Krispy Kreme Burguer
O moment of zen do Daily Show de ontem, a despeito do script inusitado do repórter da FOX retratado no quadro, acertou o ponto em cheio.
Medidas públicas, opinião (e Opinião) pública estão constantemente voltados para isso. Nos EUA, seus custos já estão equivalentes ao do exército.
Barramos coisas como cigarros, bebidas alcoólicas e um imenso número de drogas (não apenas as óbvias ilegais, como diversos tipos de medicamentos) de um infinito número de categorias humanas; crianças, idosos, adultos, todos e até mesmo em todos esses grupos devido a certas especificidades.
A preocupação constante nos discursos de hoje em dia com o que convencionamos chamar de Saúde (a despeito de ser, dentro dos discursos, geralmente uma discussão sobre Doença – com letra maiúscula mesmo; a grande ameaça) e o contato quase que permanente das populações com açúcares e gorduras denotam um estranho paradoxo.
Maconha, cocaína, hoje em dia todo tipo de analgésico – além de diversos outros tipos de remédios vendidos em farmácias mesmo, são retratados como ameaças constantes a saúde pública e a saúde privada. Todo tipo de argumento em todo tipo de mídia (inclusive e quase que essencialmente oriundo da grande mídia; abomino esse termo) se presta a colocar esse tipo de droga como algo ilegal, extremamente perigoso, que destrói vidas e coloca outras tantas em perigo e miséria.
E é claro, drogas (no seu sentido crimininalizado) como heroína, crack, cocaína, geralmente acabam gerando mesmo esse tipo de coisa. Violência e vidas improdutivas pessoal e socialmente.
Esse é um discurso velho. Apologista, como alguns gostam de chamar. Acho apropriado. Liberação da maconha, de todas as drogas, maior regulamentação para a venda de certos tipos de remédios industrializados (aliás, indústria farmacêutica: maior traficante dos EUA atualmente), essas discussões, inclusive, são velhas. Com seus mesmos paradoxos de sempre. Representando, em diversos níveis, atritos sociais, geralmente entre a profissão médica, população e indústria farmacêutica com o governo perdido no meio.
O paradoxo que eu percebo é outro. A televisão a cabo, no Brasil, no Reino Unido e Austrália, se voltou, em seus canais com a cartola comportamento, para a culinária gastronomia. É uma hemorragia de programas de TV sobre culinária e uma cirurgia de encolhimento de estômago de programas sobre comer de forma saudável e/ou ter práticas saudáveis e/ou ecológicas de vida (pelo amor de Deus, o Discovery Channel tem um canal só disso aqui no Brasil! Nos EUA tem até Food Network).
Entretanto um dos maiores riscos tanto para os bolsos como para a saúde mundial tem sido a obesidade e os problemas que vem dele. E aí, realmente, não há muito mistério: o problema vem da qualidade da comida ingerida. Não se trata de uma mutação espontânea, não se trata (pelo menos nos países ricos – e principalmente nos que eu citei acima) de renda e não se trata de alguma doença; é uma equação bem simples entre qualidade da comida industrializada vs. preço em manpower da comida dita saudável e/ou da mudança de hábitos. Se trata de uma questão econômica apenas no que tange a disponibilidade desses produtos de baixa qualidade (em outro programa John Stewart falava de um condimento chamado Baconaise, que consiste numa mistura de maionese com bacon, contendo, geralmente, pedaços de bacon).
É aqui que quero estender uma ponte entre os argumentos daquele velho paradoxo e e a percepção desse.
Açucares e gorduras fazem mal. E é claro que não estamos simplificando. Existem gorduras boas e açucares bons e existem açucares e gorduras necessários.
Assim como existem, em qualquer argumento, drogas, medicamentos que são bons e necessários (ácido acetilsalicílico) e medicamentos que fazem mal (novamente ácido acetilsalicílico).
Há uma clara discriminação em curso. Não apenas dentro do conjunto drogas/medicamentos, mas também entre esses e o tratamento que é dado para o que se ingere diariamente através da alimentação.
Extensas campanhas tentaram fazer as pessoas comerem mais de uma determinada substância ou produto devido ao seu teor de manutenção da saúde. O iodo e as gorduras trans parecem os exemplos mais óbvios (um histórico e o outro atual, colocado e tirado a força).
Entretanto, estes dois exemplos não apontam exatamente para o paradoxo. O cigarro e o álcool se aproximam muito mais. Tanto a nicotina como o álcool etílico podem e causam dependência e isso é e foi certamente um incentivo para suas proibições e restrições. Contudo, açucares e gorduras que também causam dependência principalmente psíquica (química ainda é uma grande discussão, na qual não quero entrar). Os açucares causam, inclusive, diabetes, o pior vício de todos, já que não é na própria substância a qual tu consumiu para ficar viciado.
E numa era de absolutos, parece simples que essas substâncias sejam, eventualmente, simplesmente proibidas. Entrariam, finalmente, num tratamento próximo do que os medicamentos e drogas ilegais recebem.
Uma coisa mais moderada, que é mais a minha praia, pensa que talvez o que deveria acontecer é simplesmente a proibição dos claros exageros (como o exemplo do Baconaise). Não basta apenas vãs tentativas de mudanças de hábitos (como o Jamie Oliver tanto tenta fazer), certos produtos estão certamente além disso. E um exemplo bem claro disso pode ser encontrado em qualquer franquia do McDonald’s que venda um McTasty (que possui mais de 100% das gorduras ruins que uma pessoa deve ingerir num dia). E esse controle, de forma alguma pode vir do governo, ele deve vir de quem entende.
E por controle eu quero remeter a controle mesmo: controle do que entra na embalagem, da qualidade dos produtos. A publicidade mente, isso é muito claro. Não dá pra confiar apenas na Knorr e na sua Instituição de Pesquisa, que ela mesma financia, quando ela diz que só usa os melhores produtos e pensa na nossa saúde.
Foi-se o tempo em que se vendia venenos over the counter?
Guerra e Aborto
Vou traçar aqui uma analogia que se desprende do Brasil. Aqui somos um país basicamente pacífico em termos de guerras diretas com outras nações, entretanto podemos – e o farei – fazer essa aproximação através da guerrilha urbana - ou suburbana – que vem sendo trava entre as forças do poder – donos de terra, polícia, judiciário – e algumas facções criminosas ou movimentos sociais.
Mike Huckabee, um ex-governador norte-americano e apresentador da FOX News, apareceu ontem no Daily Show falando aborto e foi isso que me fez escrever esse post. Huckabbe falou, já de início, que a discussão não deve girar ao redor do aborto em si, mas do valor da vida humana; ele afirma, em seguida, que acredita que toda a vida humana tem um valor inestimável.
O que é a vida? Onde ela começa e onde começamos a ser responsáveis por ela, no sentido de provê-la dos mesmos direitos inalienáveis que todos temos? Essas foram as perguntas sugeridas pelo ex-governador.
Ele seguiu dizendo que a verdadeira lógica é que estaríamos treinando toda uma geração – the one after us, ele diz – para acreditar que é certo, que não tem problema tirar uma vida humana porque ela representa uma interferência em nossas vidas, uma irrupção, seja econômica, seja ela social. Ele segue dizendo algo assim: “religiosa e cientificamente, o momento da concepção, quando os 23 cromossomos de cada pai se unem, criando uma combinação nunca antes vista de 46 cromossomos, isso é realmente quando a vida começa”.
Ele liga essa idéia a velhice. Se ensinarmos nossos filhos que tirar uma vida que se tornou um inconveniente econômico ou social – ou ambos – estaremos colocando em risco nossas próprias vidas quando chegarmos à idade mais avançada e nossos filhos terão de cuidar de nós. “Pai, o tratamento da sua bexiga solta realmente é caro e eu sempre passo vergonha: eutanásia pra ti”, foi mais ou menos o que ele quis dizer.
Minha percepção desse problema, obviamente, passa pela ideologia: passa pela maneira como pensamos o mundo. A moralidade do problema, em si, é para mim, francamente irrelevante. A entrevista desbanca para a questão legal, da soberania do corpo e toda aquela demagogia de Obama: vamos trabalhar juntos.
Para mim o problema é esse: a ideologia dominante já diz, senhor ex-governador. Quando a vida de Saddam Hussein se tornou UM IMPECILHO ECONÔMICO E SOCIAL PARA A NAÇÃO SOBERANA DOS ESTADOS UNIDOS, ele simplesmente foi eliminado. Morrer é um imenso impecilho econômico e social, e não apenas individual; a morte individual – que, na verdade, acarreta muitos poucos males para a pessoa que morreu, já que ela morreu e sabe-se lá o que há (e se há) do outro – acarreta perdas sociais: todos perdemos. A guerra, principalmente a proposta pelos norte-americanos, que se trata de caçar especificamente um grupo de pessoas – que, de fato, pertencem a diversos grupos étnicos diferentes – para que elas sejam ou imediatamente mortas (em conflitos diretos, como nas ruas de Bagdá em 2002), ou mediadamente mortas (como acontece até hoje nas ruas de Bagdá e em tantos outros lugares do mundo onde o terrorismo age quase que livremente), ou, finalmente, julgadas em algum sham tribunal em Gitmo ou em qualquer lugar do mundo para serem, também finalmente, geralmente sentenciadas a vida na prisão (não-vida) ou execução (novamente morte).
Se a vida de Osama Bin Laden se tornar um empecilho econômico e social para a vida de apenas um norte-americano, ele com certeza será caçado, julgado e morto.
As idéias – salvo as suas dimensões – são exatamente iguais: o povo iraquiano, centenas de crianças e jovens, padeceram na mira das máquinas de pós-aborto americano. Quando começa a vida do iraquiano? Do afegão? Da criança que nasce no seio de uma comunidade extremista religiosa e não tem a oportunidade jamais de ouvir: É, filho. Eu não tenho todas as respostas. O que é a vida de centenas de milhares de africanos das mais diversas nacionalidades que morrem todos os anos pelo mais puro descaso? Até na inação a ideologia é a mesma: destruir o impecilho. Há umas semanas atrás – e talvez por isso John Stewart tenha convidado Huckabee – um extremismo pró-vida assassinou um médico. Obviamente o médico fazia abortos. E é aí que se mantém a minha linha de pensamento. A ideologia, a forma de entender o mundo já é essa. O valor da vida humana se limita ao seu índice de perturbação: os sem-terra podem protestar o quanto quiserem, até começarem a atrapalhar a economia ou a socialidade de uma determinada região ou classe.
As milícias no Rio de Janeiro podem continuar extorquindo os comerciantes e trabalhadores até que isso apareça nos jornais e atrapalhe o andamento da imagem política do país, estado ou cidade. Daí é chumbo neles. Daí, o filho da dona Alzira, que tem 15 anos – não 15 semanas dentro do útero – é tratado até pelos mais religiosos como meia-vida, semi-vida, anti-vida e até mesmo subvida. Chora-se por ele quando ele recebe 8 tiros de metralhadora, disparados por um policial militar em meio a um tiroteio. Na hora que o filho de dona Alzira levantou seu braço e estendeu na mão dura de quem acredita que o tráfico, que a organização criminosa (por mais desorganizada que seja), ou que mesmo os amigos é que estão ideologicamente corretos, e que a justeza e as leis do país pouco importam, ele se tornou um impecilho e será lidado como qualquer outro impecilho.
Não é necessário educar as crianças a favor do aborto: elas já são. Mesmo as que dizem que não, mesmo os padrecos, pastoris e bispótes que tanto falam em sermões, missas e até mesmo em blogs e twitters da vida, até mesmo eles são pró-aborto. A incrível colocação nunca vista antes de cromossomo, que pode ser Einstein ou Hitler (ou pior, Goebbels: carrasco de toda a humanidade), é mais importante do que um garoto que existe, que age no mundo, que anda e fala, que ama e é amado. O amontoado de célular, meu amigo, certamente é um ser humano. De fato, não é nada além disso. Assim como a unha do pé podre de meu avô que caiu uma vez também continuava sendo, mesmo desprendida de seu corpo, ele: os mesmos 46 cromossomos.
O sangue do filho de dona Alzira – que pode ser um empregada doméstica carioca ou uma fiel credora de Alá – esparramado pelo chão junto com suas vísceras, membros e pele, também continua sendo ele. E ainda por anos será, mesmo depois de sua morte.
O mundo atual, e talvez as diversas socializações comunicacionais – desde a imprensa até a rede – tenham facilitado ou incitado isso, parece estar sempre perseguindo a inutilidade, os momentos fúteis, ao invés de travar as batalhas reais.
Todas as pessoas mortas em guerra também são abortos eletivos.
A completa parcialidade ideológica da maior parte das culturas demagógicas, estritamente religiosas e conservadoras é a verdadeira clínica de aborto.
E então, o homem esclarecido é forçado a se perguntar: esta ferrenha discussão sobre o aborto, que move tantas mentes e corações, não seria apenas uma cortina de fumaça? Como tantas outras, não é mesmo?
O que hoje em dia não é?
Pra fechar, no final da entrevista Huckabee menciona uma menina que conhecera que fora, um dia, um embrião congelado. A mãe da menina disse para ele: “Olhe para minha vida e me diga que aqueles embriões não tem vida”.
Olhe para os caixões no Iraque e me diga que ali não tem vida.
“Do i have the right to say that I own another person’s life to the point that I may dispose of it and consider it to be expendable?”
Sim, senhor ex-governador. Aparentemente, em diversos lugares do mundo, inclusive nos grandes Estados Unidos da América do Norte, esse é um direito.
Dick Cheney: “Dick Clark, chefe da comissão anti-terrorismo antes de 11 de setembro também não viu o que ia acontecer”
Senhor Cheney, não é verdade que o senhor Clark avisou a Casa Branca várias vezes?
DC: “Não me lembro disso, mas estou pronto a aceitar”
E daí os repórteres riem. Acham engraçado.
Sério? Sério mesmo?
Frente Fria
Aqui no nosso rio grande faz aquele friozinho que há tempos não fazia e aparentemente lá no mundão também. Ontem, pelo site da CNN, Lawrence Wilkerson, um sinhôzinho que trabalhava pro Collin Powell – ex-secratariat de estat do Bushis, pegou e disse mesmo: o objetivo das investigações conduzidas pelo governo norte-americano depois de 11 de setembro não foi encontrar os culpados, desmantelar a Al-Qaeda; o objetivo era ligar Iraque e Al-Qaeda de qualquer forma.
Mais fundo, o ex-coronel fala sobre como nenhuma ligação tinha sido encontrada e as técnicas de torturam chegaram ao seu limite. Cheney, nosso querido dick, mandou continuar até que alguém, sob extrema pressão física e psicológica, confabulasse uma história.
Daí faço meu link.
Ontem, no episódio que deu de tarde da Oprah no GNT, a famosa apresentadora foi ela mesma, pessoalmente, um ano depois de conhecer a mulher que fugiu, ao rancho do YFZ, Yearning for Zion. Essa comunidade ficou famosa há um ano ou dois quando Warren Jeffs, o líder da comunidade que faz parte da Igreja Fundamentalista de Jesus dos Santos dos Últimos Dias, que é uma das maiores congregações mórmons (não sei se é congregação a palavra certa, mas vai essa mesma porque coloquei o link), fora preso sob acusação de abuso de menores e poligamia. Na verdade, trata-se realmente de uma comunidade como imaginamos humoristicamente os mórmons: sem tecnologia, vivendo vidas rurais, poligâmicas, com núcleos familiares e comunitários fortes. As famílias, de um pai e até 5 esposas se não me engano, tem mais de 9 filhos e, como em toda boa sociedade poligâmica, principalmente as meninas, são commodities; a vida é como a de uma comuna rural, sem dinheiro ou mesmo um sistema com mais valia de escambo, entretanto, as meninas são poderosas ferramentas de trocas, sendo casadas com idades chegando à 12 anos (pelo que achei comprovadamente).
Bom, e o link, Pedro?
O link é que na sua entrevista, Oprah falou com a filha da mulher que escapou a pouco mais de um que tinha estado também no seu programa falando sobre os absurdos da vida do rancho do YFZ. A mãe falara que a menina teria sofrido lavagem cerebral, como a maior parte da comunidade da YFZ, e, quando tentando levava embora consigo, a menina lhe acusou de separá-la de seu destino e sequestro.
Sob extrema pressão social, física, emocional (psicológica), as pessoas dizem qualquer coisa. As pessoas dizem o que tu quer ouvir e dizendo o que acham que tu quer ouvir. E a prova, inclusive falando de massas, disso pudemos ver e ainda podemos nos pânicos instaurados pela televisão; pega as coisas que as pessoas dizem na TV e compara com o reino de possibilidades do que uma pessoa pode falar quando sendo torturada há dias.
E a tortura não é apenas física ou psicológica: ela pode e é social. No rancho, durante seu passeio, as descobertas de Oprah são tratadas pela apresentadora com uma frieza igualável apenas a frieza com que agora a mídia e seus comentadores do mundo inteiro estão tratando a questão da tortura de prisioneiros nos Estados Unidos.
As crianças são sofrem lavagem cerebral; ninguém tece teorias conspiratórias anti-cristãs ou pró-sionistas sobre o pouso do módulo lunar em 1969. Este fato histórico do esclarecimento científico e humanista, o homem dominando e vencendo os limites que lhe foram impostos pela natureza, superando-a, em termos, finalmente, SIMPLESMENTE NÃO É ENSINADO.
As aulas de caligrafia consistem em copiar passagens bíblicas e nenhuma forma de ficção ou literatura é apresentada no currículo. Segundo a professora, a literatura e a ficção não servem a nenhum propósito, portanto só são inseridas em formas de historietas e passagens bíblicas para elucidar pontos do currículo que são importantes.
Antes de mais nada eu levanto a questão: mas… não é a Bíblia a maior obra de ficção de todos os tempos?
E eu a ligo: e não é também a concepção norte-americana do mundo, assim como concepção do fundamentalismo islâmico, outra grande ficção?
Depois da Segunda Guerra Mundial, com certeza, se questionou demais a lógica da condição desumanizante, dizia-se, que a guerra e o terror oriundo dela traziam ao cotidiano das sociedades civilizadas. Nos EUA, esta questão foi resolvida da mesma forma com que foi ignorada durante os anos do Vietnã: hide and don’t seek. O homem pisar na lua é tão sem consequências num mundo onde Deus impera sobre todas as condições morais e naturais da vida quanto a verdade vinda da boca torturada era (e talvez ainda seja) para a aparente e latente doutrina Cheney. Bush, claramente, jamais passou de um fantoche: o verdadeiro presidente dos Estados Unidos durante os últimos 8 anos foi inegavelmente Dick Cheney. E o presidente atuante é o centro desse argumento: agora ele mete o pau porque Obama parou.
Não é motivo de vergonha para o astuto quase assassino que a tortura tenha sido usada para legitimar uma guerra falsa. War under false pretenses.
Falta é o final da cara-de-pau e admitir publicamente em algum programóide de entrevistas da tv americana que a guerra no Iraque tinha por objetivo principal a geração de lucros e aumento dos valores de mercados das empresas que ele e a família Bush controlam ou participam. Halleburton, Lockheed.
A pretensão de Cheney é a mesma do YFZ, e essa é a ligação entre esses assuntos e a qualidade fria que a nossa era está assumindo cada mais escancaradamente.
Cheney e Jeffs objetivam o mundo, transformando-o, como massa de modelar, naquilo que desejam que ele seja. Mudar o mundo nos dias de hoje é uma tarefa árdua, tanto para mocinhos quanto para bandidos. A qualidade estática e estacionária que o séc. XXI vem demonstrando é a de uma inércia consubstancial e transubstancial: as transformações se tornaram confabulações e as substâncias, se me permitem esse círculo, se dessubstanciaram. O mundo e as coisas perderam seu sentido primeiro, desaparecendo assim a realidade, quanto ao seu sentido. E, para que as coisas voltem ao seu lugar, há um chamamento em prol da criação de sentidos. Deus, guerra, lucro, capitalismo, socialismo, justiça social, crise; os termos que o sonho democrático buscava não desapareceram. Desapareceram foram os seus sentidos; sua visão, tato, audição, olfato. Sua capacidade de se orientar rumo a concretização.
A utopia escapou-nos, precisamos, portanto, engendrar uma nova – dizia Sfez, e a utopia que se engendra não é, entretanto, ao contrário do que aponta Sfez, penso eu, uma que pertença ao estatuto de projeto de mundo. Pelo menos não no sentido de blueprint, de planta, projeto acionável; matéria técnica que se pretende realidade. Não é um projeto virtual (na verdade, nem ao menos possível). E aí eu vou bater de frente com quem executa o fim da escola de Frankfurt, o esvaziamento dos Estudos Culturais ou mesmo a pretensão de que a Escola Francesa não está ligada inextrincavelmente a Escola Alemã, desde Weber a Marx, Freud e Nietzsche. O projeto de mundo hoje, MAIS DO QUE NUNCA, MAIS DO QUE DURANTE A GUERRA FRIA, DURANTE O NAZISMO, é a transformação ideológica do mundo.
De um lado temos a doutrina Cheney: esse mundo da onipotência e permissividade total do capital, das empresas, do domínio frio das condições de existência.
De outro temos a doutrina que os direitistas mais fanáticos gostam de chamar de esquerdismo, mas que chamarei de porno-marxista pra deixar na brincadeira: esse pensamento vai permear as camadas do racismo, do trabalhismo, da justiça social.
De um lado temos um direitismo besta que pretende a estagnação do mundo no séc. XVI: sem gays, estado totalitário na mão do poder econômico e/ou religioso. Irã e EUA num uníssono terrível.
Do outro temos a fantasia pornográfica e socialista: justiça social para todos, na Suécia não tem pobres, direitos para todos (menos para os que não querem que todos tenham direitos).
Daí YFZ, Iraque, Cheney, tudo culmina no mesmo esvaziamento dialético, na mesma mistificação. Ontem eu assistia um episódio de American Dad no qual Stan sequestrava o filho que Francine gestou para o casal gay-apresentador de TV que são vizinhos deles. Quando ele se depara com a família onde tem duas mães, ele sequestra os filhos, dentro do carro, quando eles brigam, os confunde com seus próprios filhos, percebendo que são crianças normais. Ele olha para fora do carro e vendo os cavalos pastando e trotando diz: “… e os cavalos não estão comendo uns aos outros”.
No Daily Show de ontem o John (tá íntimo já) falava sobre as mais de 40 demissões de tradutores de árabe do exército norte-americano pois eles são abertamente gays.
Toma-se a fantasia de DUAS FRASES no Levítico em anúncio no apocalipse. E então me presto a fazer essa relação, a despeito do absurdo que é seguir a Bíblia na sua formalidade não-histórica e, mais do que isso, seguir como bom cristão o velho testamento, ainda mais um dos capítulos mais fantasiosos de todos.
Mas vamos lá, capítulo 18 do Levítico:
| Falou mais o SENHOR a Moisés, dizendo: | ||
| 2 | Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Eu sou o SENHOR vosso Deus. | |
| 3 | Não fareis segundo as obras da terra do Egito, em que habitastes, nem fareis segundo as obras da terra de Canaã, para a qual vos levo, nem andareis nos seus estatutos. | |
| 4 | Fareis conforme os meus juízos, e os meus estatutos guardareis, para andardes neles. Eu sou o SENHOR vosso Deus. | |
| 5 | Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o SENHOR. | |
| 6 | ¶ Nenhum homem se chegará a qualquer parenta da sua carne, para descobrir a sua nudez. Eu sou o SENHOR. | |
| 7 | Não descobrirás a nudez de teu pai e de tua mãe: ela é tua mãe; não descobrirás a sua nudez. | |
| 8 | Não descobrirás a nudez da mulher de teu pai; é nudez de teu pai. | |
| 9 | A nudez da tua irmã, filha de teu pai, ou filha de tua mãe, nascida em casa, ou fora de casa, a sua nudez não descobrirás. | |
| 10 | A nudez da filha do teu filho, ou da filha de tua filha, a sua nudez não descobrirás; porque é tua nudez. | |
| 11 | A nudez da filha da mulher de teu pai, gerada de teu pai (ela é tua irmã), a sua nudez não descobrirás. | |
| 12 | A nudez da irmã de teu pai não descobrirás; ela é parenta de teu pai. | |
| 13 | A nudez da irmã de tua mãe não descobrirás; pois ela é parenta de tua mãe. | |
| 14 | A nudez do irmão de teu pai não descobrirás; não te chegarás à sua mulher; ela é tua tia. | |
| 15 | A nudez de tua nora não descobrirás: ela é mulher de teu filho; não descobrirás a sua nudez. | |
| 16 | A nudez da mulher de teu irmão não descobrirás; é a nudez de teu irmão. | |
| 17 | A nudez de uma mulher e de sua filha não descobrirás; não tomarás a filha de seu filho, nem a filha de sua filha, para descobrir a sua nudez; parentas são; maldade é. | |
| 18 | E não tomarás uma mulher juntamente com sua irmã, para fazê-la sua rival, descobrindo a sua nudez diante dela em sua vida. | |
| 19 | ¶E não chegarás à mulher durante a separação da sua imundícia, para descobrir a sua nudez, | |
| 20 | Nem te deitarás com a mulher de teu próximo para cópula, para te contaminares com ela. | |
Então, deixa eu ver, se pegar tua mãe trocando de roupa, pã, apocalipse. Se for a madrasta, bãi, pode ser ainda pior. Todos os irmãos gêmeos bivitelinos do mundo já deveriam ter acionado o apocalipse, já que, no útero, estão os dois nus e se esfregando (olhar de desaprovação). Traição, obviamente, daí aí antes mas é o casamento gay que é o problema.
| 21 | E da tua descendência não darás nenhum para fazer passar pelo fogo perante Moloque; e não profanarás o nome de teu Deus. Eu sou o SENHOR. | |
| 22 | Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é; | |
| 23 | Nem te deitarás com um animal, para te contaminares com ele; nem a mulher se porá perante um animal, para ajuntar-se com ele; confusão é. | |
| 24 | Com nenhuma destas coisas vos contamineis; porque com todas estas coisas se contaminaram as nações que eu expulso de diante de vós. | |
| 25 | Por isso a terra está contaminada; e eu visito a sua iniqüidade, e a terra vomita os seus moradores. | |
| 26 | Porém vós guardareis os meus estatutos e os meus juízos, e nenhuma destas abominações fareis, nem o natural, nem o estrangeiro que peregrina entre vós; | |
| 27 | Porque todas estas abominações fizeram os homens desta terra, que nela estavam antes de vós; e a terra foi contaminada. | |
| 28 | Para que a terra não vos vomite, havendo-a contaminado, como vomitou a nação que nela estava antes de vós. | |
| 29 | Porém, qualquer que fizer alguma destas abominações, sim, aqueles que as fizerem serão extirpados do seu povo. | |
| 30 | Portanto guardareis o meu mandamento, não fazendo nenhuma das práticas abomináveis que se fizeram antes de vós, e não vos contamineis com elas. Eu sou o SENHOR vosso Deus. | |
Não dê seu filho pro cramuião. Pela passagem, não precisa nem ser gay. Se tu tiver no carnaval de rua do nordeste e de qualquer cidade do Brasil, onde os caras saem vestido de mulher, e tu cair no chão, deu, já era. Já se deitou com outro homem COMO SE ELE FOSSE MULHER. Vai dizer? Tá, mas alguém vai dizer, mas Pedro, tem que ver como um todo.
Não tenho saco de comentar todo o Levítico, a despeito de sabê-lo praticamente de cor, mas vou citar a passagem do próximo capítulo, 19, que diz:
Guardarás os meus estatutos; não permitirás que se ajuntem misturadamente os teus animais de diferentes espécies; no teu campo não semearás sementes diversas, e não vestirás roupa de diversos estofos misturados.
Eu, por exemplo, estou nesse momento usando um moleton que é de algodão e poliéster.
MUITO CUIDADO.
Chasing the Taliban Dragon
No Daily Show de ontem, John Stewart perguntava para o embaixador do Paquistão nos Estados Unidos porque nessa região fronteiriça com o Afeganistão os civis acabavam apoiando os Talibans e não o exército ou o governo.
A resposta assombrosa do Husain Haqqani foi: “porque o Taliban consegue levantar fundos o suficiente para prover seus soldados de auxílios e pagamentos, comida e remédios, mais do que o estado do Paquistão”.
John se espanta e pergunta se o dinheiro vem do ópio.
“Sim, John. Acreditamos que vem do ópio”. Mas como pode um regime de fervor religioso financiar-se com drogas? Não é isso imoral? Contra os princípios que as demandas de conversão global ao islamismo bradam?
O embaixado, então, desembesta a pedir dinheiro.
Mas esse não é ponto. O ponto é que a heroína, a papoula, é que financeira a guerra. E de forma alguma é uma coisa os fins justificam os meios, como quer que acreditemos o bom e simpático embaixador de um país que não cuida de seus habitantes do campo, mas tem bombas atômicas. Os meios, neste caso, como em todos os casos (vide Machiavel), são os fins: por mais viciados que existam em países como Afeganistão ou nas tantas nações enterradas no ópio no continente africano, não tem dinheiro de verdade ali. O dinheiro de verdade vem dos viciados do primeiro mundo; vem da heroína.
Então é uma guerra em dois fronts. Porque enquanto se invade o Paquistão ou se financia Bin Laden, existe uma captação de recursos, isso também, em duas partes: a primeira é a captação direta. Garota de classe média alta em Nova Iorque começa a sair com as pessoas erradas (como diz sua mãe depois para o médico) e fica viciada em heroína. A maior parte de seus ganhos como garçonete, prostituta ou em pequenos furtos, vai para um traficante de rua ou de uma boca, que repassa esse dinheiro para o seu fornecedor internacional, indiretamente: o Taliban.
Esta é a captação direta.
A captação indireta é ainda mais eficiente, pelo menos do meu ponto de vista. Enquanto o primeiro estágio está em andamento, o segundo estágio começa sorrateiramente a tomar forma. Recursos são o dinheiro e a logística (geralmente possibilitada pelo dinheiro) para fazer, por exemplo, um exército funcionar. No máximo do positivismo militarista, um exército ou milícia it’s a very well tunned instrument, uma máquina lubricada e que busca a eficiência do motor de combustão. Precisa-se, portanto, de comida, água, alojamento, equipamento, incentivo moral. Mas para quê tudo isso é necessário, falando em termos de ação militar? Bem, é bastante óbvio. Todos esses recursos tem como finalidade última o confronto direto com uma outra forma organizada de militarismo; um outro exército ou milícia.
Este enfrentamento gera casualties, causalidades fatais. Um tiro no baço, por exemplo. Nas ruas de Los Angeles ou São Paulo pode não ser fatal, mas numa batalha como a que se desenrola no Paquistão, ah, daí o carinha morre mesmo! Mas também mata: quantas balas voaram de sua kalashnikov antes daquele morteiro explodir suas pernas?
A captação indireta funciona através das drogas! Nossa personagem da primeira captação provavelmente nunca irá se juntar as forças armadas. Na verdade, dificilmente ela fará qualquer coisa produtiva em termos de ereção da sociedade americana. Bem pelo contrário. A probabilidade de que vá se envolver em algum tipo de crime é enorme; mais do que isso, o envolvimento com drogas eleva a possibilidade estatística de se morrer não apenas pelo dano à saúde, mas também pela violência envolvida no submundo das drogas (primeiro: odeio esse termo submundo. Acho que seria mais apropriado o termo intermundo secreto, já que pessoas de vários estratos sociais estão envolvidas. Segundo: as estatísticas de mortes envolvendo a violência das drogas, bá, são abismais).
Interessante que quando uma represa estoura, geralmente não se procuram baldes e voluntários para juntar a água democratizá-la. Vem, agora você pode se afogar na tragédia também. Quando os aviões se chocaram com as torres foi o anúncio não de uma era de terror, com atentados assassinando centenas de milhares, não com a desrupção da vida cotidiana do ocidental médio. O anúncio era de uma era verdadeiramente esquizofrênica. A primeira ação do governo Bush foi uma preparação bilionária, Lockheed e companhia limitada, como se a preparação militar de qualquer dos países envolvidos ideologicamente ou casualmente pudesse ser de qualquer afronta. Paquistão e Irã, este segundo somente possivelmente, tem arsenal atomico. Bombinhas de extermínio, not a million man army or a thousand planes air force.
E as ações agora também parecem querer estar fora da estratégia da realidade.
TALIBAN = FARC.
Treinados por norte-americanos e/ou simpatizantes.
Armados por norte-americanos e/ou simpatizantes e/ou Mother Russia’s leftovers.
Financiados pela cultura imbecil do tabu das drogas. Cada um deles financiado por uma era de uso de drogas pela contracultura. 1970: heroína. 1980: cocaína. 1990: heroína. 2000: pelo que eu vi em algumas pesquisas, finalmente empatamos! Com os $$$ de uma equivalendo aos $$$ da outra.
O pior é que o estado, nos EUA como aqui, é que acaba arcando com as consequências de ambas essas captações.
Health Care ou Health Careless?
A discussão norte-americana mais ferrenha e imbecil anda sendo a de que Obama quer criar um modelo de saúde pública igual ao dos lugares civilizados do mundo – inclusive o Brasil – no qual existem os serviços privados, entretanto, as necessidades básicas de saúdes são e devem, obrigatoriamente, serem supridas gratuitamente.
Aonde chegamos para encontrar pessoas educadas, inteligentes, representantes da população que afirmam a plenos pulmões que isso será pior para a população?
Como que uma pessoa que ganha 8 dólares por hora vai se fuder mais se seu câncer ou furúnculo for tratado gratuitamente? Como que uma família que acabou de perder um dos pais para uma longa doença degenerativa pode ficar pior do que com as contas de hospital que será obrigada a começar a pagar depois de sepultar seu ente querido? Como que uma pessoa que tem câncer no cérebro vai ficar pior do que à mercê de empresas de seguro de saúde – os famoso HMOs – que nega seu pedido para uma cirurgia que tem 90% de chance de dar certo por causa de uma tecnicalidade no contrato?
Nos EUA, há anos, existe sistema público de educação.
Por favor, algúem, qualquer um, até anonimamente, pode me explicar isso? Pode, por favor, me explicar como é que a educação de uma pessoa pode estar a cargo do governo, a educação, uma coisa altamente ideológica, que envolve a formação categórica de um ser humano, e a saúde, o momento de maior fragilidade de uma pessoa, quando ela realmente precisa de ajudar não para se desenvolver, MAS PARA CONTINUAR A EXISTIR, não.
Alguns republicanos, inclusive Mitt Romney e Jeb Bush foram retratados no Daily Show de ontem falando sobre a revitalização do partido republicano. De todos os absurdos que saem e saíram das bocas e canetas desse partido nos últimos 30 anos, me desculpem, nenhuma supera a paranóia anti-comunista, já no seu quinto decênio, sobre uma medicina socializada que será o fim dos Estados Unidos. Bush, se não em engano, nos passos de seu irmão e pai, afirma que o governo deve subsidiar a formação de profissionais para o benefício do estado.
“A gente subsidia tua faculdade de engenharia naval, mas se tu tiver falência renal e precisar de um transplante, bom, daí boa sorte…”
Eu simplesmente não consigo entender. É como se estivéssemos tendo a prova definitiva de quase 50% dos representantes norte-americanos são, de fato, vicious people.
Negar auxílio na área da saúde é homicídio por negligência.
Eles não são simplesmente burros e incompetentes, corruptos e ligeiramente criminosos, Bushs, Cheneys, Romneys, esses caras são piores que criminosos de guerra. O que eles realmente pensam em relação às diferenças de classe, aos problemas sociais, é, de fato, que ricos vivam e pobres morram. A ignorância é tamanha que eles parecem, de verdade, acreditar nas propagandas mentirosas feitas durante quase meio século contra as formas socializadas de saúde, educação, economia, em suma, de estado, retratando-as sempre como perda de liberdades.
“Sim, com os republicanos no poder você tem o direito e a liberdade de MORRER”
Naquele desenho animado Family Guy, a família da mulher de Peter, a família Pewterschmidt, de repente não parece como um exagero cartunesco da típica mentalidade direitista, convervadora e republicana nos EUA.
Bilhões em mísseis que JAMAIS SERÃO USADOS… mas teu seguro-saúde quem paga é tu mesmo.
É uma estranha distorção da proposta de Sfez de que uma das grandes utopias, humanas e tecnológicas, vividas na contemporaneidade seria a da Grande Saúde, da Saúde Perfeita. Percebe-se, em retrospecto, que não se trata de uma utopia total, absoluta, não se trata de projeto de transformação total da vida humana; um marxismo de classe, uma ideologia dos escolhidos permeia totalmente esse engendro da fantasia.
Living forever sure isn’t for anyone…

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