Homo Sacer
“O problema com a ‘paixão do Real’ do séc. XX não é o fato de ela ser uma paixão pelo Real, mas sim o fato de ser uma paixão falsa em que a implacável busca pelo real que há por trás das aparências é o estratagema definitivo para evitar o confronto com ele”.
Bush foi como se o Nirvana tocasse nos anos 60: a única preocupação da banda que tocasse depois era se os equipamentos não estavam totalmente destruídos. Mas o show era no sul dos Estados Unidos, porque parece que ninguém tá gostando do following act, só a mídia.
CNN e MSNBC, principalmente.
O senhor Obama – como estranhamente o chamam – fell short on his promisses. Nada mudou. Sua batalhas para emendar ‘as caixas de som’ deixadas por Bush vai acabar, e parece cada dia mais claro, sendo apenas isso. Sua demagogia inteligente – que o cara não pode deixar de no mínimo reconhecer – só anda servindo mesmo pra inflar ainda mais egos e posições aberrantes.
A incapacidade – e talvez falta completa de vontade – por parte da mídia em se colocar numa posição imparcial, ou pelo menos parcialmente imparcial, denota ainda mais a travessia da fantasia lacaniana. O núcleo duro do real, como dira meu amigo Bruno, acionado pela despesa battailiana, nesse atravessar, resulta no nojo. Nem a esquerda (se é que chegou o momento de se dizer político e ideologicamente que há sim esquerda nos EUA), nem mesmo ela, consegue mais viver com o nojo que a concretização da fantasia causou.
Primeiro, e deve-se apontar, a repulsa gera primeiro um estranhamento. Como Zizek aponta metaforiando A Professora de Piano (2001): ao concretizar a vil fantasia do sexo e da submissão, a professorinha se vê repulsionada pela idéia de tudo. Não é que a fantasia fosse uma proteção contra a entrega do ato, mas ao torná-la real, ao se atravessar a fantasia é a própria fantasia que se torna uma defesa contra o ato em si.
A fantasia e o próprio imaginário hollywoodiano vem promulgando a anos a campanha de Obama. Os milhões de dólares gastos diretamente em comícios e propagandas poderia ter sido facilmente poupado: a população já estava devidamente treinada. Mas, assim como no WTC, o que se viu foi exatamente o que disse no parágrafo anterior: a concretização da fantasia (ou do pesadelo) concretizou, na verdade, a farsa. A farsa do cotidiano, esvaziado de seus sentidos na produção cultural, a cultura do cotidiano se chocou, neste atravessar, foi invadida pela realidade. A fantasia do próprio poderio americano foi dilacerada pela realidade dos aviões, do fogo e do colapso.
E Obama é, numa dimensão menor, a concretização do mesmo. A fantasia do bondoso líder mundial se desvanece na figura de um homem sério e brincalhão, que fala coisas além de seu tempo e que não resolvem as dicotomias atuais.
A cultura que aceita cada vez mais o inescapável multifacetado da realidade para não conseguir entender uma palavra que ele diz; oposicionistas acusam e apoiadores vibram. O sentido não faz mais sentido também. É vitória baudrillardiana? Poderia-se dizer, mas recuso-me a aceitar o termo vitória. Prefiro a catástrofe baudrillardiana. A antecipação do siécle XIX e XX, da grande tragédia que consumiria Ocidente e Oriente, sem distinção, veio na forma de signos.
Esse Real que tenta ser reinserido por Obama encontra somente o trauma: “exatamente por ser real, ou seja, em razão de seu caráter traumático e excessivo, não somos capazes de integrá-lo na nossa realidade (no que sentimos como tal), e portanto somos forçados a senti-lo como um pesadelo fantástico”.
Costumo invalidar os comentários pecaminosos da direita – a despeito de entendê-los – mas aqui abrirei, inspirado por trolls que acusam-me, um parágrafo para validá-los. É demagogia. É um presidente de araque que cumprirá seus quatros anos sem nenhuma promessa cumprida. A expressão usada, se não me engano, foi diletantismo obâmico. Mas amor a uma arte não é minha primeira opção para definir o entuasiasmo cego em volta dessa figura. Diferente da direita – e talvez também da esquerda – eu tenho posições multifacetadas em relação as coisas (e falo isso numa das raridades desse blog, também por ser acusado de não me posicionar, a despeito de depois ter sido horrivelmente acusado de ser esquerdista) e por isso fica difícil me posicionar completamente.
A princípio, como muitos, meu entuasiasmo estava sedimentado na idéia de que qualquer coisa seria melhor que Bush. Mas ‘coisa qualquer’ não apareceu; o que apareceu foi nada. O que apareceu foi um presidente acusado de ser liberal, mas dá de graça bilhões de dólares para salvar empresas que deveriam e precisariam falir. Acusado de esquerdista, ele favorece a guerra e o socialismo do qual é acusado, usando a mesma palavra, desvanece numa névoa de bilhões de dólares e centenas de afegãos mortos. Ele discursa em universidade cristã, falando sobre diálogo em questões como aborto e saúde, mas empurra uma estranha agenda de favorecimento e de impunidade.
Estranho, esse Obama.
Estranho por ser a dureza da realidade de que qualquer raça ou partido, “a competência e a perícia são proscritas”. Negro ou branco, negros e brancos continuaram na mesma. Mas ideologicamente it looks good, não é? O policulturalismo da “esquerda canalha” se vê também no fogo cruzado das múltiplas posições e múltiplas realidades. E o Real? Ah, esse é que é o problema.
“Geralment dizemos que não se deve tomar ficção por realidade – lembremo-nos das doxas pós-modernas (e essa vai pros meus admiradores e contestadores) segundo as quais a ‘realidade’ é um produto do discurso, uma ficção simbólica que erroneamente percebemos como entidade autônoma. Aqui a lição da psicanálise é o contrário: Não se deve tomar a realidade por ficção – é preciso ter a capacidade de discernir, naquilo que percebemos como ficção, o núcleo duro do Real que só temos condições de suportar se o transformarmos em ficção. Resumindo, é necessário ter a capacidade de distinguir qual parte da realidade é ‘transfuncionalizada’ pela fantasia, de forma que, apesar de ser parte da realidade, seja percebida num modo ficcional”.
E como o Homem-Rato freudiano, acuado em sua sublimação de classes, também Bush serve para acuar quem critica Obama, e ser para ensinar as massas que um presidente fraco é melhor do que um cruel.
As citações são do livro “Bem-Vindo ao Deserto do Real”, de Slavoj Zizek. Não lembro o ano porque estou sem o livro, só com os scans. É uma boa leitura complementar para qualquer coisa, mas principalmente para entender a cultura da mídia e a teoria baudrillardiana. Principalmente no que essas duas coisas se relacionam com a psicanálise freudiana e lacaniana e ao entendimento de que a realidade é algo multifacetado, construindo a partir de conflitos e acordos.
Incompetência: o post.
Então há DOIS MESES atrás eu andava me incomodando com a Net. Não só pelo crime abusivo que são as franquias, mas porque ao comprar uma franquia adicional – tava precisando, não é porque sou rico não, tá
? – eles levaram 3 dias para acionar. Ou seja, três dias pagando 3Mb e tendo 128kbps.
Mas a questão não é essa. A questão é que hoje, as 16:14 eu recebo um e-mai de resposta.
A inércia e a incompetência realmente reinam em qualquer lugar. NET, Claro, Vivo, toda e qualquer empresa que preste um serviço essencial nessa era tecnológica tem, como nos romances de Gibson e Orwell, o controle total sobre suas ações. Não há responsabilidade; e muito accountability – ninguém responde por essas coisas. Um punhado de pessoas consegue processá-los, lucrando alguma esmola, enquanto que dezenas de pessoas estão completamente a mercê dessas empresas.
É realmente tão assustador quanto alguns autores previram. Talvez não tão fascista ou ideológico, já que o único interesse mesmo é te enganar e tirar teu dinheiro. Na Claro há anos eu me incomodo e as respostas do Procon sempre são como a desse e-mail: vagas. Qualquer idiota sabe que vai ter que eventualmente ir ao Procon com uma certa documentação para fazer a reclamação, entretanto o e-mail nem mesmo especifica que papelada seria essa. Ou seja: tu trabalha, já não tem tanta grana assim. Só de passagem de ônibus ou gasolina esse e-mail já indica que serão pelo menos 4 VIAGENS até tu conseguir agilizar o que precisa ser feito.
Por muito tempo muita gente disse: “O Brasil é uma vergonha”. Mas basta assistir a BBC ou a CNN durante duas (ou diria, duras) horas pra ver que lá nus states e nas europa também é bem igualzinho. Valérioduto ou Mensalão, não importa, ingleses usa pra comprar biscoito e limpar um fosso.
Mas daí tu pode me dizer: “ah, mas na anglo-terra a coisa é democrática. enquanto que no brézil eram 85% dos parlamentares envolvidos, lá o índice de participação no esquema de desvio de verbas púbricas pra uso pessoal chega a espantosos 99%”.
E nosEUA a gente vê a inércia social completa: Cheney aparece na TV, ao mesmo tempo que o presidente, fazendo exatamente aquilo que ele dizia, 6 ou 7 anos atrás, que jamais poderia ser feito: “se questionarmos o presidente, mesmo que ele esteja errado, passamos uma imagem de fraqueza para nossos inimigos”. Agora questionar o presidente democrata e negro não tem problema, nas próprias palavras dele “é um dever e uma obrigação de todos os americanos”. O cara ADMITIU COM TODAS AS PALAVRAS nos últimos meses que Bush jamais passou de uma marionete; Cheney é que tomava as decisões e agora é ele que vocifera a oposição. O fascismo e o inimigo da liberdade, meus amigos, está bem ali. Não é mais uma coisa simplesmente econômica, não é mais interesses empresariais… É IDEOLÓGICO: “não há meio termo” e não estou citando levianamente. O Daily Show de ontem ainda fez a edição exatamente nesse ponto: ele realmente disse isso. Segundo ele, torturar até mesmo inocentes é o preço a se pagar pela proteção. Isso vindo da boca da administração de ignorou VEEMENTEMENTE TODOS OS AVISOS E ALERTAS DE QUE TERRORISTAS IAM TENTAR SEQUESTRAR AVIÕES EM SETEMBRO DE 2001.
E, assim como no Brasil do deputado cassado que se reelege, nas américa também a memória é curtinha. Aqui a preocupação cotidiana lá é o medo mesmo. Enquanto aqui os impostos, a incompetência de esquerda, direita e centro, impossibilitam a mobilidade social (quer dizer, impossibilitam a mobilidade social para cima; para baixo elas favorecem), lá é o medo mesmo. “Saúde gratúita e livre para todos” só pode ser um golpe. “Então você paga 4 dólares a mais por mês de impostos, não é de graça. Vamos ficar com nossos planos de saúde de até 2 mil dólares por mês”.
Lá nas anglo-terras também é meio assim. O escândalo aparece o tempo todo e nem os jornalistas que noticiam as novas revelações parecem se importar. “Tô mais preocupado com a minha Guinness em casa me esperando…” que nem aqui o cara tá mais preocupado com o Coritiba ou com os venezuelano.
E pra coroar esse post com a verdade acima de todas as outras:
GRIPE SUÍNA:
Aproximadamente 9 mil casos no mundo inteiro.
Aproximadamente 80 mortes.
PNEUMONIA:
Só nos EUA, no ano passado, quase 62 MIL MORTES.
Don’t let fear get the best of you…
Saison finale
Pois que agora entre essa semana e semana que vem temos os episódios finais das nossas queridas séries.
O final de House, que foi ao ar ontem, foi interessantemente corajoso; na verdade, boa parte dessa última temporada foi mesmo corajosa. The natural outcome of things… moralismo à parte – vicodin trip – realmente parece que as coisas estão saindo da lenga-lenga de sempre todas as coisas horríveis acontecem, mas eventualmente a ordem se restaura.
Mas House é… bom… reservo-me ao direito de deixar essa de lado (façamos uma análise posteriormente, quando a série puder ser analisada como um todo).
Meu papo mesmo é Fringe. A série do Abrams terminou com participação mais que especial de Leonard Nimoy; não foi tanto uma apresentação quanto uma entrevista de emprego. Ok, Spock. You got the job.
O susto mesmo vem no momento final do episódio: oito anos depois, democratas no lugar de republicanos, e o carinha do Lost me tem a cara de pau – ou coragem, ainda não decidi – de duas referências a uma realidade alternativa MUITO PODEROSAS.
Primeiro, uma agente Duhnam confrontada com um New York Post escadolasamente mostrando a manchete Obama’s Set to Move Into NEW WHITE HOUSE. Depois, ela mesma confrontada com o fato de estar dentro do World Trade Center.
Primeiro que Abrams parece estar mesmo fascinado pela matéria da modificação da realidade. Lost, Star Trek, agora Fringe. Pensando bem, a provável associação dele com Dark Tower também seja nessa exatamente por causa disso.
Mas é do cunho do cara da ficção científica de se dedicar a certas temáticas.
E até agora não tenho muito o que reclamar e, aparentemente, nem os fãs de Lost (categoria na qual definitivamente não me encaixo). Adorei o final, adorei a coragem que só depois que Arquivo X perdurou por 9 anos no ar mesmo pra ter: pegou e fez. Existe outra dimensão. Dá pra ir pra lá. Segurem suas calças: segunda temporada com Spock e viagens interdimensionais para todo mundo.

Montagem, imagem de arquivo? Não sei dizer... but it sure is creepy as hell, man. Vai dizer que não dá pra ver o aviãozinho chegando?
Mas é nerdismo o cara se apaixonar por essas séries. Eu, já tão desencantado com esse mundo desencantado, pego-me sempre esperando pelo pior. Mas vai saber, de repente Dawson’s Creek tenha sua segunda chance de imortalização, de repente Anna gatésima Torv, com seu estilo mulher durona do leste europeu – hard ass model like bitch - também se imortalize.
Acho essa série particularmente legal porque tem aquele toque de New Wave of Science Fiction, com o reencanto da ciência quase mítica ao mesmo tempo em que há um retorno àquelas temáticas da Golden Era e da Era Gernsback. Por quê não outras dimensões? É tão risível cotidianamente falando quanto viagens interplanetárias através de wormholes ou velocidade de dobra. Na verdade, pensando bem, até mesmo essas séries trataram disso.
Os únicos grandes dessa temática, em TV, se não me engano são o Dr. Who e o Sliders.
O que me garante o benefício de dizer que tudo bem, jj, pode fazer…
E agora os coitado que assistem as séries tem que ficar com os repeteco com 12 a 18 minutos de propagandas na TV a cabo, porque temporada nova só em setembro. Tudo bem, tem algumas que ainda vão mais um pouco, mas as grandonas, xi, essas já uera.
Por isso agora estou baixando Star Trek – The Original Series
“Biden… como eu tinha te prometido, agora que completamos 100 dias na Casa Branca e ninguém descobriu tá liberado pra gente estourar aquela bomba”
“Você tem certeza, sr. Presidente?”
“Biden, pode me chamar de Barry… olha só o tamanho dessa mariola e vai me dizer que tu vai negar…”
Minutos depois, Biden sente uma larica esmagadora e convence o presidente, que está jogando pinball, a irem comer um xis na rua.

- PAREM O MUNDO (literalmente), EU QUERO UM XIS
Cada um pagou US$ 6,95 (quase R$ 15) pelo hambúrguer e foi servido como um cliente normal.
Interessante mesmo é o link que dá pra fazer dessa notícia pro que eu e o Coiote conversávamos ontem.
Health Care ou Health Careless?
A discussão norte-americana mais ferrenha e imbecil anda sendo a de que Obama quer criar um modelo de saúde pública igual ao dos lugares civilizados do mundo – inclusive o Brasil – no qual existem os serviços privados, entretanto, as necessidades básicas de saúdes são e devem, obrigatoriamente, serem supridas gratuitamente.
Aonde chegamos para encontrar pessoas educadas, inteligentes, representantes da população que afirmam a plenos pulmões que isso será pior para a população?
Como que uma pessoa que ganha 8 dólares por hora vai se fuder mais se seu câncer ou furúnculo for tratado gratuitamente? Como que uma família que acabou de perder um dos pais para uma longa doença degenerativa pode ficar pior do que com as contas de hospital que será obrigada a começar a pagar depois de sepultar seu ente querido? Como que uma pessoa que tem câncer no cérebro vai ficar pior do que à mercê de empresas de seguro de saúde – os famoso HMOs – que nega seu pedido para uma cirurgia que tem 90% de chance de dar certo por causa de uma tecnicalidade no contrato?
Nos EUA, há anos, existe sistema público de educação.
Por favor, algúem, qualquer um, até anonimamente, pode me explicar isso? Pode, por favor, me explicar como é que a educação de uma pessoa pode estar a cargo do governo, a educação, uma coisa altamente ideológica, que envolve a formação categórica de um ser humano, e a saúde, o momento de maior fragilidade de uma pessoa, quando ela realmente precisa de ajudar não para se desenvolver, MAS PARA CONTINUAR A EXISTIR, não.
Alguns republicanos, inclusive Mitt Romney e Jeb Bush foram retratados no Daily Show de ontem falando sobre a revitalização do partido republicano. De todos os absurdos que saem e saíram das bocas e canetas desse partido nos últimos 30 anos, me desculpem, nenhuma supera a paranóia anti-comunista, já no seu quinto decênio, sobre uma medicina socializada que será o fim dos Estados Unidos. Bush, se não em engano, nos passos de seu irmão e pai, afirma que o governo deve subsidiar a formação de profissionais para o benefício do estado.
“A gente subsidia tua faculdade de engenharia naval, mas se tu tiver falência renal e precisar de um transplante, bom, daí boa sorte…”
Eu simplesmente não consigo entender. É como se estivéssemos tendo a prova definitiva de quase 50% dos representantes norte-americanos são, de fato, vicious people.
Negar auxílio na área da saúde é homicídio por negligência.
Eles não são simplesmente burros e incompetentes, corruptos e ligeiramente criminosos, Bushs, Cheneys, Romneys, esses caras são piores que criminosos de guerra. O que eles realmente pensam em relação às diferenças de classe, aos problemas sociais, é, de fato, que ricos vivam e pobres morram. A ignorância é tamanha que eles parecem, de verdade, acreditar nas propagandas mentirosas feitas durante quase meio século contra as formas socializadas de saúde, educação, economia, em suma, de estado, retratando-as sempre como perda de liberdades.
“Sim, com os republicanos no poder você tem o direito e a liberdade de MORRER”
Naquele desenho animado Family Guy, a família da mulher de Peter, a família Pewterschmidt, de repente não parece como um exagero cartunesco da típica mentalidade direitista, convervadora e republicana nos EUA.
Bilhões em mísseis que JAMAIS SERÃO USADOS… mas teu seguro-saúde quem paga é tu mesmo.
É uma estranha distorção da proposta de Sfez de que uma das grandes utopias, humanas e tecnológicas, vividas na contemporaneidade seria a da Grande Saúde, da Saúde Perfeita. Percebe-se, em retrospecto, que não se trata de uma utopia total, absoluta, não se trata de projeto de transformação total da vida humana; um marxismo de classe, uma ideologia dos escolhidos permeia totalmente esse engendro da fantasia.
Living forever sure isn’t for anyone…
Obama: the integrity of the judicial process…
John: Judicial process… code for… is that abortion, right?
Aasif: No. That’s code for gay marriage.
Daily Show w/ John Stewart, 4 de maio de 2009.
O tópico é a seleção do novo juiz da suprema corte e o fato de que o Presidente Obama disse que um dos critérios seria a empatia do candidato. A mídia norte-americana concluiu que por “empatia” o presidente quis dizer “um juiz ativo” e John já conclui que isso é um “juiz pro-choice“.
Pânico na TV
E não é o ótimo programa humorístico da TV brasileira.
Caso Zero da gripe suína encontrado.
Criança norte-americana morre por causa da doença.
E ainda tem:
Air-force One dando rasante em Nova Iorque.
Parece um pouco extremo. Um dos jornalistas, numa transmissão, inclusive disse algo como “dezenas de milhões morreram se a gripe suína não for erradicada”.
Onde começa o pânico?
Teabaggin’
Nas últimas semanas finalmente se concretizaram minhas profecias. Republicanos, na sua totalidade brancos de classe média e alta, saíram às ruas dos EUA para protestarem pelos impostos.
1) Obviamente esses protestos tem um toque de hipocrisia: não é tanto pelo dinheiro e pelos impostos, ou a “socialização dos Estados Unidos”, é sobre raça. Nas fotos nos sites podemos ver cartazes tão óbvios que fica chato: “Rei Obama”, “Obama, devolva o lugar de Deus”, e coisas do gênero.
2) Era previsto.
O que não era previsto é que esses protestos e manifestações teriam como tema um retorno a independência norte-americana ao mesmo tempo em que fazendo uma piada sobre escrotos. Afinal de contas, todos sabemos o que teabaggin realmente é…
Numa nota mais pessoal, faço algumas perguntas: Obama, independemente de ser negro ou democrata ou mesmo homem, está há apenas 100 dias no governo. G.W. Bush, republicano, homem e branco, ficou no governo por aproximadamente 2900 dias. É bastante aceitável que muito do que está acontecendo agora é resultado direto das decisões e políticas vividas no passado. Afinal de contas, o presente se fez através dos atos do passado; não dá pra comer um bolo que ainda não foi feito, não é mesmo?
Penso com meus botões que há agora, mais do que nunca, verdadeiramente uma perda total do sentido político, ideológico e antropossocial no mundo. Pra começar, uma maioria simplesmente esmagadora não sabe o que é fascismo; não entende seu subtexto ideológico, não compreende a dimensão que almeja e muito menos pode ver ou se quer saber como é na pele a violência extrema, de fato, esmagadora que o é o cerne do fascismo: é uma violência além da carne e da psique. Ela invade e permeia o imaginário, essa violência, sendo ainda mais violência total, pois vence mesmo derrotada no vulto da fantasmagoria que lhe perdura.
Obama é comparado aos fascistas nesses protestos e eu pergunto: você conhece algum fascista que deixou de fazer guerras? Que parou e disse: “Hmmm… a América precisa é de saúde”? Sei alguma coisa de história pra poder afirmar que todos os fascistas que eu conheço, como Hitler, Mussollini, Franco, mataram e torturaram pessoas inocentes. E, até onde eu sei, na semana passada o governo Obama não apenas tornou públicos os abusos contra inocentes do governo Bush como se comprometeu em erradicar essas práticas.
Uma das minhas questões, portanto, seria a seguinte: não é lógico que se presuma que uma pessoa que é ferrenha opositora de práticas totalitárias, conhecidas como fascismo, se porte de tal forma, opositora, quando na presença ou vivendo, tanto política como ideológica e antropossociologicamente, em um mundo fascista? Quando Bush destruia a vida de centenas de garotos brancos, negros e latinos, porém de classes mais baixas ou simplesmente iraquianos, era a Guerra contra o Terror; uma batalha de proporções míticas contra verdadeiros inimigos, como nos panfletos e programas de TV dos anos 1950, do American Way of Life, ou da “pureza de nossos fluídos corporais”, como diria o enlouquecido General de Dr. Lovestrange or: How I Learn to Stop Worrying and Love the Bomb, de 1964, do nosso querido Kubrick, onde não há medida para o esforço na busca incessante da justeza e correção da democracia. Só que, enquanto isso tava rolando, e é sabido, Bush Jr. e seu cartel, com tentáculos que sabidamente se extendem até a própria família Bin Laden, pilharam o país, deixando não apenas a saúde econômica, como mesmo a saúde moral do organismo financeiro, altamente debilitada. Não dá pra curar um câncer que já se espalhou.
Mas perdoe-me pelo pensamento analógico. A questão é verdadeiramente social. Em Twiligth Zone, ainda em 1959, na sua primeira temporada, um episódio em específico, que eu assisti há pouco tempo, chama muito a atenção. The Monsters ar Due in Mapple Street, que é o vigésimo segundo episódio, mostra a reação de alguns vizinhos numa idílica rua norte-americana, onde sorveteiros entretem crianças enquanto os adultos tomam seus chá gelados e lavam seus Fords e GMs, quando subitamente telefones, eletricidade e até mesmo rádios portáteis param de funcionar. Nem mesmo os veículos funcionam, até que um dos vizinhos, que estava dentro de casa quando começaram os incidentes, saí para a rua e ao tentar ligar seu carro, e falhar, levanta-se e se dirige aos outros só para constatar que seu carro se ligara sozinho, sem chave ou motorista. Logo os vizinhos desconfiam dele, e após alguns outros acidentes similares, na qual a cumplicidade ou mesmo autoria seria altamente questionável, todos se voltam contra todos, imaginando que cada um possa ser os invasores alienígenas, duplicadas de outra galáxia ou dimensão, das revistas e histórias que um garoto exaltado lê.
Alguém mais percebe a sútil semelhança, porém em muito maior escala, dessas duas narrativas?
Eu entendo como esse americano médio, branco, de classe média e alta, de criação religiosa e conservadora, deve estar se sentindo perdido: a guerra não deu em nada, terroristas e terroristas (esses aqueles com proposições mítico-religiosas impossíveis) continuam perpetrando suas animações bombásticas e suas simulações de cosmic clash, e o problema de verdade é dentro de casa. Os vilões atacando o core da vida americana (leia-se: dinheiro, estabilidade) são, na verdade, a inépcia, incompetência, arrogância e corrupção do próprio sistema dessistematizado de governo e de controle da gestão financeira.
Ouvindo Elizabeth Warren, a cabeça da comissão que tá resolvendo essa coisa de dar bilhões de dólares para as instituições financeiras, dizer que os EUA emprestaram 100 dólares por 66 dólares assim, logo de cara, me fez barbarizar-me com a profundidade e enraizamento do verdadeiro mal da contemporaneidade em termos de como vivemos nossas vidas e de como o mundo, como sociedade, evolui: a corrupção.
De fato parece, como afirmavam os terroristas ainda em 2002, que uma parte bastante significativa e muito poderosa – ideologica e economicamente – da população norte-americana não apenas concorda como faz questão de executar a Doutrina Bush, de antagonização internacional, resolução militar e descaso social acrescido de seu mote: desvio de verbas, projetos e parcerias públicas para o benefício pessoal de grupos de pessoas.
There’s a mighty judgement coming… não parece tão absurdo assim, né?
a new era?
Vale lembrar que pode ser só mais um pacote ideológico.
Nunca se sabe. Sobra a esperança, de que, além da cor, ele possa mostrar a beleza do espírito que inspirou o mundo inteiro a entender que mais do individualismo, sem os outros não há vida.
Muita fé está depositada nos ombros de Barack Hussein Obama, presidente 44 de um longa lista de visionários, war mongers, humanitários, paranóicos, incompetentes e gênios.
Espera-se o melhor. Eu espero o melhor. Um mundo talvez mais próximo da beleza verdadeira que esse mundo oferece e mais distante do consumismo cego, do egoísmo tolo e da ganância desmedida.
Obama… and you kissed me and stop me from shaking
A vitória de Barrack Obama nos Estados Unidos foi, pelo menos a meu ver, a sublimação de todo o processo cultural inerente a contemporaneidade. Ultrapassado o capitalismo, vivemos hoje numa estranha mistura. Alguns vão concordar com Maffesoli e dizer que é tribalizado, outros vão na onda de Debord, sociedade do espetáculo, os mais antiquados ainda se apegam aos alemães e sua indústria cultural. Os mais rápidos, se atiram em senhas como pós-modernidade ou cibercultura. Os mais filosóficos percebem uma tecnocultura capitalista; os menos caem no conforto da explicação cartesiana da existência – na técnica aplicada a ciência que desvela todos os mistérios do mundo, universo e do Homem.
Eu penso que, em termos, todas essas visões tangenciam a verdade. E mais: se inseccionadas, contemplariam uma melhor explicação da realidade. “Obama venceu porque é negro”, “Obama venceu porque não estava com Bush”… as explicações são tantas e tão, digamos, falhas, que não se pode confiar nelas. Principalmente naquelas produzidas e veiculadas pelas redes de televisão e grandes jornais norte-americanos (reproduzidos em todos os outros países). Não é por uma desconfiança da mídia, mas é porque falha em ter a integridade necessária para abordar todos os aspectos relevantes. Obama venceu porque falou para várias tribos, é pós-moderno, poderíamos dizer. O modernismo antiquado de McCain apela para a população “moderna” dos EUA, porém Obama apela para a realidade do multiculturalismo. Ouvi o seguinte: “Ah, esse Obama é um produto desse multiculturalismo falso”. Obama é sim um produto; um produto cultural. O Barrack que vemos na televisão, nos discursos, e que agora veremos por quatro anos, não é uma pessoa de verdade. É um construto cultural; montado a partir de peças intercambiáveis vistas em pelo menos uma dúzia de outros presidentes norte-americanos. Entretanto, não é só. Ele apela, como clipes do Michael Jackson do final dos anos 90, para o latente e (sim) inegável multiculturalismo cada vez mais presente das grandes cidades. Ele é aquele negro que não é tão negro, não como um rapper, de forma alguma. Mas como os dois presidentes negros de 24 Horas. A torcida por Obama, esperando seu discurso logo após anunciada sua vitória mostra isso com clareza: orientais, negros, brancos, hispânicos.
Numa cidade como São Paulo, Londres, Nova Iorque, o multiculturalismo já é inegável há decadas. Porém, hoje vemos com o crescimento do que poderíamos chamar de “sentimento enraizado de liberdade pessoal” esse tipo de fenômeno crescendo de forma exponencial. No discurso de derrota de McCain, via-se até onde os olhos chegavam pessoas de olhos e cabelos claros, aos prantos. Não se pode mais dizer que os EUA são um país de uma cultura; na verdade, há anos não se pode “pôr o dedo” no que realmente serve de identidade para o norte-americano. Na verdade, desde pelo menos 2000, com o aparecimento insipiente das tecnologias mais contemporâneas ligadas as telecomunicações (o que é geralmente chamado de cibercultura), engendrou-se em todo o Ocidente, pelo menos, uma expansão da indústria cultural de forma a obliterar seu cárater centralizador. Lassig vai nos dizer que o que acontece é a popularização de formas de produção e recepção cultural que permitem uma lógica “read/write”. E com isso, há uma crescente valorização das culturas que estão se misturando nos grandes centros. Não é só a produção de conteúdo por parte do homem normal (médio) em seu blog ou página na internet, é o fato de que a indústria cultural como nós conhecemos começa a ser cada dia mais pautada por essa produção e pelos interesses específicos desses micro-produtores e micro-agendadores-de-conteúdo.
A rede é a manifestação física (o que é irônico, já que ela tem um caráter não-físico) do Urschleim cultural que acaba permeando o cotidiano individual. Como defender cegamente uma forma de cultura quando, no caminho pro seu trabalho, que na verdade pertence a um conglomerado multinacional, você passa por um restaurante chinês, um camelô coreano, um taxista árabe, um policial negro, uma pedinte loira, um travesti e um casal lésbico? A tribalização, da qual nos fala Maffesoli, enseja isso: eu sou um tipo específico de pessoa com interesses específicos que, bem provavelmente, são comuns à outras pessoas. Eventualmente, meu interesse cultural vai seguir a produção e encontrarei outros que, assim como eu, veiculam, produzem, recebem e apreciam. A cibercultura, da qual uma infinidade de autores nos falam, como Lemos, Rüdiger, Primo, Lévy, permite que esse fenômeno venha a ser de forma global. Eu gosto de desenhos japoneses, a produção dessa cultura está concentrada no outro lado do planeta. Com a antiga indústria cultural (poderíamos também chamar de primeira indústria cultural), a veiculação desses produtos passa por barreiras físicas e/ou estruturas muito custosas de transmissão. Com a rede mundial de computadores, aliada a produção e replicação de conteúdo pelos usuários, o episódio está disponível para download no exato momento em que a transmissão se encerra no Japão; imediatismo completo de transmissão além de contornar a qualidade física das antigas tecnologias.
Entretanto, essa planificação total das comunicações não faz necessariamente desaparecer os critérios que ela possuía quando centralizada. O espetáculo continua. A busca pelo espetacular se atomiza na sociedade, tornando tudo, desde recitais de ballet de meninas de 4 anos até atividades terroristas na prática, numa infinitude ilimitada de possibilidades espetaculares. E aí chegamos em Obama. O democrata investiu milhões de dólares para conseguir se encaixar no gap deixado por Bush e pelo final escandaloso da presidência de Clinton: the miracle man. Como Jesus, com uma história e contemplando uma necessidade para cada um. Obama não é um homem. É vários homens. Almeja ser o Homem: sublimação máxima de uma ideologia libertária que, na verdade morreu a pela menos 30 anos, mas que é o zumbi mais poderoso da demagogia, aliado mais confiável da paranóia, do medo e, infelizmente, carrasco voraz da esperança. Ampliado por todas as crises (Iraque, economia), o novo presidente americano foi eleito com maioria popular e nos colégios eleitorais: legitimado e untado pelos movimentos sociais que esperaram mais de 40 anos pela materialização da liberdade, já em sua campanha ele surgia como beacon of light.
Obama pode ser chamado de concretização de um pensamento. Exposto vorazmente em tantas formas culturais de grande penetração que nos parece tolo citá-las. Desde pastelões sci-fi como Matrix, até pastelões militares, como 24 Horas. Toda essa eleição pareceu saída diretamente de algum péssimo filme de ficção, no mínimo fantástica, onde alguém certamente quer matar, escravizar ou dominar o planeta através de poderes políticos e militares instituídos. Percebemos juntamente com diversos pensadores que é fato o fenômeno atrelado à ficção de engendramento da realidade; mas vamos além. Tanto a ficção quanto a realidade são construídas a partir do pensamento, como expresso pelo humano em suas tantas formas. E é esse pensamento que está em jogo. Não se pode totalizar, dizendo que tal ou outro pensamento são constitutivos da época em que vivemos. Porém, com alguma autoridades, podemos sim afirmar que um desses pensamentos ainda é o mágico-religioso e o mais poderoso e novo é do tecnicismo operacional. Podemos também nos questionar: não aparece aí um outro pensamento também muito forma na contemporaneidade? Ultrapassando os limites das delimitações e fabulações de teóricos e pensadores, parece-nos assim, a priori, que dos acontecimentos recentes desponta uma outra forma de pensamento, um entendimento da realidade utópico, porém não necessariamente mágico-religioso ou tecnológico. Afirmaríamos, ressaltando dúvidas, que, em termos, parece um remanescente do pensamento antropológico, anterior ao séc. XVII: a idéia de que a superação de nossas condição e possível construção de um mundo fantástico esteja realmente em nossas mãos, em nossa capacidade de nos entendermos e vivermos todos juntos.
Talvez, no final das contas, o multiculturalismo não seja necessariamente um subterfúgio; há a possibilidade de que em nossas vidas contemplamos um entendimento do mundo que não preconize a eliminação do Homem, nem a eliminação dos homens.




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