Ubermensch by Debord

Atchim

Publicado em despise for humans por pedro em 07/16/2009

Não estou pra dizer que a medicina socializada brasileira é a oitava maravilha do mundo, quero simplesmente levantar a questão mais fomentada na mídia nos últimos tempos nos EUA.

Não vou babar o ovo do Obama também, até porque tenho um post que estou acabando sobre ele que quem gosta dele não vai gostar.

Meu propósito aqui não é nem mesmo apontar pensamento político, é apenas uma análise do discurso que anda sendo jogado pra todos os lados principalmente pelos republicanos.

Vendo os senadores (principalmente) falando na CSPAN, exaltados nos recortes da CNN e do Daily Show, eu não consigo evitar de ficar totalmente chocado. E não é um choque político, é um choque moral. A imoralidade (porque quem quer que leia vai ter que me desculpar, é a única palavra que cabe nessa situação) desses homens e mulheres ultrapassa todos os limites. A maior parte deles, os mais vocais, pra dizer a verdade, emitem o seguinte argumento: a proposta de Obama consiste numa burocratização do sistema de saúde, aonde um burocrata estará a cargo dos serviços de saúde da população e, por causa disso, você passará por um processo de seleção e não conseguirá o tratamento (sejam cirurgias necessárias, eletivas ou apenas remédios).

A questão é a seguinte: não sou um adorador de Michael Moore. Tendo feito meu trabalho de conclusão da graduação sobre um de seus filmes e o tendo pesquisado extensamente, o acho um idiota. Um simplista que procura usar as mesmas armas da direita conservadora para provar argumentos da esquerda liberal. Não passa, portanto, de mais um ideologistazinho despreperado. Mas é divertido, não posso negar. Seu filme Sicko, na verdade, não é nenhuma novidade (fora os exageros e mentiras grosseiras): há muito já se sabia, através até mesmo de sériezinhas de TV que o sistema de saúde norte-americano tem problemas graves da ordem humanística. Ela consiste, simplesmente, no fato de que num determinado momento se optou pela forma privada de saúde: ao invés de um sistema pública, pago através de impostos, cada pessoa escolhe sua própria seguradora. Até aí, tudo bem. O que me incomoda é que não é nada difícil encontrar corroboração para histórias parecidas com que Moore espetaculariza: o sistema vigente HOJE nos Estados Unidos consiste na falta de liberdade de escolha e de acesso, pois existem dezenas de processos de seleção e avaliação executados por burocratas.

Ou seja, os senadores republicanos, oposicionistas ao plano de saúde universal, estão alertando, na verdade, para uma realidade que não é latente, nem virtual; o sistema de saúde privada já funciona dessa forma. A prioridade do lucro faz com que burocratas que agenciam a saúde da população busquem formas de negar atendimento, de todas as formas, geralmente resultando em danos irreversíveis à saúde.

Eu poderia me lixar ainda menos pra isso. O mundo em que vivemos, que, na verdade, aristotelicamente falando, é o mundo que construímos para nós mesmos, é inegavelmente cruel. Não apenas na sua natureza inevitável (morte, doença, as fragilidades e limitações do homem), mas também na sua ordem racional engendrada por nós. Eu me lixo, falando assim coloquialmente, para o que em certo tempo poderia ter sido chamado de discurso do aburso ou discurso absurdo (Camus), mas que eu chamaria de discurso esquizoide. O que talvez pudesse ser chamado de trégua ideológica (Adorno/Horkheimer) aparece mais, na contemporaneidade, como uma estranha esquizofrenia ideológica e discursiva, pra não dizer midiática.

O outro lado não é santificado, de forma alguma. Os apoiadores (inclusive o senhor Obama) colocam suas fichas na aposta de que ainda seria possível uma medicina universal nos EUA. E, mais do que isso, que sendo possível, isso seria a resolução de problemas incríveis e levaria a nação mais próxima de uma nova era de ouro.

Dã, é a única coisa que me vem a mente. O Brasil – e foi por isso que eu comecei fazendo aquela ressalva – possuí já o modelo que Obama pretende instalar: o SUS é o sistema único de saúde, gratuito e livre para todos. Entretanto, ainda existem os planos privados de saúde. A rede pública de saúde (hospitais, centro de saúde, laboratórios) é incrivelmente não coesa: existem hospitais públicos de renome e outros que só podem ser descritos como caindo aos pedaços, quando ainda existem pedaços. A rede privada possuí hospitais muito bons (e falo principalmente aqui em Porto Alegre). Ou seja, é um sistema misto.

O que nós vemos? Minha ressalva era exatamente sobre isso. O Brasil não tem uma admistração de recursos passível de ser assim, tão levianamente comparada com a norte-americana. E mesmo lá, nos EUA, temos a condição de que não sabemos ao certo como e quanto dinheiro ao longo de quanto tempo será a medida da constituição da rede pública. Existem duas instâncias: de um lado o Medicaid, que já é o sistema público que existe lá para os idosos, e de outro a lógica de que os segurados por esse sistema são atendidos na rede privada que é paga pelo governo.

A passividade é, na verdade, a de que a formatação e a construção mesmo de um sistema que nem esse acarreta a possibilidade inegavel de corrupção. O próprio Medicaid já mostra indícios claros disso. Daí caímos na realidade de que essa projeção pode não passar de um sonho utópico, de tolice digna de um blá, blá, blá obâmico (a tão falada demagogia).

O que me leva ao ponto principal do meu interesse: a loucura total que está sendo a discussão política desse programa. Geralmente podia-se dizer, mesmo inserido diretamente no joguete político norte-americano, que um dos lados estava agindo em plena inocência. Democratas E Republicanos já foram chamados disso, entretanto me escapa um dado histórico sobre se isso já aconteceu simultaneamente. É isso que ocorre agora. De um lado temos os Republicanos, os direitistas conservadores, clamando que o projeto acarretará uma realidade que já é, e do outro lado temos os Democratas, os (no máximo dos máximos) centro-direitistas liberais (e às vezes nem tanto, né, senhor Obama), clamando que o projeto acarretará a mais magnífica era de ouro dos Estados Unidos.

Pelo menos desde de Gore vs. Bush que temos essa crítica de que ambos os lados falam, na verdade, a mesma coisa.

Não cheguei à conclusões sobre isso. A mídia (a perna do banquinho que faltava) ainda me parece estranhamente insegura sobre esses assuntos. Ao mesmo tempo em que existem comentadores fervorosos de ambos os lados, também existe um certo ar de dúvida não resolvida. Coloco essa questão para quem quer que leia, na verdade, não para formular respostas rápidas ou uma grande dissertação assertiva, mas para que também levem no seu cotidiano essa dúvida e esse inquérito.

Incompetência: o post.

Publicado em despise for humans por pedro em 05/22/2009
proconnet

Dois meses e quatro dias.

Então há DOIS MESES atrás eu andava me incomodando com a Net. Não só pelo crime abusivo que são as franquias, mas porque ao comprar uma franquia adicional – tava precisando, não é porque sou rico não, tá? – eles levaram 3 dias para acionar. Ou seja, três dias pagando 3Mb e tendo 128kbps.

Mas a questão não é essa. A questão é que hoje, as 16:14 eu recebo um e-mai de resposta.

A inércia e a incompetência realmente reinam em qualquer lugar. NET, Claro, Vivo, toda e qualquer empresa que preste um serviço essencial nessa era tecnológica tem, como nos romances de Gibson e Orwell, o controle total sobre suas ações. Não há responsabilidade; e muito accountability – ninguém responde por essas coisas. Um punhado de pessoas consegue processá-los, lucrando alguma esmola, enquanto que dezenas de pessoas estão completamente a mercê dessas empresas.

É realmente tão assustador quanto alguns autores previram. Talvez não tão fascista ou ideológico, já que o único interesse mesmo é te enganar e tirar teu dinheiro. Na Claro há anos eu me incomodo e as respostas do Procon sempre são como a desse e-mail: vagas. Qualquer idiota sabe que vai ter que eventualmente ir ao Procon com uma certa documentação para fazer a reclamação, entretanto o e-mail nem mesmo especifica que papelada seria essa. Ou seja: tu trabalha, já não tem tanta grana assim. Só de passagem de ônibus ou gasolina esse e-mail já indica que serão pelo menos 4 VIAGENS até tu conseguir agilizar o que precisa ser feito.

Por muito tempo muita gente disse: “O Brasil é uma vergonha”. Mas basta assistir a BBC ou a CNN durante duas (ou diria, duras) horas pra ver que lá nus states e nas europa também é bem igualzinho. Valérioduto ou Mensalão, não importa, ingleses usa pra comprar biscoito e limpar um fosso.

Mas daí tu pode me dizer: “ah, mas na anglo-terra a coisa é democrática. enquanto que no brézil eram 85% dos parlamentares envolvidos, lá o índice de participação no esquema de desvio de verbas púbricas pra uso pessoal chega a espantosos 99%”.

E nosEUA a gente vê a inércia social completa: Cheney aparece na TV, ao mesmo tempo que o presidente, fazendo exatamente aquilo que ele dizia, 6 ou 7 anos atrás, que jamais poderia ser feito: “se questionarmos o presidente, mesmo que ele esteja errado, passamos uma imagem de fraqueza para nossos inimigos”. Agora questionar o presidente democrata e negro não tem problema, nas próprias palavras dele “é um dever e uma obrigação de todos os americanos”. O cara ADMITIU COM TODAS AS PALAVRAS nos últimos meses que Bush jamais passou de uma marionete; Cheney é que tomava as decisões e agora é ele que vocifera a oposição. O fascismo e o inimigo da liberdade, meus amigos, está bem ali. Não é mais uma coisa simplesmente econômica, não é mais interesses empresariais… É IDEOLÓGICO: “não há meio termo” e não estou citando levianamente. O Daily Show de ontem ainda fez a edição exatamente nesse ponto: ele realmente disse isso. Segundo ele, torturar até mesmo inocentes é o preço a se pagar pela proteção. Isso vindo da boca da administração de ignorou VEEMENTEMENTE TODOS OS AVISOS E ALERTAS DE QUE TERRORISTAS IAM TENTAR SEQUESTRAR AVIÕES EM SETEMBRO DE 2001.

E, assim como no Brasil do deputado cassado que se reelege, nas américa também a memória é curtinha. Aqui a preocupação cotidiana lá é o medo mesmo. Enquanto aqui os impostos, a incompetência de esquerda, direita e centro, impossibilitam a mobilidade social (quer dizer, impossibilitam a mobilidade social para cima; para baixo elas favorecem), lá é o medo mesmo. “Saúde gratúita e livre para todos” só pode ser um golpe. “Então você paga 4 dólares a mais por mês de impostos, não é de graça. Vamos ficar com nossos planos de saúde de até 2 mil dólares por mês”.

nas anglo-terras também é meio assim. O escândalo aparece o tempo todo e nem os jornalistas que noticiam as novas revelações parecem se importar. “Tô mais preocupado com a minha Guinness em casa me esperando…” que nem aqui o cara tá mais preocupado com o Coritiba ou com os venezuelano.

E pra coroar esse post com a verdade acima de todas as outras:

GRIPE SUÍNA:

Aproximadamente 9 mil casos no mundo inteiro.

Aproximadamente 80 mortes.

PNEUMONIA:

Só nos EUA, no ano passado, quase 62 MIL MORTES.

Don’t let fear get the best of you…


Health Care ou Health Careless?

Publicado em despise for humans por pedro em 05/06/2009

A discussão norte-americana mais ferrenha e imbecil anda sendo a de que Obama quer criar um modelo de saúde pública igual ao dos lugares civilizados do mundo – inclusive o Brasil – no qual existem os serviços privados, entretanto, as necessidades básicas de saúdes são e devem, obrigatoriamente, serem supridas gratuitamente.

Aonde chegamos para encontrar pessoas educadas, inteligentes, representantes da população que afirmam a plenos pulmões que isso será pior para a população?

Como que uma pessoa que ganha 8 dólares por hora vai se fuder mais se seu câncer ou furúnculo for tratado gratuitamente? Como que uma família que acabou de perder um dos pais para uma longa doença degenerativa pode ficar pior do que com as contas de hospital que será obrigada a começar a pagar depois de sepultar seu ente querido? Como que uma pessoa que tem câncer no cérebro vai ficar pior do que à mercê de empresas de seguro de saúde – os famoso HMOs – que nega seu pedido para uma cirurgia que tem 90% de chance de dar certo por causa de uma tecnicalidade no contrato?

Nos EUA, há anos, existe sistema público de educação.

Por favor, algúem, qualquer um, até anonimamente, pode me explicar isso? Pode, por favor, me explicar como é que a educação de uma pessoa pode estar a cargo do governo, a educação, uma coisa altamente ideológica, que envolve a formação categórica de um ser humano, e a saúde, o momento de maior fragilidade de uma pessoa, quando ela realmente precisa de ajudar não para se desenvolver, MAS PARA CONTINUAR A EXISTIR, não.

Alguns republicanos, inclusive Mitt Romney e Jeb Bush foram retratados no Daily Show de ontem falando sobre a revitalização do partido republicano. De todos os absurdos que saem e saíram das bocas e canetas desse partido nos últimos 30 anos, me desculpem, nenhuma supera a paranóia anti-comunista, já no seu quinto decênio, sobre uma medicina socializada que será o fim dos Estados Unidos. Bush, se não em engano, nos passos de seu irmão e pai, afirma que o governo deve subsidiar a formação de profissionais para o benefício do estado.

“A gente subsidia tua faculdade de engenharia naval, mas se tu tiver falência renal e precisar de um transplante, bom, daí boa sorte…”

Eu simplesmente não consigo entender. É como se estivéssemos tendo a prova definitiva de quase 50% dos representantes norte-americanos são, de fato, vicious people.

Negar auxílio na área da saúde é homicídio por negligência.

Eles não são simplesmente burros e incompetentes, corruptos e ligeiramente criminosos, Bushs, Cheneys, Romneys, esses caras são piores que criminosos de guerra. O que eles realmente pensam em relação às diferenças de classe, aos problemas sociais, é, de fato, que ricos vivam e pobres morram. A ignorância é tamanha que eles parecem, de verdade, acreditar nas propagandas mentirosas feitas durante quase meio século contra as formas socializadas de saúde, educação, economia, em suma, de estado, retratando-as sempre como perda de liberdades.

“Sim, com os republicanos no poder você tem o direito e a liberdade de MORRER”

Naquele desenho animado Family Guy, a família da mulher de Peter,  a família Pewterschmidt, de repente não parece como um exagero cartunesco da típica mentalidade direitista, convervadora e republicana nos EUA.

Bilhões em mísseis que JAMAIS SERÃO USADOS… mas teu seguro-saúde quem paga é tu mesmo.

É uma estranha distorção da proposta de Sfez de que uma das grandes utopias, humanas e tecnológicas, vividas na contemporaneidade seria a da Grande Saúde, da Saúde Perfeita. Percebe-se, em retrospecto, que não se trata de uma utopia total, absoluta, não se trata de projeto de transformação total da vida humana; um marxismo de classe, uma ideologia dos escolhidos permeia totalmente esse engendro da fantasia.

Living forever sure isn’t for anyone…

Qualifico-me

Publicado em despise for humans por pedro em 08/01/2008

Bom, imitando o Márcio, também me anuncio.

Hoje fui lá e apesar da minha gripe ferrenha (que eu sabia previamente que contrairia assim que terminasse meu relatório), gastei a grana pretíssima que foi imprimir, imprimir as imagens coloridas e encadernar meu relatório de qualificação e ele já está devidamente entregue.

Dia 21 de agosto é o meu dia D. Banca de qualificação. Francisco Rüdiger e Bernardo Lewgoy.

Grandes expectativas. No interesse da transparência, se alguém se interessar em dar uma olhada (não aceito críticas :P ) eu disponibilizo aqui (são 98 páginas…).

Foi uma caminhada interessante até aqui, tendo a vantagem de já ter começado a análise e a pesquisa em si (tanto bibliográfica quanto da série) muito tempo antes. Estou orgulhoso de mim mesmo e espero ótimos resultados dessa empreitada.

Corpo Defeituoso, Completo Sedentário ou Máquina Humana?

Publicado em despise for humans por pedro em 07/20/2008

Como um dos meus únicos leitores já antecipou, esse post tem como cerne o outro lado da moeda sobre essa questão do corpo.

Há algum tempo arqueólogos e egiptólogos descobriram algo que faria os butiás cairem dos bolsos de Marx. A sua glorificada massa operária, na verdade, já existia mais de três mil anos antes dele nascer. Os construtores de pirâmides, tidos, pelo conhecimento popular e mesmo pelos livros de história da minha época de colégio, como escravos numa sofrida e árdua tarefa de divinização de seus líderes na verdade eram empregos classe A. Tinha alimentação farta e incondicional (coisa que há três mil anos era algo do tipo ‘você planta pra poder comer, se não plantar, não tem, e só tem o que se planta’), que contava com frutas frescas, peixe e vinho. Muito mais do que qualquer trabalhador da classe plebéia em qualquer função (mesmo alguns escribas). Tinham, apesar disso parecer estranho, seguro-saúde: se eles se machucavam ou ficavam enfermos, eram tratados pelos melhores “médicos” e tinham completa assistência e recebiam os valores dos dias que não puderam trabalhar. Era um emprego, de fato, cobiçadíssimo. Afinal, era o único emprego, que se saiba, no Egito Antigo, que possuía a noção de folga e horário de trabalho. Até a banhos públi

cos os trabalhadores tinham direito. Além, é claro, de aulas e instrução. Ao contrário do que, pelo menos na minha época, se ensina nos colégios, os tais escribas não eram os únicos que tinham contato e domínio sobre o complicado alfabeto hieroglífico; as comunidades construtoras de pirâmides tinham aulas de escrita, desenho de engenharia e técnicas de construção, usavam as sobras das pedras-calcário para enviar mensagens, cartas, para fazerem contabilidade e controle de materiais. Ou seja, a vida forçosa e física que imaginávamos que esse povo incrível tinha é, de fato, pura imaginação.

E então nos remetemos ao tema em si: a vida física, braçal, se prefererim, do homem é apenas um dos níveis de existência. Como Heidegger bem aponta, o SER do humano é mais complexo, sub-dividido em vários níveis e várias esferas. Claro que Heidegger, assim como muitos filósofos e pensadores, relegam o Egito Antigo à antigüidade esquecível, sem grandes reverberações na nossa vida. Pois eu, na minha humilde posição de aprendiz, já me coloco em outra esfera. Eles, os Egípcios antigos, tinham as mesmas noções que os gregos da antigüidade sobre a funcionalidade do ser humano. Aos construtores que ficavam irremediavelmente feridos não era reservado o esquecimento; eles viraram mestres. Ensinavam os novos trabalhadores que chegavam todas as semanas como era o funcionamento. Sim, Heidegger e Rüdiger, existia técnica, e a mesma técnia que dizem ter sido criada pelos gregos, ali no Egito. Mais de 1500 anos antes do Helenismo grego ou das guerras do Peloponeso. Salas de aula, minha gente.

A vida humana su

pera em muito o campo físico. Como bem mencionou o meu leito Cleon, o que diria Stephen Hawking de uma Utopia do Corpo e da Saúde? Creio que provavelmente ele aprovaria, desde que esta lhe conferisse um novo corpo. Brincadeira…

Aí está o exemplo: um ser humano totalmente impossibilitado fisicamente que tem um dos maiores Q.I’s do mundo. Claro, sua vida é muito mais do que a carne, músculos e nervos que possibilitam, materialmente, a vida física do ser humano. O que nos leva a crer que a vida física é secundária, ou, no mínimo, periférica. Entretanto, ela é também inextrincável. Claro que os lesionados trabalhadores egípcios tinham função e a exerciam como forma de manutenção da estrutura funcional. A operacionalização de toda a construção de uma pirâmide, que poderia durar décadas, estava fortemente enredada com o aprendizado e treinamento de cada vez mais trabalhadores, e este aprendizado em si, a apreensão de conhecimento, só

tem a ver com duas ou três esferas materias e físicas da vida humana, o resto de passa na heideggeriana metafísica. Mais ou menos como é hoje em dia em todos os aspectos da vida econômica do mundo. Vemos com clareza que engenheiros são treinados todos os dias, assim como arquitetos, lixeiros, médicos, jornalistas…

Mas o ponto é que nossa existência nesse planetóide de água se limita aos nossos corpos. Claro, nossos legados intelectuais – como os escritos de Marx ou Heidegger – e físicos – como as próprias pirâmides – sobrevivem muito mais do que nossos arranjos celulares. Nosso querido Dr. Hawking já quase morreu diversas vezes em conseqüências das ramificações de sua doença, Esclerose Lateral Amiotrópica, ou ELA, em inglês, ALS, também conhecido como Lou Gehrig’s Disease (famoso jogador de Baseball americano que, infelizmente, teve sua genial carreira encerrada por essa triste e debilitante doença).

Esta doença talvez seja um dos melhores exemplos para falarmos sobre trans-humanidade. Ela é uma deterioração neural progressiva causada pela morte dos neurônios motores. Os números dizem que de uma a duas pessoas em 100 mil irá desenvolver essa doença por ano. E se os números fossem maiores? Hawking é o exemplo de que ela não dissolve ou destrói nossa capacidade ser humanos, inteligentes, racionais, criativos, inteligentes. Entretanto, o nosso querido físico da teoria total de campo e do universo como um noz, estaria fadado a morrer muitos anos antes de suas teorias se tornarem profundamente e infinitamente relavantes se não fosse aquela amiga do Jacques Ellul, do Rüdiger, do Heidgger e minha também: a técnica moderna. Dezenas de aparatos tecnológicos – que na época do Egito Antigo nem era sonhados – sustentam Hawking vivo.

Então a equação se sublima: queremos qualidade e tempo de vida útil e hábil para exercemos sobre o mundo humano e natural nossos desejos (vontade de poder, sempre, sempre, né, Nietzsche?) e ambições, para desenvolvermos nossa única parte que realmente não conhece limites: o pensamento, a mente, o conhecimento. Ao chegarmos numa fase epocal que Heidegger caracteriza como o acabamento da metafísica, nos vemos cada vez mais voltados para a preservação do corpo. Nossos corpos podem não serem o que nos faz humanos, mas são o que nos limitam como tal. Somos humanos do momento em que nascemos até o momento em morremos. E nada mais. A concretude material de nossa existência e de nosso ser é mediada e limitada nesse

plano físico de existência através do nosso DNA ordenando nossa reprodução celular. Somos, em si, células, antes de mais nada. E estas células são, naturalmente, fadadas ao derradeiro fracasso. Jesus, Buddha, Maomé, todos morreram. A vida pós-morte (se existe) é de um critério e de um campo, em vida, inalcançável. Por isso mesmo é amendrontador. Apesar de ser criaturas imaginadas, pois em todos os momentos da vida utilizamos de nosso intelecto e as leituras de nossas percepções para, ativa e passivamente, construirmos a nós mesmos (somos criaturas metafísicas) também sabemos que nosso inevitável zéniti está ali, no horizonte tão próximo da predação do futuro. Exatamente por termos condições materiais (córtex pré-frontal) e metafísicas (conhecimento, abstração) de entender que o futuro é inescapável, jamais podemos deixar de sabê-lo.

Aí jaz a mola motora de todo o conceito de trans-humanismo. Nietzsche com seu übermensch, a ficção cinematográfica, Haraway e Warrick com seus ciborgues, Asimov com a máquina que ganha consciência, coração e vida (aos moldes de um homem), Mary Shelley com seu homem pós-morte, o cristianismo e tantas outras religiões com seus édens perdidos, reencarnações e espíritos, todos desejam sublimar a morte e o inexorável fim da carne humana em um sistema controlável, arquitetado, senciente e com um sentido prático/moral. Estudando Nietzsche, parteiro da pós-modernidade, percebe-se, eu considero que tristemente, que o que ele falava é verdade. Se o homem se superar, não será mais homem. E todas as superações almejadas pelas centenas de utopias veiculadas todos os dias em todos os canais, jornais, sites, boca a boca, desejam (e ensejam) o fim da humanidade. O fim do homem. Seu esmagamento pela igual premente nova forma de vida pura, estéril, jovem, superpoderosa que estaria somente (talvez) aquém do próprio ente Deus.

O jovem atleta chinês que treina a exaustão, destruindo seu próprio corpo a fim de chegar mais perto de limites ainda não traçados e o genial cientista americano com seu exorbitante Q.I. encerrado permanentemente numa cadeira de rodas ‘robotizada’ que permite que ele fale e se locomova mesmo que somente seus olhos possam fisicamente se mover são, a meu ver, a mesma coisa.

Heidegger e tantos outros se esforçaram em suas vidas tão fortemente para entender o Ser do homem, e vejo, que a resposta é sorrateira na escuridão das ilusões que criamos para tornar os desafios de cada dia suportáveis. O homem é, eu penso, por definição a superação dos obstáculos. De descer das árvores até vencer as doenças mais invencíveis, de chegar na Lua até a cura do câncer. O homem procura e manufatura os desafios. E neste oximoro de superação o homem chega derradeiramente a conclusão de que deve vencer a morte (sua própria condição) e então se tornar algo mais. Pulando em varas e arcos, mesmo com os joelhos quase que inabilitados, ou reinventando a apreensão do mundo de uma cadeira de rodas.

Triste talvez seja perceber que somos tão lindos e nos damos tão pouco valor… Ao invés de percebermos que já somos Super-Homens, nos pretendemos, realmente, mais que isso… E será isso bom? Mencionando um dos meus favoritos: seríamos Hank Henshaw, o Superman Cyborg, ou seríamos Bizarro?

Francamente, prefiro a versão japonesa: See you, Space Cowboy…

…….Let’s leave this place entirely….

Corpo Perfeito, Atleta Perfeito ou Máquina Humana?

Publicado em despise for humans por pedro em 07/18/2008

Em 1997 eu fui atropelado andando de bicicleta no centro de Gramado. Danifiquei o menisco do meu joelho esquerdo e por mais que fizesse exercícios e fisioterapia, jamais voltou a ser o mesmo. Quando chove ou fica muito frio dói muito e fica rígido.

Esta história é um preâmbulo do assunto – prometido antes – deste post.

No Discovery e em vários outros canais e programas esportivos – além de publicações e sites também – só o que se fala ultimamente é das Olímpiadas. O Paradigma último da auto-superação chega ao seu segundo capítulo no séc. XXI e vemos um país inteiro, a China, voltado para isso. Nos documentários e programas o foco é seguidamente o árduo treinamento.

As Olimpíadas colocam em xeque, de certa forma, o meu assunto de interesse: a lógica da máquina invadindo o espaço não máquina da vida. Vendo os atletas chineses treinar me assustei profundamente. Termos como manutenção (ainda acompanhados de exemplos do tipo: Ah, é que nem um carro…), produtividade e eficiência sendo usados para o funcionamento do corpo.

E é seguidamente colocada a questão do corpo perfeito. O preparador físico pega e diz: “Fulaninho tem um físico perfeito…” mas daí, no seguimento do programa, vemos ele sofrendo em sessões praticamente diárias de fisioterapia para combater as inúmeras lesões causadas pelo esforço ininterrupto. Corpo Perfeito? Saúde Perfeita? Eu não vejo dessa forma. Ao forçarem o corpo biológico do homem a se portar como maquinário esportivo, ele atinge seu ápice cedo demais. O documentário mostra as crianças – não muito diferente daqui do Brasil – com apenas 4 ou cinco anos treinando para serem ginastas. Superação dos limites? É lindo, claro. E um objetivo quase que plenamente humanista: superarmos através do próprio corpo, do esforço e da determinação idiossincráticas ao ser humano nossa condição. Mas vejo também que há a penumbra do trans-humanismo cegando as pessoas: os corpos realmente deformados das crianças de 7 ou 8 anos são verdadeiramente assustadores. Meninas de 16 anos sem quadris e sem seios (e que não menstruam), meninos de 18 medindo menos de 1,60 metros.

Isso me levou a notar que a deformação sistemática do corpo humano é, em si, uma parte central de diversas e antigas culturas humanas (como os índios que modificam as cartilagens do corpo, como as tribos africanas que alongam os pescoços, como os pré-colombianos que deformavam os crânios dos bebês ou mesmo as chinesas que obliteravam seus pés para ficarem de acordo com a lógica da beleza). Não pode ser plenamente considerado como um aplainamento da condição humana. Entretanto, no que diz respeito ao treinamento dos atletas, eu vejo que é sim. Arquitetar o corpo humano para que desde de jovem ele produza seu melhor desempenho. Tudo bem. Até aí não vejo realmente nada de mal, vejo na verdade uma das partes mais práticas e fizíveis das Utopias do corpo, descritas por Lucien Sfez, entre outros. Devemos mesmo preservar nossos corpos para que eles tenham seu melhor desempenho e nos forneçam a melhor qualidade de vida possível. Mas daí chegamos verdadeiramente ao ponto: onde fica esse zéniti? As dores que o atleta chinês retratado no programa sentia não pareciam ser the proper health of the body. O atleta americano tinha que usar aqueles sedativos dérmicos para conseguir terminar seus exercícios nos aros, pois a cada queda no chão, se intensificava o dano aos seus joelhos e pernas.

O atleta americano esse cercado de técnicos usando sensores e monitores eletrônicos para entender o funcionamento dos seus músculos e corpo. O atleta chinês cercado de médicos e fisioterapeutas para amenizarem suas lesões e quantificar seu desempenho.

Há no próprio paradigma grego dos jogos uma vontade e desejo de superação humana. Mas, remetendo a Nietzsce, estaria essa superação latente no nosso corpo ou estaria ela esquecida em nossas mentes? O esforço do atleta é, também, mental. Mas o leva a ter uma mente além do homem? Ou seria a lógica da batalha contra o próprio corpo a exata lógica da qual falam os filósofos no que concerne o ser do homem?

Penso que nessa era em que usamos nossos artefatos maquinísticos para desvendar o corpo do homem e levá-lo ao seu zéniti funcional há de fato algo a ser tratado com delicadeza e conhecimento.

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Este post terá continuação…