é show. Britney no seu melhor: show. No seu pior: show. A mediação entre nós deixou de ser sobre aspectos realmente FULMINANTES. O aspecto volátil do Homem se reconstrói na repetição à exaustão de imagens, ditas pelos próprios narradores e apresentadores, como espetaculares. E o que, penso eu, poucos teóricos prestam atenção é no fato de que isso, assim como qualquer tipo de diarréia, espirra pelo vaso inteiro e se for no chão, bá, daí escorre pra todo lado. A gravidade insuperável das citadas idiossincrasias do Homem leva tudo para todos: o espetáculo esguicha para a vida cotidiana, plural e simples das pessoas. A roupa, o cabelo, o marido, o carro, a casa, o emprego, estudos, os amigos, jantares, festas, conhecidos, comidas, bebidas, drogas, música, gostos, atitudes, pensamentos, idéias, sonhos, aspirações, ambições, desafios, dificuldades, doenças, religião, lazer, entretenimento, cultura, consumo, arrependimentos, orgulhos, até a maldita pasta de dente, tudo se torna, essencialmente espetáculo. Se não totalmente, pelo menos sujo e corrompido por ele.
“Minha roupa é um show para os outros”, eu ouvi certa vez quando recém começava a sair, beber, namorar. Esse individualismo que todos falam não pode estar mais distante de ser verdade: precisamos desesperadamente dos outros. Seja para validação, seja pela inveja. O sexto pecado capital, tão dificilmente comprovado – até porque raramente se vê alguém dizendo “fiz tal coisa por inveja”, “tenho inveja de fulano” – corrobora, em certos pontos, a minha tese. Ninguém quer ser o Super-Homem, ninguém – a não ser por alguns atletas muy bien intencionados – que ser Usain Bolt. Queremos olhá-lo à exaustão. Queremos gastar sua imagem com nossos olhos, corroer seus méritos com nossa admiração/inveja, axioma nominal da contemporaneidade.
Então, o ciborgue, messias filosófico, inteligência artificial, ser de energia, espírito iluminado, Buddha, Jesus, pra mencionar a predição broadwaydiana, se tornou espetáculo, show, concerto, peça, evento. O Fait Divers de Barthes, com o relógio dos Power Rangers, diz: “It’s morphing time” e tudo que era fato diverso, buraco na rua, homem morde cachorro, pode potencialmente se tornar o maior espetáculo do mundo, ou no mínimo da nação. Isabela. Semanas antes de seu pai e madrasta a precipitarem pela grade da janela, outra menina, em algum lugar esquecível do país, era libertada de um cativeiro de anos onde era torturada, humilhada, tratada como escrava. Isabela caiu para a morte, rápida e midiaticamente interessante. A pobre garota sem nome, carregará para sempre as cicatrizes de seu sofrimento. Mas ela era pobre. Ou pelo menos pouco mais que pobre. Isabela era neta de gente importante. Filha de playboy. Eu também posso me definir como playboy, mas pelo menos estudo. Diferente do pai de Isabela, que por não se formar em Direito – ou talvez esse seja a exata razão de não ter se formado – não conseguiu mentir suficientemente bem. Mas isso é além do ponto. Quero é definir a questão de que ele, o papai e a madrasta malvada, são o pós-humano também. “O que eles fizeram com a filha nenhum ser humano faz”, dizia uma velhinha em protesto, na época, em frente a casa em que estavam os algozes da menina. Isabela era humana, mas seus pais não. Eles eram o que convencionei chamar de Übermensch by Debord, o espetacular super-homem. Além dos limites da compreensão social, cultural, científica, assim como os tantos assassinos seriais, assim como as tropas russas posando para as fotos da BBC mostrando seus possantes tanques, carteiras de cigarro, pistolas e infímos órgãos sexuais.
E fica o show de Bolt, repetido ao infinito, para retornar, como tudo retorna desde o séc. XVII, quando outro Johnson, outro Bolt, outro qualquer superar…
Compactuando a Macomunagem
Algumas relações entre coisas do mundo são feitas por sua simples obviedade, entretanto outras são de uma abstração tão grande que podem francamente beirar a idiotice ou loucura.
Peguemos o “Senhor” Isaac Newton. Até então, obviamente tudo cairá na terra. Se pegassemos uma pedra, e a lançassemos para o ar, num ângulo de 90 graus, digamos, ela certamente subiria, pararia por um pequeno instante no ar e cairia. Uma gota de água escorreria lentamente até o chão, uma maçã, eventualmente, se despreenderia de seu galho e cairia. Newton, porém, pensou essas simples observações de uma forma bem diferente, alterando, poderíamos dizer, os eixos das forças. Não era a maçã que caía, era o Planeta Terra que a puxava.
Pros tempos de Newton, loucura total, como diriam alguns amigos meus. Hoje somos totalmente cercados por um mundo técnico-científico construído ao redor destes princípios; até certo ponto, nós mesmos somos moldados por esta mudança no entendimento de como a realidade opera.
O que quero dizer, é que nossa percepção da realidade, suas conexões principalmente, às vezes nos escapam totalmente, deixando-nos simplesmente levar por fabulações, glorificações e principalmente parcialidade. Obviamente um católico ferrenho não pode e nem jamais poderia acreditar em Darwin: não existiram 60 milhões de anos; a idade teológica do universo é, e sabe-se, infinitamente menor que isso.
Mas não pára por aqui. Esse tipo de, chamemos, fabulação acontece nas mais variadas categorias. Eu, pessoalmente, tenho uma preferência pelas fabulações do tipo B, sofisma. Como, de certo forma, anda rolando nas terras do cáucaso. Eu digo que o russo é bobão, sempre foi bobão e não quer parar de ser bobão. O russo diz que eu que comecei sendo bobão muito antes, que eu nunca deixei de ser bobão, e que as bobagens tem que parar. Ou o Bush dizendo que é deplorável dois países de Segundo Mundo, um deles com, se não me engano, a maior frota de tanques militares do mundo, trocarem umas bombinhas bem no meio dos Jogos Olímpicos.
De certa forma, essa fabulação incrível é uma sofisma por induzir ao erro de pensar que as coisas, de fato, estão acontecendo num plano linear e cartesiano, de causa e conseqüência, causa e conseqüência, causa e conseqüência até o final dos tempos quando na verdade, estamos falando de pessoas. SERES HUMANOS. Com desejos e vontades que superam e sublimam causa e conseqüências. Na verdade, este é, segundo algumas pesquisas, uma das maiores causas de doenças psicológicas e ligadas ao estresse: sublimamos nossa capacidade de sofrer, esquecendo a dor propositalmente ela fica guardada numa caixa num canto muito, muito escuro. Detesto essas transposições de psicologia para sociologia ou psicologia social, mas nações, povos, grupos sociais, de certa forma também operam nesse eixo de força: a opressão assim como a tortura sempre terá seu breaking point quando, mesmo vivo, o torturado já está morto. E mesmo morto, o torturado vive.
A liberdade quer acontecer tanto quanto a opressão e ambas agem no mesmo eixo, eu penso.
E isso, também a meu ver, nos leva aonde eu queria chegar, que é o lado sombrio desse entendimento: queremos encontrar os espiões, aqui na China, porque eles estão impedindo o governo de nos dar melhores vidas. A mentira (verdade) da opressão e a verdade (mentira) da liberdade andam de mãos juntas não no soldado dentro do tanque russo invadindo uma cidade georgiana, nem nas tropas de elite americanas tomando conta do jardim-da-infância chamado Iraque, elas estão sempre trocando pés nas estrada de ouro do imaginário humano. Vemos as coisas maiores do que são. Menores do que devem. Temos certezas científicas sobre coisas que daqui dez anos serão absurdos científicos. Erros e fraudes científicas, além é claro, da óbvia miopia inerente ao ser humano, acontecem todos os dias, mas o mundo continua acreditando nas pesquisas, estatísticas, objetivações e quantificações do gado humano, da reação química sociedade e do desenvolvimento viral de ditaduras e guerras.
Mas nem precisa ir tão longe: o próprio discernimento das pessoas já faz essas conclusões absurdas, essa demonização/glorificação das coisas, como a ciência faz com vegetais, gorduras, exercícios e hábitos. O pulo e a objetivação são as coisas mais comuns. Como se objetiva as ligações e conseqüências de nossas atitudes quando, a subjetividade delas indica certamente uma resposta alternativa.
E eu um questionamento:
Quem é o criminoso quando um adolescente norte-americano, branco, de classe média-alta, compra numa grande loja como Wal Mart, a preços acessíveis, uma calça jeans que foi produzida por uma garota de 14 anos numa fábrica na China que paga seus funcionários menos de 0,15 centavos de dólar por hora de trabalho com jornadas de trabalho que podem chegar a 20 horas diárias? Quem é o vilão quando a gente vai até o camelô do centro de Porto Alegre e compra algum produto, como um pequeno rádio de pilha pra ouvir o jogo no Estádio, e este produto foi contrabandeado do Paraguai, onde chega a preços rídiculos, vindos da mesma China, numa fábrica, digamos, ao lado daquela primeira? Não seríamos TODOS nós, em todos os níveis, culpados ou no mínimo coniventes e patrocinadores desse sistema?
Monstros
A discussão é sempre a mesma: sobre todos os monstros. Quem são, onde vivem, como se comportam. Pois, os maiores monstros de hoje em dia – diferente de mais de meio século atrás – são muito bem destacados pela mídia (mesmo a malvadona, capitalista e vendida).
De um lado temos um monstro muy bien conhecido: os Estados Unidos da América do Norte. Fundados nos melhores princípios já erigidos pela humanidade (respeito às diferenças de todas as naturezas, lei acima de todos os poderes, o direito das pessoas de existir e intervir nos rumos da nação, liberdade de pensamento e de expressão, entre tantas outras coisas), a princípio, infectaram o mundo com motivos bons. Com a beleza estética e moral da democracia, como desejo de que cada nação fosse um farol luminoso e permanente para iluminar a escuridão da condição humana. Eventualmente, mais precisamente depois da Segunda Grande Guerra, deixaram-se levar pela soberba tanto econômica quanto militar levando-os a guerras rídiculas (Vietnã, Coréia, Iraque, Iraque 2: A missão, etc.) mas, mais que isso, levando-os a exercer um poderio financeiro-econômico gigantesco sobre o mundo. Criaram, de certa forma, o mundo no qual vivemos. Apoiaram dezenas de ditadores, deram armas e treinamento militar para muçulmanos de diversas partes do mundo para que estes pudessem combater os soviéticos no lugar dos EUA. O que é uma faca de dois legumes: de um lado, claro, o capitalismo proprocionou grandes avanços sociais e humanos, em áreas como medicina, engenharia e tecnologias variadas, entretanto, também forçou populações e nações mais pobres ainda mais para trás das linhas da miséria, criando um antagonismo cada vez maior em todas as camadas sociais de todos os tipos de países. Franceses, espanhóis, iranianos, sauditas, chineses, até brasileiros e latino-americanos em geral nutrem um crescente desgosto por tudo que é americano ou que se ‘americaniza’. Entretanto, os blockbusters americanóides (como o recente Batman: O Cavaleiro das Trevas ou mesmo já antigo Titanic) além de outros diversos produtos midiáticos culturais (como Lost e House) continuam crescentemente populares. O fomento financeiro oriundo deles é secundário: o que afirma preocupação (se tanto) é que esses produtos continuam tendo penetração e ação formadora social e cultural. Isto me leva a crer que no mesmo passo com que os EUA se desvalorizam frente ao mundo, eles também continuam com a mesma força moldadora da realidade da qual eles tanto se valem. E, no pior dos dias, pelo menos a vida na américa é regida por um grupo estável e conciso de leis que limitam a alçada da população ao mesmo tempo em que fornecem uma pequena chama de liberdade individual, grupal, de credo, entre tantas outras. Tudo bem, tem violência, racismo óbvio, discrepâncias econômicas entre tantos outros absurdos. Percebe-se , porém, que, de certa forma, os EUA trairam seus princípios fundadores, humilhando e deteriorando as contribuições dos Founding Fathers, mais de uma vez e de maneira praticamente sistêmica. Os Estados Unidos da América deveriam ser uma nação aberta ao mundo, como Franklin disse, a beacon of light in a world of darkness. E, falando sobre política externa, esse princípio lindo foi brutalmente traído. Os princípios de trabalho e honestidade também foram transviados pelos governantes (que negam direitos aos americanos de nascença), pelas empresas (que mandam os empregos de americanos honestos e competentes para países de terceiro mundo e para a China) e pelos próprios trabalhadores (que não tem o menor cuidado com suas saúdes e nem a menor noção das conseqüências de seus empregos).
Do outro lado, temos o monstro sede dos jogos Olímpicos nesse ano: a República Popular da China. Fundada na época da esquizofrenia socialista, preferiu esquecer e abominar seu passado de riquezas infindáveis a fim de uma governo que privilegiasse o povo e não o filho do céu, o Imperador. Derrubou-se um ditador autoritário e durante décadas se elogiou outro. Mao deu livrinhos vermelhos para a população, fechou o país e hoje, mais de meio século depois, a China é uma das maiores potências econômicas do mundo, o país que mais cresce percentualmente no mundo. Entretanto, há um preço muito caro sendo pago. É claro que Nike, Reebok, Intel e afins mandam suas fábricas para a China e emprego é o que não falta. Mas que tipo de emprego? Alguns chegam a ganhar menos de meio dólar por hora de trabalho, não há qualquer forma de fiscalização ou legislação sobre as condições de trabalho e não é difícil encontrar trabalhadores que fazem mais de 10 ou 12 horas ininterruptas de trabalho. O Brasil, Inglaterra e os próprios EUA também cresceram vertiginosamente na época da escravidão. Algodão barato é aquele que se colhe sozinho, né? A China, de certa forma como os EUA, esqueceu o que os fazia chinês por excelência. Confúcio foi um dos maiores pensadores da história do mundo inteiro, e até ele (coitado, se ainda estivesse vivo) foi pro paredão. Hoje a China, assim como os EUA, esmaga o mundo com o capital. Cantageia o Comitê Olimpíco Internacional (COI), varre pra debaixo do tapete toda a merda do Tibete e de Taiwan. Entretanto, a diferença fundamental aqui é que a opressão causada pelos EUA nos outros países, que trouxe sua infinita bonança financeira, na China é feito na própria população. É claro que vamos encontrar, ainda mais em Porto Alegre, algum chinês que tem orgulho de seu país. Mas pensem bem: é um país em abertura, que forma uma cada dia maior classe intermediária que poderia ser dita ‘classe média’ e no capitalismo bobão e malvado capital, poder econômico, é segurança, conforto, qualidade de vida.
Ninguém está aqui dizendo que esses monstros são o inferno. De forma alguma. A China é um país em crescimento que parece, em termos, estar lentamente emergindo desse limbo de autoritarismo, ‘catequização ideológica’ e blunt unhumanization. Em contrapartida, os EUA, que poderiam facilmente parecer mais claramente com um paraíso ou com um ‘lugar bom para morar’ segue a linha inversa. Como se energeticamente as potências mundiais contemporâneas tentassem, ao invés de procurar um higher ground, se encontrarem onde suas inépcias e inequidades fossem mais em comum.
São ditos monstros pelos povos não-norte-americanos e não-chineses pois sua influência, numa medida ainda maior do que é benéfica, parece ser nefasta. Ao ver tanques em vilarejos tibetanos ou U.S. Marines escoltando mães e filhos iraquianos, o mundo sente um assustador frio na espinha. Este calafrio é acompanhado da certeza cada vez mais profunda das palavras de Lyotard, do fim das narrativas, do fim da redenção do homem através da política, do entendimento social, da gestão de governança. No fim das contas, essa aproximação entre essas nações mostra de forma muito forte que conceitos antiquados como esquerda e direita e que é preciso uma visão realmente sistêmica para se começar a entender que, na verdade, o que impera é o desejo por cada vez mais poder.
Fog City?
Até onde eu sabia, as Olímpiadas de 2012 é que deveriam ser na cidade da neblina, e não as desse ano. Entretanto, as imagens trazidas para nós pelos sites, emissoras e jornais mostram outra história.
Uma das discussão que mais veio à tona com esses jogos olímpicos de Pequim [sim, porque Beijing eu não sei onde fica...] foram os tais direitos humanos, a questão do Tibete. Porém, parece estar passando batida uma questão ainda mais fundamental, que afeta a todos nós e não só aos de nacionalidade chinesa [voluntária ou involuntária, né Dalai?]: a questão da poluição.
Esforcei-me nessa manhã, estranhamente parecida com as vistas de Pequim, para encontrar uma outra cidade [ou mesmo nação, porque vendo ontem imagens da Muralha da China a situação parecia igual] que possuísse uma visão igual a de Pequim. Não encontrei. Hoje, em matéria do JA, aquela repórter Streb mostrou o que, desde que começaram a mostrar Pequim, eu ainda não tinha visto: um céu azul. Mas não um céu azul em contrapartida à uma tarde chuvosa ou uma neblina londrina, não, era um céu azul em contraponto a uma triste, premente e contínua neblina de poluição que praticamente esconde a cidade.
É quase uma coisa vinda de filmes de ficção científica com aqueles futuros pós-apocalípticos.
Minha questão é: direitos humanos e seus tropeços são coisas que afetam diretamente a população da própria China, ou seja, no fim do dia o problema é deles. É um problema político que eles mesmos dizem se reservarem a resolver. Entretanto, o problema da poluição é transnacional. Os detritos e emissões poluentes da China navegam pelas correntes de ventos e afetam o clima do planeta como um todo. E em tempos de ser ecologicamente correto [coisa que foi absorvida pelo politicamente correto] me indago porque nenhum país fez objeções. O governo chinês diz que vai “resolver o problema” e magicamente hoje, em Pequim, não há neblina e o país, incrivelmente, não parou de funcionar. O que me leva a crer que o país poderia passar muito bem sem esse tipo de atraso moral, político, ecológico e humano.
Olímpiadas deveria ser a união dos povos, a maneira grega de entender que, na verdade, no fim do dia, somos todos humanos presos a nossos corpos materiais e seus tão claramente definidos limites. Entretanto, essa Olímpiada, diferentemente de outras, como a de Sidnei ou Atenas, não é sobre superação de limites e irmandade da humanidade: é sobre relações públicas. E sobre como esconder um país mergulhado numa concepção sócio-cultural arcaica e desumanizante, que faz de ‘flanelinhas’ e motoristas de ônibus espiões do governo. Um país que não tolera ser contrariado, que prende pessoas com camisetas e cartazes de “Tibete Livre” enquanto esmagam a população dessa região com bárbaros militarismos e a população mundial com as nefastas conseqüências da sua ignorância relativa a poluição.
Não vejo razões pra se comemorar essas Olímpiadas. E como aqui, no meu blog, não devo satisfações a editores e governos, destaco minha posição:
Essas Olímpiadas são a demonstração máxima do que há de pior no mundo hoje, a LEGITIMAÇÃO DOS MONSTROS. Assim como Bush e suas guerras, essa competição terá o mesmo teor amargo da enganação, do engodo, da validação de posições políticas absurdas. É uma imensa geração de renda e de legitimação mundial [principalmente entre as crianças, que adoram a mercantilização das olímpiadas e não tem o discernimento necessário para entender o que REALMENTE está acontecendo] que, graças ao pouco de inteligência do mundo, está fatalmente falhando. Os setores de turismo da China estão fazendo promoções pois as vagas que se esperavam estarem tomadas estão abertas, com centenas de hotéis e hospedarias com quartos vazios, aviões e ônibus parados esperando turistas que nunca chegarão. E mesmo que os meios de comunicação criem duzentas mil explicações, o motivo é óbvio. Quem quer ir pra China? Quem é que quer dar dinheiro prum país atrasado, que executa pessoas a esmo, que há várias décadas DOMINA regiões totalmente independentes? Que poluí tanto que o ar de cidades como Pequim e Xangai é perto do IRRESPIRÁVEL?
Talvez eu esteja enganado, quem sabe? Mas vejo essas Olímpiadas ficando marcada nos corações e mentes das pessoas como a de Berlim: jogos internacionais marcados pela opressão, pelo ‘arcaísmo’ político e moral num país preconceituoso, racista, atrasado e violento. Só que ao invés de nazismo, agora temos poluição desenfreada, nenhum direito trabalhista e violência desmedida. Para mim, essas Olímpiadas vão ficar marcadas como as Olímpiadas da poluição.
Doha, PORRA!
Isso saiu da Zero de hoje. E eu afirmo: NINGUÉM CONTRARIA A AMÉRICA.
Dos vinte itens que seriam acordados pela OMC, o de número de 19 conseguiu trazer toda a mesquinharia e estupidez do mundo à tona. Depois de oito anos, outra falha catastófrica lança no marasmo os ditos grandiosos acordos multilaterais globais.
A matéria da Zero Hora diz: “O medo da fome se impôs às perspectivas de ganhos para ricos e emergentes e deixou mais incerto o futuro da globalização”. Eu penso totalmente o oposto. O que há hoje em dia e é conhecido como globalização é exatamente a mesquinharia e estupidez dos ricos e poderosos em relação aos povos menos econômica e socialmente desenvolvidos. “Medo da fome” é uma coisa que a África não conhece, pois convive dia e noite com ela. Assim como a China, que privilegia as exportações em detrimento do consumo interno, e enquanto centros como Shangai e Pequim são atolados de produtos alimentícios (alguns até falsificados) o interior rural vive o desespero da pobreza e da fome, criando um imenso exôdo para esses grandes centros onde a mão-de-obra não-capacitada é absorvida pela indústria ilegal, pela máfia e pelo sub-emprego.
E obviamente nenhuma dessas pessoas é diretamente afetada por suas declarações, decisões e erros. Enquanto estes diplomatas muy bien pagos voltam para seus hotéis cinco estrelas depois de uma cansativa madrugada discutindo o destino, vida e direitos de mais de 6 bilhões de pessoas os EUA continuam inflando suas produções agro-pecuárias com incentivos e insumos, a China continua atolando o Ocidente de produtos falsificados feitos com mão-de-obra semi-escrava. A África continua afogada em remédios falsos, AIDS, fome, guerras tribais.
E enquanto as nações poderosas se degladiam numa imbecilidade tecnocultural, defendendo o seu god given right de inflar taxas de importação, de destroçar mercados exteriores, de privilegiar seus caucasianos (ou etnicamente corretos) fazendeiros, todo mundo sofre as conseqüências. EUA se recusa a deixar que produtos agrícolas entrem no seu mercado interno a preços competitivos e, obviamente, China e Índia querem um pedaço desse bolo, e “se você não divide comigo eu não divido com você”. E assim vai: um cabo-de-guerra infinito de puxa e empurra pra saber quem vai lucrar mais e quem vai ter mais rancos e mais racismo. No fundo, no fundo todo mundo sabe que os EUA (citando Arctic Monkeys) não querem que outros países passem a idéia de serem rocket lauchers enquanto eles parecem shotguns.
Questiono-me quantos milhões de dólares não foram escoados para esses oito anos de diálogos que, no fundo, não levam e jamais levarão a nada. O dólar só cai. Os índices de desemprego só sobem. O Sudão continua com suas valas comuns e mais de 10 soldados americanos morrem por semana no Iraque. O Irã continua enriquecendo urânio, testando mísseis e acreditando veementemente que nenhum muçulmano jamais foi homossexual. E o Bovinão (pra não deixar de mencionar os rapazes da NovaCorja.org) está mais preocupado com vender soja e carne pro Velho Mundo a preços competitivos do que amputar o braço canceroso da corrupção abertamente óbvia que rola aqui há pelo menos 30 anos.
Nem a a banana se salvou.
Pirataria – dos saqueador ingleses do séc. XVI até os saqueadores ideológicos da china do séc. XXI
Hoje se fala muito em pirataria. DVDs piratas, programas piratas, tênis piratas, roupas, bolsas, you name it. E quando se fala em falsificações o primeiro nome que vem a cabeça é China.
No séc. XV, depois de viajar por alguns lugares do Oriente, convenientemente, nosso querido Gutemberg inventa a prensa. Égide máxima do que ficou conhecido através da Escola de Frankfurt como indústria cultural: a reprodução massiva de obras de arte, textos, imagens que outrora só poderiam ser visto presencialmente. A China copia há séculos. Em parte, a cultura milenar da China é centralmente marcada pela reprodutibilidade, seja manual ou técnica. O próprio aprendizado de seu alfabeto se dá pela cópia incansável da ortografia do mestre e a cópia de obras de arte remonta há muitos séculos.
Nos séculos passsados, pirataria estava ligada aos controversos aventureiros marítimos – principalmente ingleses – que saqueavam navios espanhóis, italianos e portugueses, entre tantos outros, em busca dos tesouros encontrados no Novo Mundo. Hoje pirataria é sinônimo (apesar do Jack Sparrow) de produtos falsificados produzidos principalmente no leste asiático. Governos ocidentais de todas as ordens procuram com campanhas e ações policiais coibir e inibir o comércio dessas falsificações, inclusive contando com a colaboração das empresas que originalmente produzem esses produtos, em congressos e associações internacionais de combate a essas práticas.
Entretanto há uma similitude assombrosa com a lógica da pirataria do séc. XV e XVI com a lógica da moderna pirataria manufaturada: assim como os piratas eram protegidos e defendidos pela coroa inglesa, mesmo que só veladamente, os ‘pirateiros’ de hoje em dia são amplamente defendidos pelo governo chinês, que, abertamente os combate, mas veladamente os apóia pois são imensos geradores de renda para as populações mais carentes (que, admitamos, é a maioria sempre). E as empresas, de certa forma como a Espanha e a Itália, não combatem e criticam abertamente o governo chinês pois esse, do outro lado da moeda, beneficia os negócios dessas companhias multinacionais que dependem da força de trabalho quase escrava da China pra produzir seus produtos com preços competitivos.
No GNT está dando um documentário sobre isso, claro que na linha do interesse global pela China nesse amanhecer dos Jogos Olímpicos. Evento esportivo mundial de confraternização dos povos que, a meu ver, está servindo para legitimar um dos mais injustos e cruéis sistemas de controle e gestão social de todos os tempos. Um imenso país com mais de dois bilhões de pessoas (pouco menos de 1/3 do mundo) onde inexistem completamente regulamentações referentes ao trabalho. Um país que se diz comandado e gerido por um partido dos e para os trabalhadores que fomenta a existência de fábrica ilegais, onde não há garantia de pagamento devido, de acúmulo de horas extras ou mesmo das mínimas condições de trabalho. Voltamos ao sécs. XVII e XVIII, voltamos à Revolução Industrial, de tetos baixos, toxinas envenenando bebês que ainda nem nasceram, voltamos, mas em termos. Essa máquina do tempo distorce o tempo e faz da imensidão chinesa um séc. XV, XVI juntamente com os séculos XVII e XVIII.
Aterrorizados pelo esquecimento do campo, os jovens deixam as comunidades periféricas da China e rumam para os centros industrializados onde os que têm algum tipo de instrução ou qualificação são engolidos pela manufatura de produtos originais de empresas com fábricas naquele país – como Nike, Louis Vitton, Chloé, Adidas, entre tantas outras – e os que não figuram como mão de obra qualificada são absorvidos pelo mercado paralelo para produzirem os mesmíssimos produtos.
Porém vejo, que até certo ponto, este fenômeno tem reverberações em diversas outras áreas, mesmo econômicas, da vida cotidiana. Vou na loja, compro o DVD do novo Indiana Jones e o disponibilizo nas redes P2P – que são muitas – fazendo com que logo, logo ele exista em diversos PCs e servidores ao redor do globo. Adorno, Horkheimer, Benjamin, esses frankfurtianos originais temiam o fim da “aura” da obra de arte, temiam que grandes artistas se tornassem banalizados (o que, de fato, até certo ponto, realmente aconteceu, né, Dan Brown?), entretanto a era da reprodutibilidade técnica encontrou formas e conteúdos mais, digamos, economicamente interessantes. As canecas com a imagem de Gioconda ainda estão aí, existindo no breu perdido dos brindes e dos nic-nacs vendidos popularmente a 1,99. A indústria mesmo da reprodutibilidade se voltou para os tênis, bolsas, DVDs, programas de computador. Encontrou na própria população que os produz, os menos favorecidos economicamente, um nicho de mercado muito aconchegante: eu trabalho por menos de um dólar a hora, jamais vou ter dinheiro suficiente para comprar um tênis nike de 200 dólares ou uma bolsa Chloé de 2 mil.
Agora, quando a lindíssima e super na moda bolsa Chloé custa menos de 30 dólares, daí se consegue comprá-la. Um PlayStation 2, que original ainda custa 600 reais, na fronteira amiga entre Brasil e Paraguai se acha por menos de 200. O Nintendo Wii, sensação videogamica, que custa quase três mil na Mega Mídia do Bourbon, foi comprado pro alguém próximo de mim por menos de mil. Na verdade, mil reais com todos os controles e dezenas de jogos. E funciona perfeitamente.
A arte, de certa forma, foi de fato perdendo parte de sua aura. A reprotubilidade técnica oriunda das novas tecnologias nos levou ao apogeu conhecido como Internet. Banco de dados de pelo menos 95% de todas as músicas já gravadas. Receptáculo de conhecimento e de todos os lançamentos Hollywoodianos… Mas é nos bens de consumo que a pós-modernidade acaba encontrando o zéniti da reprodutibilidade.
Claro que há validade na controvérsia de produtos absurdos (como o ovo falsificado mostrado pelo programa esse do GNT e os remédios, até mesmo para câncer, falsificados). Entretanto há também validade no absurdo dos valores cobrados pelos produtos originais. Mão de obra semi-escrava e um maldito tênis Nike ainda custa mais de 200 reais. E há outras questões: mesmo as empresas oficiais obedecem às rídiculas normas e legislações ambientais da China, o que se dirá das fábricas ilegais?
Mas enquanto a delegação americana exige “american food” para os atletas eu só exijo que durante o curso dessas Olímpiadas crianças, pessoas doentes e incapacitadas possam ter o direito de assistir aos jogos e não trabalhar costurando tênis Nike falsificado.
Essa é talvez uma das características mais esquecidas da época em que vivemos, que se ilude com termos franceses de justiça, solidariedade, fraternidade, mas ao mesmo tempo manda centenas de milhões de dólares e euros para países como China e Tailândia, onde favorecem uma absurda minoria que só reforça ainda mais as estruturas de poder e de opressão. Mas como bons greco-ocidentais, nos retorcemos nas formas artisticas para, de certa forma, exorcizarmos nossos dogmas de terror e impunidade.
Eu cito Arctic Monkeys.
Well oh they might wear classic Reeboks
Or knackered Converse
Or tracky bottoms tucked in socks
But all of that’s what the point is not
The point’s that there is no romance around there
And there’s the truth that they can’t see
They’d probably like to throw a punch at me
And if you could only see them, then you would agree
Agree that there ain’t no romance around there
it’s a funny thing you know
We’ll tell them if you like
We’ll tell them all tonight
They’ll never listen
Because their minds are made up
And course it’s all OK to carry on that way
Over there there’s broken bones
There’s only music, so that there’s new ringtones
And it doesn’t take no Sherlock Holmes
To see it’s a little different around here
Don’t get me wrong though there’s boys in bands
And kids who like to scrap with pool cues in their hands
And just cause he’s had a couple of cans
He thinks it’s alright to act like a dickhead
Don’t you know, oh it’s a funny thing you know
We’ll tell them if you like
We’ll tell them all tonight
They’ll never listen
Because their minds are made up
And of course it’s all OK to carry on that way
But I said no, oh no!
Well oh, you want get me to go
No anyway, no anywhere
No, I won’t go, oh no, no?
Well over there there’s friends of mine
What can I say, I’ve known them for a long long time
And they might overstep the line
But you just cannot get angry in the same way
They’d probably like to throw a punch at me
And if you could only see them, then you would agree
Agree that there ain’t no romance around there
We’ll tell them if you like
We’ll tell them all tonight
They’ll never listen
Because their minds are made up
And course it’s all OK to carry on that way
There’s only music, so that there’s new ringtones
And it doesn’t take no Sherlock Holmes
To see it’s a little different around here
And kids who like to scrap with pool cues in their hands
And just cause he’s had a couple of cans
He thinks it’s alright to act like a dickhead
We’ll tell them if you like
We’ll tell them all tonight
They’ll never listen
Because their minds are made up
And of course it’s all OK to carry on that way
But I said no, oh no!
Well oh, you want get me to go
No anyway, no anywhere
No, I won’t go, oh no, no?
What can I say, I’ve known them for a long long time
And they might overstep the line
But you just cannot get angry in the same way



