Convergência Tecnológica (ou A que ponto chegamos)
Bom
Ontem fui no Bourbon comprar pão e areia para minhas gatinhas e saí de lá com um celular novo. Eu tava desde o meu aniversário, em maio, pra trocar meu Motorola V3 velho de guerra – que não tem nada a ver com esse MOTORAZR V3 que tem por aí. Não queria nada fancy, queria algo que simplesmente tocasse música.
Entretanto, desde anos, um dos meus maiores sonhos era a epítome da ficção científica aplicada ao prazer de ouvir música: fone de ouvido sem fio. Entretanto me frustrava com os preços: chegando até a 400 reais. Mas ontem dei sorte: passamos no guichê da Claro e tava lá só me olhando e custando UM REAL. Comprei.
É o Motorola E2 e veio com os fones de ouvido MOTOROKR S9 sem fio/bluetooth.
Tô realizado. 1 Gb de espaço. Câmera de 1.3 Megapixels. Demais.
Pra quem tava há dois anos com o mesmo celular, bá, foi uma realização máxima do consumismo. Até pq mantive basicamente o plano que eu já tinha e paguei realmente um real pelo celular, em moedinhas de dez centavos.
Além das frescuras: o telefone ouve músicas tocando em qualquer caixa de som e procura, de graça, na internet informações sobre a música e, pagando, tu pode até baixar instantaneamente a música.
E vem com Tetris. Demais. Mesmo não sendo flip. Eu tava acostumado com flip, meus últimos dois ou três aparelhos eram flip. Mas não dá nada, né?
Também acabamos comprando outra coisa, mas essa é segredo.
Temporada de Amor (ou Capitalismo Malvadão)
Doze de junho, dia dos namorados.
Pra uns, data comemorativa artificial criada pelos comerciantes mais ávidos por nos empurrarem suas mercadorias mais ralas.
Pra outros, comemoração e celebração do amor de forma bastante juvenil.
Eu pra mim vejo uma conexão bem icônica: vivemos a Idade da celebração do artifício. Faz sentido que ela seja, subjetivamente, comemorada através de datas e celebrações plenamente artificiais. A incoerência pode ser o motto da pós-modernidade, entretanto, junto com outros pensadores, me identifico muito com a idéia de que está “tal pós-modernidade” esteja, em certo nível superada. O encontro com o outro é consumado; procura-se agora fabricar ‘um outro’, um ‘além’.
Há muitos anos eu tenho na minha cabeça a figura ficcional encarnada tão bem por Jude Law do ‘amante artificial’. Seios, nadegas, órgãos sexuais, hormônios, a ‘enclave do plástico/silício’ irrompe com torque crescente a pequena auréola do organicismo. Como fica São Valentim quando simplesmente não existem mais casais a despeito de Cláudio Segundo e seu possível exército? O bispo romano declararia “marido e plástico/silício”?
Fica-se no impasse ainda tão pós-moderno do tal casamento gay quando estamos em vias de nos depararmos com as indefinições agora tão tangíveis de uma ética ainda mais apócrifa.
Obviamente as gestões de representação democrática estão, principalmente nestes aspectos, ainda presas a convenções religiosas e modismos modernistas de segregação. E fica a questão de até onde ainda somos homens. Até onde o “suplemento plástico” substituí? É só a carne, o osso, ou também é o espírito?
Os gregos inventaram o homem mas esqueceram de colocar na embalagem manual e descrição.
O artifício, então, é rei.
Decide antes que nós possamos o que se deve ou não fazer. Boa parte de nossa cultura é arbitrária e, portanto, artificial. Inventada por velhacos decrépitos pelo menos 200 anos antes de nossas vovózinhas aprenderem a dizer: “Chupa, otário!”
Vê-se a falta de “exit route” mas, em contrapartida a tudo isso, vale mencionar que eu amo minha mulher demais, que nenhum artifício ou desculpa é demais pra comemorar o amor tão lindo que a gente tem.
Amo-te, minha linda. Demais, demais. Tu é o amor da minha vida.
Feliz dia dos Namorados pra quem tem um alguém especial pra dormir quentinho junto nesse friozinho tão romântico e pra quem não tem fica a promessa de que só o amor constrói.
Mileage is Everything (ou Fraturar o Espírito)
Schizein (σχίζειν), do grego, quer dizer dividir, fraturar.
Phren (φρήν, φρεν-), também do grego, quer dizer espírito.
A esquizofrenia é um distúrbio psiquiátrico caracterizado pela deterioração das capacidades sensitivas – perda do controle sobre os sentidos, como visão e audição – e do processo cognitivo, ou seja, de perceber, entender e apreender a realidade. Esta condição geralmente causa alucinações visuais e auditivas além de paranóia e delírios bizarros.
Esta condição é caracterizada como uma doença. Não existe uma única causa e escolas se degladiam em estudos procurando desvendar se suas causas são genéticas, neurobiológica, psicanalítica ou familiares/sociais. Entretanto aqui coloco – mesmo sem grande instrução médica ou biológica – que na verdade a esquizofrenia é uma condição natural, que vários espécimes humanos denotam em diversos graus e intensidades.
Na verdade, isso é só um jeito bonito de dizer que tem muita gente que gosta e se acostuma a viver num mundo completamente de fantasia. Como as coisas da vida real e tangível não se adequam a visão de mundo, a pessoa acaba por decidir os rumos, causas e conseqüencias das situações baseada somente nos seus delírios pessoais. Vários psicológos vão afirmar que existe u
ma coisa chamada ‘conversão’; é quando o paciente demonstra uma clara visão que os seus próprios defeitos e problemas na verdade são de outras pessoas. E isso, além de real, é muito facilmente averiguável. A gorda que acha todos os outros gordos, o corno que acha que os amigos é que são cornos, o depressivo que acha que seu terapeuta é que está deprimido.
E isso não seria a mild schizophrenia? Algumas dessas pessoas deturpam tanto informações concretas que recebem do mundo que realmente há um cárater de doença mental envolvido; outra visão disso seria assustadora demais para se cogitar. Palavras, gestos, textos, fotos, se tornam um tsunami semiótico, na verdade, um esquizofrênico tsunami semiótico: cheio de sentidos e signos que na verdade estão totalmente ausentes. Eu cogito – cogito ergo sum – que isso seja uma coisa intrínseca ao mundo da palavra e à liberdade cognitiva que cada ser humano experiencia. Temos a habilidade de interpretar, e assim como naturalmente perdemos – muito pela quantidade de estímulos – nossa capacidade de limitar e computar todos os nossos sentidos, talvez este sentido natural da psique humana também perca seu rumo vez ou outra. Acredito que isso aconteça – assim como a relativa perda das capacidades sensoriais – por pressão psicológica, estresse e fadiga.
Indo pelo sentido literal da palavra logo encontramos sua realidade: espíritos fraturados é o que mais há nesse apogeu tecno-superficial. A deformidade histórica da mente humana atinge certamente seu ápice em dois momentos distintos – o passado sendo a imigração inglesa para os Estados Unidos, quando o contínuo envenenamento por ergot nos pães de centeio fez dos peregrinos assassinos em massa – que na verdade nem se comparam; “hoje em dia tem louco pra tudo”, como diz a sabedoria popular.
A inveja, a falha ao se atingir os marcadores sociais de sucesso, a deterioração das relações sociais, a escassez intelectual e a paranóia global-ambiental com certeza infectam as populações mais improváveis com um pseudo-ergotismo talvez muitas vezes mais potentes do que sua contraparte de origem fúngica; este ergotismo mantém os espécimes economicamente ativos enquanto suas relações internas – de imaginário e pensamento – e suas relações sociais são gentilmente deterioradas por rumores de alucinações – quase que sempre auditivas.
Ilustra-se esse gentil comentário sobre atitudes testemunhadas não há muito tempo – e que, na verdade, são mesmo vistas todos os dias – com a imagem do carrasco da modernidade, nosso querido René Descartes, ou Renatus Cartesius, para dizer que penso, logo EXISTO e não necessariamente penso, logo EXISTE.
Come out of your holes, you miserable shits! Come on and I’ll show how it is really done. Mileage is everything, don’t fuck the old unless you’re older, mf.
26 Primaveras
Pois não é que ontem comemorei nove mil quatrocentos e noventa e seis dias nesse planetóide.
Bem legal.
E nesses vinte e seis anos eu passei por muitas coisas, tive vários níveis (se é que se pode chamar assim) de entendimento da vida no planeta e hoje, considero, tenho uma visão bastante privilegiada de como a vida e as relações se articulam. Nenhum teoria, credo ou filosofia tem todas as respostas, mas todas elas tem pistas importantes para esta resposta. Desde o ano passado, muito por um professor e pensador que considero um dos meus muitos grandes mentores, o prof. dr. Francisco R. Rüdiger, eu passei a entender a vida na Terra de uma maneira mais aprofundada e que fecha muito com o meu freudismo e nietszchismo desvairados.
Eu gosto de chamar de “Ética de Prometeu”. E citarei uma parte desta peça de Ésquilo que foi provavelmente terminada em meados de 465 antes de Cristo.
Prometeu já está acorrentado e explica ao Coro o porque de sua prisão:
PROMETEU
[...] Logo que se instalou no trono de seu pai – ele está falando de Júpiter/Zeus -, distribuindo por todos os deuses honras e recompensas, ele tratou de fortificar seu império. Quanto aos mortais, porém, não só lhes recusou qualquer de seus dons, mas pensou em aniquilá-los, criando em seu lugar uma raça nova. Ninguém se opôs a tal projeto, exceto eu. Eu, tão somente, impedi que, destruídos pelo raio, eles fossem habitar o Hades. Eis a causa dos rigores que me oprimem. Porque me apiedei dos mortais, ninguém tem pena de mim! No entanto, tratado sem piedade sirvo de eterna censura à prepotência de Júpiter.
[...]
O CORO
Mas… nada mais fizeste, além disso?
PROMETEU
Graças a mim, os homens não mais desejam a morte.
O CORO
Que remédio lhes deste contra o desespero?
PROMETEU
Dei-lhes uma esperança infinita no futuro.
Prometeu, Prometeu. Prometeu era o Titã Oráculo. Ele fez o que fez sabendo o que lhe aconteceria. E na tradição da mitologia grega sempre se fala no fogo. Entretanto, o homem primitivo ganhou de Prometeu mais do que simplesmente aprender a incenerar madeira. Durante o dia, a labuta. Colher, plantar, construir, tudo para sobreviver. Durante à noite, inutilidade completa. Medo dos predadores, de outros tribos, e nada de luz para podermos fazer nada. Prometeu concedeu ao homem a noite. Deu-nos a capacidade de trabalharmos durante o dia e durante a noite podermos rasgar o véu negro e ver-nos, e construir, e pintar, desenhar, escrever, festas. Interessante perceber que Zeus já tinha seus planos de pós-humanidade.
Por isso “ética de prometeu”. Prefiro o sacrifício eterno do que um minuto mais de enfadonha não-percepção. O fogo é a metáfora não para a vida, mas para o querer viver.

