Ubermensch by Debord

Publicado em despise for humans por pedro em 09/09/2009

“A Internet constitui uma infraestrutura para uma mudança social, superior à dos meios de comunicação de massa do Séc.XX: Quando tem uma dúvida, a “Geração Wikipédia” tem capacidade para dar valor à credibilidade da fonte, é capaz de seguir a notícia até à sua fonte original, pesquisá-la, verificá-la e avaliá-la – sozinha ou como parte de um esforço conjunto. Os jornalistas que ignoram isto e que não querem respeitar estas capacidades não são levados a sério por estes utilizadores da Internet. E com razão. A Internet possibilita a comunicação directa com aqueles que eram conhecidos como receptores – leitores, ouvintes e espectadores – e permite tirar partido dos seus conhecimentos. Não são os jornalistas que sabem tudo que são procurados, mas sim aqueles que comunicam e investigam”

De http://manifesto-internet.org/.

Jacko, the wacko

Publicado em despise for humans por pedro em 06/26/2009

Eu sou um cara chato. Chato com minhas baboseiras ideológicas, chato com metodologia acadêmica, chato com diversas coisas: meu blog apresenta, geralmente, apenas parcialmente a minha chatice. As durezas da acadêmia são deixadas de lado para evidenciar mais minhas opiniões e argumentações tolas: ou seja, meu blog é bem mais dedicado a viagens intelectuais do que qualquer coisa do tipo ‘isso ou aquilo’, se vocês me entendem.

A morte de Jackson veio como uma surpresa por ser uma surpresa, talvez até pra ele mesmo. E aqui é onde eu explico porque esse parágrafo justificando minha chateza: eu sou fã de Michael. Esperava, quando criança, os clipes no Fantástico e tive em CD o Thriller e o Bad - infelizmente, pelos meus maus cuidados, acabei perdendo-os – e hoje mesmo tenho no meu computador toda a discografia dele. Eu adoro, ouço seguidamente, principalmente o Off the Wall, que é o meu favorito.

Entretanto, ao contrário da maior parte da rede e da mídia, não me entristeci com a morte dele. Talvez por não me ater a linhas-guia do politicamente correto, referencio que Jackson não morreu ontem, 25 de junho de 2009. Jackson morreu ainda em 1993, quando foi acusado de abuso de menores e pagou para que se calassem seus acusadores (foram vários). Nessa época ficou claro que Jackson não faria mais nada realmente relevante e foi o que realmente aconteceu nos próximos 16 anos. Apenas um disco, e bem falhado, como diria um amigo, poucos shows, aparições bizarras em programas de TV como Oprah e a continuação dos escândalos da ordem “comedor de criancinha”.

Jackson desapareceu juntamente com o desaparecimento do entuasismo midiático dos anos 80. Nos 1990, o grunge e a “TV que fomenta a destruição da TV” acabaram com sua carreira de forma abrupta. E isso é inegável. Em 1993 Jackson já era influência, já ganhava prêmios (como Lenda Viva) que geralmente eram entregues para o espólio de artistas falecidos recentemente. Seu carnaval de loucuras, desde Neverland, até crianças dependuradas em sacadas na Alemanha, fez com que ele se tornasse mais um personagem do que um ídolo ou ícone. Sua massa de fãs, já em 93, o perseguia através daquele imaginário; daquele lindo garoto negro que cativou bilhões com seus passos e sua voz angelical e ainda assim poderosa.

Jackson parte com o fim da cultura pop? No ano de Lady Gaga eu duvido muito. Mas sua morte é condizente com o que anda se vendo, com a realidade da cultura midiática e com a realidade da indústria fonográfica: vender discos simplesmente acabou. Larry King ontem falava: Thriller é o disco mais vendido da história, e não somente da história passada, de TODA A HISTÓRIA; passado, presente e futuro. Sua morte súbita, sem aviso prévio, é como o Napster, é como torrents; imediata, não-custosa. Como a Adriana disse: “Fiquei muito triste, é como se definitivamente os anos 80 fossem enterrados”.

E nisso eu concordo: não na sua influência musical ou na cultura, mas em como os anos 80 transforam toda a cultura popular que se originou nos anos 50.

Jackson nos anos 90: sua morte é apenas o epílogo de seu desaparecimento

Jackson nos anos 90 e 2000: sua morte é apenas o epílogo de seu desaparecimento

Jackson, surgido numa gravadora que queria derrubar barreiras entre brancos e negros, derrubou todas as barreiras. Numa pesquisa nos anos 2000, Jackson, juntamente com o Mickey Mouse, eram mais conhecidos do que Jesus ou Alá. Seu nome é índice do poder da mídia; índice da influência que a mídia teve, principalmente até o séc. XXI, em formatar a sociedade (claro que não totalmente).

E, diferentemente da maior parte dos sites e blogs que eu li, eu fiquei feliz com sua morte. Michael Joe Jackson era uma pessoa talentosa, incrivelmente doce, mas era também uma pessoa com muitos problemas emocionais. Suas mudanças de aparência podem ser traçadas diretamente ao corportamento de seu pai (que admitidamente o chamava de feio e de macaco quando criança), assim como suas relações no mínimo preocupantes com crianças. Jackson era solitário, sofria no silêncio de suas mansões e através de suas jogadas de marketing (como casar com a filha do outro Rei).

Por isso eu digo. Agora talvez ele encontra a paz, o amor e atenção que ele sempre quis e, na verdade, só conseguiu por dançar e cantar, e não por ser quem ele era.

Publicado em despise for humans por pedro em 06/15/2009

“Quem ainda duvida do poderio da monotonia [ou da completa... ] não passa de um tolo. A indústria cultrual [e mais fortemente essa cultura que está aí, através de estratégias diferentes, mas com a mesma finalidade] derruba qualquer objeção que lhe é feita com a mesma facilidade com que derruba a objeção ao mundo que ela duplica [não só através da grande mídia, mas também através da revolução tecnológica que se perpetra através da rede] com impacialidade.”

“O que é salutar é o que se repete, como os processos cíclicos da natureza e da indústria. Eternamente sorriam os mesmos bebês nas revistas [e os mesmos jovens e velhos saudáveis e alegres nas propagandas de produtos de beleza e higiene], eternamente ecoa o estrondo da máquina [de rap, hip-hop]. Apesar de todo o progresso da técnica de representação [ainda mais agora, com a popularização das formas de criação e consumo dessas mesmas técnicas de representação], das regras e das especialidades, apesar de toda a atividade trepidante, o pão com que a indústria cultural alimenta os homens continua a ser a pedra da estereotipia. Ela se nutre do ciclo, do assombro – sem dúvida justificado – de que as mães apesar de tudo continuem a parir filhos [consumidores], de que as rodas ainda não tenham parado. É isso que fortalece a imutabilidade das situações”.

*[ ] = notas minhas.

The new new new?

Publicado em despise for humans por pedro em 04/05/2009

Há pelo menos 50 anos a indústria cultural, em sua forma de fagócito, englobava a ficção científica. Primeiro em publicações, depois no cinema e na tv.

Hoje a FC é conhecidamente um braço dessa indústria, e um importante braço. Alguns dos filmes de maior popularidade da história são de FC ou se associam livremente à ela. Na televisão temos até canais especializados. Na internet, bom, nem se fala.

E a indústria está mudando. Já há algum tempo.

De um sono um tanto tedioso, em 1999 a FC acordava com The Matrix. Mas isso foi há dez anos. E nestes dez anos muita coisa mudou.

E uma coisa acontece há pelo menos 7 destes dez anos; a procura incessante pela série de TV que conseguirá substituir o vácuo deixado por Chris Carter, Fox Muder e Dana Scully não apenas na cultura sci-fi como na própria cultura popular. Aqueles dois agentes tão insipidamente “anos 90″, com suas gravatas douradas e cor de vinho e seus power suits, mudaram fundamentalmente a forma como – principalmente a TV – lida com as questões tão abordadas pelo estudo vindo da literatura sobre a FC; principalmente o monstro da semana.

Nos últimos meses estreiou a nova série do J.J. Abrahms, Fringe.

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Fringe: terças no Warner Channel e 14 episódios disponíveis pra baixar na internet

A despeito das obviedades básicas – como um personagem que nega as possibilidades fantásticas e um cientista maluco que acha que tudo é possível – a série procura se apresentar exatamente como X-Files. Olivia Dunham é uma agente do FBI (reminds you of anything???) investigando estranhos acontecimentos envolvendo uma categoria de ciência chamada de Fringe science.

E não é apenas isso. Como é de praxe para o discurso da alteridade na FC, Fringe retoma o leimotiv da teoria da conspiração. “Alguém sabe de coisas que ninguém mais sabe e está usando estes conhecimentos para dominar, destruir, alterar, foder o mundo”.

Até mesmo alienígenas (ou seres extra-dimensionais).

E, novamente, a despeito das similaridades, a série vale muito a pena. Histórias interessantes, personagens interessantes e um desenvolvimento bem legal, no qual as respostas levam à outras perguntas, nada como Lost (que aliás eu detesto).

Dou a dica porque estou acompanhando – na verdade, esperando ansiosamente pelo décimo quinto episódio – e achei uma das coisas mais interessantes em termos de FC na TV nos últimos anos.

10/9

Publicado em despise for humans por pedro em 09/11/2008

Ontem, dia 10 de Setembro de 2008, foi o dia do jornalista e dia mundial da liberdade de imprensa.

Setembro parece estar ficando pra História como o mês que atenta contra as liberdades pessoais e de pensamento. Deveríamos parar de nos preocupar com coisas triviais e começarmos a nos preocupar com as coisas verdadeiramente alarmantes que andam de porta em porta enquanto não estamos prestando atenção.

Para comemorar tão grande dia, que celebra o fim das autarquias, o fim da censura, a liberdade de expressão, pensamento e investigação, nossos queridos governantes sulistas fizeram uma festa.

A festa do processo contra a NovaCorja.org.

Em termos, a mais pura censura. Nenhum dos rapazes foi responsável pela retirada das tais informações sigilosas de dentro de uma agência do Banrisul. Outro foi o responsável. E como tantos meios de comunicação, não pensou duas vezes em publicar as informações, não com o objetivo de ferrar Banrisul ou Laranja ou Yeda, mas com o objetivo solene e esquecido pela mídia contemporânea de informar as pessoas, de buscar a verdade e expor os corruptos que depenam cada dia mais esse país.

Fala-se da fragilidade dos blogs mas o discurso é o mesmo; “por favor façam leis sobre isso”. Chega de leis. Chega de não conseguir entender que as coisas são a mesma coisa. Chega das pessoas não entenderem a Internet.

Blogs, sites, redes sociais, são formas de apropriação por parte do corpo em si da população do que o Träsel muito bem chamou de “Estatuto da Indústria Cultural”. As formas de produção, distribuição, regulamentação do que, dentro da internet, pode ser chamado de novas mídias não estão e nem jamais poderão estar na mão das autoridades ou legisladores. Pra quem não sabe, a Internet foi construída com uma idéia na cabeça: total acesso. Ou seja, mesmo em países como Irã e China – que censuram descaradamente a rede – pode-se facilmente acessar qualquer coisa. Nos EUA, onde se fala tanto sobre baixar músicas ilegalmente, é ainda mais fácil.

O processo forçou os caras da Nova Corja a retirarem do ar uma informação bancária do Laranja, o cara que vendeu a casa pra Yeda. Entretanto, vejam bem, qualquer um poderia ter copiado o .jpg que estava no site. Se fosse uma outra informação, digamos, mais espetacular, interessante, ela provavelmente ainda estaria na Internet em algum lugar, como o vídeo da Cicarelli também está. Ou  no mínimo estaria em algumas dezenas de pastas em centenas de computadores pessoais.

Quem produz e regula somos nós mesmos. Não há mais controle nem pode haver, é fácil perceber quando se compreende a Internet.

Numa palestra do Lessig – disponível aqui no site da Giseleh – ele fala sobre como o mundo em que vivemos é estranho porque uma grande parcela da população vive as margens da lei, sabe disso, e simplesmente não se importa. É claro que vamos viver fora da lei. Depois do Napster, não tem mais comprar música. E por mais que tu ache meia dúzia de gatos pingados que ainda compram discos (a maior parte que eu conheço compra mesmos LPs, pelo vintage) é só ver como as lojas de CDs estão caindo mais do que periquito em vazamento de gás. Eu quero ouvir e conhecer Stevie Wonder. Eu não vou numa loja pagar 40 reais por um disco, eu baixo a discografia inteira dele a 140kb/s.

E por mais que façam leis, a fiscalização dessas leis teria que necessariamente passar por nossos direitos, na verdade pisoteá-los. Além de, mesmo assim, ser praticamente impossível fiscalizar a todos. Geraria aquilo que alguns gostam de chamar de sociedade de monitoração, 50% da sociedade é bandido, 50% é policial.

Mas me desviei um pouco. A Internet é a expressão máxima da liberdade de expressão porque, a priori, possibilita e facilita inclusive coisas moralmente, socialmente e eticamente controversas. Criar uma lei contra pedofilia na rede não impede a pedofilia. Assim como processar a Nova Corja e forçá-los a retirar as informações não retrocede o fato de que eu li aquela informação. Que eu já sei o que estava escrito ali, assim como centenas de outras pessoas.

E mesmo que a ordem judicial não tenha aceito o pedido do requerente de remover os comentários do post em questão (o que seria ainda mais obviamente censura), ainda sim ficou muito claro o aspecto de desrespeito ao trabalho jornalístico, ao desdém dos poderes em relação ao poder e a penetração que os blogs tem.

Caiu na rede, já era…

Na seqüência: 11 de Setembro, 7 anos.