20 anos do muro de Berlim
Epílogo
Legal a parte de opinião do NY Times de hoje sobre a queda e mais legal é uma parte que completa (ou corrobora?) essa minha interpretação um pouco (ou talvez muito) lacaniana. Meses depois…
na matéria, escrita pelo próprio Slajov Zizek, ele fala bastante sobre o aftermath da queda do muro. Sobre o que aconteceu nos país antes comunistas que com o desmanche do sistema foram se tornando capitalistas-democráticos. Mas é interessante como ele coloca muito bem essa questão lacaniana, como eu disse antes, da travessia da fantasia. Para os anti-Comunistas de então, a mudança de regime era uma transformação esperada e fantasiada. Realmente era uma fantasia, orquestrada a partir do desejo de liberdade. E quando a realidade do sistema da eficiência lucrativa se mostrou menos doce do que prometida, Zizek aponta, movimentos anti-Comunistas se reforçaram no discurso de que essas democracias que surgiram em países como Ucrânia, Polônia, a Eslovênia, não eram verdadeiramente capitalismo, nem democracia.
O que remete ao que eu dizia no meu post anterior de hoje mesmo: as pessoas não queriam capitalismo ou democracia, elas queriam dignidade. E a fantasia era de que já que o sistema comunista é opressor e maquínico e ele é antagonista do sistema democrático-capitalista a única lógica possível é a de que esse segundo sistema é, pelo menos, menos opressor e maquínico. Mas ele não era.
Em outras palavras, como eu disse, dignidade. A liberdade não de oprimir ou de escapar as responsabilidades, mas de ter uma família, amigos, associações. O gregarismo forçado do partido contrastava com a censura e perseguição, com a arregimentação da sociedade (é o que alguns autores vão se referir como caráter gregário-individualista da modernidade).
Zizek vai terminar seu texto falando do duplo desertor Kravchenko, que desertou, primeiro, do Oriente e, depois, do Ocidente, quando entendeu – antes de todo mundo – que as diferenças entre comunismo soviético e capitalismo norte-americano eram mais sutis do que se pensava. E ele reforça um discurso que eu corroboro muito (inclusive colocando num lugar de muita visibilidade um termo um tanto quanto temido nos dias de hoje – ideologia): é preciso construirmos novos discursos, novas ideologias, que consigam, finalmente, se desconectar das velhas dicotomias que ficaram com os destroços do muro (ele mesmo, agora há pouco a CNN mostrava, continua existindo em diversas forças. Algumas delas, em uníssono com o meu post anterior, muito remixadas). O desertor escolheu primeiro a liberdade e percebeu na América que a liberdade Ocidental é um contexto antes de um conceito, é fluído através de compartimentalizações e comprometimentos.
Democracia Cognitiva
“A perda do saber, muito mal compensada pela vulgarização da mídia, levanta o problema histórico essencial da democracia cognitiva”.
“Uma tradição de pensamento bem enraizada em nossa cultura, que forma espíritos nas escolas fundamentais, ensina a conhecer o mundo por ‘idéias claras e distintas’; incita-nos a reduzir o complexo ao simples, ou seja, separar o que está ligado, unificar o múltiplo, eliminar tudo o que provoca desordem ou contradição em nosso entendimento. Ora, o problema crucial do nosso tempo é o da necessidade de um pensamento apto a enfrentar o desafio da complexidade do real, ou seja, captar as ligações, as realidades ao mesmo tempo solidárias e conflituais (como a própria democracia, sistema que se nutre de antagonismos que regula). Pascal formulara o imperativo do pensamento que se deve, hoje, introduzir no ensino, desde o maternal: “Todas as coisas sendo causadas e causadoras, provocadas e provocadoras, mediatas e imediatas, e tudo se inter-relacionando por um vínculo natural e insensível que liga as mais distantes e as mais diferentes, considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, assim como conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes”.
Método 6
A pretensão, usando o termo do comentador anônimo, não é de uma prova de acesso. É de liberdade de escolha. Além das mentiras, além do maniqueísmo claro da mídia. Não é ‘comunismo de butique’ nem ‘marxismo chiquê’, é a pretensão reformista ao mesmo tempo utópica e muito realista de que o próprio processo da democracia se degenerou. É o entendimento de que o que está aí está muito distante da proposta democrática.
Hoje abri as notícias pra ver escândalo (ou possível escândalo) de nepotismo envolvendo o presidente francês. Anteontem era o primeiro ministro britânico tendo que devolver mais de 30 mil dólares pro governo por causa de suas despesas excessivas.
Esqueceu-se, parece, e poucos (Morin e Arendt, estranhamente, estou incluídos nesses poucos) apontam que o marxismo era ideologia, mas a democracia também. Distante da discussão do que é válido e do que é sonho ou utopia, deve-se encarar de frente que nossa sociedade ocidental moderna é constantemente permeada pela apologia à democracia. E isso é bom. É claro que devemos glorificar (pra usar uma palavra bem forte) aquilo que temos de melhor. O mesmo é feito em mesmo tom publicitário-matéria-de-consumo com os esportes, com a solidariedade. E, em certos termos, não tem nada de errado com isso.
Mas, como o cruel marxismo prático do leste europeu, deve-se perceber que, em outros termos, essa glorificação é usada não apenas praa o propósito único da glorificação. O marxismo usou os sentimentos de união, de pertencer pra constituir sua agenda malévola (pra usar outra palavra forte) e o mesmo continua acontecendo hoje. O marxismo teórico, acadêmico, sonhado, foi uma grande fonte (e ainda é) de crítica social e de formulação de dever-ser em termos constitutivos. Mas o marxismo prático foi e ainda é fonte da deturpação de coisas boas. Democracia, união, projeção do mundo, melhoria do mundo e do homem: estes são apenas os mais óbvios índices transformados pela bandeira esquerdista em alcova de assassinato e censura. E o PT, em nosso querido país é o índice desse índice.
Mas nem só de esquerda que a degeneração da democracia vive.
Os EUA são o índice desse índice – a maior democracia do mundo que não é uma democracia.
Então, a proposta não são ‘timoneiros da história’, até porque, diria assim sem pensar muito, na democracia ou fora dela, somos todos nós em nossas constantes inter-relações (naquele tão inteligente ciclo tetragramático do Morin) que somos os timoneiros da história (vide italianos linchando seu ditador, vide alemães louvando seu ditador). Mas a questão está adormecida exatamente aí: é perceber como se foi timoneiro da história nesses seis mil anos e perceber que algo está errado e algo está ficando ainda mais errado hoje em dia.
A mídia (Lippmann ressalta isso, mas não está sozinho), que deveria ser o quarto poder, que deveria elucidar os embates políticos-públicos para que o eleitor tenha condições de eleger ou se esquiva do debate e do aprofundamento ou simplesmente serve descaradamente aos propósitos de um ou outro lado. De novo, nos EUA contemporâneo se vê muito isso.
Por isso a proposta de uma democracia cognitiva. Uma reforma democrática que abarque a própria mudança que o mundo está sofrendo: uma mudança de paradigma que privilegia a transparência, a honestidade, a solidariedade, o múltiplo e o uno. É óbvio que um líder sindical e um administrador são formulações específicas totalmente diferentes e não é, também, escolher que um deles a partir de formulações específicas e abstratas possa ser um melhor líder do que o outro. Mas também é isso. Generais comandam exércitos porque tem carreiras militares, entendimentos aprofundados e específicos de como é o dever militar. Entretanto, suas perspectivas, por serem de um dever militar, geralmente se limitam a isso. E guerras só são travadas por soldados e administradas por generais no seu âmbito objetivo. É perceber, de forma complexa, que um administrador público precisa saber o que faz, e não estamos falando da estupidez mencionada pelo nosso querido comentador anônimo e censurado de ‘habilidade técnica’ (leia Heidegger, depois conversamos): é conhecimento. Não é operacionalidade, é conhecimento mesmo. Popularidade e promessas não são pré-requisitos pra inteligência e eficiência.
E é exatamente disso que precisamos escapar. Morin fala em todos os seus métodos de uma coisa que os críticos marxistas do marxismo já falavam em 1938: a hiper-especialização da divisão do trabalho gera uma divisão intelectual na sociedade, onde certos campos se veem barrados de outros campos. Onde o conhecimento, por exemplo, científico nutre uma desavença com o conhecimento nem tão científico.
A proposta, portanto, é de uma democracia onde esses desafios sejam enfrentados de frente. Onde a diferença e a repetição (Deleuze) faça parte de maneira honesta. Onde o circuíto político não se limite à ideologias, à visões distorcidas de mundo e sonhos delirantes de futuro.
Eu penso existir uma serena sanidade nessa proposição, mas, tem gente até pra negar o holocausto, então não me espanta que tenha gente que simplesmente não consegue entender. É fácil pensar o mundo em esquerda e direita, difícil é pensar nele ao mesmo tempo assim e sem lados.
Se não funciona, ou troca ou conserta
“Há quem gostaria de melhorar os homens e quem estime que isso poderia acontecer melhorando antes as condições de vida. Mas rapidamente se vê que uma coisa não anda sem a outra e não se sabe por onde começar”.
André Gide
“O espírito humano é capaz de praticar o conhecimento do seu próprio conhecimento, de incorporar os meios autocríticos e críticos que lhe permitam lutar contra os erros e ilusões, de não sofrer passivamente o imprinting da sua cultura, mas, ao contrário, de nutrir-se de uma cultura regenerada oriunda da união da cultura humanista e da cultura científica; é capaz de não se deixar sequestrar por idéias mestras possessivas e autoritárias, de desenvolver e afirmar uma consciência ainda hesitante e demasiado frágil, enfim, de desenvolver suas potencialidades ainda não expressas. Sair da pré-história do espírito humano é necessário para sair da idade de ferro planetária, e sair da idade de ferro planetárias é necessário para sair da pré-história do espírito humano”
“Seria preciso, diz [Raimondo Pannikar], ‘ver, por um lado, se o projeto humano realizado durante seis milênios pelo homo historicus é o único possível e, por outro lado, ver se não seria necessário, hoje, fazer outra coisa’.”
Morin, O método 6, p.171 e 179.
Com só um pouquinho de ética o cara consegue muito mais. Tente.
p.s.:
“O ser humano carrega um fervilhar de monstros que se libertam em todas as ocasiões favoráveis. O ódio espalha-se por um nada, um esquecimento, um raspão de carros no trânsito, uma distração de alguém, um olhar, um favor não feito, a inveja da reputação de um colega, um mínimo incidente. O egoísmo, o desprezo e a indiferença agravam por toda parte e incessantemente a ferocidade do mundo humano; o excesso de crueldade nutre por saturação a indiferença e a desatenção”
Mesma obra, p.189.
Porque GENIAL mesmo é comentário anônimo. Ah, isso é COM CERTEZA coisa de gente inteligente, capaz de diálogo e de insights. Porque GENIAL mesmo é ter rodado no colégio em interpretação de texto (dã). Pra que entender o que tá escrito quando é muito mais inteligente simplesmente inventar um sentido?
Democracia vs. Democracia Cognitiva.
“Ninguém é mau voluntariamente”
Sócrates
O problema democrático sem frescuras
“O executivo deveria formar equipes multidisciplinares constituídas de cientistas sociais capazes de fornecer informação relevante aos tomadores de decisão”.
(prefácio do prof. Jacques Weinberg pro livro de W. Lippmann, a Opinião Pública).
Eu venho dizendo isso HÁ ANOS. Como é que ser querido, bonito, com dinheiro pra campanha, bons contatos, podem ainda ser requisitos para se eleger um oficial público?
Peguemos um exemplo até bem clichê. Eu tenho um problema no coração que requer cirurgia. Eu não vou contratar um lixeiros, engenheiro espacial, modelo ou intelectual da cibercultura pra fazer a bendita cirurgia. Vou contratar um médico. Se der, um cirurgião. Se der, o melhor cirurgião. Quando minhas células precisam de alimento e oxigênio eu não uso, sei lá, leucócitos pra fazer o trabalho. EU USO AS CÉLULAS PREPARADAS PRA ESSE TIPO DE SERVIÇO.
Meritocracia passa pelo que é mérito. É óbvio que o povo vai decidir, mas as opções não deveriam ser antecipadamente analisadas? O Estados de São Paulo já elegeu até farm animals e em outras localidades a diferença entre os oficiais eleitos e farm animals é negligenciável.
Pra fazer coisas imbecis como empurrar papel o cara tem que passar por todo tipo de estudo e testes (faculdade, cursos profissionalizantes, concursos, seleções). Então por que diabos o presidente da maldita república pode ser um qualquer? Não digo que o Lula não tenha suas qualidades, mas, francamente, poderia-se encontrar algo melhor. E, em vários termos, temos algo melhor. Lula, como Bush e tantos outros, é apenas a the package de uma equipe.

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