Ubermensch by Debord

Mea Culpa, Tua Culpa

Publicado em despise for humans por pedro em 07/02/2009

“Uma das lições que a era hitlerista nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente. Quantos não foram os argumentos bem fundamentados com que os judeus negaram as chances de Hitler chegar no poder, quando sua ascensão já estava clara como o dia! Tenho na lembrança uma conversa com um economista em que ele provava, com base nos interesses dos cervejeiros bávaros, a impossibilidade da uniformização da Alemanha. Depois, os inteligentes disseram que o fascismo era impossível no Ocidente. Os inteligentes sempre facilitaram as coisas para os bárbaros, porque são tão estúpidos. São os juízos bem informados e perspicazes, os prognósticos baseados na estatística e na experiência, as declarações começando com as palavras: ‘Afinal de contas, disso eu entendo’, são os statements conclusivos e sólidos que são falsos.

Hitler era contra o espírito e anti-humano. Mas há ume espírito que é também anti-humano: sua marca é a superioridade bem informada”.

Talvez, de repente, o questionamento, o levante das dúvidas, jamais a afirmação. Isso é mais do que um método, mais do que uma opinião. Desfraldada como princípio para a verdade, a realidade aparece como imprevisível, como algo que é impossível tocar. De fato, a existência de uma realidade, de uma fenomenologia do real, como evento tácito e tangível, tornou-se de fato uma “utopia extravagante, um desvia sectarista”, geralmente ancorado, sustentado, amparado, pela ideologia pré-pronta de microondas.

“Escolha um ticket, ao contrário, significa adaptar-se a uma aparência petrificada como uma realidade e que se prolonga a perder de vista graças a essa adaptação. Por isso mesmo, quem hesita (ou simplesmente não cede a escolha fácil e pré-pronta) se vê proscrito como um desertor”.

Ontem eu quase apanhei por ser mais inteligente? (com a interrogação fica menos arrogante)

Publicado em despise for humans por pedro em 06/06/2009

Eu vou, depois, com mais calma, explicar essa história mais a fundo.

Mas vale mencionar:

Estavámos no Bambu’s, bebendo, rindo, conversando sobre amenidades e até algumas coisas importantes, tipo indústria cultural e a homegeinização cultural pela qual o Ocidente, e, marcadamente, Porto Alegre, vem passando nos últimos 20 anos.

Estava, portanto, falando, sempre amigavelmente quando um bando de cabeludos que estava ao nosso lado descaradamente ouvindo a conversa resolveram se meter. A princípio foi uma intervenção bem positiva e engraçada: o assunto era como a cultura de hoje fagocita tudo e quem acha que tá fora do ’sistema de produtos mercantilizáveis’ é inocente or plain stupid.

Então que começamos a falar sobre como os grupos étnicos foram sendo excluídos e inseridos nas sociedades ocidentais e, mais recentemente, também nas orientais. Estávamos falando sobre a China. Quinta-feira sendo o vigésimo aniversário de Tiananmen, apontavámos que a senzala hoje é a China: senzala que tem seus rumos dirigidos pelos próprios escravos – uma verdadeira comuna de trabalhos quase-forçados que sustenta o Ocidente capitalista e consumista-individualista com os tão necessários produtos industrializados.

Então um desses cabeludos começa a falar dos judeus, e de como eles estão sofrendo há 2 mil anos. Papo imbecil de um cara imbecil que nem sequer consegue perceber o claro anti-semitismo em seu discurso. 2 mil anos? Peraí, cara. Os judeus perseguiram cristãos. Colonizar a Europa. E só bem depois, só há mil anos é que começaram a ser, de fato, perseguidos da forma como seu discurso clamava acontecer ainda hoje. Hoje, eu disse, eles tem até um país só deles, cara.

No calor, o Floco e eu começamos a tirar com a cara do cara. “A história não é uma linha retinha, meu”. E daí eu disse: “cara, quando tu terminar tua faculdadizinha volta aqui e a gente conversa”. Ele começou a gritar e espernear e o Floco deu o golpe de misericórdia: “Que faculdade tu faz?” Quando o cara respondeu, com o peito cheio de total arrogância “economia”, eu e meu querido amigo caímos na gargalhada. “Cabeludo, metaleiro e faz economia”…

Nesse momento eu só vi o peito do cara se enchendo ainda mais e um de seus punhos que, francamente, eu nem vi direito qual, porque, francamente, nem prestei muita atenção no cara, levantando. Um dos amigos segurou ele e rapidamente o grupo desbandou.

“Digamos que o que permite tornar inteligível o real é mostrar simplesmente que ele foi possível”

Já dizia nosso bom Foucault lá nos anos 70. O que ele, assim como vários outros pensadores, falhou em perceber foi a ruína do pensamento cotidiano; quando discursos e ideologias estão tão desgastados pelo uso midiático, perde-se a linha-guia do pensamento. Qual é o real? Como mostrar que o real é aquilo que de fato aconteceu quando tem gente por aí negando a factualidade de certas coisas?

Não dá pra ser assim. Não é que todos tenhamos que pensar igual, mas não dá pra entrar em discussões sobre o que tu acha do céu ser azul… o céu é azul e pronto. Gostar, não gostar, achar, não achar, é IRRELEVANTE.

Relevante é considerarmos criticamente quais discursos são falsos e verdadeiros e que tipo de ideologia, discurso, sociedade, cultura, civilização, não apenas os permite como incita. A História tá lá, é só parar de ouvir Craddle of Filth ou Pantera e pegar um livro pra ler.

Ou melhor, Google.

O pior de tudo foi o cara me dizendo: “ah, tu não tem fundamento pra falar isso”.

Quem tem fundamento é tu, babaca. Tu e a tua faculdade canalha de crunchin’ numbers. Quer discutir o Dow? Vai fundo, disso tu sabe. Agora falar de condição humana, história das religiões e filosofia analítica, existencial e hermenêutica, porra, vai ler um livro antes, cara. Qualquer um. Te dou até umas dicas.

E repito:

“A competência e a perícia são proscritas como arrogância de quem se acha melhor que os outros


Incompetência: o post.

Publicado em despise for humans por pedro em 05/22/2009
proconnet

Dois meses e quatro dias.

Então há DOIS MESES atrás eu andava me incomodando com a Net. Não só pelo crime abusivo que são as franquias, mas porque ao comprar uma franquia adicional – tava precisando, não é porque sou rico não, tá? – eles levaram 3 dias para acionar. Ou seja, três dias pagando 3Mb e tendo 128kbps.

Mas a questão não é essa. A questão é que hoje, as 16:14 eu recebo um e-mai de resposta.

A inércia e a incompetência realmente reinam em qualquer lugar. NET, Claro, Vivo, toda e qualquer empresa que preste um serviço essencial nessa era tecnológica tem, como nos romances de Gibson e Orwell, o controle total sobre suas ações. Não há responsabilidade; e muito accountability – ninguém responde por essas coisas. Um punhado de pessoas consegue processá-los, lucrando alguma esmola, enquanto que dezenas de pessoas estão completamente a mercê dessas empresas.

É realmente tão assustador quanto alguns autores previram. Talvez não tão fascista ou ideológico, já que o único interesse mesmo é te enganar e tirar teu dinheiro. Na Claro há anos eu me incomodo e as respostas do Procon sempre são como a desse e-mail: vagas. Qualquer idiota sabe que vai ter que eventualmente ir ao Procon com uma certa documentação para fazer a reclamação, entretanto o e-mail nem mesmo especifica que papelada seria essa. Ou seja: tu trabalha, já não tem tanta grana assim. Só de passagem de ônibus ou gasolina esse e-mail já indica que serão pelo menos 4 VIAGENS até tu conseguir agilizar o que precisa ser feito.

Por muito tempo muita gente disse: “O Brasil é uma vergonha”. Mas basta assistir a BBC ou a CNN durante duas (ou diria, duras) horas pra ver que lá nus states e nas europa também é bem igualzinho. Valérioduto ou Mensalão, não importa, ingleses usa pra comprar biscoito e limpar um fosso.

Mas daí tu pode me dizer: “ah, mas na anglo-terra a coisa é democrática. enquanto que no brézil eram 85% dos parlamentares envolvidos, lá o índice de participação no esquema de desvio de verbas púbricas pra uso pessoal chega a espantosos 99%”.

E nosEUA a gente vê a inércia social completa: Cheney aparece na TV, ao mesmo tempo que o presidente, fazendo exatamente aquilo que ele dizia, 6 ou 7 anos atrás, que jamais poderia ser feito: “se questionarmos o presidente, mesmo que ele esteja errado, passamos uma imagem de fraqueza para nossos inimigos”. Agora questionar o presidente democrata e negro não tem problema, nas próprias palavras dele “é um dever e uma obrigação de todos os americanos”. O cara ADMITIU COM TODAS AS PALAVRAS nos últimos meses que Bush jamais passou de uma marionete; Cheney é que tomava as decisões e agora é ele que vocifera a oposição. O fascismo e o inimigo da liberdade, meus amigos, está bem ali. Não é mais uma coisa simplesmente econômica, não é mais interesses empresariais… É IDEOLÓGICO: “não há meio termo” e não estou citando levianamente. O Daily Show de ontem ainda fez a edição exatamente nesse ponto: ele realmente disse isso. Segundo ele, torturar até mesmo inocentes é o preço a se pagar pela proteção. Isso vindo da boca da administração de ignorou VEEMENTEMENTE TODOS OS AVISOS E ALERTAS DE QUE TERRORISTAS IAM TENTAR SEQUESTRAR AVIÕES EM SETEMBRO DE 2001.

E, assim como no Brasil do deputado cassado que se reelege, nas américa também a memória é curtinha. Aqui a preocupação cotidiana lá é o medo mesmo. Enquanto aqui os impostos, a incompetência de esquerda, direita e centro, impossibilitam a mobilidade social (quer dizer, impossibilitam a mobilidade social para cima; para baixo elas favorecem), lá é o medo mesmo. “Saúde gratúita e livre para todos” só pode ser um golpe. “Então você paga 4 dólares a mais por mês de impostos, não é de graça. Vamos ficar com nossos planos de saúde de até 2 mil dólares por mês”.

nas anglo-terras também é meio assim. O escândalo aparece o tempo todo e nem os jornalistas que noticiam as novas revelações parecem se importar. “Tô mais preocupado com a minha Guinness em casa me esperando…” que nem aqui o cara tá mais preocupado com o Coritiba ou com os venezuelano.

E pra coroar esse post com a verdade acima de todas as outras:

GRIPE SUÍNA:

Aproximadamente 9 mil casos no mundo inteiro.

Aproximadamente 80 mortes.

PNEUMONIA:

Só nos EUA, no ano passado, quase 62 MIL MORTES.

Don’t let fear get the best of you…


Megaloi Logoi

Publicado em despise for humans por pedro em 09/02/2008

Em Homero, a palavra de ordem era Aien aristeuein kai hypeirochon emmenai allon (“ser sempre o melhor e destacar-se entre os outros”).

Arendt, entre outros, cita isso como acontecimento da Antigüidade porém, numa percepção pessoal, vejo que esse moto, de certa forma, em sua essência, continua vivo e forte no conjunto tanto da esfera pública, como da esfera social e privada.

Na Ilíada, durante o discurso da Fênix, diz-se: mython te rheter emenai prektera te ergon (“teu pai encarregou-me de ensinar-te tudo isto, para seres um dizedor de palavras e um fazedor de feitos”).

Os lemas e ideais da Antigüidade parecem ainda muito vivos na sociedade ocidental contemporânea. Claro, são reduxes e distorções. Não são tradições naturalmente carregadas pelos vinte séculos que nos separam. Foram encontrada, trazidas de volta e reinterpretadas. As unidades familiares, hoje, delegam à instituições, profissionais da área médica/psicológica, ao governo a certeza da infaliabilidade de seus genes. Ou seja, pais e mães delegam a instrução de suas proles para outros, sejam eles instituições ou profissionais especializados. A fênix, há mais de 2 mil anos, também era o delegado da instrução para a ágora e para a guerra. Como as universidades hoje são a instrução para a ágora e o exército – por exemplo o dos Estados Unidos – são para a guerra.

Claro que a ágora desapareceu, por mais que centenas de críticos, teóricos e políticos teimem em considerar a democracia transviada em despotismo da maioria como a revalidação ou evolução do modelo grego. Tantas outras instituições, invenções e colóquios tentaram ao longo pelo menos do último século substituir o lugar da ágora. ONU, parlamentos, Internet, entretanto, mesmo que esses o sejam, uma ágora redux, verdadeiramente não há a instrução para tal.

A instrução, tanto para a possível ágora quanto para a inevitável guerra, agora, figura como esvaziada de conteúdo. Ela denota um maquinismo, uma busca por eficiência. Tanto faz o que se sabe, desde que o que se sabe seja usado de maneira socialmente útil, lucrativa.

Nossa sociedade, figura, nem que em parte, como uma meritocracia. Até no front do tráfico de drogas, quanto mais bem sucedido se é nas funções e deveres designados maior a probabilidade de que lhe sejam confiados cargos e funções com maior retorno de recursos (financeiro) ou mesmo de influência (poder). O lema dos heróis homéricos continua (risos) homericamente presente na sociedade: ser o melhor, melhor que os outros. E percebe-se claramente que nossa sociedade é sim voltada essencialmente para isso. Obama e McCain não disputam votos mas a percepção de quem já é verdadeiramente o melhor, os votos serão a mera representação disso.

Isso é tão premente e urgente que está estampado em todas as searas da vida contemporânea ocidental e, em muito, oriental também. A competência é o representante máximo da (risos) máxima homérica. E este entendimento sobre o objetivo e sobre a condição humana, claro, perpassa o que hoje conhecemos como cibercultura, front derradeiro da evolução tecnológica e relacional.

Expressões como “technologic literacy”, “tech-savy” e mesmo a quantidade absurda de cursos, aulas, livros, conhecimento em geral requisitada e colocada a disposição desse entendimento é assustadora. Como Ballard diz em seu livro “Introduction to Crash”, ou aprendemos essa língua ou nos mantemos mudos. E o silêncio oriundo da ilusões coletiva de que a própria cibercultura permeia a socieadade em sua totalidade é a mais assustadora das distorções pós-modernas. Fala-se de inclusão digital, mas o que se vê na realidade é uma IMENSA POPULAÇÃO que é profundamente tecnologicamente analfabetizada e um população tecnologicamente inserida mas que peca em perceber as conseqüências e reverberações dessa situação.

O porteiro do prédio dos meus pais, meu antigo prédio, que trabalha lá há dez anos, que possuí diversos cursos profissionalizantes, ensino fundamental e médio, certa vez me perguntou onde ele deveria ir pra entrar na Internet. Numa aula da Fabico, uma colega de alto nível intelectual e acadêmico, numa certa apresentação de um seminário sobre alguns textos referentes a cibercultura, diz, em frente a toda a aula e com pulmões cheios que “cultura é algo que a gente escolhe”.

A fênix da Ilíada não poderia ser capaz de instruir tanta ignorância e nem seria capaz de orientar os conceitos com a finalidade de que eles sejam acessíveis. Mesmo as pessoas que são “tech-savy”, que possuem extensos e profundos conhecimentos sobre a marcha da tecnologia informática parecem estar totalmente desprovidas das facetas, conceitos, categorias e noções necessárias a compreensão de um fenômeno amplamente social e de sociabilidade. Indaga-se muito sobre a tal Interação Mediada por Computador quando a interação direta ainda permanece um sombrio e evasivo mistério. Coloca-se demasiada importância em certos aspectos profundamente tecnófilos quando o aspecto humano é que baliza esses fenômenos. Mesmo em áreas diversas da minha (comunicação, sociologia, filosofia) como economia, política, medicina, farmácia, ciências exatas e “duras” em geral e mesmo as ciências informáticas e da informação se carece de um alfabetismo filosófico.

Percebe-se a máquina; ignora-se o homem. O problema é de ordem técnica, mas nem a técnica é um problema de ordem técnica. Então onde ficamos?

A batalha do golfo

Publicado em despise for humans por pedro em 08/31/2008

Não, não é o Golfo Pérsico. É o Golfo da Lousiana.

Exatos três anos depois do Katrina, agora temos o Gustav. Estranhamente, há três anos atrás, Bush e McCain comiam bolo e tomavam chá enquanto milhares de pessoas perdiam suas casas, famílias, esperanças e o governo perdia somente seus últimos suspiros de credibilidade. Agora, Bush e McCain estão muito preocupados em adiar a convenção Republicana (mas não acredite em tudo que o Michael Moore disser).

Não vou entrar em partidarismos ou ideologias (que quem lê esse blog sabe que eu nem acredito que ainda existam) das mais variadas. Minha preocupação, talvez antiquada, sempre é com as pessoas. Nova Orleans não se recuperou de nenhuma forma desde o furacão Katrina. A cidade ainda luta não só para se levantar como também para ser levada em conta pela união federal de lá. Esquecidos durante o desastre, o mundo inteiro pode presenciar de camarote pelos helicópteros da CNN, FOX News o espetáculo fantástico do racismo norte-americano.

Obama pode não ser o primeiro líder norte-americano (pré e pós-colombiano) a ser eleito pela promessa implícita de que os desastres climáticos cessarão.

Verdade ou não sobre a inépcia governamental bushiana, a convenção nacional Republicana se daria sim nesse interim:

Os governadores dos Estados do Golfo, incluindo Luisiana e Mississippi podem decidir permanecer em seus Estados se o furacão ameaçar causar danos sérios em suas regiões. A intensidade do Gustav pode afetar também o discurso de abertura do Presidente George W. Bush, na segunda-feira. A previsão é que o Gustav chegue na segunda-feira à tarde ou terça-feira pela manhã na costa da Luisiana.

Indago-me até onde é relevante o aspecto místico da população. Muito funesto esse seguimento de coincidências tão alarmantes. Guerra ou não, imagino que qualquer nação do mundo, quanto a sua população civil, deve certamente se preocupar mais com questões como a qualidade de vida, os impostos, os serviços estatais do que necessariamente com os acontecimentos além-mar. A segunda Guerra do Golfo (Iraque 2.0 – A vingança a.ka. That guy tried to kill my dad“) foi, em termos, legitimada pelas torres gêmeas tombando ante o mundo. O Katrina mostrou a face mais ilegítma dessa gestão presidencial. Deixou muito claro que a incompetência de Bush perpassa suas indicações para secretarias e agências vitais. E o exterior vibra, principalmente no oriente, com uma schadenfreude inimaginável.

Na Era Google, pode-se ver a morte e a destruição chegando em alta definição, em wi-fi, direto do seu celular, PDA ou laptop, enquanto o governo senta nas próprias mãos decidindo qual dia fica melhor, então, pra fazer uma festinha com balões... p.s: essa imagem é das 13:38, horário brasileiro. Percebam que gostosa e modesta essa chuvinha.

Como fica a população? A popularidade aparente de Obama, a meu ver, vem de sentimento de messianismo. A mudança, que permeia toda a campanha do candidato Democrata, aparece mais como salvação do que necessariamente como um novo rumo ou uma nova gestão. O discurso da salvação está muito presente hoje em dia, principalmente nos apologistas da tecnocultura. Espera-se que algo que criemos ou planejemos venha a ser a derradeira obliteração dos fenômenos verdadeiramente incontroláveis. Anderson, nesse texto, fala sobre a tecnologia nos salvando de um fenômeno verdadeiramente humano, social e, em termos, civilizado: a inflação, entretanto é fácil permitir que esse sentimento cada dia mais forte possa infiltrar outras áreas tanto essencialmente humanas como não.

Será mesmo que se Obama fosse presidente o Katrina teria tirado tantas vidas? Teria Nova Orleans sofrido, como sofre, uma lenta e dolorosa reconstrução que, em três anos, não foi capaz de reconstruir os diques tão necessários para que a cidade não seja afogada pelo Pontchartrain?

Pra mim fica mesmo, além das politicagens e credos pessoais, a tragédia da indiferença de um governo inteiro para uma enorme cidade. E, de onde se pode ver no momento, nenhuma tecnologia, técnica, governante, ideologia (risos), vai nos salvar…

provérbios 25:2

Publicado em despise for humans por pedro em 07/26/2008

A glória de Deus é ocultar as coisas, e a glória dos reis é pesquisá-las. A altura do céu, a profundidade da terra e a mente dos reis são coisas insondáveis.

Novamente spoilers.

Bom, assisti hoje no início da noite ao segundo filme do Arquivo X, X-Files: I Want to Believe. Espantei-me ao perceber, logo nos primeiros minutos, que este filme não seria sobre abduções, conspirações alienígenas/governamentais nem espíritos do além ou avanços tecnológicos ameançando a sobrevivência da humanidade. Bem pelo contrário. O filme aborda uma temática muito, mas muito comum mesmo nas formas de ficção fantástica hoje evidenciadas à extensões assutadoras na televisão e entre certas camadas da humanidade: mediunidade. A habilidade de perceber o passado jamais vivido, de entender o futuro indizível. Séries como Medium, protagonizada por Patricia Arquette (e que este que vos fala assistiria ininterruptamente, em parte pela própria Patricia, que eu adoro e sempre adorarei – gótica, em Stigmata, perfeita em Lost Highway, melhor filme do Lynch, e mãe de família genial, querida, afetuosa e fogosa na série), vê-se esse tipo de coisa o tempo todo. Há outras séries e até programas no Discovery e History Channel. Pessoas com uma afinidade especial com o universo. Eles não são mutantes nem híbridos com alienígenas e muito menos são robôs ou inteligências artificiais. Como o próprio personagem Padre Joe (assustadoramente: Father Joseph Crissman), interpretado pelo genial Billy Connoly, que é um pedófilo condenado que estuprou 37 coroinhas (entre eles, o próprio vilão do filme), são pessoas  com defeitos, pecados, pouca inteligência (Ghost Whisperer); pessoas falhas. Enfâse em pessoas.

Como alguns sabem, meu objeto de pesquisa é a série de TV Arquivo X, principalmente a maneira como a série articula e revela certos aspectos de uma nova e premente ideologia que parece afetar todas as camadas da sociedade e muitas, mas muitas das culturas do mundo, sendo percebida, até, como uma Nova Utopia. Na verdade, meu objeto de pesquisa é, em si, a maneira como todos nós lidamos com as novas tecnologias. Os avanços da humanidade, sejam eles quais forem, acabam por (in)advertidamente transformarem fundamentalmente a maneira como vemos o mundo.  E, penso eu, muito da maneira como vemos, compreendemos e apreendemos o mundo se revela através dos construtos midiáticos e dos produtos culturais (mesmo aqueles que, para alguns, nefastamente, vem da malvadona indústria cultural). Entretanto, certos avanços já em curso no mundo – a ubiqüidade da Internet, um exemplo simplesmente muito simples – figuravam até algumas décadas como sonhos, figuras de uma imaginação fantástica, zénitis de um pensamento utópico que sonhava soluções fantasmáticas para as questões humanas. Mas, como posto, certos avanços se tornam fundamentalmente reais. A cura de doenças, verdadeiros manuais para a longevidade e maiores potencialidades de vida, de produtividade e de progresso (?), além, é claro, da esmagadora presença total da idéia de saúde perfeita.

Minha premissa pessoal sempre foi a mesma. E me vejo respaldado em certos autores e pensadores (mesmo alguns tão distantes quanto Platão): EXISTE UMA COISA CHAMADA CONDIÇÃO HUMANA. Somos seres humanos. SOMOS humanos. E isto nos define. Os avanços e suas repercussões são CONDIÇÕES DE HUMANIDADE.

Digo isso, pois, o filme, em questão, mostra exatamente isso. As visões do Father Joe são altamente morais. O mundo humano é moral. Ele procurava sua própria redenção, inclusive admitindo ter se castrado aos vinte e tantos anos, por entender, em sua alma (se me leitor permitir), que aqueles “desejos sujos” – como ele mesmo coloca – eram errados e deveriam ser ceifados. Suas previsões eram sobre pessoas (a ligação dele com elas era que o ‘chefe’ foi uma de suas vítimas) usando experiências com células troncos e desenvolvimento celular para conseguir fazerem operações de transplante de corpos inteiros (tira-se a cabeça de um corpo e inserem ela em outro); the catch: os corpos usados eram de pessoas inocentes seqüestradas. It’s not Frankenstein, it’s human bodychop.

O uso que fazemos daquilo que nos é dado o

u que inventamos é humano. Sofro ao ver certas pessoas chamando coisas como tortura e irresponsabilidade como ‘desumanas’. Vlad, o Impalador, que ganhou o mundo com a lenda do Drácula, era humano. Nasceu, como diriam os antigos, das entranhas de uma mulher. E sabemos hoje que nada nasce das ‘entranhas’ de uma mulher e não é humano. Sabemos que serpentes não são homens. Penso no caso daquele garoto que os ladrões, ao roubarem o carro de sua mãe, falharam ou simplesmente ignoraram o fato de que ele ficara pendurado pelo cinto de segurança e fora arrastado por algumas quadras. Isso é humano. Claro que bondade, solidariedade e sacrifício também são inerentes ao SER do humano, porém certos aspectos menos contemporaneamente aceitáveis também são. Tortura, assassinato, chacinas, estupro, ganância, preconceito, vingança, inveja, ciúme. O homem é mais do que o próprio homem pode conseguir explicar. Entristeço-me ao ver programas como Fantástico e extensas séries de documentários do Discovery e de outros tantos canais como BBC descrevendo homens, mulheres, crianças que ainda nem sabem escrever como fatos calculáveis e predizíveis. Toda a vida é imprevisível. Talvez este seja o porém de ter ganho tal nome: Vida. O humano é algo complexo, definido por jogos constantes de poder, de inteligência e, por mais que certos neguem, de emoção. Gostamos das coisas. Das pessoas. Dos dias. Das noites. De doce. De salgado. E mais do que isso, gostamos de gostar. Gostamos tanto de gostar e desejamos tanto desejar que nos definimos por isso. Muitos negam, mas o humano é interesse. Não aquele interesse bobo que colocam na palavra interesseiro. Todos somos interesseiros. “Meu interesse é continuar vivendo, por isso como”. Um dos nossos maiores interesses, este mesmo, continuar vivo, está intrinsecamente disposto no próprio mecanismo de nossos cérebros. Entretanto, mesmo que este seja mesmo um mecanismo, o transpomos. Na verdade, o transpassamos. Ultrapassamos o – como dizem esses tão prolixos tecnófilos – nosso software e o nosso hardware. Somos mais. Assim como lobos, somos capazes de amputarmos nossas pernas e braços para sobreviver, assim como somos capazes de devorar nossos iguais a fim de que possamos procriar mais uma geração, mesmo que ainda existam outros seis bilhões de espécimes humanos. Entretanto, a natureza, antes, talvez, do próprio Deus, nos deu a capacidade de abstrair. E abstraindo…

Daí decapitar uma mulher que jamais conhecemos para que possamos reanimar um ente querido se torna fácil. Exterminar sistematicamente uma outra raça, credo, classe social se torna realmente muito fácil. “Os judeus é que são o problema”, era muito dito há 70 anos atrás e ainda é dito hoje em dia (once a nazi, always a nazi).

Talvez eu tenha essa percepção de maneira ainda apressada. Talvez a pesquisa realmente valide outras idéias. Entretanto, no momento, penso o seguinte, calcado em minhas conclusões prévias:

Abstraindo o homem chegou até onde está.

Entretanto, de tanto abstrair, acabou abstraindo a si próprio e descobrindo que o mundo pode continuar existindo com inteligência, cultura, tecnologia e progresso sem que sua existência seja um requisito.

Eu não sou o mais carola. Nem me considero ateu. Mas penso que a existência ontológica de Deus, de certa forma, nos coloca em nossos lugares. Pecadores inadvertidos que parecem almejar a próprio destruição. Vejo que muitos imaginam nossa existência como algo supra-natural. Como se o que fizéssemos transpassasse ou superasse a natureza. Nós, homens, somos a natureza. Aquecimento global, destruição do meio ambiente, tantas outras tormentas naturais fizeram isso, eliminaram milhares de espécies. Não sei, penso como no provérbio. Deus, ou o próprio universo, tem a qualidade essencial de ser o mistério…

Nós é que devíamos ter mais a qualidade essencial de desvendá-los, ao invés de simplesmente utilizá-los…