Jacko, the wacko
Eu sou um cara chato. Chato com minhas baboseiras ideológicas, chato com metodologia acadêmica, chato com diversas coisas: meu blog apresenta, geralmente, apenas parcialmente a minha chatice. As durezas da acadêmia são deixadas de lado para evidenciar mais minhas opiniões e argumentações tolas: ou seja, meu blog é bem mais dedicado a viagens intelectuais do que qualquer coisa do tipo ‘isso ou aquilo’, se vocês me entendem.
A morte de Jackson veio como uma surpresa por ser uma surpresa, talvez até pra ele mesmo. E aqui é onde eu explico porque esse parágrafo justificando minha chateza: eu sou fã de Michael. Esperava, quando criança, os clipes no Fantástico e tive em CD o Thriller e o Bad - infelizmente, pelos meus maus cuidados, acabei perdendo-os – e hoje mesmo tenho no meu computador toda a discografia dele. Eu adoro, ouço seguidamente, principalmente o Off the Wall, que é o meu favorito.
Entretanto, ao contrário da maior parte da rede e da mídia, não me entristeci com a morte dele. Talvez por não me ater a linhas-guia do politicamente correto, referencio que Jackson não morreu ontem, 25 de junho de 2009. Jackson morreu ainda em 1993, quando foi acusado de abuso de menores e pagou para que se calassem seus acusadores (foram vários). Nessa época ficou claro que Jackson não faria mais nada realmente relevante e foi o que realmente aconteceu nos próximos 16 anos. Apenas um disco, e bem falhado, como diria um amigo, poucos shows, aparições bizarras em programas de TV como Oprah e a continuação dos escândalos da ordem “comedor de criancinha”.
Jackson desapareceu juntamente com o desaparecimento do entuasismo midiático dos anos 80. Nos 1990, o grunge e a “TV que fomenta a destruição da TV” acabaram com sua carreira de forma abrupta. E isso é inegável. Em 1993 Jackson já era influência, já ganhava prêmios (como Lenda Viva) que geralmente eram entregues para o espólio de artistas falecidos recentemente. Seu carnaval de loucuras, desde Neverland, até crianças dependuradas em sacadas na Alemanha, fez com que ele se tornasse mais um personagem do que um ídolo ou ícone. Sua massa de fãs, já em 93, o perseguia através daquele imaginário; daquele lindo garoto negro que cativou bilhões com seus passos e sua voz angelical e ainda assim poderosa.
Jackson parte com o fim da cultura pop? No ano de Lady Gaga eu duvido muito. Mas sua morte é condizente com o que anda se vendo, com a realidade da cultura midiática e com a realidade da indústria fonográfica: vender discos simplesmente acabou. Larry King ontem falava: Thriller é o disco mais vendido da história, e não somente da história passada, de TODA A HISTÓRIA; passado, presente e futuro. Sua morte súbita, sem aviso prévio, é como o Napster, é como torrents; imediata, não-custosa. Como a Adriana disse: “Fiquei muito triste, é como se definitivamente os anos 80 fossem enterrados”.
E nisso eu concordo: não na sua influência musical ou na cultura, mas em como os anos 80 transforam toda a cultura popular que se originou nos anos 50.
Jackson, surgido numa gravadora que queria derrubar barreiras entre brancos e negros, derrubou todas as barreiras. Numa pesquisa nos anos 2000, Jackson, juntamente com o Mickey Mouse, eram mais conhecidos do que Jesus ou Alá. Seu nome é índice do poder da mídia; índice da influência que a mídia teve, principalmente até o séc. XXI, em formatar a sociedade (claro que não totalmente).
E, diferentemente da maior parte dos sites e blogs que eu li, eu fiquei feliz com sua morte. Michael Joe Jackson era uma pessoa talentosa, incrivelmente doce, mas era também uma pessoa com muitos problemas emocionais. Suas mudanças de aparência podem ser traçadas diretamente ao corportamento de seu pai (que admitidamente o chamava de feio e de macaco quando criança), assim como suas relações no mínimo preocupantes com crianças. Jackson era solitário, sofria no silêncio de suas mansões e através de suas jogadas de marketing (como casar com a filha do outro Rei).
Por isso eu digo. Agora talvez ele encontra a paz, o amor e atenção que ele sempre quis e, na verdade, só conseguiu por dançar e cantar, e não por ser quem ele era.
Goodbye, Jacko
Tchau, Michael. De repente agora tu descansa.
29 de agosto 1958 – 25 de junho de 2009.
Ouvindo:
Working Day and Night
Michael Jackson, Off The Wall, 1979.
Enlightment or Extermination?
“Estou a ponto”, diz Juliette ao papa, “de desejar como Tibério que o gênero humano só tenha uma cabeça para ter o prazer de cortá-la com um só golpe”
Essa frase foi tirada de A Dialética do Esclarecimento, de Adorno e Horkheimer, Excurso II, página93, da edição brasileira de 2006.
Como eu disse a alguns posts atrás, este é só um dos livros que ando lendo. Entretanto, de forma um pouco estranha, a maioria parece contemplar – mesmo que de perspectivas totalmente diferentes – o mesmo assunto: a condição humana, seja de perceber o universo, seja de governar a sociedade, a formação e deformação de uma forma de entender o mundo, seja de pensar a vida individual.
Nesse livro, em específico, a proposição reverbera em Lyotard e em Sfez; para construir um novo mundo é preciso primeiro ceifar este que aí está.
O problema do terrorismo: objetiva a destruição objetiva de uma realidade subjetiva através de medidas e pesos subjetivos. O medo, o terror, o pânico; finalmente, a morte.
A solução: vamos todos optar pela obliteração desse mundo. Nem me importo se eu for escolhido pra destruição. Prefiro as completudes absolutas; morte ou vida. Semi-vida, quase-morte, morto-vivo, vivo-morto…
Mecanismos Naturais de Extinção
om, há muitos anos mesmo, desde os tempos de colégio, há pelo menos uma década, toda vez que a discussão (inútil) é sobre meio-ambiente, preservar os recursos e riquezas naturais, eu sempre lanço a premissa de que o homem seria, assim como algo aos moldes de uma Era do Gelo, uma mudança geológica ou climática brusca ou algum desastre de proporções gigantescas entretanto plenamente natural, sim um mecanismo natural de extinção.
Depois de tanto tempo ouvindo que eu sou trouxa e não acredito no potencial humano, hoje, vendo os posts das pessoas descubro um no Mondo Estudom me levando a uma matéria da Folha de São Paulo falando, sobre cientistas britânicos e australianos, principalmente da Universidade de Exeter, que descobriram através da datação do carbono e de outras evidências que o homem pré-histórico foi sim responsável pela massiva extinção de diversos animais de grande porte (o exemplo dado pela matéria é o canguru gigante da tasmânia).
Em matéria do News.Scotman.com:
As the climate in Tasmania was not changing dramatically at this time, the researchers say this is evidence of these species being driven to extinction through over-hunting by humans. Professor Chris Turney, from the University of Exeter, a co-author of the paper, said: “It is sad to know that our ancestors played such a major role in the extinction of these species – and sadder still when we consider that this trend continues today.”

'Procoptodon goliah': uma das espécies investigadas no estudo que, a partir das conclusões, foi sim morto pela ação humana.
Não, Chris Turney, não é uma tendência (“trend“), é uma condição humana. Detesto determinismo biológico, tecnológico, na verdade, qualquer tipo de determinismo, mas tenho que dar o braço a torcer para a teoria de que o homem é, na verdade, programado (outra palavra que odeio) para destruir, levado por, talvez, um instinto natural a executar massivamente outras formas de vida (a princípio a seleção é feita tendo como privilegiado no processo as espécies maiores que forneceriam maior lucro imediato em termos de recursos – peles, ossos – e comida; entretanto as pequenas não escapariam).
Em Mongabay.com:
Earlier research by study co-authors Tim Flannery of Macquarie University and Bert Roberts of the University of Wollongong has shows that 90 percent of mainland Australia’s megafauna disappeared about 46.000 years ago, shortly after humans first settled the continent. Humans didn’t reach Tasmania until 43.000 years ago when lower sea levels due to glaciation allowed them to walk from the mainland.
“The Tasmanian results echo those of mainland Australia, putting humans squarely back in the frame as the driving force behind megafaunal extinction”, Roberts explained.
Não é a tecnocultura capitalista nascida nas entranhas do século XVII que deram para o ser-humano uma total indiferença em relação a percepção holística do mundo. É, em termos, intrínseco ao ser humano procurar formas rápidas e práticas de reduzir a necessidade de recursos de sua população, por mais infíma que ela seja. Esse estudo enseja o fato de que outras “megafaunas”, outros gigantes terrestres, tenham sido também exterminados em diversas partes do mundo pelas populações humanas que migraram para aqueles lugares. O trabalho de Turney, assim como o de Flannery e Roberts, traz à tona a realidade de que animais como mamutes e tigres-dente-de-sabre também teriam sido aniquilados não por mudanças evolutivas ou climáticas, mas sim pela ação coletora-caçadora desregrada das primeiras ‘colônias’ humanas em lugares de díficil migração como algumas regiões dos EUA e da as ilhas britânicas.
Percebo, extrapolando, que podemos lançar mão dessa teoria para explicar muitas coisas. Entretanto, mais triste do que saber que nossos ancestrais tiveram um papel na extinção desses animais, ainda mais triste do que saber que esse tipo de atitude desmedida ainda ocorre de forma quase-institucionalizada e ainda muito mais triste ainda pensar que, se o homem foi mesmo responsável pelas extinção desses gigantes, isso com certeza forneceu recursos para os imaginários ao redor do mundo sobre MONSTROS., é pensar que, talvez, esse instinto, em termos, seja responsável por ações como as da Rússia, da Geórgia, da China, dos EUA, dos nazistas, em Kosovo, Bósnia, e tantos outros países que, de uma hora para outra, resolveram medidas drásticas para solucionar seus problemas financeiro-econômico-sociais e essas medidas, quase que sempre, envolvem o completo extermínio de uma raça, etnia, credo, de pessoas… não animais.
E nesses tempos de Olímpiadas num país rico que não paga os construtores dos estádios, de retorno da Guerra Fria e de guerras abertamente por óleo, fica a dúvida de que, talvez, e só talvez, tudo isso seja o ensejo do mecanismo natural de extinção, encrustado no coração de cada homem, mulher e criança, acionando sua parcela provavelmente mais triste: depois de extingüirmos tudo, extingüiremos a nossos mesmos.
Compactuando a Macomunagem
Algumas relações entre coisas do mundo são feitas por sua simples obviedade, entretanto outras são de uma abstração tão grande que podem francamente beirar a idiotice ou loucura.
Peguemos o “Senhor” Isaac Newton. Até então, obviamente tudo cairá na terra. Se pegassemos uma pedra, e a lançassemos para o ar, num ângulo de 90 graus, digamos, ela certamente subiria, pararia por um pequeno instante no ar e cairia. Uma gota de água escorreria lentamente até o chão, uma maçã, eventualmente, se despreenderia de seu galho e cairia. Newton, porém, pensou essas simples observações de uma forma bem diferente, alterando, poderíamos dizer, os eixos das forças. Não era a maçã que caía, era o Planeta Terra que a puxava.
Pros tempos de Newton, loucura total, como diriam alguns amigos meus. Hoje somos totalmente cercados por um mundo técnico-científico construído ao redor destes princípios; até certo ponto, nós mesmos somos moldados por esta mudança no entendimento de como a realidade opera.
O que quero dizer, é que nossa percepção da realidade, suas conexões principalmente, às vezes nos escapam totalmente, deixando-nos simplesmente levar por fabulações, glorificações e principalmente parcialidade. Obviamente um católico ferrenho não pode e nem jamais poderia acreditar em Darwin: não existiram 60 milhões de anos; a idade teológica do universo é, e sabe-se, infinitamente menor que isso.
Mas não pára por aqui. Esse tipo de, chamemos, fabulação acontece nas mais variadas categorias. Eu, pessoalmente, tenho uma preferência pelas fabulações do tipo B, sofisma. Como, de certo forma, anda rolando nas terras do cáucaso. Eu digo que o russo é bobão, sempre foi bobão e não quer parar de ser bobão. O russo diz que eu que comecei sendo bobão muito antes, que eu nunca deixei de ser bobão, e que as bobagens tem que parar. Ou o Bush dizendo que é deplorável dois países de Segundo Mundo, um deles com, se não me engano, a maior frota de tanques militares do mundo, trocarem umas bombinhas bem no meio dos Jogos Olímpicos.
De certa forma, essa fabulação incrível é uma sofisma por induzir ao erro de pensar que as coisas, de fato, estão acontecendo num plano linear e cartesiano, de causa e conseqüência, causa e conseqüência, causa e conseqüência até o final dos tempos quando na verdade, estamos falando de pessoas. SERES HUMANOS. Com desejos e vontades que superam e sublimam causa e conseqüências. Na verdade, este é, segundo algumas pesquisas, uma das maiores causas de doenças psicológicas e ligadas ao estresse: sublimamos nossa capacidade de sofrer, esquecendo a dor propositalmente ela fica guardada numa caixa num canto muito, muito escuro. Detesto essas transposições de psicologia para sociologia ou psicologia social, mas nações, povos, grupos sociais, de certa forma também operam nesse eixo de força: a opressão assim como a tortura sempre terá seu breaking point quando, mesmo vivo, o torturado já está morto. E mesmo morto, o torturado vive.
A liberdade quer acontecer tanto quanto a opressão e ambas agem no mesmo eixo, eu penso.
E isso, também a meu ver, nos leva aonde eu queria chegar, que é o lado sombrio desse entendimento: queremos encontrar os espiões, aqui na China, porque eles estão impedindo o governo de nos dar melhores vidas. A mentira (verdade) da opressão e a verdade (mentira) da liberdade andam de mãos juntas não no soldado dentro do tanque russo invadindo uma cidade georgiana, nem nas tropas de elite americanas tomando conta do jardim-da-infância chamado Iraque, elas estão sempre trocando pés nas estrada de ouro do imaginário humano. Vemos as coisas maiores do que são. Menores do que devem. Temos certezas científicas sobre coisas que daqui dez anos serão absurdos científicos. Erros e fraudes científicas, além é claro, da óbvia miopia inerente ao ser humano, acontecem todos os dias, mas o mundo continua acreditando nas pesquisas, estatísticas, objetivações e quantificações do gado humano, da reação química sociedade e do desenvolvimento viral de ditaduras e guerras.
Mas nem precisa ir tão longe: o próprio discernimento das pessoas já faz essas conclusões absurdas, essa demonização/glorificação das coisas, como a ciência faz com vegetais, gorduras, exercícios e hábitos. O pulo e a objetivação são as coisas mais comuns. Como se objetiva as ligações e conseqüências de nossas atitudes quando, a subjetividade delas indica certamente uma resposta alternativa.
E eu um questionamento:
Quem é o criminoso quando um adolescente norte-americano, branco, de classe média-alta, compra numa grande loja como Wal Mart, a preços acessíveis, uma calça jeans que foi produzida por uma garota de 14 anos numa fábrica na China que paga seus funcionários menos de 0,15 centavos de dólar por hora de trabalho com jornadas de trabalho que podem chegar a 20 horas diárias? Quem é o vilão quando a gente vai até o camelô do centro de Porto Alegre e compra algum produto, como um pequeno rádio de pilha pra ouvir o jogo no Estádio, e este produto foi contrabandeado do Paraguai, onde chega a preços rídiculos, vindos da mesma China, numa fábrica, digamos, ao lado daquela primeira? Não seríamos TODOS nós, em todos os níveis, culpados ou no mínimo coniventes e patrocinadores desse sistema?
… e enquanto isso…
A migração de brasileiros para o Canadá parece começar a afetar o corpo imagético daquele país.
Nos últimos dias: domingo, dia 10, tubulações de gás probano explodiram, deslocando mais de 12 mil pessoas da região de Toronto e possivelmente envenenando o ar com partículas de amianto. Dia 31 de julho, a polícia prende homem supostamente responsável pela decapitação de um jovem de não mais do que 20 anos durante uma viagem de ônibus, nas proximidades de Winnipeg. O homem portaria uma enorme faca e não só decapitou e esquatejou a vítima, como comeu uma parte do rapaz, utilizando tesouras para cortar a carne. Hoje, dia 11, entre outros, 2 canadenses foram presos pelo governo chinês e deportados por protestarem sobre a política chinesa em relação ao Tibete.
Entretanto o ponto alto, ironicamente ou não, aconteceu no dia 10 mesmo, ontem, quando um policial atirou em Freddy Alberto Villanueva (latinuuuu) matando-o. Hoje, em vários jornais, inclusive o que passa aqui no Brasil agora de noite da BBC, a matéria do momento sobre o Canadá foram as manifestações da população, a lá França, atacando a polícia, queimando carros e saqueando lojas. Porém, o máximo que aconteceu, foi uma oficial da polícia levar tiro na perna. Situação muy brasileira essa, se me permitem; policiais matando adolescentes desarmados. Mas vemos que também é muy norte-americana; policiais matando adolescentes desarmados de minorias étnicas/imigrantes. Afinal de contas, canadense com sobrenome Villanueva não é bem canadense, né?
Mas digamos que o Canadá não é o único com problemas. Na Alemanha, até Christiane F. já recorreu as drogas e campo de treinamento de juventude nazista é encontrado pelas forças policiais.
É pra eu morder minha língua quando eu disse que absurdo era a China sediar as Olímpiadas.
Absurdo é Bush falando as coisas que está falando (vejam este link chique pro pronunciamento completo, e o vídeo para o que importa mesmo), principalmente dizer que o que a Rússia faz é inaceitável no séc. XXI.
Me desculpem, mas qual é a diferença da aparente justificativa russa para a justificativa norte-americana em invadir o Iraque, tanto lá nos anos 90 quanto agora?
O governo russo diz que a Geórgia estaria assassinando e esmagando a região da Ossétia do Sul, a Geórgia diz que o governo russo está desestabilizando o país. Os russos acusam a Geórgia de ser criminosa de guerra, e os geogianos acusam a Rússia da mesma coisa. Bush diz: “Russia must respect Georgia’s border and sovereignty“. E isso é muito risível. E no ínterim, enquanto Bush mete o pau em Putin (heheheauehauehauhe), Sarkozy bola plano fantástico e representantes russos respondem “Valeu, francesinho, mas não, obrigado, prefiro tomar o porto de Poti onde passa todo dia todo aquele óleo, mas é bem pelo bem dos osséticos do sul”.
E pela falta de atenção e de certeza do Ocidente e da Europa, os geogianos reagrupam suas forças militares para defenderem a capital, e no disse, não-disse, burocracia e diplomacia de cuecão, quem sofre são as milhares de pessoas removidas de suas casas fora os números ainda indecifráveis de mortos, feridos e daqueles que mais que isso, perderam tudo, inclusive as famílias.
Ah, claro, sem contar o xororô da mídia que não explica e nem procura entender as razões do conflito, que repete mil vezes as mesmas cenas do presidente georgiano sendo escondido por seus seguranças ou do discurso idiótico de Bush.
Ninguém tá olhando, vamos nessa…
Bom, as Olímpiadas que foram inventadas pelos gregos, até onde aprendi no colégio e em uma ou duas cadeiras da faculdade, tinham o objetivo de unir as nações da Grécia gerando um halt de qualquer combate militar. Bom, hoje eu vi os rapazes do vôlei de praia brasileiro, Ricardo e Emanuel, baterem o time, que apesar de composto por jogadores brasileiros, era da Georgia. E depois fiquei sabendo que as meninas no vôlei ‘convencional’ tinham batido o time da Rússia.
Ambas nações são participantes das Olímpiadas, entretanto, nos últimos quatro dias (ou seja, os conflitos começaram como ensejo dos jogos) já se somam dois mil mortos, segundo algumas fontes. O presidente da Georgia, apela para a comunidade internacional (“please, wake up everybody“) pois, para ele, o que está acontecendo é a aniquilação de uma nação democrática, através de uma limpeza étnica. Segundo ele também, as fronteiras da Georgia teriam sido invadidas por – aproximadamente – 1200 (MIL E DUZENTOS) tanques russos. Ele acusa a Rússia de ter planejado o ataque e que nenhuma ação de seu país poderia justificar uma invasão aparentemente premeditada e de tão grande porte. Ele inclusive usa a expressão “MUDER OF A SMALL COUNTRY“.
Vou ser sincero e dizer que eu nem imaginava a vida na Georgia até uns dias atrás. E se alguém me dissesse “ah, a Georgia…” eu ia ficar pensando um pouco até me lembrar que era uma das tantas nações da União Soviética. E pelo que entendi até agora, esse pequeno país do cáucaso, não é tão pequeno e muito menos é desimportante.
Citando e devidamente linkando o site do Globo, mencionando uma matéria da Reuters:
Mais 200 mil barris de óleo são escoados do Azerbaijão pela Georgia… POR DIA. No outro porto, o de Poti, chegam a 100 mil/dia. E a tal explosão mencionada pode não ter nada a ver com a guerra, mas a capital da Ossétia do Sul fica há somente 100 quilômetros do óleoduto.

Não vamos esquecer que a outra Ossétia, a do NORTE, foi palco do massacre de 186 crianças (331 pessoas ao total) na escola de Beslan, em 3 de Setembro de 2004.
Convenhamos, yet another war for oil. E não pensem que é sem relações. Georgia participou da aliança de países rídiculos que se uniram aos EUA pra invadir Iraque, juntamente com os geniais Coréia do Sul, Austrália, Polônia, Romênia, El Salvador, Bulgaria, Albania, Mongolia, República Tcheca, o bom e velho Azerbaijão, Tonga, Dinamarca, Armenia, Ucrânia, Macedônia, Bóznia Herzegovina, Estônia, Latvia e Singapura. Todos, com a exceção dos EUA, contribuiram com bem menos de 1000 soldados. A Georgia inclusive repatriou alguns soldados iraquianos. Então, chegamos, pelo menos parcialmente, à conclusão de que a Georgia pode matar iraquianos pra ajudar os EUA com óleo mas a Rússia não pode matar georgianos, muitos deles com dupla nacionalidade geórgia-rússia, por óleo? Matar suas próprias crianças não é fato inédito nas Ossétias (pelo menos na do norte).
No meio do conflito, esmaga-se a informação de que a região da Ossétia do Sul quer – ou aparentemente quer – se desligar da Geórgia, se tornando independente ou anexada à Rússia. E na confusão, de contar as coisas com pressa porque tem que cobrir a importantíssima prova de natação que Michael Phelps vai vencer com certeza, perde-se o horizonte de que os dados sobre mortos e feridos são, no mínimo, questionáveis, a mobilização de ajuda humanitária é um band-aid pra tratar amputação e que são os próprios russos (em território russo) que estão prestando ajuda com hospitais móveis aos refugiados do conflito. Bush faz cara de “vejam só o que os russos estão fazendo agora”, com sua inépcia de sempre e Vladimir Putin acusa-o de interferência.
E fica no ar aquele clima autoritário do qual falava em posts anteriores, aquele que envolve genocídio, violência desmedida, assassinato de civis, destruição de hospitais, escolas, etc., tão bem caracterizado pela palavra monstro. Segundo o site da BBC Brasil, Geórgia tira tropas da Ossétia do Sul – matéria de ontem – e Rússia abre nova frente de combate – matéria de hoje. Melhor que isso só estado binacional em Israel…
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Tive que voltar aqui, quase uma hora depois de postar pra editar o post e colocar isso:
Bush diz em entrevista a MSNBC que as ações da Rússia na Geórgia são inaceitáveis.
E no vídeo a nota de voz dada por Bush sobre o conflito dias atrás:
E ainda mais legal é o embaixador russo na ONU…
Notem que o embaixador norte-americano diz o seguinte: “A era de derrubar governos, NA EUROPA, através de conflito armado acabou faz muito tempo…”, só faltou completar: no Oriente Médio? Ah, daí tudo bem…
Fog City?
Até onde eu sabia, as Olímpiadas de 2012 é que deveriam ser na cidade da neblina, e não as desse ano. Entretanto, as imagens trazidas para nós pelos sites, emissoras e jornais mostram outra história.
Uma das discussão que mais veio à tona com esses jogos olímpicos de Pequim [sim, porque Beijing eu não sei onde fica...] foram os tais direitos humanos, a questão do Tibete. Porém, parece estar passando batida uma questão ainda mais fundamental, que afeta a todos nós e não só aos de nacionalidade chinesa [voluntária ou involuntária, né Dalai?]: a questão da poluição.
Esforcei-me nessa manhã, estranhamente parecida com as vistas de Pequim, para encontrar uma outra cidade [ou mesmo nação, porque vendo ontem imagens da Muralha da China a situação parecia igual] que possuísse uma visão igual a de Pequim. Não encontrei. Hoje, em matéria do JA, aquela repórter Streb mostrou o que, desde que começaram a mostrar Pequim, eu ainda não tinha visto: um céu azul. Mas não um céu azul em contrapartida à uma tarde chuvosa ou uma neblina londrina, não, era um céu azul em contraponto a uma triste, premente e contínua neblina de poluição que praticamente esconde a cidade.
É quase uma coisa vinda de filmes de ficção científica com aqueles futuros pós-apocalípticos.
Minha questão é: direitos humanos e seus tropeços são coisas que afetam diretamente a população da própria China, ou seja, no fim do dia o problema é deles. É um problema político que eles mesmos dizem se reservarem a resolver. Entretanto, o problema da poluição é transnacional. Os detritos e emissões poluentes da China navegam pelas correntes de ventos e afetam o clima do planeta como um todo. E em tempos de ser ecologicamente correto [coisa que foi absorvida pelo politicamente correto] me indago porque nenhum país fez objeções. O governo chinês diz que vai “resolver o problema” e magicamente hoje, em Pequim, não há neblina e o país, incrivelmente, não parou de funcionar. O que me leva a crer que o país poderia passar muito bem sem esse tipo de atraso moral, político, ecológico e humano.
Olímpiadas deveria ser a união dos povos, a maneira grega de entender que, na verdade, no fim do dia, somos todos humanos presos a nossos corpos materiais e seus tão claramente definidos limites. Entretanto, essa Olímpiada, diferentemente de outras, como a de Sidnei ou Atenas, não é sobre superação de limites e irmandade da humanidade: é sobre relações públicas. E sobre como esconder um país mergulhado numa concepção sócio-cultural arcaica e desumanizante, que faz de ‘flanelinhas’ e motoristas de ônibus espiões do governo. Um país que não tolera ser contrariado, que prende pessoas com camisetas e cartazes de “Tibete Livre” enquanto esmagam a população dessa região com bárbaros militarismos e a população mundial com as nefastas conseqüências da sua ignorância relativa a poluição.
Não vejo razões pra se comemorar essas Olímpiadas. E como aqui, no meu blog, não devo satisfações a editores e governos, destaco minha posição:
Essas Olímpiadas são a demonstração máxima do que há de pior no mundo hoje, a LEGITIMAÇÃO DOS MONSTROS. Assim como Bush e suas guerras, essa competição terá o mesmo teor amargo da enganação, do engodo, da validação de posições políticas absurdas. É uma imensa geração de renda e de legitimação mundial [principalmente entre as crianças, que adoram a mercantilização das olímpiadas e não tem o discernimento necessário para entender o que REALMENTE está acontecendo] que, graças ao pouco de inteligência do mundo, está fatalmente falhando. Os setores de turismo da China estão fazendo promoções pois as vagas que se esperavam estarem tomadas estão abertas, com centenas de hotéis e hospedarias com quartos vazios, aviões e ônibus parados esperando turistas que nunca chegarão. E mesmo que os meios de comunicação criem duzentas mil explicações, o motivo é óbvio. Quem quer ir pra China? Quem é que quer dar dinheiro prum país atrasado, que executa pessoas a esmo, que há várias décadas DOMINA regiões totalmente independentes? Que poluí tanto que o ar de cidades como Pequim e Xangai é perto do IRRESPIRÁVEL?
Talvez eu esteja enganado, quem sabe? Mas vejo essas Olímpiadas ficando marcada nos corações e mentes das pessoas como a de Berlim: jogos internacionais marcados pela opressão, pelo ‘arcaísmo’ político e moral num país preconceituoso, racista, atrasado e violento. Só que ao invés de nazismo, agora temos poluição desenfreada, nenhum direito trabalhista e violência desmedida. Para mim, essas Olímpiadas vão ficar marcadas como as Olímpiadas da poluição.
Enriquecer depois de morto
Eu odeio o Orkut. Odeio mesmo, acho péssimo. Na minha opinião, a única utilidade dessa tal rede social é fuçar na vida dos outros [o que todos fazem, sem exceção]. Never the less, eu ainda assim uso. Tenho lá meu perfil [que já foi deletado e refeito várias vezes] que se nega a ter mais de cem amigos [não tenho nem 40 amigos na vida real, é deprimente...]. Hoje, num acesso de tédio, fui lá entrar em algumas comunidades e ler algumas das merdas que se fala por lá, e não é que é bem com merda que me deparo.
Na comunidade dedicada a homenagear nosso querido Herbie M. McLuhan [aqui e aqui], encontro um tópico assinado pelo dono da comunidade, dizendo o seguinte:
Galera
Todos sabem q os e-books não rendem ao autor os direitos sobre a obra q ele tem direito.
Por isso, excluirei todas as postagens relativas a isso.
Compreendam por favor, q existem comunidades especializadas nesse tipo de ação criminosa.
Atenciosamente
J Z Sollberg
Então fiquei pensando. Herbie morreu em 1980. “Não rendem ao autor os direitos sobre a obra que ele tem direito”, até onde eu saiba, os mortos não sacam cheques, nem os de royalties.
Então fico pensando. Não será mais justo, com a humanidade e com muitos desses autores [do tipo do McLuhan], que tinham em seus corações melhorar o entendimento da humanidade, que tais obras sejam tornadas patrimônio do mundo e gratuítas? Tudo bem, se meu pai inventou a fábrica de Coca-Cola, quando ele morrer, continuarei com seu império capitalista e continuarei produtivo. Entretanto, que direito tem os filhos de McLuhan em enriquecer com os despojos intelectuais de seu pai? Ainda se fosse alguma obra póstuma, deixada para trás em alguma gaveta, mas se trata de uma obra que MATERIALMENTE já concedeu ao seu autor e sua família, quando este ainda em vida, riqueza, poder, influência e notoriedade.
Vejam as obras dos clássicos, Platão, Aristóteles, claro que é bem possível que existam descentdentes diretos e indiretos desses autores, entretanto suas obras são comercializadas por diversas editoras e sites, a preços irrisórios ou inexistentes, pois ninguém está ganhando direitos sobre essas obras.
Não é chegada a hora de percebermos que conceitos como open source, free, right to knowledge, redux e remix inferem [se não escancaram] que a lógica mercantilista não pode mais ser levada em consideração quando falamos de conhecimento? Claro, durante muitos séculos conhecimento realmente foi poder, e isto ainda vale hoje, em termos de inteligência militar, engenharia de produção, entretanto, em diversas outras áreas, se percebe cada dia mais que a cooperatividade, o acesso irrestrito, a inteligência coletiva, geram muito mais resultados do que aquele cientista ou investigador sentado em seu escritório escrevendo suas fórmulas matemáticas e descobertas em códigos ininteligíveis. Vivemos um mundo da coletividade e almejamos um mundo de coletividade. O conhecimento – seja do código de um software, seja de obras intelectuais – deve ser livre. Veja a medicina, obviamente se ganha dinheiro com grandes descobertas, entretanto, elas seriam inúteis se não fossem largamente disponibilizadas.
O mesmo vale para diversas outras áreas. Vejam o Jazz, por exemplo. Muitos de seus ‘autores’ estão mortos. Charlie Parker, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, nosso querido Chet Baker – do post anterior, entre tantos outros e, quando de suas mortes, deixaram direitos de suas obras para seus descendentes que superam as riquezas de muitos que trabalharam a vida inteira em setores altamente rentáveis. Enquanto isso, gerações inteiras – como meu irmão de 17 anos e vários coelgas e amigos da minha idade – desconhecem totalmente esses trabalhos e pouco se importam.
Fala-se de música ilegal, mas ilegal é manter o conhecimento, a arte, a beleza, a estética, trancafiada em lojas de músicas que te cobram 40 reais por uma mídia CD, enquanto que no super-mercados (onde é caro) custam pouco mais de um real. Como cobrar por algo que, a partir da tecnologia vigente, não pode ser mais preso?
Fala-se muito dos programas livres de computador, entretanto parece esquecido [e soterrado nos milhões de dólares das empresas fonográficas e cinematográfica] que vivemos uma época de libertação das amarras. Uma época na qual pagar um provedor de Internet e ter uma máquina com algum espaço [ou um gravador de mídia qualquer] permite acesso ilimitado ao conhecimento. E percebe-se a estreiteza da mente humana nesse início de milênio: enquanto que qualquer besteirada hollywoodiana, no dia de seu lançamento, já está disponível online para baixar em programas P2P, como torrents, obras literárias e poéticas (mesmo clássicos imortais como Shakespeare, Byron e Poe) dificilmente são encontradas em sites ou para download. O ser humano, ocidental, pelo menos, não vive só de comida, água, sociedade… vivemos de cultura. E quanto mais somos expostos à cultura mais conseguimos desenvolver cultura. E o que falta é a cultura da liberdade de cultura: livros, HQs, jornais, música, filmes, programas de TV, são partes intrínsecas de nossa cultura mais querida e deveríamos ter direito ao acesso ilimitado à elas.
Filmes ganham dinheiro com bilheterias, e mesmo quem baixa filmes em casa nunca deixa de ir ao cinemas. Música e os músicos jamais ganharam dinheiro com vendas de álbuns (vejam que o Roberto Carlos é um dos artistas no mundo que mais ganha com vendagem de discos e ele não ganha nem um dólar por disco vendido), sempre se ganhou dinheiro com aparições em programas de TV, merchandising e shows, principalmente shows. Artistas plásticos ganham dinheiro com a vendagem de seus originais e jamais perderão dinheiro com a disponibilização de suas obras na Internet. Programas de TV ganham dinheiro com propaganda, então porque não disponibilizá-los na rede gratuitamente como milhões de blogs e sites que ganham dinheiro exclusivamente da mesma maneira? E a TV ainda ganha com product placement. Jornais, revistas, HQs, além de consumirem preciosos recursos naturais (papel, tintas à base de petróleo e outros produtos químicos), também ganham dinheiro da mesma forma que blogs e sites, com anúncios. Já as obras literárias, que ganham dinheiro com as próprias vendagens dos livros é que se encontram no dilema: obviamente ninguém quer escrever um best-seller e não ganhar nada com isso. Fala-se em vender e-books, mas eles logo seriam transformados em versões piratas, indiferentemente das formas de proteção eletrônica.
A solução? É de uma maturidade tamanha que, penso agora escrevendo, talvez seja até tolice propor tal avanço moral e ético da humanidade. Claro, Paulo Coelho pode continuar vertiginosamente ganhando dinheiro com seus romances boca-de-bueiro, entretanto, quando de sua eventual e certa (e muito antecepada por este que vos escreve) morte, seus livros deveriam se tornar patrimônio do mundo. Afinal de contas, o mundo pagou por isto. Vejam em matérias de revistas e da Globo onde o “Mago” (nojo total) tem diversos apartamenteos, diversos carros, diversos barcos, diversas roupas. Seus espólios, claro, serão deixados para sua família, e isto deveria bastar. Não se deveria sustentar sua família durante anos devido aos seus feitos em vida. Entretenimento? Não, cultura. E cultura deveria ser de todos, disponível para todos, em qualquer momento e em qualquer lugar.
É um sonho legal, apesar de soar tolo e inocente. Sabemos que a humanidade não está pronta para esse nível de maturidade existencial, porém, não custa nada sonhar…
Enquanto isso Marshall vai descontando seus cheques no Heaven’s ATM.
E pra provocar, só porque é legal (provocar e disponibilizar coisas), uma músicas de duas “gentes” morta pro pessoal ouvir de graça. Eu só pago pra pessoas tocarem, não pra máquinas reproduzirem. Culpe o Edison. Aliás, Ella morreu em 1966 e Louis em 1973. 42 e 35 anos respectivamente. E a coletânea na qual está esse disco é de 1977.
Ella Fitzgerald e Louis Armstrong cantando Let’s Call the Whole Thing Off, certamente, uma das minhas favoritas.
Semente McLuhaniana
Estranhamente não vemos, neste início de séc. XXI, novas formas de articular nossa imaginação e nossos medos e temores. Parece-me que estamos interinamente inseridos nos sonhos e fantasias de – aproximadamente – 10 séculos atrás. Enquanto que tecnicamente vivemos confortavelmente no ‘mundo do futuro’, moralmente ainda vivemos em cavernas.
Há 44 anos atrás um canadense nada muito convencional já clamava por uma surpreende volta – se não reversão. Para mim, faço sempre a comparação de que Marshall McLuhan ou era, de fato, um ser extra-terrestre ou ele veio na escalada um tanto quanto dramática de dramaturgos como Ed Wood e Rod Serling. Desejava ele um mundo – e isto, lendo qualquer trabalho dele – melhor e mais vasto. Arriscaria-me a dizer que ele almejava e traçava um mundo mais infantil. Como fiz com Debord em alguns artigos passados, farei também com este grande intelectual, que de certa forma, foi relegado a segundo plano ao mesmo tempo em que foi, massivamente, divinizado. Pelo amor de Deus! Até em filme ganhador do Oscar do Woody Allen ele apareceu… e ele é canadense.
“[...] temos visto, em nosso século, a zombaria aos mitos e lendas tradicionais transformar-se em estudo reverente. à medida que começamos a reagir em profundidade à vida e aos problemas sociais de nosso globo-aldeia, tornamo-nos reacionários. O envolvimento que acompanha nossas tecnologias imediatas transforma as pessoas mais ’socialmente conscientes’ em pessoas conservadoras.
Quando o primeiro Sputnik entrou em órbita, uma professora de ginásio pediu aos seus alunos da segunda série que escrevessem versos a respeito. Um deles escreveu:
As estrelas são tão grandes,
A Terra é tão pequena:
Fique como está.
Para o homem, o conhecimento e o processo de obter conhecimento possuem a mesma magnitude. Nossa habilidade em compreender, ao mesmo tempo, galáxias e estruturas subatômicas é um movimento de faculdades que as inclui e transcende. O ginasiano que escreveu os versos acima vive num mundo muito mais vasto do que aquele que pode ser descrito por conceitos ou medido por instrumentos de um cientista de nossos dias. Sobre esta reversão, escreveu W. Butler Yeats: ‘O mundo visível já não é mais uma realidade e o mundo invisível já não é mais um sonho’.”
Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem (understandig media), Herbert Marshall McLuhan, 1964, p. 52-53.
44 anos atrás. Não existia telefonia móvel, nem internet, mal e mal existia a noção de transplante, quanto menos bancos de órgãos. Incrível como certas mentes consegue manifestar uma “Síndrome de Prometeu”; manifestar de forma concreta o futuro e permanecerem, até o fim das sombras que nos iludem chegue, acorrentados. Hoje vivemos num mundo que para o McLuhan de 1964 seria completamente impensável. 28 anos de sua morte no aniversário do meu pai, 31 de dezembro. O cara não pode nem ver a completa deterioração da cultura norte-americana durante a década de 80. Não pode ver o muro cair. E estranhamente, lendo suas páginas de 20 anos antes de Berlim enfurecida declamar o final de uma era, vê-se claramente a apologia a isso. Ele via um mundo aldeia no qual raças, credos, culturas, todas, inexoravelmente, iriam convergir. E todos os dias isso recomeça com mais força, mais torque, sempre em direção a uma estranha – e eu diria até confortável – totalização da humanidade.
McLuhan, infelizmente, faleceu aos 69 anos de idade sem conseguir mergulhar de cabeça na chamada era do conhecimento. Será que ele sabia que hoje, apesar de todas as complexas extensões do homem, elas somente serviriam para ‘extender’ nosso ódio e nossas diferenças? O garoto ginasiano que ele cita hoje, certamente, é um adulto. Provavelmente até mesmo um idoso. Se ele estava na segunda série teria 8 anos em 1957, hoje, 51 anos depois, será que ele percebe o impacto, não só de seus versos, mas daquilo que pôde, pelo momento, presenciar? O mundo hoje ignora o muro, ignora o fatídico satélite, e, em muito, ignora Marshall também. O mundo tão lindo do conhecimento que McLuhan via nascer agora morre na mira de um sniper vingador no arenoso Iraque pós 11 de Setembro e Hitler suspira aliviado para seus comparsas por ter sido quase que totalmente esquecido. A última criança de Auschwitz-Birkenau está para se recolher definitivamente. Meios quentes e frios convergem hoje no mais extensor de todos os meios e leva ignorância e ódio até os últimos cantos da terra. Quem quiser pode ler as jutificativas deste Cortez moderno para seus playgrounds de qualquer canto do mundo na língua mater do neo-capitalismo inclusivo.
O livro de Constantino também está lá. Assim como o de Maomé e de Moisés. Há, sim, Marshall, o conhecimento. E ele se tornou tão fácil e ao mesmo tempo tão desnecessário. O cerceamento das liberdades “in the land of the free” também está disponível. Sim, querido, Marshall, os meios – e não só os de comunicação como os tecnológicos – são sim extensões do homem. Mas até onde queremos, ou melhor, podermos, extender o homem antes que seja tarde demais?
Se Marshall visse o mundo hoje em dia acharia que estava vendo Rod Serling ou veria, de maneira nada mais do que dramática, que ele também semeou-o? Ou será que de repente nosso querido Herbert veria com olhos baudrillardianos um mundo que jamais mereceu a dádiva de Prometeu?
Mesmo enriquecidos permanentemente pelo meio quente da escrita – levado à sua epítome pela Internet – ainda sim vivemos em cavernas, afastando nossos inimigos, predadores e possíveis colaboradores com as mais antigas formas técnicas. Continuamos perpetrando medo, preconceito, ódio e uma idiótica adoração por coisas que jamais teremos a capacidade de incitar.
Mas o pior mesmo é o ódio… esse, ah!, se extende em meios quentes, frios, escaldantes e congelados. E se não tem o que odiar, ah!, a gente inventa.




