Ubermensch by Debord

X Seminário Internacional da Comunicação: Imaginário e Cotidiano

Publicado em despise for humans por pedro em 11/10/2009

Acabei me emocionando com as comemorações dos 20 anos da queda do muro (ontem passei o dia assistindo as redes internacionais de notícias e suas coberturas) e esqueci de fazer um post (nem que modestamente) sobre o seminário internacional.

Bom, primeiro vou falar das palestras. Existe um preconceito e uma perucagem sobre esses franceses. A Famecos e a PUC tem programas de intercâmbio com várias universidades francesas e alguns dos principais professores (como o Juremir Machado e a Cristiane Freitas) obtiveram seus doutorados lá. Isso gera uma faca de dois legumes: de um lado um pessoal que abomina os franceses e de outro lado um pessoal que deixa os testículos (e eu diria até as gravatas borboletas) deles molhadinhos de saliva.

Eu, pessoalmente, como já disse aqui, tento ser um inclusivista. Procuro em todos os autores com quem entro contato (seja por livros, artigos, ensaios ou palestras) pegar alguma coisa, formatar conhecimentos, sabe? Meu provável futuro orientador de doutorado, o Rudiger, tem suas grandes reservas sobre esses franceses, mas eu os considero úteis. Muitos deles são aglutinadores de pensamento, como eu gosto de chamá-los: eles pegam outros caras e servem como portas de entrada para conhecimentos mais específicos e/ou complexos. Por isso vou tentar fazer um relato, coerentemente comigo, inclusivista.

E começarei pela grande atração desse #SICom09: Michel Maffesoli. Ele não apenas ganhou um título Honoris Causa da PUC/Famecos como teve duas falas, na abertura e no fechamento do evento. Na abertura ele se propôs a fazer uma fala mais aberta e errática e, estranhamente, remontou suas origens fenomenológicas fazendo um imenso elogio a Heidegger e ao seu Dasein. Maffesoli explicitou uma desconfiança minha: seu être-ensemble, o estar-junto, vem de uma modulação desse estar lá heideggeriano e foi, a despeito de muito pouco didática, uma das falas que mais mexeu comigo. Eu comecei estudando Estudos Culturais, então tenho uma grande fascinação pelo interesse acadêmico acerca do cotidiano e penso mesmo, aos moldes do formismo simmeliano, que é um campo extremamente fértil dos estudos de comunicação e da sociedade.

Na sua segunda fala ele foi mais específico e construiu um ótimo paralelo em negativo entre Augusto Comte e a pós-modernidade. Pra quem já leu os trabalhos dele não houveram grandes novidades, mas é sempre legal ver um grande pensador da atualidade falando ao vivo e respondendo perguntas (mesmo que eu não tivesse nenhuma pergunta pra ele).

As outras falas do evento foram até meio previsíveis. Patrick Tacussel falou sobre o silêncio, Armindo Bião deu um show (SIMPLESMENTE UM SHOW) falando sobre a Hermes e como o conhecimento só pode ser construído através das encruzilhadas. Assisti essa pela internet e, sério, me emocionei muito em casa.

Uma das minhas falas favoritas foi a do Muniz Sodré. Juremir apresentou a mesa nesse dia e abriu a fala de Sodré dando a real: maior pesquisador de comunicação brasileiro. Ele enredou seu trabalho sobre a cultura negra no Brasil com o pensamento de Maffesoli construindo uma relação (que depois o próprio Maffesoli continuou) entre arkhé-tipo e neó-tipo. Foi um abre-olhos incrível e adorei que ele não teve nenhum medo de usar um termo tão temido hoje em dia: ideologia. Falou sobre dominação e mencionou uma coisa que eu ando trabalhando ultimamente: dentro dos povos dominados, por exemplo, os negros durante a escravidão, existia uma classe alta que difundia uma ideologia de continuação hegemônica, ou seja, existiam negros que acreditavam na escravidão e eles eram colocados em posições de liderança não apenas pelos escravocratas, mas pela própria ’sociedade’ escrava.

Achei isso demais. Me emocionei tanto durante a fala dele que meus colegas depois ficaram tirando sarro de mim porque eu ficava falando sozinho e fazendo gestos.

Os GTs não foram assim tão emocionantes. Devido ao imenso número de trabalhos aceitos para apresentação o tempo dado a cada trabalho foi muito pequeno (apenas 15 minutos para exposição e 10 para Q/A). Eu apresentei a minha dissertação e quando o coordenador da mesa, o Marcelo Trasel, avisou que faltava um minuto ainda faltava muito pra eu apresentar. Por sorte a minha queridíssima Adriana Amaral estava na platéia e também tinha apresentado na correria e fez a exata pergunta que me permitiu terminar a explicação. Também foi legal que o Erick Felinto estava assistindo e pareceu apreciar meu trabalho o que foi, sendo repetitivo, extremamente legal porque eu uso o livro dele, A Religião das Máquinas, em vários momentos do meu trabalho. De fato, acho que cabe aqui fazer a ressalva de que ler o livro dele foi extremamente legal e revigorante, já que ele é um dos poucos autores que fala sobre cibercultura, novas tecnologias e imaginário tecnológico da pós-modernidade/modernidade sem esquecer que a Escola de Frankfurt não foi um erro ou tolice.

No mais as apresentações foram sempre assim. O grande Bruno Costa apresentou com muita autoridade e competência o nosso trabalho do CINESOFIA (grupo de pesquisa do qual participo na Famecos que estuda as relações entre cinema e filosofia) fazendo algumas menções que só podem ser chamadas de geniais sobre o movimento futurista italiano e a relação entre guerra e técnica. Pro tempo que ele dispunha foi realmente, realmente genial.

Nosso querido ex-colega de Melhor do Peór (que parece ter morrido lentamente) e também colega e também co-autor do texto do grupo, Jayme Camargo, também apresentou. A apresentação dele a despeito de uma pretensão legal acabou ficando meio engasgada e até virou meio motivo de brincadeiras no twitter (principalmente do Erick Felinto). Ele resolveu ler seu artigo na sua integralidade e isso não combinou muito com o pouquíssimo tempo para a apresentar. Mas no fim Jayminho acabou convidado pra exclusivíssima feijoada França-Brasil que o Juremir organizou pra homenagear os professores franceses e tudo ficou na boa.

O #SICom sempre é muito bom e uma oportunidade pra, nem que seja pelos corredores e na mesa do bar do 7, trocar umas idéias com gentes interessantes. Mal posso esperar pelo próximo.

SICom09 (parcial)

Publicado em despise for humans por pedro em 11/04/2009

Só deu Dasein nesse Seminário Internacional.

Depois que acabar faço um post decente.

Publicado em despise for humans por pedro em 08/24/2009

A antinomia dos valores não poderá jamais resolver-se e, finalmente, é em função desta mesma antinomia que as sociedades perduram. De modo substantivo e um tanto insolente, digamos que, enquanto os deuses se guerreiam, os homens estão tranquilos.

(Maffesoli, Conhecimento Comum, p.181, 1985)

Para os mortais, a ‘boa vida dos deuses’ seria uma vida sem vida.

(Arendt, A Condição Humana, p.132, 1958)

Singularidade Ética

Publicado em despise for humans por pedro em 08/18/2009

Fala-se muito, nesses tempos de Lei Azeredo e abusos no Twitter, sobre responsabilidade éticas em relação às novas tecnologias.

O discurso/diálogo/conflito não se baseia apenas nas tecnologias da informação. Desde Dolly as ciências médicas também mergulharam na mesma discussão: os desafios éticos envolvidos na modificação da vida através da medicina e da informática.

Eu penso, vendo (acho eu) essa situação de forma compreensiva, que seja na verdade o contrário. Não são necessariamente as tecnologias que nos defrontam com desafios éticos: são nossas próprias limitações éticas e morais que limitam a tecnologia.

Não estou aqui de forma alguma dizendo que a ética nazista, por exemplo, seria mais adequada. Mesmo ela é uma limitação. A crueza do cotidiano é a verdade de que muitas maldades muito mais terríveis passam batido enquanto aborto, clonagem, células tronco, anonimato e pirataria digital estão sempre na mesa.

Nesses quase dois meses que passei numa baixa produtiva (umas férias, pra não dizer uma falta completa de inspiração) eu discuti oralmente com vários comparsas, diletantes e conflitantes sobre o Twitter. E pego-o agora como bom exemplo para fundamentar meu argumento – a despeito de que muitas, ou todas, as redes sociais poderiam servir: é algo prévio que contempla o mau uso. Vou tão longe, pela liberdade a que me dou nesse blog, de dizer que o palavrão seja um outro exemplo, menos atual e mais historicista. Quando da invenção da oralidade o palavrão, o falar de baixo calão, foi o comment anônimo, o twitter-bulling, o spam.

Os desafios éticos que a liberdade da rede e a liberdade da célula incitam tem mais a ver com uma historicidade quase esquecida. Então, de repente, a grande revolução técnico-social, a grande singularidade seja mesmo uma transformação da condição humana. E essa pode ser uma interpretação do direito ficcional da transposição corpórea; o desejo embutido de ser homem mais que homem ou not man at all.

Talvez se a própria condição humana, em termos éticos – principalmente, pudesse ser ultrapassada ou modificada poderíamos ter então uma nova forma de perceber e apreender o que essa pequena singularidade que são as revoluções no campo da informática e das ciências duras realmente significa.

Proibir a palavra não impediria os sussuros…

Publicado em despise for humans por pedro em 08/13/2009

Um discípulo de Comte, interrogando-se acerca de questões de método, chega a falar de ‘gongorismo científico’, a propósito da complicação extrema das hipóteses. Podemos seguir tal análise positivista nesse ponto: este ‘gongorismo’ acha-se bastante difundido no domínio das ciências humanas – e seu único efeito é o de desacreditar nossas disciplinas e ferir a reputação dos que a praticam. Escrever sociologia é o que Bertaux propõe como tarefa – e das mais urgentes. ‘Começamos a saber o que temos a dizer… mas ainda não encontramos a forma de dizê-lo’. O artigo que ele dedica ao exame deste problema é dos mais claros e, sem compartir seu otimismo acerca do serviço (prestado) à humanidade, não há dúvida de que seus argumentos sobre não-legibilidade, a crítica que faz a certa aparência científica, a que dirige ao superdesenvolvimento do método quantitativista ou, ainda, a que vota ao modelo ‘normalista’ – são justos. Tanto mais que lassidão e fastio campeiam em certo ‘mundinho’ intelectual. Sabe-se, por exemplo, que já não é costume ler-se trabalhos de colegas. Intrigas, mexericos malévolos, acusações de diletantismo, a reputação conquistada – tudo serve para favorecer a preguiça e o autismo intelectuais. Quanto aos estudantes, é sabido que há muito alcançaram as margens plácidas dos manuais ou as de toda espécie de apostilas.

Publicado em despise for humans por pedro em 08/12/2009

Meses eu passei quebrando a cabeça pra me lembrar de uma citação específica. Surgiram, nesse período, diversas ocasiões em que ela me teria servido. Hoje, recomeçando meus estudos pro doutorado, fui ler o primeiro capítulo de Conhecimento Comum, do nosso já famigerado Maffesoli, e não é que eu acho a bendita citação?

De um lado, não há novidades nas histórias humanas: de modo cíclico, presenciamos o retorno dos mesmos valores – vendo ainda que somente sua ponderação tecnicista apresenta alterações. De outro, há diversidade nas abordagens, acentuando-se tal ou qual aspecto segundo o valor dominante no momento. A conhecida oscilação pendular entre o dionísico e o prometéico é, a essa respeito, bastante esclarecedora. Não há uma Realide única, mas maneiras diferentes de concebê-la. O ‘contraditorial’ (S. Lupasco, M. Beigbeder) operante no dado social remete a versões contraditórias que seria em vão tentar reduzir. O debate atual sobre o fim dos grandes sistemas explicativos que maracaram nosso tempo – tais como marxismo, freudismo, o positivismo (talvez fosse melhor nos referirmos aqui à sua ’saturação’) – parece mal proposto. Assim, não se trata de invalidá-los pelos que são, senão de mostrar que provêm de e explicam um dado período. Elaborados num tempo marcado pela homogenização de civilizações em expansão, não mais são (como foram) adequad0s para descrever o processo de heterogeneização consecutivo à decadência de uma civilização.