“O que opera na história não é a idéia sistemática formulada por um gênio, mas imitações alteradas, réplicas, falsificações, analogias e distorções nas mentes individuais.
[...]
‘A Teoria da Relatividade promete se tornar um princípio tão adequado à aplicação universal como aconteceu com a Teoria da Evolução. Esta teoria tardia, ao invés de ser uma hipótese biológica técnica, tornou-se um guia inspirados aos trabalhadores de praticamente todos os campos de conhecimento: maneiras e costumes, moralidade, religiões, filosofias, artes, motores a vapor, trens elétricos – tudo ‘evolui’. ‘Evolução’ tornou-se um termo muito geral; tornou-se também impreciso até que, em muitos casos, o original, o significado definitivo da palavra foi perdido, de forma que a teoria original evocada tornou-se incompreendida. Temos audácia suficiente para profetizar carreira similar e destino à Teoria da Relatividade. A teoria técnica da física, no momento precariamente compreendida, tornar-se-á ainda mais vaga e obscura. A história se repete, e a relatividade, como a evolução, depois de receber um número inteligível de apresentações inexatas de seu aspecto científico, será lançada numa carreia mundial de conquistas. Acreditamos que, então, chamar-se-á provavelmente Relativismus. Muitas destas amplas aplicações serão sem dúvida justificáveis; algumas serão absurdas e um número considerável, imaginamos, se reduzirão a truísmos. E a teoria física, a mera semente desse poderoso crescimento, tornar-se-á uma vez mais uma preocupação puramente técnica de cientistas.’”
Walter Lippmann, .104-105, 1922.
O autor está citando uma passagem do suplemento de literatura do London Times de junho de 1921.
Ideologia não é coisa do passado e não, nós não vivemos num mundo pós-ideológico nem muito menos numa ‘trégua ideológica’
By way of a simple reflection on how the horizon of historical imagination is subjected to change, we find ourselves in medias res, compelled to accept the unrelenting pertinence of the notion of ideology. Up to a decade or two ago, the system production-nature (man’s productive-exploitative relationship with nature and its resources) was perceived as a constant, whereas everybody was busy imagining different forms of the social organization of production and commerce (Fascism or Communism as alternatives to liberal capitalism); today, as Fredric Jameson perspicaciously remarked, nobody seriously considers possible alternatives to capitalism any longer, whereas popular imagination is persecuted by the visions of the forthcoming ‘breakdown of nature’, of the stoppage of all life on earth — it seems easier to imagine the ‘end of the world’ than a far more modest change in the mode of production, as if liberal capitalism is the ‘real’ that will somehow survive even under conditions of a global ecological catastrophe . . . . One can thus categorically assert the existence of ideology qua generative matrix that regulates the relationship between visible and non-visible, between imaginable and nonimaginable, as well as the changes in this relationship.
Isso é um excerto da introdução de Mapping Ideology, um livro organizado e escrito por Slavoj Zizek. Esse livro fala sobre ideologia e conta com ‘participações’ de gigantes da area, como Frederic Jameson, Louis Althusser, Pierre Bourdieu e Theodor Adorno.
Quem quiser encontra o texto em
http://bit.ly/s2DcA
Special thanx do @fabiofernandes que retwitou essa pérola
A antinomia dos valores não poderá jamais resolver-se e, finalmente, é em função desta mesma antinomia que as sociedades perduram. De modo substantivo e um tanto insolente, digamos que, enquanto os deuses se guerreiam, os homens estão tranquilos.
(Maffesoli, Conhecimento Comum, p.181, 1985)
Para os mortais, a ‘boa vida dos deuses’ seria uma vida sem vida.
(Arendt, A Condição Humana, p.132, 1958)
Um discípulo de Comte, interrogando-se acerca de questões de método, chega a falar de ‘gongorismo científico’, a propósito da complicação extrema das hipóteses. Podemos seguir tal análise positivista nesse ponto: este ‘gongorismo’ acha-se bastante difundido no domínio das ciências humanas – e seu único efeito é o de desacreditar nossas disciplinas e ferir a reputação dos que a praticam. Escrever sociologia é o que Bertaux propõe como tarefa – e das mais urgentes. ‘Começamos a saber o que temos a dizer… mas ainda não encontramos a forma de dizê-lo’. O artigo que ele dedica ao exame deste problema é dos mais claros e, sem compartir seu otimismo acerca do serviço (prestado) à humanidade, não há dúvida de que seus argumentos sobre não-legibilidade, a crítica que faz a certa aparência científica, a que dirige ao superdesenvolvimento do método quantitativista ou, ainda, a que vota ao modelo ‘normalista’ – são justos. Tanto mais que lassidão e fastio campeiam em certo ‘mundinho’ intelectual. Sabe-se, por exemplo, que já não é costume ler-se trabalhos de colegas. Intrigas, mexericos malévolos, acusações de diletantismo, a reputação conquistada – tudo serve para favorecer a preguiça e o autismo intelectuais. Quanto aos estudantes, é sabido que há muito alcançaram as margens plácidas dos manuais ou as de toda espécie de apostilas.
Meses eu passei quebrando a cabeça pra me lembrar de uma citação específica. Surgiram, nesse período, diversas ocasiões em que ela me teria servido. Hoje, recomeçando meus estudos pro doutorado, fui ler o primeiro capítulo de Conhecimento Comum, do nosso já famigerado Maffesoli, e não é que eu acho a bendita citação?
De um lado, não há novidades nas histórias humanas: de modo cíclico, presenciamos o retorno dos mesmos valores – vendo ainda que somente sua ponderação tecnicista apresenta alterações. De outro, há diversidade nas abordagens, acentuando-se tal ou qual aspecto segundo o valor dominante no momento. A conhecida oscilação pendular entre o dionísico e o prometéico é, a essa respeito, bastante esclarecedora. Não há uma Realide única, mas maneiras diferentes de concebê-la. O ‘contraditorial’ (S. Lupasco, M. Beigbeder) operante no dado social remete a versões contraditórias que seria em vão tentar reduzir. O debate atual sobre o fim dos grandes sistemas explicativos que maracaram nosso tempo – tais como marxismo, freudismo, o positivismo (talvez fosse melhor nos referirmos aqui à sua ’saturação’) – parece mal proposto. Assim, não se trata de invalidá-los pelos que são, senão de mostrar que provêm de e explicam um dado período. Elaborados num tempo marcado pela homogenização de civilizações em expansão, não mais são (como foram) adequad0s para descrever o processo de heterogeneização consecutivo à decadência de uma civilização.
Lembra quando a mídia era malvada e a esquerda liberal? Ou melhor, olhe como agora a imprensa é liberal e a esquerda malvada
A inversão de papéis é uma das tão faladas características do que muitos chamam de era pós-moderna. Desde o feminismo mais tolinho de revistinha, onde a mulher assume o lugar do homem (e o homem o da mulher, as famosas matérias sobre mulheres CEOs e homens-babá), até a própria transformação físico-química da terapia de troca de sexo, quase tudo no imaginário da nossa era impera em denotar a ambivalência das coisas. A circularidade ou linearidade históricas foram devidamente substituídas pelas metáfora rizomáticas, ao invés de círculos e linhas, raízes, galhos, ramificações.
Em termos de ficção científica díriamos quase uma multiplicidade quântica do universo (em termos científicos não estamos longes dessa afirmação, mas em termos bem diferentes). A proposta dos “fim-da-história” era geralmente a de uma possível ruptura na circularidade da dominação, mas agora nos encontramos, principalmente nas Américas, num estranho momento – se me permitem – mesmo na superficialidade histórica. Uma viajante do tempo teria dificuldade em compreender que se trata do futuro mesmo e não de uma forma de realidade alternativa (novamente, em termos de ficção científica).
Os EUA estão afundados em uma verdadeira guerrilha ideológica, na qual as disparidades entre os partidos estão cada dia mais tomando proporções suspeitas de guerras étnicas. A realidade de que uma parcela da população vive, de fato, imersa numa percepção totalmente deformada de sua contraparte (que não é tão contraparte assim) é assustadora. Políticos dos dois lados estão atualmente envolvidos no pior tipo de sujeira possível: a fantasia ideológica que toma o lugar da realidade emergente e, eu diria, até emergencial. A Doutrina Bush (odeio esse termo) venceu da mesma forma que o nazismo: deformou apoiadores e oposicionistas da mesma forma. Perdeu-se a capacidade do discernimento. Como eu dizia há alguns posts atrás, tanto democratas quanto republicanos se perderam em suas fantasias. Ontem no Daily Show o pobre John Stewart foi forçado a fazer comédia em cima da exposição contra os aumentos de impostos proposta por um senador: o republicano de idade claramente avançada recorreu a desenhos de dragões e cavaleiros e lendas como as de Artur e do Gigante do pé de feijão.
E aqui, mais abaixo do Equador (pra ser claro), não é nada diferente. Vocês lembram da época em que era a ditadura quase-fascista (ou até totalmente fascista) e militar que tirava do ar as emissoras de rádio e TV? Lembra da época em que as bandeiras do socialismo, da reforma do trabalho e das classes sociais, eram levantadas em prol de liberdades? A América Latina em seus expoentes mais midiáticos, o Brasil lulista e a Venezuela chavista, aparecem agora sob estranhos holofotes. Na Venezuela, Chávez derruba outra emissora. A estatização da mídia. Lembra outros tempos e outros regimes e o embrulho estomacal é difícil de ser contido.
Aqui na terrinha Sarney, Collor e (en)Calheiros. “Mídia malvadona tá contra a gente”. Papo mais antigo da história do mundo moderno, mas é estranho ouví-lo da boca de um senador vitalício e de um bandido condenado (Calheiros, bom, deixemos de lado). A amostra do desinteresse brasileiro por tudo que é metalinguístico é que na esfera estadual (com nossos chefes de casas civil e governadoras entregando o ouro) e na esfera federal (com os acontecimento supracitados) reina a inércia do tipo 1, estacionária. Que força será preciso pra que esse país consiga entrar numa fase de levante e de reorganização das suas tri-facetas (legislativo, executivo e judiciário)? Que tipo de escândalo será preciso para que percebamos o quão enraizada (pra voltar na metáfora rizomática) está a corrupção?
De certo modo (e principalmente sob o prisma da ficção científica), é compreensível o que se passa nos eixos da América. Não é um circularidade histórica propriamente dita, mas é uma lógica inescapável de dominação que ultrapassa, contrariamente ao que eu geralmente propagandeio, ideologia para ser algo, e que salto de fé é esse, imaginário. Como se fosse parte do que a América espera e projeta para si mesma: sermos eternamente esmagados por questões menores quando as maiores são mais gritantes. Os EUA engolidos pela recessão (tanto econômica quanto, evidentemente, ideológica) parecessem contagiar ainda mais o mundo. E não basta o cotidiano propriamente dito do emprego e da vida social direta; muitas outras facetas estão se mostrando já de início inevitavelmente corruptas. E eu remeto a um exemplo bem atual: Trent Reznor versus Twitter Trolls, ou seja, o grande Twitter e suas mútliplas capacidade de comunicação imediata tomados pela medo.
Eu digo isso faz tempo (até por já ter sido vítima várias vezes) que a rede serve ao princípio do cyberbulling. Vai ter sempre alguém pra mentir, avacalhar, destruir. É o preço da liberdade e todos devemos aceitá-lo e conviver com ele, as ferramentas de blogging e de produção de conteúdo (como Orkut e Facebook) estão constantemente delineando as barreiras entre liberdade e controle. Antigamente o Orkut era totalmente suscetível, agora já é bem menos. O Fotolog também.
O Twitter se adaptará? Pouco me importa.
O que me importa é perceber que a humanidade tem a maturidade sociológica (em outro salto, eu me permito) pra engendrar ferramentas desse cunho. Autorregulação.
Mas…
Em outros aspectos estamos cada vez mais distantes. Chávez, por exemplo, pensa tão pouco do povo que governa que acredita que a mera exposição a um canal de TV possa corromper todo o tecido social e político do país. No Brasil, as forças da nobra direita se perdem em corrupção e mentiras ao mesmo tempo em que culpam os poucos jornalistas que ainda tem o vigor e a coragem de procurar pelo menos uma para-verdade para mostrar a sujeira do país. Nada é mais assustador do que sessões do legislativo em segredo. E na América do Norte a questão não é menos fundamental. As propostas paternalistas de Obama são conflituosamente, também, libertárias. É claro que todos devem ter acesso universal a saúde, mas levanta-se a questão: isso é o papel essencial do governo ou mais uma faceta de um governo inchado e altamente corruptível?
Eu só sou apto a fazer as perguntas, não a respondê-las. Tanto é que procuro me colocar entre, a despeito de uma certa impossibilidade topológica.
Pergunto-me, de forma mais pessoal e talvez menos embasada em conhecimento e mais numa percepção emocional, até quando diletantismo, ideias e ideais absolutos e subserviência serão a proposta casada de uma demagogia de quarta série.
Pergunto-me até quando deixaremos de fora o que parece inútil, quando tanta coisa inútil é a própria senda da utilidade. Há algum tempo fui acusado de sofismo descontrolado e atrás dos sofistas descobri que englobá-los como apenas falácia, como pré-filosofia e pré-conhecimento é demasiadamente leviano (assim como é leviano torná-los em heraclitismo ou protagorismos).
O homem é a medida de todas as coisas, sem sombra de dúvidas, e a própria natureza (não apenas biológica, mas espiritual e psicológica) do homem denotam a idéia de que tudo é movimento. Entretanto, tal natureza é sombria e o rumo desse movimento é rizomático e relativo. Engraçado que Protágoras e Heráclito tenham, assim de imediato, nomes mal falados – algumas de suas idéias poderia ecoar em Einstein, 2 mil anos antes.
Atchim
Não estou pra dizer que a medicina socializada brasileira é a oitava maravilha do mundo, quero simplesmente levantar a questão mais fomentada na mídia nos últimos tempos nos EUA.
Não vou babar o ovo do Obama também, até porque tenho um post que estou acabando sobre ele que quem gosta dele não vai gostar.
Meu propósito aqui não é nem mesmo apontar pensamento político, é apenas uma análise do discurso que anda sendo jogado pra todos os lados principalmente pelos republicanos.
Vendo os senadores (principalmente) falando na CSPAN, exaltados nos recortes da CNN e do Daily Show, eu não consigo evitar de ficar totalmente chocado. E não é um choque político, é um choque moral. A imoralidade (porque quem quer que leia vai ter que me desculpar, é a única palavra que cabe nessa situação) desses homens e mulheres ultrapassa todos os limites. A maior parte deles, os mais vocais, pra dizer a verdade, emitem o seguinte argumento: a proposta de Obama consiste numa burocratização do sistema de saúde, aonde um burocrata estará a cargo dos serviços de saúde da população e, por causa disso, você passará por um processo de seleção e não conseguirá o tratamento (sejam cirurgias necessárias, eletivas ou apenas remédios).
A questão é a seguinte: não sou um adorador de Michael Moore. Tendo feito meu trabalho de conclusão da graduação sobre um de seus filmes e o tendo pesquisado extensamente, o acho um idiota. Um simplista que procura usar as mesmas armas da direita conservadora para provar argumentos da esquerda liberal. Não passa, portanto, de mais um ideologistazinho despreperado. Mas é divertido, não posso negar. Seu filme Sicko, na verdade, não é nenhuma novidade (fora os exageros e mentiras grosseiras): há muito já se sabia, através até mesmo de sériezinhas de TV que o sistema de saúde norte-americano tem problemas graves da ordem humanística. Ela consiste, simplesmente, no fato de que num determinado momento se optou pela forma privada de saúde: ao invés de um sistema pública, pago através de impostos, cada pessoa escolhe sua própria seguradora. Até aí, tudo bem. O que me incomoda é que não é nada difícil encontrar corroboração para histórias parecidas com que Moore espetaculariza: o sistema vigente HOJE nos Estados Unidos consiste na falta de liberdade de escolha e de acesso, pois existem dezenas de processos de seleção e avaliação executados por burocratas.
Ou seja, os senadores republicanos, oposicionistas ao plano de saúde universal, estão alertando, na verdade, para uma realidade que não é latente, nem virtual; o sistema de saúde privada já funciona dessa forma. A prioridade do lucro faz com que burocratas que agenciam a saúde da população busquem formas de negar atendimento, de todas as formas, geralmente resultando em danos irreversíveis à saúde.
Eu poderia me lixar ainda menos pra isso. O mundo em que vivemos, que, na verdade, aristotelicamente falando, é o mundo que construímos para nós mesmos, é inegavelmente cruel. Não apenas na sua natureza inevitável (morte, doença, as fragilidades e limitações do homem), mas também na sua ordem racional engendrada por nós. Eu me lixo, falando assim coloquialmente, para o que em certo tempo poderia ter sido chamado de discurso do aburso ou discurso absurdo (Camus), mas que eu chamaria de discurso esquizoide. O que talvez pudesse ser chamado de trégua ideológica (Adorno/Horkheimer) aparece mais, na contemporaneidade, como uma estranha esquizofrenia ideológica e discursiva, pra não dizer midiática.
O outro lado não é santificado, de forma alguma. Os apoiadores (inclusive o senhor Obama) colocam suas fichas na aposta de que ainda seria possível uma medicina universal nos EUA. E, mais do que isso, que sendo possível, isso seria a resolução de problemas incríveis e levaria a nação mais próxima de uma nova era de ouro.
Dã, é a única coisa que me vem a mente. O Brasil – e foi por isso que eu comecei fazendo aquela ressalva – possuí já o modelo que Obama pretende instalar: o SUS é o sistema único de saúde, gratuito e livre para todos. Entretanto, ainda existem os planos privados de saúde. A rede pública de saúde (hospitais, centro de saúde, laboratórios) é incrivelmente não coesa: existem hospitais públicos de renome e outros que só podem ser descritos como caindo aos pedaços, quando ainda existem pedaços. A rede privada possuí hospitais muito bons (e falo principalmente aqui em Porto Alegre). Ou seja, é um sistema misto.
O que nós vemos? Minha ressalva era exatamente sobre isso. O Brasil não tem uma admistração de recursos passível de ser assim, tão levianamente comparada com a norte-americana. E mesmo lá, nos EUA, temos a condição de que não sabemos ao certo como e quanto dinheiro ao longo de quanto tempo será a medida da constituição da rede pública. Existem duas instâncias: de um lado o Medicaid, que já é o sistema público que existe lá para os idosos, e de outro a lógica de que os segurados por esse sistema são atendidos na rede privada que é paga pelo governo.
A passividade é, na verdade, a de que a formatação e a construção mesmo de um sistema que nem esse acarreta a possibilidade inegavel de corrupção. O próprio Medicaid já mostra indícios claros disso. Daí caímos na realidade de que essa projeção pode não passar de um sonho utópico, de tolice digna de um blá, blá, blá obâmico (a tão falada demagogia).
O que me leva ao ponto principal do meu interesse: a loucura total que está sendo a discussão política desse programa. Geralmente podia-se dizer, mesmo inserido diretamente no joguete político norte-americano, que um dos lados estava agindo em plena inocência. Democratas E Republicanos já foram chamados disso, entretanto me escapa um dado histórico sobre se isso já aconteceu simultaneamente. É isso que ocorre agora. De um lado temos os Republicanos, os direitistas conservadores, clamando que o projeto acarretará uma realidade que já é, e do outro lado temos os Democratas, os (no máximo dos máximos) centro-direitistas liberais (e às vezes nem tanto, né, senhor Obama), clamando que o projeto acarretará a mais magnífica era de ouro dos Estados Unidos.
Pelo menos desde de Gore vs. Bush que temos essa crítica de que ambos os lados falam, na verdade, a mesma coisa.
Não cheguei à conclusões sobre isso. A mídia (a perna do banquinho que faltava) ainda me parece estranhamente insegura sobre esses assuntos. Ao mesmo tempo em que existem comentadores fervorosos de ambos os lados, também existe um certo ar de dúvida não resolvida. Coloco essa questão para quem quer que leia, na verdade, não para formular respostas rápidas ou uma grande dissertação assertiva, mas para que também levem no seu cotidiano essa dúvida e esse inquérito.
Mea Culpa, Tua Culpa
“Uma das lições que a era hitlerista nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente. Quantos não foram os argumentos bem fundamentados com que os judeus negaram as chances de Hitler chegar no poder, quando sua ascensão já estava clara como o dia! Tenho na lembrança uma conversa com um economista em que ele provava, com base nos interesses dos cervejeiros bávaros, a impossibilidade da uniformização da Alemanha. Depois, os inteligentes disseram que o fascismo era impossível no Ocidente. Os inteligentes sempre facilitaram as coisas para os bárbaros, porque são tão estúpidos. São os juízos bem informados e perspicazes, os prognósticos baseados na estatística e na experiência, as declarações começando com as palavras: ‘Afinal de contas, disso eu entendo’, são os statements conclusivos e sólidos que são falsos.
Hitler era contra o espírito e anti-humano. Mas há ume espírito que é também anti-humano: sua marca é a superioridade bem informada”.
Talvez, de repente, o questionamento, o levante das dúvidas, jamais a afirmação. Isso é mais do que um método, mais do que uma opinião. Desfraldada como princípio para a verdade, a realidade aparece como imprevisível, como algo que é impossível tocar. De fato, a existência de uma realidade, de uma fenomenologia do real, como evento tácito e tangível, tornou-se de fato uma “utopia extravagante, um desvia sectarista”, geralmente ancorado, sustentado, amparado, pela ideologia pré-pronta de microondas.
“Escolha um ticket, ao contrário, significa adaptar-se a uma aparência petrificada como uma realidade e que se prolonga a perder de vista graças a essa adaptação. Por isso mesmo, quem hesita (ou simplesmente não cede a escolha fácil e pré-pronta) se vê proscrito como um desertor”.
Ideologia de Direita
Gustave Le Bon, doutor em Medicina e autor de mais de 30 livros, chamado por muitos de “Maquiavel das sociedades de massa”, sempre esteve preso pelos determinismos psicológicos e biológicos. Cartesiano e direitista (to the bone), até porque sem isso não dá pra ser Maquiavel de nada.
“As únicas transformações importantes, aquelas de onde a renovação das civilizações decola, acontece nas opiniões, nas concepções (de mundo) e nas crenças…”
Le Bon, Psychologie des foules (1985), p.2
“O realismo incondicional da humanidade, que culmina no fascismo, é um caso especial de delírio paranóico, que despovoa a natureza e, ao fim e ao cabo, os próprios povos. É nesse abismo de incerteza, que todo ato objetivador tem de atravessar, que se aninha a paranóia. Como não há um argumento absolutamente convincente contra os juízos materialmente falsos, não é possível curar a percepção distorcida em que eles surgem. Toda percepção contém elementos conceituais inconscientes, assim como todo juízo contém elementos fenomenalmente não aclarados. Por conseguinte, como a verdade implica a imaginação, pode sempre ocorrer que, para as pessoas cuja imaginação foi lesada, a verdade seja algo de fantástico e sua ilusão, a verdade”
“Por mais universal que seja sua atividade, quem absolutiza ingenuamente é um doente, vítima do poder ofuscante da falsa imediatidade“
De A dialética do esclarecimento, um “impecilho” para gente imbecil.

