Democracia Cognitiva
“A perda do saber, muito mal compensada pela vulgarização da mídia, levanta o problema histórico essencial da democracia cognitiva”.
“Uma tradição de pensamento bem enraizada em nossa cultura, que forma espíritos nas escolas fundamentais, ensina a conhecer o mundo por ‘idéias claras e distintas’; incita-nos a reduzir o complexo ao simples, ou seja, separar o que está ligado, unificar o múltiplo, eliminar tudo o que provoca desordem ou contradição em nosso entendimento. Ora, o problema crucial do nosso tempo é o da necessidade de um pensamento apto a enfrentar o desafio da complexidade do real, ou seja, captar as ligações, as realidades ao mesmo tempo solidárias e conflituais (como a própria democracia, sistema que se nutre de antagonismos que regula). Pascal formulara o imperativo do pensamento que se deve, hoje, introduzir no ensino, desde o maternal: “Todas as coisas sendo causadas e causadoras, provocadas e provocadoras, mediatas e imediatas, e tudo se inter-relacionando por um vínculo natural e insensível que liga as mais distantes e as mais diferentes, considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, assim como conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes”.
Método 6
A pretensão, usando o termo do comentador anônimo, não é de uma prova de acesso. É de liberdade de escolha. Além das mentiras, além do maniqueísmo claro da mídia. Não é ‘comunismo de butique’ nem ‘marxismo chiquê’, é a pretensão reformista ao mesmo tempo utópica e muito realista de que o próprio processo da democracia se degenerou. É o entendimento de que o que está aí está muito distante da proposta democrática.
Hoje abri as notícias pra ver escândalo (ou possível escândalo) de nepotismo envolvendo o presidente francês. Anteontem era o primeiro ministro britânico tendo que devolver mais de 30 mil dólares pro governo por causa de suas despesas excessivas.
Esqueceu-se, parece, e poucos (Morin e Arendt, estranhamente, estou incluídos nesses poucos) apontam que o marxismo era ideologia, mas a democracia também. Distante da discussão do que é válido e do que é sonho ou utopia, deve-se encarar de frente que nossa sociedade ocidental moderna é constantemente permeada pela apologia à democracia. E isso é bom. É claro que devemos glorificar (pra usar uma palavra bem forte) aquilo que temos de melhor. O mesmo é feito em mesmo tom publicitário-matéria-de-consumo com os esportes, com a solidariedade. E, em certos termos, não tem nada de errado com isso.
Mas, como o cruel marxismo prático do leste europeu, deve-se perceber que, em outros termos, essa glorificação é usada não apenas praa o propósito único da glorificação. O marxismo usou os sentimentos de união, de pertencer pra constituir sua agenda malévola (pra usar outra palavra forte) e o mesmo continua acontecendo hoje. O marxismo teórico, acadêmico, sonhado, foi uma grande fonte (e ainda é) de crítica social e de formulação de dever-ser em termos constitutivos. Mas o marxismo prático foi e ainda é fonte da deturpação de coisas boas. Democracia, união, projeção do mundo, melhoria do mundo e do homem: estes são apenas os mais óbvios índices transformados pela bandeira esquerdista em alcova de assassinato e censura. E o PT, em nosso querido país é o índice desse índice.
Mas nem só de esquerda que a degeneração da democracia vive.
Os EUA são o índice desse índice – a maior democracia do mundo que não é uma democracia.
Então, a proposta não são ‘timoneiros da história’, até porque, diria assim sem pensar muito, na democracia ou fora dela, somos todos nós em nossas constantes inter-relações (naquele tão inteligente ciclo tetragramático do Morin) que somos os timoneiros da história (vide italianos linchando seu ditador, vide alemães louvando seu ditador). Mas a questão está adormecida exatamente aí: é perceber como se foi timoneiro da história nesses seis mil anos e perceber que algo está errado e algo está ficando ainda mais errado hoje em dia.
A mídia (Lippmann ressalta isso, mas não está sozinho), que deveria ser o quarto poder, que deveria elucidar os embates políticos-públicos para que o eleitor tenha condições de eleger ou se esquiva do debate e do aprofundamento ou simplesmente serve descaradamente aos propósitos de um ou outro lado. De novo, nos EUA contemporâneo se vê muito isso.
Por isso a proposta de uma democracia cognitiva. Uma reforma democrática que abarque a própria mudança que o mundo está sofrendo: uma mudança de paradigma que privilegia a transparência, a honestidade, a solidariedade, o múltiplo e o uno. É óbvio que um líder sindical e um administrador são formulações específicas totalmente diferentes e não é, também, escolher que um deles a partir de formulações específicas e abstratas possa ser um melhor líder do que o outro. Mas também é isso. Generais comandam exércitos porque tem carreiras militares, entendimentos aprofundados e específicos de como é o dever militar. Entretanto, suas perspectivas, por serem de um dever militar, geralmente se limitam a isso. E guerras só são travadas por soldados e administradas por generais no seu âmbito objetivo. É perceber, de forma complexa, que um administrador público precisa saber o que faz, e não estamos falando da estupidez mencionada pelo nosso querido comentador anônimo e censurado de ‘habilidade técnica’ (leia Heidegger, depois conversamos): é conhecimento. Não é operacionalidade, é conhecimento mesmo. Popularidade e promessas não são pré-requisitos pra inteligência e eficiência.
E é exatamente disso que precisamos escapar. Morin fala em todos os seus métodos de uma coisa que os críticos marxistas do marxismo já falavam em 1938: a hiper-especialização da divisão do trabalho gera uma divisão intelectual na sociedade, onde certos campos se veem barrados de outros campos. Onde o conhecimento, por exemplo, científico nutre uma desavença com o conhecimento nem tão científico.
A proposta, portanto, é de uma democracia onde esses desafios sejam enfrentados de frente. Onde a diferença e a repetição (Deleuze) faça parte de maneira honesta. Onde o circuíto político não se limite à ideologias, à visões distorcidas de mundo e sonhos delirantes de futuro.
Eu penso existir uma serena sanidade nessa proposição, mas, tem gente até pra negar o holocausto, então não me espanta que tenha gente que simplesmente não consegue entender. É fácil pensar o mundo em esquerda e direita, difícil é pensar nele ao mesmo tempo assim e sem lados.
Se não funciona, ou troca ou conserta
“Há quem gostaria de melhorar os homens e quem estime que isso poderia acontecer melhorando antes as condições de vida. Mas rapidamente se vê que uma coisa não anda sem a outra e não se sabe por onde começar”.
André Gide
“O espírito humano é capaz de praticar o conhecimento do seu próprio conhecimento, de incorporar os meios autocríticos e críticos que lhe permitam lutar contra os erros e ilusões, de não sofrer passivamente o imprinting da sua cultura, mas, ao contrário, de nutrir-se de uma cultura regenerada oriunda da união da cultura humanista e da cultura científica; é capaz de não se deixar sequestrar por idéias mestras possessivas e autoritárias, de desenvolver e afirmar uma consciência ainda hesitante e demasiado frágil, enfim, de desenvolver suas potencialidades ainda não expressas. Sair da pré-história do espírito humano é necessário para sair da idade de ferro planetária, e sair da idade de ferro planetárias é necessário para sair da pré-história do espírito humano”
“Seria preciso, diz [Raimondo Pannikar], ‘ver, por um lado, se o projeto humano realizado durante seis milênios pelo homo historicus é o único possível e, por outro lado, ver se não seria necessário, hoje, fazer outra coisa’.”
Morin, O método 6, p.171 e 179.
Com só um pouquinho de ética o cara consegue muito mais. Tente.
p.s.:
“O ser humano carrega um fervilhar de monstros que se libertam em todas as ocasiões favoráveis. O ódio espalha-se por um nada, um esquecimento, um raspão de carros no trânsito, uma distração de alguém, um olhar, um favor não feito, a inveja da reputação de um colega, um mínimo incidente. O egoísmo, o desprezo e a indiferença agravam por toda parte e incessantemente a ferocidade do mundo humano; o excesso de crueldade nutre por saturação a indiferença e a desatenção”
Mesma obra, p.189.
Porque GENIAL mesmo é comentário anônimo. Ah, isso é COM CERTEZA coisa de gente inteligente, capaz de diálogo e de insights. Porque GENIAL mesmo é ter rodado no colégio em interpretação de texto (dã). Pra que entender o que tá escrito quando é muito mais inteligente simplesmente inventar um sentido?
Democracia vs. Democracia Cognitiva.
“Ninguém é mau voluntariamente”
Sócrates
O ciclo tetragramático de Morin:
Ordem - Desordem - Interação - Organização
Com todos os pontos se interconectando.
Tudo bem. Será que não é possível pensar esse ciclo de uma forma metafórica? Cada ponto do ciclo substituído por um período da história humana.
Atualidade - Pré-História - Antiguidade Clássica - Idade Média
Da desordem da Pré-História, passamos ao período de interações. Durante a Antiguidade Clássica a Humanidade teve seu primeiro vislumbre de si mesma como processo organizado e, mais do que isso, como processo. A Idade Média fomentou a burocratização (mental, econômica, política, social e societal) e a preparação objetiva do mundo. O período que se segue foi regido pela razão, proposta última da ordem em termos humanos.
Pego as palavras do velhinho como minhas:
“Eu sei que minha atitude, por mais que ela me pareça evidente, não será compreendida, porque a maioria dos que me lerão obedece ainda ao paradigma de simplificação que comanda a alternativa exatamente onde seria preciso ultrapassar por integração os pontos de vista opostos. A minha luta também será difícil porque ela deve ser levada em duas frentes. Eu me encarreguei da tarefa, aparentemente prudhommesca, na verdade dialética, de defender o sistema pela necessidade de combatê-lo. A teoria do sistema que proponho é também anti-sistêmica”.
“É preciso em primeiro lugar ser capaz de conceber a pluralidade no uno”.
Edgar Morin, O Método 1: A natureza da natureza.
Leituras
Alguém me perguntou ontem o que eu ando lendo. Lamentavelmente no momento não estou lendo quase nada de Ficção – estou esperando o Gustavo me emprestar o Crônicas Marcianas, do Bradbury, que eu dei pra ele de aniversário -, mas estou lendo 6 livros teóricos ao mesmo tempo.
O único ficcional que estou lendo é:
- O Caso de Charles Dexter Ward
Esse é um dos mais conhecidos romances de H.P. Lovecraft. Quando reconstruí a história da ficção científica e fantástica para minha dissertação eu acabei vendo que o único autor ali que eu jamais tinha entrado em contato com era o Lovecraft. Daí encontrei esse em versão pocket e tem sido meu companheiro atual de literatura.
Mas no momento estou lendo:
- Bem-Vindo ao Deserto do Real: cinco ensaios sobre 11 de setembro e datas relacionadas
Esse livro do Slavoj Zizek é de 2002. Zizek é um filósofo esloveno e essa coleção de ensaios é realmente muito boa. Ele fala muito sobre ficção científica e a relação mítica da ansiedade do catástrofe com a natureza própria da catástrofe 11 de setembro.
- Lacrimae Rerun
Esse livro também é do Zizek, de 2008. Nele ele fala sobre as cineastas Kieslowski, Hitchcock, Lynch e Tarkowski. O livro é ótimo; parece também uma coleção de ensaios. E recomendo muito o sobre o Hitchcock.
- Nascimento da biopolítica
As aulas de Michel Foucault no Collége de France de janeiro a abril de 1976. Recém comecei a ler: é longo e denso, mas é muito bom porque é em forma de aula, então ele gasta bastante tempo explicando bem a fundo e dando ótimos exemplos. É uma obra obrigatória sobre poder, estado, política, relações internacionais e sobre a própria condição humana, no que se refere ao estatuto da organização das sociedades.
- As palavras e as coisas
Empréstimo do meu querido amigão Jayme Camargo, colega de grupo de pesquisa e mestrando ali na Famecos, esse livro é outro obrigatório. Queria ter lido ele há muito tempo, mas as leituras necessárias sempre ficavam na frente. É ótimo. Foucault fala de arte e da percepção humana.
- Dialética do Esclarecimento
Essa obra clássica, fundadora, inclusive, de Adorno e Horkheimer é uma das leituras obrigatórias para quem tem interesse pela mídia e pelas transformações ideológicas da era pré, moderna e pós. Comprei ontem e já estou devorando. Era mais um daqueles livros que fazia muito tempo queria ler e nunca tinha tempo.
- O Método 1: A natureza da natureza
Há algum tempo eu comprei numa promoção na Cultura todos os Métodos do Edgar Morin, mas, por sua densidade e pela falta de tempo, só tinha lido partes do Método 3 e 4 para fazer um trabalho para uma das disciplinas do mestrado. Morin em sua complexidade me fascinou desde o primeiro momento e ficou como aqueles livros pra ler depois da defesa. E foi o que eu fiz. É o livro no qual estou mais concentrado no momento.
- A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria
Esse livro é de 1989, de Gaston Bachelard. Como eu tinha lido para minha dissertação todos os estudantes do Bachelard, resolvi que deveria lê-lo. Eu também comprei O ar e os sonhos e A poética do devaneio, mas ainda não comecei a ler.
Se alguém tiver alguma dica de ficção eu to aceitando. Nothing too classic or too novelty, please…

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