Ubermensch by Debord

Publicado em despise for humans por pedro em 08/24/2009

A antinomia dos valores não poderá jamais resolver-se e, finalmente, é em função desta mesma antinomia que as sociedades perduram. De modo substantivo e um tanto insolente, digamos que, enquanto os deuses se guerreiam, os homens estão tranquilos.

(Maffesoli, Conhecimento Comum, p.181, 1985)

Para os mortais, a ‘boa vida dos deuses’ seria uma vida sem vida.

(Arendt, A Condição Humana, p.132, 1958)

Singularidade Ética

Publicado em despise for humans por pedro em 08/18/2009

Fala-se muito, nesses tempos de Lei Azeredo e abusos no Twitter, sobre responsabilidade éticas em relação às novas tecnologias.

O discurso/diálogo/conflito não se baseia apenas nas tecnologias da informação. Desde Dolly as ciências médicas também mergulharam na mesma discussão: os desafios éticos envolvidos na modificação da vida através da medicina e da informática.

Eu penso, vendo (acho eu) essa situação de forma compreensiva, que seja na verdade o contrário. Não são necessariamente as tecnologias que nos defrontam com desafios éticos: são nossas próprias limitações éticas e morais que limitam a tecnologia.

Não estou aqui de forma alguma dizendo que a ética nazista, por exemplo, seria mais adequada. Mesmo ela é uma limitação. A crueza do cotidiano é a verdade de que muitas maldades muito mais terríveis passam batido enquanto aborto, clonagem, células tronco, anonimato e pirataria digital estão sempre na mesa.

Nesses quase dois meses que passei numa baixa produtiva (umas férias, pra não dizer uma falta completa de inspiração) eu discuti oralmente com vários comparsas, diletantes e conflitantes sobre o Twitter. E pego-o agora como bom exemplo para fundamentar meu argumento – a despeito de que muitas, ou todas, as redes sociais poderiam servir: é algo prévio que contempla o mau uso. Vou tão longe, pela liberdade a que me dou nesse blog, de dizer que o palavrão seja um outro exemplo, menos atual e mais historicista. Quando da invenção da oralidade o palavrão, o falar de baixo calão, foi o comment anônimo, o twitter-bulling, o spam.

Os desafios éticos que a liberdade da rede e a liberdade da célula incitam tem mais a ver com uma historicidade quase esquecida. Então, de repente, a grande revolução técnico-social, a grande singularidade seja mesmo uma transformação da condição humana. E essa pode ser uma interpretação do direito ficcional da transposição corpórea; o desejo embutido de ser homem mais que homem ou not man at all.

Talvez se a própria condição humana, em termos éticos – principalmente, pudesse ser ultrapassada ou modificada poderíamos ter então uma nova forma de perceber e apreender o que essa pequena singularidade que são as revoluções no campo da informática e das ciências duras realmente significa.

Proibir a palavra não impediria os sussuros…

Homo Sacer

Publicado em despise for humans por pedro em 06/25/2009

“O problema com a ‘paixão do Real’ do séc. XX não é o fato de ela ser uma paixão pelo Real, mas sim o fato de ser uma paixão falsa em que a implacável busca pelo real que há por trás das aparências é o estratagema definitivo para evitar o confronto com ele”.

Bush foi como se o Nirvana tocasse nos anos 60: a única preocupação da banda que tocasse depois era se os equipamentos não estavam totalmente destruídos. Mas o show era no sul dos Estados Unidos, porque parece que ninguém tá gostando do following act, só a mídia.

CNN e MSNBC, principalmente.

O senhor Obama – como estranhamente o chamam – fell short on his promisses. Nada mudou. Sua batalhas para emendar ‘as caixas de som’ deixadas por Bush vai acabar, e parece cada dia mais claro, sendo apenas isso. Sua demagogia inteligente – que o cara não pode deixar de no mínimo reconhecer – só anda servindo mesmo pra inflar ainda mais egos e posições aberrantes.

A incapacidade – e talvez falta completa de vontade – por parte da mídia em se colocar numa posição imparcial, ou pelo menos parcialmente imparcial, denota ainda mais a travessia da fantasia lacaniana. O núcleo duro do real, como dira meu amigo Bruno, acionado pela despesa battailiana, nesse atravessar, resulta no nojo. Nem a esquerda (se é que chegou o momento de se dizer político e ideologicamente que há sim esquerda nos EUA), nem mesmo ela, consegue mais viver com o nojo que a concretização da fantasia causou.

Primeiro, e deve-se apontar, a repulsa gera primeiro um estranhamento. Como Zizek aponta metaforiando A Professora de Piano (2001): ao concretizar a vil fantasia do sexo e da submissão, a professorinha se vê repulsionada pela idéia de tudo. Não é que a fantasia fosse uma proteção contra a entrega do ato, mas ao torná-la real, ao se atravessar a fantasia é a própria fantasia que se torna uma defesa contra o ato em si.

A fantasia e o próprio imaginário hollywoodiano vem promulgando a anos a campanha de Obama. Os milhões de dólares gastos diretamente em comícios e propagandas poderia ter sido facilmente poupado: a população já estava devidamente treinada. Mas, assim como no WTC, o que se viu foi exatamente o que disse no parágrafo anterior: a concretização da fantasia (ou do pesadelo) concretizou, na verdade, a farsa. A farsa do cotidiano, esvaziado de seus sentidos na produção cultural, a cultura do cotidiano se chocou, neste atravessar, foi invadida pela realidade. A fantasia do próprio poderio americano foi dilacerada pela realidade dos aviões, do fogo e do colapso.

E Obama é, numa dimensão menor, a concretização do mesmo. A fantasia do bondoso líder mundial se desvanece na figura de um homem sério e brincalhão, que fala coisas além de seu tempo e que não resolvem as dicotomias atuais.

A cultura que aceita cada vez mais o inescapável multifacetado da realidade para não conseguir entender uma palavra que ele diz; oposicionistas acusam e apoiadores vibram. O sentido não faz mais sentido também. É vitória baudrillardiana? Poderia-se dizer, mas recuso-me a aceitar o termo vitória. Prefiro a catástrofe baudrillardiana. A antecipação do siécle XIX e XX, da grande tragédia que consumiria Ocidente e Oriente, sem distinção, veio na forma de signos.

Esse Real que tenta ser reinserido por Obama encontra somente o trauma: “exatamente por ser real, ou seja, em razão de seu caráter traumático e excessivo, não somos capazes de integrá-lo na nossa realidade (no que sentimos como tal), e portanto somos forçados a senti-lo como um pesadelo fantástico”.

Costumo invalidar os comentários pecaminosos da direita – a despeito de entendê-los – mas aqui abrirei, inspirado por trolls que acusam-me, um parágrafo para validá-los. É demagogia. É um presidente de araque que cumprirá seus quatros anos sem nenhuma promessa cumprida. A expressão usada, se não me engano, foi diletantismo obâmico. Mas amor a uma arte não é minha primeira opção para definir o entuasiasmo cego em volta dessa figura. Diferente da direita – e talvez também da esquerda – eu tenho posições multifacetadas em relação as coisas (e falo isso numa das raridades desse blog, também por ser acusado de não me posicionar, a despeito de depois ter sido horrivelmente acusado de ser esquerdista) e por isso fica difícil me posicionar completamente.

A princípio, como muitos, meu entuasiasmo estava sedimentado na idéia de que qualquer coisa seria melhor que Bush. Mas ‘coisa qualquer’ não apareceu; o que apareceu foi nada. O que apareceu foi um presidente acusado de ser liberal, mas dá de graça bilhões de dólares para salvar empresas que deveriam e precisariam falir. Acusado de esquerdista, ele favorece a guerra e o socialismo do qual é acusado, usando a mesma palavra, desvanece numa névoa de bilhões de dólares e centenas de afegãos mortos. Ele discursa em universidade cristã, falando sobre diálogo em questões como aborto e saúde, mas empurra uma estranha agenda de favorecimento e de impunidade.

Estranho, esse Obama.

Estranho por ser a dureza da realidade de que qualquer raça ou partido, “a competência e a perícia são proscritas”. Negro ou branco, negros e brancos continuaram na mesma. Mas ideologicamente it looks good, não é? O policulturalismo da “esquerda canalha” se vê também no fogo cruzado das múltiplas posições e múltiplas realidades. E o Real? Ah, esse é que é o problema.

“Geralment dizemos que não se deve tomar ficção por realidade – lembremo-nos das doxas pós-modernas (e essa vai pros meus admiradores e contestadores) segundo as quais a ‘realidade’ é um produto do discurso, uma ficção simbólica que erroneamente percebemos como entidade autônoma. Aqui a lição da psicanálise é o contrário: Não se deve tomar a realidade por ficção – é preciso ter a capacidade de discernir, naquilo que percebemos como ficção, o núcleo duro do Real que só temos condições de suportar se o transformarmos em ficção. Resumindo, é necessário ter a capacidade de distinguir qual parte da realidade é ‘transfuncionalizada’ pela fantasia, de forma que, apesar de ser parte da realidade, seja percebida num modo ficcional”.

E como o Homem-Rato freudiano, acuado em sua sublimação de classes, também Bush serve para acuar quem critica Obama, e ser para ensinar as massas que um presidente fraco é melhor do que um cruel.

As citações são do livro “Bem-Vindo ao Deserto do Real”, de Slavoj Zizek. Não lembro o ano porque estou sem o livro, só com os scans. É uma boa leitura complementar para qualquer coisa, mas principalmente para entender a cultura da mídia e a teoria baudrillardiana. Principalmente no que essas duas coisas se relacionam com a psicanálise freudiana e lacaniana e ao entendimento de que a realidade é algo multifacetado, construindo a partir de conflitos e acordos.

Iran Badu

Publicado em despise for humans por pedro em 06/22/2009

Posteriormente eu farei um post mais compreensivo sobre esse assunto, mas vale traçar.

Na última semana o povão do mundo inteiro foi pego de surpresa por uma coisa que ninguém esperava. Tá certo que pelo menos desde de McLuhan já sabemos que a mídia pode servir as vontades do povo – e não só mera dominação ideológica – e sabíamos que ela conseguia ser o powder cag pra começar coisas importantes (sem julgamento de valores). Impeachment do Collor, Million Man March (parts one and two). Esse tipo de coisa.

Mas num país que lutou, há uns 30 anos atrás, pra VIRAR UMA DITADURA RELIGIOSA não estava no topo da lista de ah, vamos botar fogo nessa bosta. França, Alemanha e Grécia andavam encabeçando a lista de países com um povo prontinho pra incendiar carros na rua.

Só que não foi bem isso que aconteceu no Irã. Primeiro os padrecos que realmente mandam no país anunciaram que o presidente de nome impronunciável tinha se reeleito. O anúncio veio algumas horas depois do fim das votações e chocou o mundo por ser a mais clara prova da irrefutabilidade da corrupção naquele país: urnas de papel levam horas, dias às vezes, para serem apuradas. “Até isso é melhor no Irã”, dizia um dos canais de TV justificando a velocidade da apuração dos votos.

Mas o que viria foi realmente inacreditável. Ninguém saiu nas ruas quebrando coisas. No espírito da moça morta Neda, jovens, adultos e até mesmo idosos foram para rua pedir, pacificamente, não que os aitolás caiam fora, mas que o sonho da república islâmica, passado pro Ocidente como uma realidade táctil, se tornasse real. “Queremos liberdade”, gritam as pessoas na rua. Mas ninguém vê. Ninguém?

Então entra sobre o que esse post é: tem muita gente (muita gente mesmo) falando sobre como as novas tecnologias da comunicação estão mudando o mundo. A prova irrefutável disso está acontecendo agora. A despeito das mentiras, besteiras, racismos e extremismos que achamos na Internet, a rede finalmente serve ao propósito de libertação do homem. Facebook e Twitter se tornaram mais do que redes sociais: são murais para a dor, para a morte.

A total liberdade da rede se tornou o tótem da total falta de liberdade.

Num país, que se pretende potência e não passa de um deserto (em tantos, tantos sentidos) com shopping centers e milionários (diferente de Dubai pela quantidade de shoppings, milionários e ideologia), onde a mídia serve, como nos tempos de Rússia comunista e Alemanha nazista, aos propósitos de velhos gordos e ricos que passam seu tempo estuprando crianças, vemos surgir o verdadeiramente mais significativo movimento ideológico, cultural, social (chame como quiser) dentro da rede.

E se faz um parâmetro analógico até mesmo com o dito download ilegal; facebook e twitter são, nesse momento, ilegais, proíbidos, no Irã. Olha lá e vê se isso impediu eles.

Por isso há quase dez anos eu falo pra amigos, colegas de academia, professores e muito por aqui: THE WEB IS UNSTOPPABLE. Feita para ser assim é óbvio que assim ela será. Militares não ligam para download ilegal; ligam para comunicação total. Para dados que podem ser conservados e protegidos e a rede, ao ser aberta a todos, desapareceu com o seu único impedimento real: o acesso. Agora que podemos acessar essa rede, que cresce como o tumor benigno mais miraculoso de todos, podemos finalmente cantar todos aqueles cantos. De ódio ou amor.

Neda não é a voz da revolução, não é a voz do Irã. É, mesmo que seja algo encenado e falso, simulado, a verdade da era em que vivemos.

VEJA COMO VEMOS A GAROTA MORRER HORRIVELMENTE E NÃO FAZEMOS…

…NADA.

Veja como os horrores do mundo vem das mãos das pessoas. Realmente, aos amigos jornalistas, não precisa de diploma. Precisa de YouTube e um celular com câmera. Precisa-se estar lá.

De certo precisamos revisar nossas idéias e teorias sobre sociedade e cultura mediada.

Guerra e Aborto

Publicado em despise for humans por pedro em 06/19/2009

Vou traçar aqui uma analogia que se desprende do Brasil. Aqui somos um país basicamente pacífico em termos de guerras diretas com outras nações, entretanto podemos – e o farei – fazer essa aproximação através da guerrilha urbana - ou suburbana – que vem sendo trava entre as forças do poder – donos de terra, polícia, judiciário – e algumas facções criminosas ou movimentos sociais.

Mike Huckabee, um ex-governador norte-americano e apresentador da FOX News, apareceu ontem no Daily Show falando aborto e foi isso que me fez escrever esse post. Huckabbe falou, já de início, que a discussão não deve girar ao redor do aborto em si, mas do valor da vida humana; ele afirma, em seguida, que acredita que toda a vida humana tem um valor inestimável.

O que é a vida? Onde ela começa e onde começamos a ser responsáveis por ela, no sentido de provê-la dos mesmos direitos inalienáveis que todos temos? Essas foram as perguntas sugeridas pelo ex-governador.

Ele seguiu dizendo que a verdadeira lógica é que estaríamos treinando toda uma geração – the one after us, ele diz – para acreditar que é certo, que não tem problema tirar uma vida humana porque ela representa uma interferência em nossas vidas, uma irrupção, seja econômica, seja ela social. Ele segue dizendo algo assim: “religiosa e cientificamente, o momento da concepção, quando os 23 cromossomos de cada pai se unem, criando uma combinação nunca antes vista de 46 cromossomos, isso é realmente quando a vida começa”.

Ele liga essa idéia a velhice. Se ensinarmos nossos filhos que tirar uma vida que se tornou um inconveniente econômico ou social – ou ambos – estaremos colocando em risco nossas próprias vidas quando chegarmos à idade mais avançada e nossos filhos terão de cuidar de nós. “Pai, o tratamento da sua bexiga solta realmente é caro e eu sempre passo vergonha: eutanásia pra ti”, foi mais ou menos o que ele quis dizer.

Minha percepção desse problema, obviamente, passa pela ideologia: passa pela maneira como pensamos o mundo. A moralidade do problema, em si, é para mim, francamente irrelevante. A entrevista desbanca para a questão legal, da soberania do corpo e toda aquela demagogia de Obama: vamos trabalhar juntos.

Para mim o problema é esse: a ideologia dominante já diz, senhor ex-governador. Quando a vida de Saddam Hussein se tornou UM IMPECILHO ECONÔMICO E SOCIAL PARA A NAÇÃO SOBERANA DOS ESTADOS UNIDOS, ele simplesmente foi eliminado. Morrer é um imenso impecilho econômico e social, e não apenas individual; a morte individual – que, na verdade, acarreta muitos poucos males para a pessoa que morreu, já que ela morreu e sabe-se lá o que há (e se há) do outro – acarreta perdas sociais: todos perdemos. A guerra, principalmente a proposta pelos norte-americanos, que se trata de caçar especificamente um grupo de pessoas – que, de fato, pertencem a diversos grupos étnicos diferentes – para que elas sejam ou imediatamente mortas (em conflitos diretos, como nas ruas de Bagdá em 2002), ou mediadamente mortas (como acontece até hoje nas ruas de Bagdá e em tantos outros lugares do mundo onde o terrorismo age quase que livremente), ou, finalmente, julgadas em algum sham tribunal em Gitmo ou em qualquer lugar do mundo para serem, também finalmente, geralmente sentenciadas a vida na prisão (não-vida) ou execução (novamente morte).

Se a vida de Osama Bin Laden se tornar um empecilho econômico e social para a vida de apenas um norte-americano, ele com certeza será caçado, julgado e morto.

As idéias – salvo as suas dimensões – são exatamente iguais: o povo iraquiano, centenas de crianças e jovens, padeceram na mira das máquinas de pós-aborto americano. Quando começa a vida do iraquiano? Do afegão? Da criança que nasce no seio de uma comunidade extremista religiosa e não tem a oportunidade jamais de ouvir: É, filho. Eu não tenho todas as respostas. O que é a vida de centenas de milhares de africanos das mais diversas nacionalidades que morrem todos os anos pelo mais puro descaso? Até na inação a ideologia é a mesma: destruir o impecilho. Há umas semanas atrás – e talvez por isso John Stewart tenha convidado Huckabee – um extremismo pró-vida assassinou um médico. Obviamente o médico fazia abortos. E é aí que se mantém a minha linha de pensamento. A ideologia, a forma de entender o mundo já é essa. O valor da vida humana se limita ao seu índice de perturbação: os sem-terra podem protestar o quanto quiserem, até começarem a atrapalhar a economia ou a socialidade de uma determinada região ou classe.

As milícias no Rio de Janeiro podem continuar extorquindo os comerciantes e trabalhadores até que isso apareça nos jornais e atrapalhe o andamento da imagem política do país, estado ou cidade. Daí é chumbo neles. Daí, o filho da dona Alzira, que tem 15 anos – não 15 semanas dentro do útero – é tratado até pelos mais religiosos como meia-vida, semi-vida, anti-vida e até mesmo subvida. Chora-se por ele quando ele recebe 8 tiros de metralhadora, disparados por um policial militar em meio a um tiroteio. Na hora que o filho de dona Alzira levantou seu braço e estendeu na mão dura de quem acredita que o tráfico, que a organização criminosa (por mais desorganizada que seja), ou que mesmo os amigos é que estão ideologicamente corretos, e que a justeza e as leis do país pouco importam, ele se tornou um impecilho e será lidado como qualquer outro impecilho.

Não é necessário educar as crianças a favor do aborto: elas já são. Mesmo as que dizem que não, mesmo os padrecos, pastoris e bispótes que tanto falam em sermões, missas e até mesmo em blogs e twitters da vida, até mesmo eles são pró-aborto. A incrível colocação nunca vista antes de cromossomo, que pode ser Einstein ou Hitler (ou pior, Goebbels: carrasco de toda a humanidade), é mais importante do que um garoto que existe, que age no mundo, que anda e fala, que ama e é amado. O amontoado de célular, meu amigo, certamente é um ser humano. De fato, não é nada além disso. Assim como a unha do pé podre de meu avô que caiu uma vez também continuava sendo, mesmo desprendida de seu corpo, ele: os mesmos 46 cromossomos.

O sangue do filho de dona Alzira – que pode ser um empregada doméstica carioca ou uma fiel credora de Alá – esparramado pelo chão junto com suas vísceras, membros e pele, também continua sendo ele. E ainda por anos será, mesmo depois de sua morte.

O mundo atual, e talvez as diversas socializações comunicacionais – desde a imprensa até a rede – tenham facilitado ou incitado isso, parece estar sempre perseguindo a inutilidade, os momentos fúteis, ao invés de travar as batalhas reais.

Todas as pessoas mortas em guerra também são abortos eletivos.

A completa parcialidade ideológica da maior parte das culturas demagógicas, estritamente religiosas e conservadoras é a verdadeira clínica de aborto.

E então, o homem esclarecido é forçado a se perguntar: esta ferrenha discussão sobre o aborto, que move tantas mentes e corações, não seria apenas uma cortina de fumaça? Como tantas outras, não é mesmo?

O que hoje em dia não é?

Pra fechar, no final da entrevista Huckabee menciona uma menina que conhecera que fora, um dia, um embrião congelado. A mãe da menina disse para ele: “Olhe para minha vida e me diga que aqueles embriões não tem vida”.

Olhe para os caixões no Iraque e me diga que ali não tem vida.

“Do i have the right to say that I own another person’s life to the point that I may dispose of it and consider it to be expendable?”

Sim, senhor ex-governador. Aparentemente, em diversos lugares do mundo, inclusive nos grandes Estados Unidos da América do Norte, esse é um direito.

Ontem eu quase apanhei por ser mais inteligente? (com a interrogação fica menos arrogante)

Publicado em despise for humans por pedro em 06/06/2009

Eu vou, depois, com mais calma, explicar essa história mais a fundo.

Mas vale mencionar:

Estavámos no Bambu’s, bebendo, rindo, conversando sobre amenidades e até algumas coisas importantes, tipo indústria cultural e a homegeinização cultural pela qual o Ocidente, e, marcadamente, Porto Alegre, vem passando nos últimos 20 anos.

Estava, portanto, falando, sempre amigavelmente quando um bando de cabeludos que estava ao nosso lado descaradamente ouvindo a conversa resolveram se meter. A princípio foi uma intervenção bem positiva e engraçada: o assunto era como a cultura de hoje fagocita tudo e quem acha que tá fora do ’sistema de produtos mercantilizáveis’ é inocente or plain stupid.

Então que começamos a falar sobre como os grupos étnicos foram sendo excluídos e inseridos nas sociedades ocidentais e, mais recentemente, também nas orientais. Estávamos falando sobre a China. Quinta-feira sendo o vigésimo aniversário de Tiananmen, apontavámos que a senzala hoje é a China: senzala que tem seus rumos dirigidos pelos próprios escravos – uma verdadeira comuna de trabalhos quase-forçados que sustenta o Ocidente capitalista e consumista-individualista com os tão necessários produtos industrializados.

Então um desses cabeludos começa a falar dos judeus, e de como eles estão sofrendo há 2 mil anos. Papo imbecil de um cara imbecil que nem sequer consegue perceber o claro anti-semitismo em seu discurso. 2 mil anos? Peraí, cara. Os judeus perseguiram cristãos. Colonizar a Europa. E só bem depois, só há mil anos é que começaram a ser, de fato, perseguidos da forma como seu discurso clamava acontecer ainda hoje. Hoje, eu disse, eles tem até um país só deles, cara.

No calor, o Floco e eu começamos a tirar com a cara do cara. “A história não é uma linha retinha, meu”. E daí eu disse: “cara, quando tu terminar tua faculdadizinha volta aqui e a gente conversa”. Ele começou a gritar e espernear e o Floco deu o golpe de misericórdia: “Que faculdade tu faz?” Quando o cara respondeu, com o peito cheio de total arrogância “economia”, eu e meu querido amigo caímos na gargalhada. “Cabeludo, metaleiro e faz economia”…

Nesse momento eu só vi o peito do cara se enchendo ainda mais e um de seus punhos que, francamente, eu nem vi direito qual, porque, francamente, nem prestei muita atenção no cara, levantando. Um dos amigos segurou ele e rapidamente o grupo desbandou.

“Digamos que o que permite tornar inteligível o real é mostrar simplesmente que ele foi possível”

Já dizia nosso bom Foucault lá nos anos 70. O que ele, assim como vários outros pensadores, falhou em perceber foi a ruína do pensamento cotidiano; quando discursos e ideologias estão tão desgastados pelo uso midiático, perde-se a linha-guia do pensamento. Qual é o real? Como mostrar que o real é aquilo que de fato aconteceu quando tem gente por aí negando a factualidade de certas coisas?

Não dá pra ser assim. Não é que todos tenhamos que pensar igual, mas não dá pra entrar em discussões sobre o que tu acha do céu ser azul… o céu é azul e pronto. Gostar, não gostar, achar, não achar, é IRRELEVANTE.

Relevante é considerarmos criticamente quais discursos são falsos e verdadeiros e que tipo de ideologia, discurso, sociedade, cultura, civilização, não apenas os permite como incita. A História tá lá, é só parar de ouvir Craddle of Filth ou Pantera e pegar um livro pra ler.

Ou melhor, Google.

O pior de tudo foi o cara me dizendo: “ah, tu não tem fundamento pra falar isso”.

Quem tem fundamento é tu, babaca. Tu e a tua faculdade canalha de crunchin’ numbers. Quer discutir o Dow? Vai fundo, disso tu sabe. Agora falar de condição humana, história das religiões e filosofia analítica, existencial e hermenêutica, porra, vai ler um livro antes, cara. Qualquer um. Te dou até umas dicas.

E repito:

“A competência e a perícia são proscritas como arrogância de quem se acha melhor que os outros


Sociedade Industrial da Cultura ou Indústria da Sociedade Cultural ou Cultura da Indústria Social?

Publicado em despise for humans por pedro em 06/05/2009

“A competência e a perícia são proscritas como arrogância de quem se acha melhor que os outros, quando a cultura distribui tão democraticamente seu privilégio. Em face da trégua ideológica, o conformismo dos compradores, assim como descaramento da produção que eles mantêm em marcha, adquire boa consciência”

[...]

“Pois só a vitória universal do ritmo de produção e reprodução mecânica é a garantia de que nada mudará, de que nada surgirá que não se adapte”

Para que uma indústria se diversifique absolutamente é preciso uma mão-de-obra também absoluta. E que mão-de-obra poderia vir a se tornar absoluta?

Para o bem e para o mal, fazendo um mea culpa – por escrever num blog e ter perfil no Orkut e Facebook, a força de trabalho envolvida nesta fase, nem tão diferente, da indústria cultural somos todos nós.

Sociedade de fato marcada por uma cultura da mídia, mais do que cibercultura: esta é apenas a ferramenta, o sentido, que parece se perder (Baudrillard), é na verdade é da democratização total da mídia. Digg, Facebook, YouTube: as formas são as mesmas (músicas, vídeos, sons, imagens, palavras, linguagem), os meios, de certo, também (a despeito de sua natureza digital, que merece um post exclusivo). Entretanto escapamos dos ditos de adornianos/horkheimerianos pois não há mais o manager, não há mais a cabeça no controle de uma perspectiva economicista ou coorporativa (a não ser na orientação do meio de natureza digital. Por exemplo? O cara do Facebook ou o seu Orkut): somos nós os controladores.

Gatekeepers?, perguntariam alguns ciberculturologistas. Mas é além.

A democratização é tamanha que não se tem mais gate: tudo vale. Tudo entra. Pra que profissionais treinados em repetição se já temos aí três gerações altamente treinadas nisso? No Canal Futura esses dias o cara do CQC falava: “essa geração de hoje é mais treinada”, complementado por Washington Olivetto: “eles não aceitam qualquer coisa. É um desafio”.

O desafio, Uáxintom, é se manter relevante.

post   igual   em:  HTTP://OMELHORDOPEOR.BLOGSPOT.COM
http://www.mininova.org/tor/2389067

Enlightment or Extermination?

Publicado em despise for humans por pedro em 06/05/2009

“Estou a ponto”, diz Juliette ao papa, “de desejar como Tibério que o gênero humano só tenha uma cabeça para ter o prazer de cortá-la com um só golpe”

Essa frase foi tirada de A Dialética do Esclarecimento, de Adorno e Horkheimer, Excurso II, página93, da edição brasileira de 2006.

Como eu disse a alguns posts atrás, este é só um dos livros que ando lendo. Entretanto, de forma um pouco estranha, a maioria parece contemplar – mesmo que de perspectivas totalmente diferentes – o mesmo assunto: a condição humana, seja de perceber o universo, seja de governar a sociedade, a formação e deformação de uma forma de entender o mundo, seja de pensar a vida individual.

Nesse livro, em específico, a proposição reverbera em Lyotard e em Sfez; para construir um novo mundo é preciso primeiro ceifar este que aí está.

O problema do terrorismo: objetiva a destruição objetiva de uma realidade subjetiva através de medidas e pesos subjetivos. O medo, o terror, o pânico; finalmente, a morte.

A solução: vamos todos optar pela obliteração desse mundo. Nem me importo se eu for escolhido pra destruição. Prefiro as completudes absolutas; morte ou vida. Semi-vida, quase-morte, morto-vivo, vivo-morto…

Deuteranopia. Definitivamente deuteranopia.

Publicado em despise for humans por pedro em 06/02/2009

Definitivamente o estudo precisa ser de uma deuteranopia social.

As pessoas não veem as coisas do mesmo jeito, dizem-se os anais populares. To see eye to eye, sabe?

É até meio rídiculo pensar que até muito pouco tempo a percepção de que existem múltiplas interpretações da cultura era interditada por um determinismo que poderíamos até chamar de hediondo. Mesmo sob a analogia mecanicista, pelo amor de Deus, eu já tive televisores com corks and manias. A minha TV da sala é assim é até hoje.

E talvez aí resida a verdadeira confusão e a verdadeira antroposocial derailing: a percepção da utopia, qualquer que seja ela, passa pelo escrutínio do indivíduo e, individualmente, essa utopia vai aplacar medos, anseios e ambições INDIVIDUAIS. Não há um contrato social, como queria o séc. XVI. O que existe são múltiplos acordos múltiplos, sabe? O processo de negociação da sociedade é perene: the guidelines are not clearly defined… de fato, as linhas-guia não são claramente definidas NUNCA.

Nossas próprias relações interpessoais denunciam. A fofoca, como fenômeno interpessoal – referente a interações diretas entre pessoas de uma mesmo círculo social, talvez seja o melhor exemplo. A interpretação dos acontecimentos – dos fatos, “preto no branco”, como diriam os mais positivos – passa pelo escrutínio pessoal e culpa, falibilidade, os lados (para falar coloquialmente), se transformam de tal maneira que a história pode até ficar irreconhecícel.

A História, com H maiúsculo (nada dessa dicotomia americanóide entre história e estória: é História – das civilizações – e história – que tu conta no bar), bom, daí é outros 500, como se diz. Esta pertence aos vencedores. Na cotidianidade não temos vencedores e perdedores de forma tão definitiva e definidora: brigas de namorados e entre amigos – e até mesmo as profissionais – causam cismas que geralmente dividem, sem noções de vitória ou acerto.

Já aconteceu comigo. E preciso fazer uma mea culpa: já aconteceu com todo mundo. Raiva, angústia, ciúme, desejo, orgulho (geralmente esse último mais do que os outros), fazem a gente ver as situações da forma que queremos. “Tal namoro acabou por culpa dela”, “aquele cara é que é um idiota”; temos a propensão (a Freud exprica) a projetar as coisas (como na própria utopia). Queremos que o mundo seja como nós somos, às vezes (ou geralmente) até nos nossos piores defeitos: assim, a falha pessoal se torna falha de outrém, o nosso egoísmo o dos outros, os nossos problemas, problemas dos outros.

E assim vamos acordando todos os dias; deixamos coisas passar e outras, às vezes (ou, de novo, geralmente) até coisas desimportantes, levamos às últimas consequências. É, no mínimo, rísivel. Porém, antes disso, é também uma faceta da condição humana geralmente deixada de lado, a não ser quando se trata dos clinicamente insanos. Daí com esses há naturalidade: não dá pra convencer o louco de que ele é louco; ele continua pensando que loucos somos nós.

Entretanto, o mesmo acontece com outras patologias sociais. Não dá pra convencer o idiota de que ele é idiota, o irresponsável de que ele é irresponsável. Vê-se isso muito no trânsito: o cara bate, a culpa é dele, mas ele saí do carro xingando e metendo a boca. “Todos são idiotas, menos eu”. Até vi um adesivo num carro ontem: Por que será que eu sou a única pessoa no mundo que sabe dirigir?

E é preciso fazer uma mea culpa todos os dias. Sobre todos os aspectos. Não sei se é porque me identifico com essa proposta de existência, mas a atitude crítica é necessária e parte dela é a autocrítica. É apontar, como índice e não lateralmente, que não somos deuses. Que eu sou tão imbecil quanto todos vocês. Não é se diminuir. Não dá pra ofender se eu disser que todos são imbecis, inclusive eu.

O problema principal é a projeção: e as duas, tanto a psicológica-psiquiátrica, quanto a utópia de construção do mundo, se refletem numa mesma percepção. Reinterpretamos História e histórias, nossas vidas cotidianas, para servirem aos propósitos de ambas as construções; pessoal ou social. E como projetar uma realidade, em termos de percepção e de engendramento, que não se pode perceber integralmente? Como pintar uma paisagem que não se pode ver completamente?

Aquela grama é verde ou vermelha? Quem falou isso? Eu ou você? Ou foi ele? Ou ela? Isso caiu ou foi derrubado?

Haja memória pra lembrar do que acontece na minha vida e do que eu mesmo disse mês passado…

Utopia or Deuteranopia?

Publicado em despise for humans por pedro em 06/01/2009

A utopia é uma amiga fiel da humanidade. Poderíamos até dizer que é parte fundamental do imaginário fundador da civilização. Afinal, estar junto (maffesoliano ou não) é uma necessidade quase-utópica da socieadade já que, desde a física até a sociologia, a impossibilidade da comutação total permeia a própria forma com que entendemos o mundo: queremos os outros, mas a uma distância segura.

Em Sfez, vamos ter uma confirmação: toda utopia é projeto e todo projeto almeja ser realidade. A blueprint proposta pretende-se prédio. A coisa é tal, resultado de uma construção, porque, fantasiada, revela-se como idéia diante do construtor, em Heidegger. A imagem é a própria forma da coisa. O pensamento nos permite a fantasia, nos permite o cálculo, a lógica, a esperança e o sonho. Permite-nos, como dizem os anais dos clichês, pensar um outro mundo; imaginar que há a possibilidade de se existir de outras formas.

Cidades, nações, civilizações… projetos utópicos trazidos ao mundo por gerações e gerações de sonhadores, poderia-se dizer; sonhando acordados com um mundo que ainda não existe.

Mas, em Morin, temos que a conclusão de um projeto para um novo mundo passa obrigatoriamente pela obliteração do projeto de mundo em curso.

Precisa-se perceber o mundo em seu curso atual para então mudar suas coordenadas. Por isso utopia: não-lugar. Fora dos lugares: outside the world, or, at least, outside THIS world.

Daí surge a questão: utopia ou deuteranopia? Não é percepção da construção de uma utopia, a demarcação de seus índices e a limitação de seus rumos, é a própria percepção de que seja possível uma utopia.

Deuteranopia é um dos tipos de color blindness, na verdade, é provavelmente a mais conhecida. Daltonismo para os íntimo. Incapacidade de processar algumas cores.

Então: pode alguém (ou todos) configurar uma utopia, um novo mundo possível decalcado por cima desse, sem conseguir apreender todos os índices do velho?

A transformação do mundo, se for direcionada (mesmo que apenas se pretenda isso), deve passar pelo conhecimento do mundo. Mas que mundo?, uma infinidade de autores nos alertará. Na década de 1970, junto Jean-François Lyotard, o mundo declarava a pós-modernidade. Esta, antes de projeto de mundo, emplacava (no sentido sedimentar) a percepção fluída de um mundo onde mundos coexistem. As grandes ideologias se tornaram meta-relatos: pulverizou-se e diversificou-se o maquinário utópico da civilização ocidental. Agora as máquinas de Deus estão nas mãos de todos em mais do que modos subjetivos e distantes: as fantasias utópicas que ora eram políticas, ora econômicas, ora militares, de sangue ou teológicas, se sublimam na imperatriz da variação. Utopia tecnológica. A cegueira da humanidade que impossibilitava a utopia social se articula na possibilidade de que TÉCNICA + CIÊNCIA vão desbravar esse diferencial insolúvel.

Mas não era a cegueira o empecilho anterior? E podem ter certeza – nas poucas coisas que se pode ter certeza – de que continua sendo. Obama, Apple, multiculturalismo, preservação do meio ambiente… vivemos, mais do que antes, eu diria, uma era de utopismos em atopismos. Evolucionismo ou atavismo? Estamos, na verdade, em estagnismo. Congelados como cervos, os faróis são a brilhante fantasia que se orquestra em todos os níveis da sociedade. A política se oblitera para abrir caminho para uma nova forma que ainda não tem forma. A economia convulsiona com a incerteza constante de transformações não-econômicas? Não. A economia segue a uma distância segura apoiando o mundo não atópico, obliterando as chances de transformação e conservando as articulações reumáticas de um mundo que parece cada dia mais próximo de uma forma limítrofe.

A cegueira, portanto, não é total. É verdadeiramente daltonismo: a incapacidade de se ver alguns índices da realidade. É a arrogância de trocar o azul pelo vermelho: troca-se a Terra por Marte, por um planeta novo capaz de ser totalmente terraformado pelo cálculo, pela matemática, pela lógica, pela comensura proporcionalizante.

Por isso a pergunta: a sublimação tecnológica não é ainda outra impossibilidade de se ver? Nas coisas e cálculos o ser perde um pouco mais de si e o Homem é transformado em mamífero cordado de inteligência superior: a humanidade se torna empreitada, aventura. Children are burning and we are watching it on our Ipods.

Eu não sou o maior fã de Oasis do mundo, mas em seu novo disco uma música, com o nome sinistro de Falling Down, nos aponta uma realidade latente da qual, de fato, músicos famosos devem ter informações privilegiadas: estamos vivendo um sonho moribundo. Um estranho sonho do séc. XVII, de máquinas voadoras e espíritos ligados por conduítes de ouro e estanho. Tungstênio inflamado de uma realidade tão possível, mas que escapou entre os dedos de tolas batalhas ideológicas e economicismos tacanhos.

Perdemos muito de nós mesmos ao ganharmos a era em que vivemos.

O mais estranho é que o jazz, os escritores beat, a arte do início do séc. XX (a semana de 22, Jackson Pollock), todos avisaram.

Ninguém quis escutar.

You’re hurting my hand!… Normally, I like that. But this time I can’t reciprocate your feelings.