Ubermensch by Debord

Atchim

Publicado em despise for humans por pedro em 07/16/2009

Não estou pra dizer que a medicina socializada brasileira é a oitava maravilha do mundo, quero simplesmente levantar a questão mais fomentada na mídia nos últimos tempos nos EUA.

Não vou babar o ovo do Obama também, até porque tenho um post que estou acabando sobre ele que quem gosta dele não vai gostar.

Meu propósito aqui não é nem mesmo apontar pensamento político, é apenas uma análise do discurso que anda sendo jogado pra todos os lados principalmente pelos republicanos.

Vendo os senadores (principalmente) falando na CSPAN, exaltados nos recortes da CNN e do Daily Show, eu não consigo evitar de ficar totalmente chocado. E não é um choque político, é um choque moral. A imoralidade (porque quem quer que leia vai ter que me desculpar, é a única palavra que cabe nessa situação) desses homens e mulheres ultrapassa todos os limites. A maior parte deles, os mais vocais, pra dizer a verdade, emitem o seguinte argumento: a proposta de Obama consiste numa burocratização do sistema de saúde, aonde um burocrata estará a cargo dos serviços de saúde da população e, por causa disso, você passará por um processo de seleção e não conseguirá o tratamento (sejam cirurgias necessárias, eletivas ou apenas remédios).

A questão é a seguinte: não sou um adorador de Michael Moore. Tendo feito meu trabalho de conclusão da graduação sobre um de seus filmes e o tendo pesquisado extensamente, o acho um idiota. Um simplista que procura usar as mesmas armas da direita conservadora para provar argumentos da esquerda liberal. Não passa, portanto, de mais um ideologistazinho despreperado. Mas é divertido, não posso negar. Seu filme Sicko, na verdade, não é nenhuma novidade (fora os exageros e mentiras grosseiras): há muito já se sabia, através até mesmo de sériezinhas de TV que o sistema de saúde norte-americano tem problemas graves da ordem humanística. Ela consiste, simplesmente, no fato de que num determinado momento se optou pela forma privada de saúde: ao invés de um sistema pública, pago através de impostos, cada pessoa escolhe sua própria seguradora. Até aí, tudo bem. O que me incomoda é que não é nada difícil encontrar corroboração para histórias parecidas com que Moore espetaculariza: o sistema vigente HOJE nos Estados Unidos consiste na falta de liberdade de escolha e de acesso, pois existem dezenas de processos de seleção e avaliação executados por burocratas.

Ou seja, os senadores republicanos, oposicionistas ao plano de saúde universal, estão alertando, na verdade, para uma realidade que não é latente, nem virtual; o sistema de saúde privada já funciona dessa forma. A prioridade do lucro faz com que burocratas que agenciam a saúde da população busquem formas de negar atendimento, de todas as formas, geralmente resultando em danos irreversíveis à saúde.

Eu poderia me lixar ainda menos pra isso. O mundo em que vivemos, que, na verdade, aristotelicamente falando, é o mundo que construímos para nós mesmos, é inegavelmente cruel. Não apenas na sua natureza inevitável (morte, doença, as fragilidades e limitações do homem), mas também na sua ordem racional engendrada por nós. Eu me lixo, falando assim coloquialmente, para o que em certo tempo poderia ter sido chamado de discurso do aburso ou discurso absurdo (Camus), mas que eu chamaria de discurso esquizoide. O que talvez pudesse ser chamado de trégua ideológica (Adorno/Horkheimer) aparece mais, na contemporaneidade, como uma estranha esquizofrenia ideológica e discursiva, pra não dizer midiática.

O outro lado não é santificado, de forma alguma. Os apoiadores (inclusive o senhor Obama) colocam suas fichas na aposta de que ainda seria possível uma medicina universal nos EUA. E, mais do que isso, que sendo possível, isso seria a resolução de problemas incríveis e levaria a nação mais próxima de uma nova era de ouro.

Dã, é a única coisa que me vem a mente. O Brasil – e foi por isso que eu comecei fazendo aquela ressalva – possuí já o modelo que Obama pretende instalar: o SUS é o sistema único de saúde, gratuito e livre para todos. Entretanto, ainda existem os planos privados de saúde. A rede pública de saúde (hospitais, centro de saúde, laboratórios) é incrivelmente não coesa: existem hospitais públicos de renome e outros que só podem ser descritos como caindo aos pedaços, quando ainda existem pedaços. A rede privada possuí hospitais muito bons (e falo principalmente aqui em Porto Alegre). Ou seja, é um sistema misto.

O que nós vemos? Minha ressalva era exatamente sobre isso. O Brasil não tem uma admistração de recursos passível de ser assim, tão levianamente comparada com a norte-americana. E mesmo lá, nos EUA, temos a condição de que não sabemos ao certo como e quanto dinheiro ao longo de quanto tempo será a medida da constituição da rede pública. Existem duas instâncias: de um lado o Medicaid, que já é o sistema público que existe lá para os idosos, e de outro a lógica de que os segurados por esse sistema são atendidos na rede privada que é paga pelo governo.

A passividade é, na verdade, a de que a formatação e a construção mesmo de um sistema que nem esse acarreta a possibilidade inegavel de corrupção. O próprio Medicaid já mostra indícios claros disso. Daí caímos na realidade de que essa projeção pode não passar de um sonho utópico, de tolice digna de um blá, blá, blá obâmico (a tão falada demagogia).

O que me leva ao ponto principal do meu interesse: a loucura total que está sendo a discussão política desse programa. Geralmente podia-se dizer, mesmo inserido diretamente no joguete político norte-americano, que um dos lados estava agindo em plena inocência. Democratas E Republicanos já foram chamados disso, entretanto me escapa um dado histórico sobre se isso já aconteceu simultaneamente. É isso que ocorre agora. De um lado temos os Republicanos, os direitistas conservadores, clamando que o projeto acarretará uma realidade que já é, e do outro lado temos os Democratas, os (no máximo dos máximos) centro-direitistas liberais (e às vezes nem tanto, né, senhor Obama), clamando que o projeto acarretará a mais magnífica era de ouro dos Estados Unidos.

Pelo menos desde de Gore vs. Bush que temos essa crítica de que ambos os lados falam, na verdade, a mesma coisa.

Não cheguei à conclusões sobre isso. A mídia (a perna do banquinho que faltava) ainda me parece estranhamente insegura sobre esses assuntos. Ao mesmo tempo em que existem comentadores fervorosos de ambos os lados, também existe um certo ar de dúvida não resolvida. Coloco essa questão para quem quer que leia, na verdade, não para formular respostas rápidas ou uma grande dissertação assertiva, mas para que também levem no seu cotidiano essa dúvida e esse inquérito.

Guerra e Aborto

Publicado em despise for humans por pedro em 06/19/2009

Vou traçar aqui uma analogia que se desprende do Brasil. Aqui somos um país basicamente pacífico em termos de guerras diretas com outras nações, entretanto podemos – e o farei – fazer essa aproximação através da guerrilha urbana - ou suburbana – que vem sendo trava entre as forças do poder – donos de terra, polícia, judiciário – e algumas facções criminosas ou movimentos sociais.

Mike Huckabee, um ex-governador norte-americano e apresentador da FOX News, apareceu ontem no Daily Show falando aborto e foi isso que me fez escrever esse post. Huckabbe falou, já de início, que a discussão não deve girar ao redor do aborto em si, mas do valor da vida humana; ele afirma, em seguida, que acredita que toda a vida humana tem um valor inestimável.

O que é a vida? Onde ela começa e onde começamos a ser responsáveis por ela, no sentido de provê-la dos mesmos direitos inalienáveis que todos temos? Essas foram as perguntas sugeridas pelo ex-governador.

Ele seguiu dizendo que a verdadeira lógica é que estaríamos treinando toda uma geração – the one after us, ele diz – para acreditar que é certo, que não tem problema tirar uma vida humana porque ela representa uma interferência em nossas vidas, uma irrupção, seja econômica, seja ela social. Ele segue dizendo algo assim: “religiosa e cientificamente, o momento da concepção, quando os 23 cromossomos de cada pai se unem, criando uma combinação nunca antes vista de 46 cromossomos, isso é realmente quando a vida começa”.

Ele liga essa idéia a velhice. Se ensinarmos nossos filhos que tirar uma vida que se tornou um inconveniente econômico ou social – ou ambos – estaremos colocando em risco nossas próprias vidas quando chegarmos à idade mais avançada e nossos filhos terão de cuidar de nós. “Pai, o tratamento da sua bexiga solta realmente é caro e eu sempre passo vergonha: eutanásia pra ti”, foi mais ou menos o que ele quis dizer.

Minha percepção desse problema, obviamente, passa pela ideologia: passa pela maneira como pensamos o mundo. A moralidade do problema, em si, é para mim, francamente irrelevante. A entrevista desbanca para a questão legal, da soberania do corpo e toda aquela demagogia de Obama: vamos trabalhar juntos.

Para mim o problema é esse: a ideologia dominante já diz, senhor ex-governador. Quando a vida de Saddam Hussein se tornou UM IMPECILHO ECONÔMICO E SOCIAL PARA A NAÇÃO SOBERANA DOS ESTADOS UNIDOS, ele simplesmente foi eliminado. Morrer é um imenso impecilho econômico e social, e não apenas individual; a morte individual – que, na verdade, acarreta muitos poucos males para a pessoa que morreu, já que ela morreu e sabe-se lá o que há (e se há) do outro – acarreta perdas sociais: todos perdemos. A guerra, principalmente a proposta pelos norte-americanos, que se trata de caçar especificamente um grupo de pessoas – que, de fato, pertencem a diversos grupos étnicos diferentes – para que elas sejam ou imediatamente mortas (em conflitos diretos, como nas ruas de Bagdá em 2002), ou mediadamente mortas (como acontece até hoje nas ruas de Bagdá e em tantos outros lugares do mundo onde o terrorismo age quase que livremente), ou, finalmente, julgadas em algum sham tribunal em Gitmo ou em qualquer lugar do mundo para serem, também finalmente, geralmente sentenciadas a vida na prisão (não-vida) ou execução (novamente morte).

Se a vida de Osama Bin Laden se tornar um empecilho econômico e social para a vida de apenas um norte-americano, ele com certeza será caçado, julgado e morto.

As idéias – salvo as suas dimensões – são exatamente iguais: o povo iraquiano, centenas de crianças e jovens, padeceram na mira das máquinas de pós-aborto americano. Quando começa a vida do iraquiano? Do afegão? Da criança que nasce no seio de uma comunidade extremista religiosa e não tem a oportunidade jamais de ouvir: É, filho. Eu não tenho todas as respostas. O que é a vida de centenas de milhares de africanos das mais diversas nacionalidades que morrem todos os anos pelo mais puro descaso? Até na inação a ideologia é a mesma: destruir o impecilho. Há umas semanas atrás – e talvez por isso John Stewart tenha convidado Huckabee – um extremismo pró-vida assassinou um médico. Obviamente o médico fazia abortos. E é aí que se mantém a minha linha de pensamento. A ideologia, a forma de entender o mundo já é essa. O valor da vida humana se limita ao seu índice de perturbação: os sem-terra podem protestar o quanto quiserem, até começarem a atrapalhar a economia ou a socialidade de uma determinada região ou classe.

As milícias no Rio de Janeiro podem continuar extorquindo os comerciantes e trabalhadores até que isso apareça nos jornais e atrapalhe o andamento da imagem política do país, estado ou cidade. Daí é chumbo neles. Daí, o filho da dona Alzira, que tem 15 anos – não 15 semanas dentro do útero – é tratado até pelos mais religiosos como meia-vida, semi-vida, anti-vida e até mesmo subvida. Chora-se por ele quando ele recebe 8 tiros de metralhadora, disparados por um policial militar em meio a um tiroteio. Na hora que o filho de dona Alzira levantou seu braço e estendeu na mão dura de quem acredita que o tráfico, que a organização criminosa (por mais desorganizada que seja), ou que mesmo os amigos é que estão ideologicamente corretos, e que a justeza e as leis do país pouco importam, ele se tornou um impecilho e será lidado como qualquer outro impecilho.

Não é necessário educar as crianças a favor do aborto: elas já são. Mesmo as que dizem que não, mesmo os padrecos, pastoris e bispótes que tanto falam em sermões, missas e até mesmo em blogs e twitters da vida, até mesmo eles são pró-aborto. A incrível colocação nunca vista antes de cromossomo, que pode ser Einstein ou Hitler (ou pior, Goebbels: carrasco de toda a humanidade), é mais importante do que um garoto que existe, que age no mundo, que anda e fala, que ama e é amado. O amontoado de célular, meu amigo, certamente é um ser humano. De fato, não é nada além disso. Assim como a unha do pé podre de meu avô que caiu uma vez também continuava sendo, mesmo desprendida de seu corpo, ele: os mesmos 46 cromossomos.

O sangue do filho de dona Alzira – que pode ser um empregada doméstica carioca ou uma fiel credora de Alá – esparramado pelo chão junto com suas vísceras, membros e pele, também continua sendo ele. E ainda por anos será, mesmo depois de sua morte.

O mundo atual, e talvez as diversas socializações comunicacionais – desde a imprensa até a rede – tenham facilitado ou incitado isso, parece estar sempre perseguindo a inutilidade, os momentos fúteis, ao invés de travar as batalhas reais.

Todas as pessoas mortas em guerra também são abortos eletivos.

A completa parcialidade ideológica da maior parte das culturas demagógicas, estritamente religiosas e conservadoras é a verdadeira clínica de aborto.

E então, o homem esclarecido é forçado a se perguntar: esta ferrenha discussão sobre o aborto, que move tantas mentes e corações, não seria apenas uma cortina de fumaça? Como tantas outras, não é mesmo?

O que hoje em dia não é?

Pra fechar, no final da entrevista Huckabee menciona uma menina que conhecera que fora, um dia, um embrião congelado. A mãe da menina disse para ele: “Olhe para minha vida e me diga que aqueles embriões não tem vida”.

Olhe para os caixões no Iraque e me diga que ali não tem vida.

“Do i have the right to say that I own another person’s life to the point that I may dispose of it and consider it to be expendable?”

Sim, senhor ex-governador. Aparentemente, em diversos lugares do mundo, inclusive nos grandes Estados Unidos da América do Norte, esse é um direito.

Frente Fria

Publicado em despise for humans por pedro em 05/15/2009

Aqui no nosso rio grande faz aquele friozinho que há tempos não fazia e aparentemente lá no mundão também. Ontem, pelo site da CNN, Lawrence Wilkerson, um sinhôzinho que trabalhava pro Collin Powell – ex-secratariat de estat do Bushis, pegou e disse mesmo: o objetivo das investigações conduzidas pelo governo norte-americano depois de 11 de setembro não foi encontrar os culpados, desmantelar a Al-Qaeda; o objetivo era ligar Iraque e Al-Qaeda de qualquer forma.

Mais fundo, o ex-coronel fala sobre como nenhuma ligação tinha sido encontrada e as técnicas de torturam chegaram ao seu limite. Cheney, nosso querido dick, mandou continuar até que alguém, sob extrema pressão física e psicológica, confabulasse uma história.

Daí faço meu link.

Ontem, no episódio que deu de tarde da Oprah no GNT, a famosa apresentadora foi ela mesma, pessoalmente, um ano depois de conhecer a mulher que fugiu, ao rancho do YFZ, Yearning for Zion. Essa comunidade ficou famosa há um ano ou dois quando Warren Jeffs, o líder da comunidade que faz parte da Igreja Fundamentalista de Jesus dos Santos dos Últimos Dias, que é uma das maiores congregações mórmons (não sei se é congregação a palavra certa, mas vai essa mesma porque coloquei o link), fora preso sob acusação de abuso de menores e poligamia. Na verdade, trata-se realmente de uma comunidade como imaginamos humoristicamente os mórmons: sem tecnologia, vivendo vidas rurais, poligâmicas, com núcleos familiares e comunitários fortes. As famílias, de um pai e até 5 esposas se não me engano, tem mais de 9 filhos e, como em toda boa sociedade poligâmica, principalmente as meninas, são commodities; a vida é como a de uma comuna rural, sem dinheiro ou mesmo um sistema com mais valia de escambo, entretanto, as meninas são poderosas ferramentas de trocas, sendo casadas com idades chegando à 12 anos (pelo que achei comprovadamente).

Bom, e o link, Pedro?

O link é que na sua entrevista, Oprah falou com a filha da mulher que escapou a pouco mais de um que tinha estado também no seu programa falando sobre os absurdos da vida do rancho do YFZ. A mãe falara que a menina teria sofrido lavagem cerebral, como a maior parte da comunidade da YFZ, e, quando tentando levava embora consigo, a menina lhe acusou de separá-la de seu destino e sequestro.

Sob extrema pressão social, física, emocional (psicológica), as pessoas dizem qualquer coisa. As pessoas dizem o que tu quer ouvir e dizendo o que acham que tu quer ouvir. E a prova, inclusive falando de massas, disso pudemos ver e ainda podemos nos pânicos instaurados pela televisão; pega as coisas que as pessoas dizem na TV e compara com o reino de possibilidades do que uma pessoa pode falar quando sendo torturada há dias.

E a tortura não é apenas física ou psicológica: ela pode e é social. No rancho, durante seu passeio, as descobertas de Oprah são tratadas pela apresentadora com uma frieza igualável apenas a frieza com que agora a mídia e seus comentadores do mundo inteiro estão tratando a questão da tortura de prisioneiros nos Estados Unidos.

As crianças são sofrem lavagem cerebral; ninguém tece teorias conspiratórias anti-cristãs ou pró-sionistas sobre o pouso do módulo lunar em 1969. Este fato histórico do esclarecimento científico e humanista, o homem dominando e vencendo os limites que lhe foram impostos pela natureza, superando-a, em termos, finalmente, SIMPLESMENTE NÃO É ENSINADO.

As aulas de caligrafia consistem em copiar passagens bíblicas e nenhuma forma de ficção ou literatura é apresentada no currículo. Segundo a professora, a literatura e a ficção não servem a nenhum propósito, portanto só são inseridas em formas de historietas e passagens bíblicas para elucidar pontos do currículo que são importantes.

Antes de mais nada eu levanto a questão: mas… não é a Bíblia a maior obra de ficção de todos os tempos?

E eu a ligo: e não é também a concepção norte-americana do mundo, assim como concepção do fundamentalismo islâmico, outra grande ficção?

Depois da Segunda Guerra Mundial, com certeza, se questionou demais a lógica da condição desumanizante, dizia-se, que a guerra e o terror oriundo dela traziam ao cotidiano das sociedades civilizadas. Nos EUA, esta questão foi resolvida da mesma forma com que foi ignorada durante os anos do Vietnã: hide and don’t seek. O homem pisar na lua é tão sem consequências num mundo onde Deus impera sobre todas as condições morais e naturais da vida quanto a verdade vinda da boca torturada era (e talvez ainda seja) para a aparente e latente doutrina Cheney. Bush, claramente, jamais passou de um fantoche: o verdadeiro presidente dos Estados Unidos durante os últimos 8 anos foi inegavelmente Dick Cheney. E o presidente atuante é o centro desse argumento: agora ele mete o pau porque Obama parou.

Não é motivo de vergonha para o astuto quase assassino que a tortura tenha sido usada para legitimar uma guerra falsa. War under false pretenses.

Falta é o final da cara-de-pau e admitir publicamente em algum programóide de entrevistas da tv americana que a guerra no Iraque tinha por objetivo principal a geração de lucros e aumento dos valores de mercados das empresas que ele e a família Bush controlam ou participam. Halleburton, Lockheed.

A pretensão de Cheney é a mesma do YFZ, e essa é a ligação entre esses assuntos e a qualidade fria que a nossa era está assumindo cada mais escancaradamente.

Cheney e Jeffs objetivam o mundo, transformando-o, como massa de modelar, naquilo que desejam que ele seja. Mudar o mundo nos dias de hoje é uma tarefa árdua, tanto para mocinhos quanto para bandidos. A qualidade estática e estacionária que o séc. XXI vem demonstrando é a de uma inércia consubstancial e transubstancial: as transformações se tornaram confabulações e as substâncias, se me permitem esse círculo, se dessubstanciaram. O mundo e as coisas perderam seu sentido primeiro, desaparecendo assim a realidade, quanto ao seu sentido. E, para que as coisas voltem ao seu lugar, há um chamamento em prol da criação de sentidos. Deus, guerra, lucro, capitalismo, socialismo, justiça social, crise; os termos que o sonho democrático buscava não desapareceram. Desapareceram foram os seus sentidos; sua visão, tato, audição, olfato. Sua capacidade de se orientar rumo a concretização.

A utopia escapou-nos, precisamos, portanto, engendrar uma nova – dizia Sfez, e a utopia que se engendra não é, entretanto, ao contrário do que aponta Sfez, penso eu, uma que pertença ao estatuto de projeto de mundo. Pelo menos não no sentido de blueprint, de planta, projeto acionável; matéria técnica que se pretende realidade. Não é um projeto virtual (na verdade, nem ao menos possível). E aí eu vou bater de frente com quem executa o fim da escola de Frankfurt, o esvaziamento dos Estudos Culturais ou mesmo a pretensão de que a Escola Francesa não está ligada inextrincavelmente a Escola Alemã, desde Weber a Marx, Freud e Nietzsche. O projeto de mundo hoje, MAIS DO QUE NUNCA, MAIS DO QUE DURANTE A GUERRA FRIA, DURANTE O NAZISMO, é a transformação ideológica do mundo.

De um lado temos a doutrina Cheney: esse mundo da onipotência e permissividade total do capital, das empresas, do domínio frio das condições de existência.

De outro temos a doutrina que os direitistas mais fanáticos gostam de chamar de esquerdismo, mas que chamarei de porno-marxista pra deixar na brincadeira: esse pensamento vai permear as camadas do racismo, do trabalhismo, da justiça social.

De um lado temos um direitismo besta que pretende a estagnação do mundo no séc. XVI: sem gays, estado totalitário na mão do poder econômico e/ou religioso. Irã e EUA num uníssono terrível.

Do outro temos a fantasia pornográfica e socialista: justiça social para todos, na Suécia não tem pobres, direitos para todos (menos para os que não querem que todos tenham direitos).

Daí YFZ, Iraque, Cheney, tudo culmina no mesmo esvaziamento dialético, na mesma mistificação. Ontem eu assistia um episódio de American Dad no qual Stan sequestrava o filho que Francine gestou para o casal gay-apresentador de TV que são vizinhos deles. Quando ele se depara com a família onde tem duas mães, ele sequestra os filhos, dentro do carro, quando eles brigam, os confunde com seus próprios filhos, percebendo que são crianças normais. Ele olha para fora do carro e vendo os cavalos pastando e trotando diz: “… e os cavalos não estão comendo uns aos outros”.

No Daily Show de ontem o John (tá íntimo já) falava sobre as mais de 40 demissões de tradutores de árabe do exército norte-americano pois eles são abertamente gays.

Toma-se a fantasia de DUAS FRASES no Levítico em anúncio no apocalipse.  E então me presto a fazer essa relação, a despeito do absurdo que é seguir a Bíblia na sua formalidade não-histórica e, mais do que isso, seguir como bom cristão o velho testamento, ainda mais um dos capítulos mais fantasiosos de todos.

Mas vamos lá, capítulo 18 do Levítico:

Falou mais o SENHOR a Moisés, dizendo:
2 Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Eu sou o SENHOR vosso Deus.
3 Não fareis segundo as obras da terra do Egito, em que habitastes, nem fareis segundo as obras da terra de Canaã, para a qual vos levo, nem andareis nos seus estatutos.
4 Fareis conforme os meus juízos, e os meus estatutos guardareis, para andardes neles. Eu sou o SENHOR vosso Deus.
5 Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o SENHOR.
6 ¶ Nenhum homem se chegará a qualquer parenta da sua carne, para descobrir a sua nudez. Eu sou o SENHOR.
7 Não descobrirás a nudez de teu pai e de tua mãe: ela é tua mãe; não descobrirás a sua nudez.
8 Não descobrirás a nudez da mulher de teu pai; é nudez de teu pai.
9 A nudez da tua irmã, filha de teu pai, ou filha de tua mãe, nascida em casa, ou fora de casa, a sua nudez não descobrirás.
10 A nudez da filha do teu filho, ou da filha de tua filha, a sua nudez não descobrirás; porque é tua nudez.
11 A nudez da filha da mulher de teu pai, gerada de teu pai (ela é tua irmã), a sua nudez não descobrirás.
12 A nudez da irmã de teu pai não descobrirás; ela é parenta de teu pai.
13 A nudez da irmã de tua mãe não descobrirás; pois ela é parenta de tua mãe.
14 A nudez do irmão de teu pai não descobrirás; não te chegarás à sua mulher; ela é tua tia.
15 A nudez de tua nora não descobrirás: ela é mulher de teu filho; não descobrirás a sua nudez.
16 A nudez da mulher de teu irmão não descobrirás; é a nudez de teu irmão.
17 A nudez de uma mulher e de sua filha não descobrirás; não tomarás a filha de seu filho, nem a filha de sua filha, para descobrir a sua nudez; parentas são; maldade é.
18 E não tomarás uma mulher juntamente com sua irmã, para fazê-la sua rival, descobrindo a sua nudez diante dela em sua vida.
19 ¶E não chegarás à mulher durante a separação da sua imundícia, para descobrir a sua nudez,
20 Nem te deitarás com a mulher de teu próximo para cópula, para te contaminares com ela.

Então, deixa eu ver, se pegar tua mãe trocando de roupa, pã, apocalipse. Se for a madrasta, bãi, pode ser ainda pior. Todos os irmãos gêmeos bivitelinos do mundo já deveriam ter acionado o apocalipse, já que, no útero, estão os dois nus e se esfregando (olhar de desaprovação). Traição, obviamente, daí aí antes mas é o casamento gay que é o problema.

21 E da tua descendência não darás nenhum para fazer passar pelo fogo perante Moloque; e não profanarás o nome de teu Deus. Eu sou o SENHOR.
22 Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é;
23 Nem te deitarás com um animal, para te contaminares com ele; nem a mulher se porá perante um animal, para ajuntar-se com ele; confusão é.
24 Com nenhuma destas coisas vos contamineis; porque com todas estas coisas se contaminaram as nações que eu expulso de diante de vós.
25 Por isso a terra está contaminada; e eu visito a sua iniqüidade, e a terra vomita os seus moradores.
26 Porém vós guardareis os meus estatutos e os meus juízos, e nenhuma destas abominações fareis, nem o natural, nem o estrangeiro que peregrina entre vós;
27 Porque todas estas abominações fizeram os homens desta terra, que nela estavam antes de vós; e a terra foi contaminada.
28 Para que a terra não vos vomite, havendo-a contaminado, como vomitou a nação que nela estava antes de vós.
29 Porém, qualquer que fizer alguma destas abominações, sim, aqueles que as fizerem serão extirpados do seu povo.
30 Portanto guardareis o meu mandamento, não fazendo nenhuma das práticas abomináveis que se fizeram antes de vós, e não vos contamineis com elas. Eu sou o SENHOR vosso Deus.

Não dê seu filho pro cramuião. Pela passagem, não precisa nem ser gay. Se tu tiver no carnaval de rua do nordeste e de qualquer cidade do Brasil, onde os caras saem vestido de mulher, e tu cair no chão, deu, já era. Já se deitou com outro homem COMO SE ELE FOSSE MULHER. Vai dizer? Tá, mas alguém vai dizer, mas Pedro, tem que ver como um todo.

Não tenho saco de comentar todo o Levítico, a despeito de sabê-lo praticamente de cor, mas vou citar a passagem do próximo capítulo, 19, que diz:

Guardarás os meus estatutos; não permitirás que se ajuntem misturadamente os teus animais de diferentes espécies; no teu campo não semearás sementes diversas, e não vestirás roupa de diversos estofos misturados.

Eu, por exemplo, estou nesse momento usando um moleton que é de algodão e poliéster.

MUITO CUIDADO.

Health Care ou Health Careless?

Publicado em despise for humans por pedro em 05/06/2009

A discussão norte-americana mais ferrenha e imbecil anda sendo a de que Obama quer criar um modelo de saúde pública igual ao dos lugares civilizados do mundo – inclusive o Brasil – no qual existem os serviços privados, entretanto, as necessidades básicas de saúdes são e devem, obrigatoriamente, serem supridas gratuitamente.

Aonde chegamos para encontrar pessoas educadas, inteligentes, representantes da população que afirmam a plenos pulmões que isso será pior para a população?

Como que uma pessoa que ganha 8 dólares por hora vai se fuder mais se seu câncer ou furúnculo for tratado gratuitamente? Como que uma família que acabou de perder um dos pais para uma longa doença degenerativa pode ficar pior do que com as contas de hospital que será obrigada a começar a pagar depois de sepultar seu ente querido? Como que uma pessoa que tem câncer no cérebro vai ficar pior do que à mercê de empresas de seguro de saúde – os famoso HMOs – que nega seu pedido para uma cirurgia que tem 90% de chance de dar certo por causa de uma tecnicalidade no contrato?

Nos EUA, há anos, existe sistema público de educação.

Por favor, algúem, qualquer um, até anonimamente, pode me explicar isso? Pode, por favor, me explicar como é que a educação de uma pessoa pode estar a cargo do governo, a educação, uma coisa altamente ideológica, que envolve a formação categórica de um ser humano, e a saúde, o momento de maior fragilidade de uma pessoa, quando ela realmente precisa de ajudar não para se desenvolver, MAS PARA CONTINUAR A EXISTIR, não.

Alguns republicanos, inclusive Mitt Romney e Jeb Bush foram retratados no Daily Show de ontem falando sobre a revitalização do partido republicano. De todos os absurdos que saem e saíram das bocas e canetas desse partido nos últimos 30 anos, me desculpem, nenhuma supera a paranóia anti-comunista, já no seu quinto decênio, sobre uma medicina socializada que será o fim dos Estados Unidos. Bush, se não em engano, nos passos de seu irmão e pai, afirma que o governo deve subsidiar a formação de profissionais para o benefício do estado.

“A gente subsidia tua faculdade de engenharia naval, mas se tu tiver falência renal e precisar de um transplante, bom, daí boa sorte…”

Eu simplesmente não consigo entender. É como se estivéssemos tendo a prova definitiva de quase 50% dos representantes norte-americanos são, de fato, vicious people.

Negar auxílio na área da saúde é homicídio por negligência.

Eles não são simplesmente burros e incompetentes, corruptos e ligeiramente criminosos, Bushs, Cheneys, Romneys, esses caras são piores que criminosos de guerra. O que eles realmente pensam em relação às diferenças de classe, aos problemas sociais, é, de fato, que ricos vivam e pobres morram. A ignorância é tamanha que eles parecem, de verdade, acreditar nas propagandas mentirosas feitas durante quase meio século contra as formas socializadas de saúde, educação, economia, em suma, de estado, retratando-as sempre como perda de liberdades.

“Sim, com os republicanos no poder você tem o direito e a liberdade de MORRER”

Naquele desenho animado Family Guy, a família da mulher de Peter,  a família Pewterschmidt, de repente não parece como um exagero cartunesco da típica mentalidade direitista, convervadora e republicana nos EUA.

Bilhões em mísseis que JAMAIS SERÃO USADOS… mas teu seguro-saúde quem paga é tu mesmo.

É uma estranha distorção da proposta de Sfez de que uma das grandes utopias, humanas e tecnológicas, vividas na contemporaneidade seria a da Grande Saúde, da Saúde Perfeita. Percebe-se, em retrospecto, que não se trata de uma utopia total, absoluta, não se trata de projeto de transformação total da vida humana; um marxismo de classe, uma ideologia dos escolhidos permeia totalmente esse engendro da fantasia.

Living forever sure isn’t for anyone…

Pale Palin

Publicado em despise for humans por pedro em 11/03/2008

De todas as pessoas envolvidas na corrida presidencial norte-americana talvez a mais rídicula de todas seja a completa imbecil parceira de cédula de John McCain, Sarah Palin.

Além de ser uma pessoa com óbvios problemas emocionais e de formação duvidosa, falha em representar todas as categorias de pessoas que ela almeja representar. Certamente foi colocada na cédula para ecoar a vibração de uma mulher na Casa Branca ocasionada pela pré-candidatura de Hillary Clinton. E também para evocar a representatividade da boa mulher republicana, casada, com filhos.

Entretanto, o rídiculo é tanto que a filha de Palin, adolescente, ficou grávida no mesmo momento em que sua mãe foi indicada para a chapa de McCain. Porém, de forma alguma o rídiculo de Palin se reserva ao seu estado patético (ela é governadora do Alasca) ou a sua filha insípida. Palin é com certeza a representatividade máxima da américa que não presta “and must be put down”.

Em alguns de seus discursos ela se refere a expressão anti-americano para designar certos membros do senado e da casa dos representantes (deputados). Como não tem mais caras estrangeiras com poder para acusar de anti-americanismo, agora os republicanos atacam os próprios representantes norte-americanos. Esta mulher é tão patética que disse num discurso que é nas cidades pequenas que se encontra a “américa de verdade”, como se nas grandes cidades vivessem falsos americanos.

McCain também fez das suas. Como acusar Obama de ser comunista enquanto, nos debates, disse seguidamente que o dever de todo o americano hoje é “dividir a riqueza”. Peraí. Eu não sou um comunista mas já estudei muito economia socialista e, principalmente, já li o Capital. Não é isso a base do socialismo econômico?

Como essa corrida presidencial ficou, digamos, americana demais, me reservo a mencionar o humor canadense como forma de lidar com a situação. Apóio o trote telefônico para candidatos a qualquer cargo público. Obrigado.

TROTE FEITO POR COMEDIANTES CANADENSES PARA SARAH PALIN. ELES FINGEM QUE SÃO O PRESIDENTE SARKOZY DA FRANÇA E CONVIDAM A CANDIDATA – que aceita o convite – PARA UMA CAÇADA A BEBÊS FOCA.

A batalha do golfo

Publicado em despise for humans por pedro em 08/31/2008

Não, não é o Golfo Pérsico. É o Golfo da Lousiana.

Exatos três anos depois do Katrina, agora temos o Gustav. Estranhamente, há três anos atrás, Bush e McCain comiam bolo e tomavam chá enquanto milhares de pessoas perdiam suas casas, famílias, esperanças e o governo perdia somente seus últimos suspiros de credibilidade. Agora, Bush e McCain estão muito preocupados em adiar a convenção Republicana (mas não acredite em tudo que o Michael Moore disser).

Não vou entrar em partidarismos ou ideologias (que quem lê esse blog sabe que eu nem acredito que ainda existam) das mais variadas. Minha preocupação, talvez antiquada, sempre é com as pessoas. Nova Orleans não se recuperou de nenhuma forma desde o furacão Katrina. A cidade ainda luta não só para se levantar como também para ser levada em conta pela união federal de lá. Esquecidos durante o desastre, o mundo inteiro pode presenciar de camarote pelos helicópteros da CNN, FOX News o espetáculo fantástico do racismo norte-americano.

Obama pode não ser o primeiro líder norte-americano (pré e pós-colombiano) a ser eleito pela promessa implícita de que os desastres climáticos cessarão.

Verdade ou não sobre a inépcia governamental bushiana, a convenção nacional Republicana se daria sim nesse interim:

Os governadores dos Estados do Golfo, incluindo Luisiana e Mississippi podem decidir permanecer em seus Estados se o furacão ameaçar causar danos sérios em suas regiões. A intensidade do Gustav pode afetar também o discurso de abertura do Presidente George W. Bush, na segunda-feira. A previsão é que o Gustav chegue na segunda-feira à tarde ou terça-feira pela manhã na costa da Luisiana.

Indago-me até onde é relevante o aspecto místico da população. Muito funesto esse seguimento de coincidências tão alarmantes. Guerra ou não, imagino que qualquer nação do mundo, quanto a sua população civil, deve certamente se preocupar mais com questões como a qualidade de vida, os impostos, os serviços estatais do que necessariamente com os acontecimentos além-mar. A segunda Guerra do Golfo (Iraque 2.0 – A vingança a.ka. That guy tried to kill my dad“) foi, em termos, legitimada pelas torres gêmeas tombando ante o mundo. O Katrina mostrou a face mais ilegítma dessa gestão presidencial. Deixou muito claro que a incompetência de Bush perpassa suas indicações para secretarias e agências vitais. E o exterior vibra, principalmente no oriente, com uma schadenfreude inimaginável.

Na Era Google, pode-se ver a morte e a destruição chegando em alta definição, em wi-fi, direto do seu celular, PDA ou laptop, enquanto o governo senta nas próprias mãos decidindo qual dia fica melhor, então, pra fazer uma festinha com balões... p.s: essa imagem é das 13:38, horário brasileiro. Percebam que gostosa e modesta essa chuvinha.

Como fica a população? A popularidade aparente de Obama, a meu ver, vem de sentimento de messianismo. A mudança, que permeia toda a campanha do candidato Democrata, aparece mais como salvação do que necessariamente como um novo rumo ou uma nova gestão. O discurso da salvação está muito presente hoje em dia, principalmente nos apologistas da tecnocultura. Espera-se que algo que criemos ou planejemos venha a ser a derradeira obliteração dos fenômenos verdadeiramente incontroláveis. Anderson, nesse texto, fala sobre a tecnologia nos salvando de um fenômeno verdadeiramente humano, social e, em termos, civilizado: a inflação, entretanto é fácil permitir que esse sentimento cada dia mais forte possa infiltrar outras áreas tanto essencialmente humanas como não.

Será mesmo que se Obama fosse presidente o Katrina teria tirado tantas vidas? Teria Nova Orleans sofrido, como sofre, uma lenta e dolorosa reconstrução que, em três anos, não foi capaz de reconstruir os diques tão necessários para que a cidade não seja afogada pelo Pontchartrain?

Pra mim fica mesmo, além das politicagens e credos pessoais, a tragédia da indiferença de um governo inteiro para uma enorme cidade. E, de onde se pode ver no momento, nenhuma tecnologia, técnica, governante, ideologia (risos), vai nos salvar…

Obama SuperStar

Publicado em despise for humans por pedro em 08/29/2008

Ontem Obama foi laureado oficialmente candidato democrata para a “Prefeitura dos Estados Unidos”. Ele anda sendo comparado por McCain e pela pequena parcela da mídia “anti-Obama” a uma (risos) celebridade. “A maior celebridadedo mundo”, segundo esse anúncio.

Teriam Shuster e Siegel se enganado?

Durante a cerimônia de ontem na qual o vice de Obama foi confirmado, este disse que McCain é a continuação de Bush e que durante todas as crises da atual administração o Senador não só apoiou como incentivou as ações errôneas e tristes.

Eu, pessoalmente não ligo muito. A única diferença pra 4 anos atrás é que naquelas eleições ambos os candidatos pareciam brancos e eram brancos. Nesta estamos começando a ver que só um parece branco, mesmo que ambos possam agir como tal.

Pra eles, deixo a música What Comes Down To, do Isley Brothers, que acho que poderia ser uma música linda sobre o amor do McCain pelo Obama e de onde isso vai nos levar: nenhum lugar.

Here I am lovin’ you
You’re like a dream come true
For so long I’ve waited for this time
Girl what you mean to me
In reality, you what I ever hoped for
You will always be
More than right to me
Each day I love you more

Well, what it comes down to
This is all I want from you
Yeah, same you want from me that can only be
Love and understanding
For what we have at stake, a little give and take
It’s better than demanding…
Why do we stay together
Talkin’ about you and me?
You got your reasons
I got mine
Oh, if it had to be, one and only me
Sure would be a drag now
Need somebody who needs somebody to
Keep from bein’ sad now

(A letra completa só aqui)

E só pra deixar claro que me oponho a qualquer um dos dois candidatos.

Barrack Obama no Internet MOVIE Database (Imdb.com).

John McCain no Internet MOVIE Database (Imdb.com).

Só rindo muito…

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O Contínuo Espetáculo Norte-Americano da Tragédia

Publicado em despise for humans por pedro em 08/29/2008

Em 2005, quando me formei na Famecos, eu escrevi uma monografia sobre o Michael Moore. Na época – menos óbvio do que agora – ele já aparecia como um tanto aproveitador da miséria alheia pra se auto-promover e promover sua agenda. Meu trabalho foi, portanto, sobre como Moore, em Tiros em Columbine, espetaculariza a tragédia através da sua crítica. Este é um aspecto relevante do trabalho de Moore, ele adora criticar a mídia por espetacularizar a tragédia alheia, pobre dele que parece não perceber que ele faz a exata mesma coisa. Mas isso é além do ponto…

O ponto aqui é que, por causa desse trabalho, li e assisti praticamente tudo que esse gordinho de Michigan fez e assino suas newsletter. Nada de muito útil ou interessante tinha aparecido antes a não ser convites pra palestras e lançamentos de seus outros “polêmicos” (risos) filmes, como Sicko e Farenheit 9/11. Entretanto, hoje recebi um e-mail dele sobre uma carta que ele teria enviado quando do desastre do Katrina sobre New Orleans. Ao final desse post (no leia mais/more) eu vou disponibilizar o e-mails pra vocês rirem um pouco.

O e-mail trata, essencialmente, de como os republicanos, mais precisamente a gestão Bush, só contrata pessoas desqualificadas e que, nos últimos 25 anos, os oficiais eleitos só teriam tido agenda de desfalcar o governo financeiramente.

Michael, vem pro Brasil ver como é aqui. Vem pro bovinão ver como é ter 40 anos de governo com a agenda única de roubar, desfalcar, desviar recursos e pessoal para interesses privados.

A birra de Moore é com o líder da FEMA – instituição federal de apoio contra desastres naturais e ataques – que teria tido somente experiência cavalgando em shows eqüestres. Imagina se o coitado do Mike fosse brasileiro? Lá ele pelo menos pode por a culpa nos seus “republican brothers and sisters”; aqui? DEMO, PT, PDT, PMDB, PSDB, PSOL, PC do B, PPS (devo continuar?): qual deles está limpo? Qual deles nos últimos 700 dias NÃO foi alvo, estrela ou escória de um escândalo envolvendo precisamente a incompetência, a roubalheira, a inépcia?

Mas Moore não fica aí. Seu e-mail é obviamente de apoio a Obama, e para tanto, ele reforça bem claramente o aspecto “racismo” envolvido no desastre. New Orleans é conhecida há muitas décadas por ter uma imensa população negra, em sua maior parte desprovida. Pois realmente: vendo as matérias e filmes sobre o desastre só se vêem vítimas negras. Negros, aliás, que são uma das maiores forças demográficas do país em termos eleitorais. De certa forma são eles sim que decidem as eleições. E nesse tópico ele chega finalmente aonde ele queria chegar: usar a mesma tática dos republicanos: O MEDO.

Our vulnerability is not just about dealing with terrorists or natural disasters. We are vulnerable and unsafe because we allow one in eight Americans to live in horrible poverty. We accept an education system where one in six children never graduate and most of those who do can’t string a coherent sentence together. The middle class can’t pay the mortgage or the hospital bills and 45 million have no health coverage whatsoever.

Are we safe? Do you really feel safe? You can only move so far out and build so many gated communities before the fruit of what you’ve sown will be crashing through your walls and demanding retribution. Do you really want to wait until that happens? Or is it your hope that if they are left alone long enough to soil themselves and shoot themselves and drown in the filth that fills the street that maybe the problem will somehow go away?

O mesmo medo dos repubicanos. Estamos abertos à ataques. Não teremos como nos defender. No encalço de McCain – amigo de Bush – que clama pra quem quiser ouvir que Barrack Obama não tem experiência com política externa e com exército, Moore crava a estaca do medo no coração dos americanos com seu descaso pela espetacularização. Transforma – como tudo que faz um bom ganhador do Oscar© – tudo em um show: o show da igual incompetência de Bush. “Já que é pra ter um incompetente, então que seja um novo…”.

Mais um capítulo do show de horrores (que ontem chegou ao seu ápice com a confirmação da candidatura de Obama, que aceitou com um discurso sem precedentes, aos moldes da aceitação de (risos) um Oscar) que se tornou a campanha para a Casa Branca. Deixo o e-mail aí pra quem quiser ler e rir um pouco.

(mais…)

Wherever you are, it’s still the same…

Publicado em despise for humans por pedro em 08/26/2008

Campanha Eleitoral figura na modernidade (até porque na Antigüidade é que não vai ser) como uma das hiperbóles do patético e da mentira.

Aqui no Bovinão Grande do Sul temos a presença constante da cobertura da RBS sobre as eleições. Nos EUA nós temos a FOX News. E corrobora a visão de que tanto lá, quanto aqui e acolá, tudo é o mesmo.

Lá:

Burburinho na mídia essa semana e na semana passada pois, segundo algumas fontes, “John McCain passou a frente de Obama nas pesquisas”. Bom, realce pro “pesquisas”… então fui ver. Quem quiser, aqui no site menos mentiroso de notícias mundiais, o da BBC, se encontra um gráfico com as pesquisas.

A pesquisa Gallup (mente) mostra os dois empatados em 45%.

A pesquisa Rasmussen mostra McCain na frente com 48%.

A pesquisa do Washington Post (mente) mostra Obama na frente com 49%.

E a pesquisa AP-Ipsos mostra Obama muito na frente, com 47%, e McCain muito atrás, com 41%.

Então convenhamos que não são “as pesquisas”, é uma pesquisa. Não sou eu que vou ficar fazendo tietagem pro Obama e nem pro McCain. No fundo, acho que nenhum dos dois está propriamente equipado para ser o presidente da maior nação do mundo. Em questão de idade, McCain é muito velho e Obama muito novo. Em questão de raça, McCain é muito branco e Obama muito negro. Em questão ideológico (se é que isso ainda existe), McCain é muito republicano e Obama muito democrata.

E como era de se esperar, a merda já foi parar no ventilador, com ambos os candidatos se acusam num detrimento sem sentido sobre idiossincrasias próprias de cada um. Obama é celebridade, McCain é Matusalém. E no fim, o que importa de verdade está se perdendo entre “tu é negro” e “tu é velho”, os anti-lemas de campanha. Rússia reconhece Ossétia e Abkázia como países independentes, mais 14 mil mortes militares no Iraque, a China continua abastecendo sua indústria escravocrata com o óleo sujo do Sudão.

Mas pra quem já tá fudido mesmo, morando no Bráziu e no Bovinão, só sobra rir muito da inocência e vulgaridade dos americanos. Essas eleições ficaram marcadas menos como ‘um negro e uma mulher tentaram ser presidentes’ ou ‘o fim de uma era’ do que como duas crianças somando amigos na hora do recreio pra ver quem consegue xingar mais o outro.

Então se fica mesmo com a hilária Paris Hilton respondendo ao ad de campanha do McCain que compara Obama à celebridades como Britney.

E aqui no Bovinão, se replica em perfeição.

Zero diz que Fogaça tem 30%, Correio divulga informações tão, digamos, absolutas.

Como diria o Fox Mulder… “Trust no One”.

Encerra-te, Olimpo

Publicado em despise for humans por pedro em 08/25/2008

Seguindo na esteira da Lúcia, também me presto a um post de encerramento das Olímpiadas.

Bom, como é de praxe o Brasil foi, no mínimo, inexpressivo nessas Olímpiadas. Sua maior vitória não foi nos pódios nem nas quadras ou pistas: foi uma vitória de gênero. As mulheres, e a mídia genial brasileira percebeu isso rapidamente, se saíram melhor do que nunca. Ouro no salto em distância, ouro no vôlei feminino (e muito bem merecido)… mas o que fica mesmo são os gostos amargos de derrotas simplesmente inexplicáveis.

Falou-se de dopping, eu falo em entregar o jogo. Futebol feminino parecia cusco em tiroteio. Vôlei masculino parece ter ganho cachê pra entregar o jogo pra um time tecnicamente igual, pouco criativo e que superou o Brasil em cima das suas ineqüitudes: não conseguiram, apesar da transparência da rede, perceber o jogo dos americanos e simplesmente permitiram que eles continuassem sem que nada fosse feito além de saques forçados.

Eu acompanhei muito dos jogos, pois estou numa espécie de férias que infelizmente acabaram ontem, e pude ver que, como no post da Lúcia diz, o Brasil peca em envolvimento. Tanto emocional quando físico com os esportes. Os jogadores parecem estar eternamente desequilibrados emocionalmente e o esporte em si parece estar eternamente desequilibrado fisicamente. O que quero dizer? Bom, o apoio material aos esportes, e é sabido, sempre se limita aqueles esportes mais, digamos, bem sucedidos. Vôlei, tanto de quadra como de praia, futebol, judô… enquanto isso outros esportes, que o tipo físico brasileiro poderia privilegiar, ficam na mesma. Falou-se do Sr. Bolt e da Sra. Jamaica e o que acontece lá é uma institucionalização do esporte. Ele não é só esporte; faz da parte da vida mental, física, econômica, social do país.

O grande vencedor desses jogos foi a própria China com sua meia centena de medalhas e seu “Show Olímpico”. Mas o grande perdedor foi o mundo (como aponta nossos queridos da NovaCorja.org): muitos – mais do que se imagina – se recusaram a perceber a malevolência e ditatorialismo do governo chinês, preferindo a visão midiática, não-etnocêntrica do “deixe eles viverem como querem”. Descobriu-se que mais de 30 pessoas, só em Pequim, foram expulsas das imediações da cidade ou presas em seus domicílios. Só se imagina quantas mais ninguém vai ficar nem sabendo… quantas não estão mortas ou sendo torturadas nesse exato momento por algo tão simples quanto protestar. A derrota foi, e não em termos, do mundo inteiro. Rússia e Geórgia que o digam. Perdemos todos pela legitimação continuada de todas as formas do mal; aquele mais de “fora direitos humanos” do que bíblico. No grande esquema das coisas, Cezão Ciello e seu ouro inédito ficam esmaecido pelo ofuscante brilho dos fogos de artifício montados por crianças, do lancinante ardor dos trabalhadores que possibilitaram o ‘milagre olímpico’ e foram expulsos de Pequim e de outras localidades sem seus salários, depois de centenas de horas extras para terminarem os estádios e facilidades em tempo.

Como soviéticos, americanos e nazistas, os chineses cometem novamente o maior erro da humanidade: acreditar na sua própria catequese de superioridade e infaliabilidade. E para tal, como sempre, fica o tótem (no sentido mais acadêmico e simbólico possível): o prédio da televisão pública chinesa, estagnado em meio a Pequim. Figurou durante todos os jogos nas vinhetas de dezenas de países e agora é a lembrança eterna, para o mundo e para a China, de que nem eles e seu governo autocrata maoísta podem tudo. Corrupção, desvio de recursos e paralização dos operários são algumas das respostas ocidentais para a falha chinesa. Legitimados por suas tantas medalhas, a China parece resignada em sua soberania. Agora, ao final dos jogos o ocidente parece mais temerário e finalmente começa a, clara e didaticamente, revelar os reais dados sobre o país de quase dois bilhões de pessoas e eles são assustadores.

A crescente classe média chinesa (risos) hoje tem pouco mais de 100 milhões de membros.

Pouco mais de 7% da população. Se acreditarmos nos dados estatísticos fornecidos pelos próprios chineses.

E esta nova classe intrinsecamente capitalista, nem começa a ser comparável com classes semelhantes em países como França, Alemanha ou mesmo Estados Unidos. Presa entre o governo inatingível e a massa imóvel, jamais chegará ao poder efetivamente, relegado aos “partidários” e seus próprios interesses que podem (ou não) serem os mesmos da classe intermediária da sociedade chinesa.

Enquanto isso, 93% da população transita na faixa inultrapassável dos 0,13 (ou um pouco mais) centavos de dólar por hora de trabalho. Reside na estagnação de praticamente um mundo inteiro de pobreza, ignorância e doença em fábricas supridas pelo óleo sujo (se é que o óleo ainda pode ser mais sujo) do Sudão e seu genocídio miniatura. Riquezas infindáveis acumula o país da Grande Muralha, todas oriundas de suas exportações agora tão necessárias para a tecnocultura capitalista; onde estaríamos se chips, tênis, calças jeans fossem feitos por mão-de-obra com direitos?

O mundo, então, jubila-se recebendo a China como nova imperatriz do esmagamento das massas. E o prédio da televisão pública chinesa fica como o marco disso: até os sistemas de censura e manipulação mais avançados e institucionalizados não garantem 100% de aproveitamento.

E enquanto eu escrevi esse post, centenas de calças jeans foram feitas, todas pelo preço de uma numa loja do Shopping Iguatemi.