Ubermensch by Debord

Encerra-te, Olimpo

Publicado em despise for humans por pedro em 08/25/2008

Seguindo na esteira da Lúcia, também me presto a um post de encerramento das Olímpiadas.

Bom, como é de praxe o Brasil foi, no mínimo, inexpressivo nessas Olímpiadas. Sua maior vitória não foi nos pódios nem nas quadras ou pistas: foi uma vitória de gênero. As mulheres, e a mídia genial brasileira percebeu isso rapidamente, se saíram melhor do que nunca. Ouro no salto em distância, ouro no vôlei feminino (e muito bem merecido)… mas o que fica mesmo são os gostos amargos de derrotas simplesmente inexplicáveis.

Falou-se de dopping, eu falo em entregar o jogo. Futebol feminino parecia cusco em tiroteio. Vôlei masculino parece ter ganho cachê pra entregar o jogo pra um time tecnicamente igual, pouco criativo e que superou o Brasil em cima das suas ineqüitudes: não conseguiram, apesar da transparência da rede, perceber o jogo dos americanos e simplesmente permitiram que eles continuassem sem que nada fosse feito além de saques forçados.

Eu acompanhei muito dos jogos, pois estou numa espécie de férias que infelizmente acabaram ontem, e pude ver que, como no post da Lúcia diz, o Brasil peca em envolvimento. Tanto emocional quando físico com os esportes. Os jogadores parecem estar eternamente desequilibrados emocionalmente e o esporte em si parece estar eternamente desequilibrado fisicamente. O que quero dizer? Bom, o apoio material aos esportes, e é sabido, sempre se limita aqueles esportes mais, digamos, bem sucedidos. Vôlei, tanto de quadra como de praia, futebol, judô… enquanto isso outros esportes, que o tipo físico brasileiro poderia privilegiar, ficam na mesma. Falou-se do Sr. Bolt e da Sra. Jamaica e o que acontece lá é uma institucionalização do esporte. Ele não é só esporte; faz da parte da vida mental, física, econômica, social do país.

O grande vencedor desses jogos foi a própria China com sua meia centena de medalhas e seu “Show Olímpico”. Mas o grande perdedor foi o mundo (como aponta nossos queridos da NovaCorja.org): muitos – mais do que se imagina – se recusaram a perceber a malevolência e ditatorialismo do governo chinês, preferindo a visão midiática, não-etnocêntrica do “deixe eles viverem como querem”. Descobriu-se que mais de 30 pessoas, só em Pequim, foram expulsas das imediações da cidade ou presas em seus domicílios. Só se imagina quantas mais ninguém vai ficar nem sabendo… quantas não estão mortas ou sendo torturadas nesse exato momento por algo tão simples quanto protestar. A derrota foi, e não em termos, do mundo inteiro. Rússia e Geórgia que o digam. Perdemos todos pela legitimação continuada de todas as formas do mal; aquele mais de “fora direitos humanos” do que bíblico. No grande esquema das coisas, Cezão Ciello e seu ouro inédito ficam esmaecido pelo ofuscante brilho dos fogos de artifício montados por crianças, do lancinante ardor dos trabalhadores que possibilitaram o ‘milagre olímpico’ e foram expulsos de Pequim e de outras localidades sem seus salários, depois de centenas de horas extras para terminarem os estádios e facilidades em tempo.

Como soviéticos, americanos e nazistas, os chineses cometem novamente o maior erro da humanidade: acreditar na sua própria catequese de superioridade e infaliabilidade. E para tal, como sempre, fica o tótem (no sentido mais acadêmico e simbólico possível): o prédio da televisão pública chinesa, estagnado em meio a Pequim. Figurou durante todos os jogos nas vinhetas de dezenas de países e agora é a lembrança eterna, para o mundo e para a China, de que nem eles e seu governo autocrata maoísta podem tudo. Corrupção, desvio de recursos e paralização dos operários são algumas das respostas ocidentais para a falha chinesa. Legitimados por suas tantas medalhas, a China parece resignada em sua soberania. Agora, ao final dos jogos o ocidente parece mais temerário e finalmente começa a, clara e didaticamente, revelar os reais dados sobre o país de quase dois bilhões de pessoas e eles são assustadores.

A crescente classe média chinesa (risos) hoje tem pouco mais de 100 milhões de membros.

Pouco mais de 7% da população. Se acreditarmos nos dados estatísticos fornecidos pelos próprios chineses.

E esta nova classe intrinsecamente capitalista, nem começa a ser comparável com classes semelhantes em países como França, Alemanha ou mesmo Estados Unidos. Presa entre o governo inatingível e a massa imóvel, jamais chegará ao poder efetivamente, relegado aos “partidários” e seus próprios interesses que podem (ou não) serem os mesmos da classe intermediária da sociedade chinesa.

Enquanto isso, 93% da população transita na faixa inultrapassável dos 0,13 (ou um pouco mais) centavos de dólar por hora de trabalho. Reside na estagnação de praticamente um mundo inteiro de pobreza, ignorância e doença em fábricas supridas pelo óleo sujo (se é que o óleo ainda pode ser mais sujo) do Sudão e seu genocídio miniatura. Riquezas infindáveis acumula o país da Grande Muralha, todas oriundas de suas exportações agora tão necessárias para a tecnocultura capitalista; onde estaríamos se chips, tênis, calças jeans fossem feitos por mão-de-obra com direitos?

O mundo, então, jubila-se recebendo a China como nova imperatriz do esmagamento das massas. E o prédio da televisão pública chinesa fica como o marco disso: até os sistemas de censura e manipulação mais avançados e institucionalizados não garantem 100% de aproveitamento.

E enquanto eu escrevi esse post, centenas de calças jeans foram feitas, todas pelo preço de uma numa loja do Shopping Iguatemi.

Übermensch by Debord: edição olímpica

Publicado em despise for humans por pedro em 08/21/2008

Este blog surgiu a partir da minha emergência pessoal em extravasar certas idiotices, tragédias, crimes, entre tantas outras coisas que acontecem normalmente no dito mundo do conhecimento que vivemos hoje.

Aquém da tecnologia e de suas repercussões práticas, sociais ou culturais, minha preocupação sobre as formas de transcendência do Homem não são exatamente ligadas aos fenômenos que ensejariam em si esse evento; minha ‘pulga atrás da orelha’ é sobre algo talvez muito mais complexo que se relacione diretamente com um imenso número de disciplinas e escolas de pensamento. Desde psiquiatria e psicologia (inclusive social), medicina, biologia, neurologia, sociologia, fisolofia, comunicação. Como pode? Simples. Minha preocupação tem suas raízes nas palavras do francês que disse muita besteira mas evocou o mundo do estudo aprofundado de tudo que é essencialmente Homem a decifrar uma senha irresistível: o espetáculo.

2008 será, com certeza, lembrado durante muito tempo como um dos anos mais fundamentais dessa década de 00 do séc. XXI e, coerentemente, esta década será lembrada – penso – como a derradeira parteira da lógica humana do esvaziamento espetacular. Claro, 2001 e seus prédios flamejantes ganham a corrida, entretanto 2008 reforça o que a fronteira final rompida no primeiro ano do século. O ano kubrickiano – se me permitem – anunciou não o nascimento da vida inteligente, nem o varar humano através do tecido do universo; ninguém mora na Lua, não há menir negro nem Hal. Nada foi vivido secretamente, acabando em psicodelia. O espetáculo foi para grande público; o menir, na verdade, existiu: de vidro, concreto e metal decretou que este século seria regado a muito sangue, muita guerra, muita tragédia, muito engodo, muitas meias verdades e verdades totalmente mentirosas. Três aviões, dizem, se chocaram contra pontos estratégicos naquele dia… mas ninguém fala muito daquele que aparentemente, ao se chocar, evaporou como a esperança de que o tão antecipado século XXI fosse de esperança, de descoberta, de superação.

Superação, por enquanto, só jamaicana. Tantos teóricos e suas teorias de remixes, de tragédias culturais, de redenção eletrônica e o mundo está crescentemente se admitindo falho e pesado demais: russos, americanos, chineses, japoneses… até mesmo franceses, espanhóis, alemães e tantas outras nações ditas evoluídas, cultural e tecnologicamente avançadas esbarram cada dia mais e mais nas idiossincrasias de seus povos e da própria humanidade. Até no Canadá – país reconhecido por seu pacifismo, retidão e bom senso – se afoga cada dia mais no que alguns chamam de vírus norte-americano mas que eu digo ser próprio do Homem.

E enquanto isso, continua o espetáculo do super-homem. Não, o übermensch de Zaratustra não vem para salvar, para redimir, ele nem mesmo veio para substituir o Homem. O Super-Homem veio realmente a cárater, veio com dança, show e ginga para divertir. Para o totalmente desnecessário. Um ônibus espacial, quando de seu lançamento, precisa atingir a absurda velocidade de ONZE QUILÔMETROS POR SEGUNDO para conseguir escapar da gravidade da Terra e se lançar ao espaço. Entretanto, grande assombro porque apenas um homem – que não é Homem – consegue correr 200 metros em menos de 20 segundos. São 10 metros por segundo. Claro, é absurdo e, em termos, muito louvável. Como superação dos limites, prova da irrefutável capacidade não só evolutiva como emocional e física do Homem – e do homem, Usain Bolt. Mas o que fica, pelo menos para mim, é sempre a contínua espetacularização.

Repórteres nas cidades desertas da Ossétia do Sul, praticamente aos prantos contidos. O recorde histórico de Bolt fica obscurecido pelas acusações de dopping, pela sua, segundo críticos, falta de sentimento desportivo, ao comemorar sua vitória nos 100m antes mesmo de cruzar a linha, pela comparação inevitável com Michael Johnson. Libertem o Tíbete. Satélite iraniano. Milhares de baixas militares americanas no Iraque. O invade/não-invade da Geórgia. As repercussões reais, e diretas, desses eventos raramente são sentidas pela população em si. E quando Chávez toma a fábrica de cimento ou a refinaria de petróleo, o povo continua pobre, continua tendo que trabalhar, porém fica a imagem do povo celebrando, do show da democracia torta. E tudo é show. Britney no seu melhor: show. No seu pior: show. A mediação entre nós deixou de ser sobre aspectos realmente FULMINANTES. O aspecto volátil do Homem se reconstrói na repetição à exaustão de imagens, ditas pelos próprios narradores e apresentadores, como espetaculares. E o que, penso eu, poucos teóricos prestam atenção é no fato de que isso, assim como qualquer tipo de diarréia, espirra pelo vaso inteiro e se for no chão, bá, daí escorre pra todo lado. A gravidade insuperável das citadas idiossincrasias do Homem leva tudo para todos: o espetáculo esguicha para a vida cotidiana, plural e simples das pessoas. A roupa, o cabelo, o marido, o carro, a casa, o emprego, estudos, os amigos, jantares, festas, conhecidos, comidas, bebidas, drogas, música, gostos, atitudes, pensamentos, idéias, sonhos, aspirações, ambições, desafios, dificuldades, doenças, religião, lazer, entretenimento, cultura, consumo, arrependimentos, orgulhos, até a maldita pasta de dente, tudo se torna, essencialmente espetáculo. Se não totalmente, pelo menos sujo e corrompido por ele.

“Minha roupa é um show para os outros”, eu ouvi certa vez quando recém começava a sair, beber, namorar. Esse individualismo que todos falam não pode estar mais distante de ser verdade: precisamos desesperadamente dos outros. Seja para validação, seja pela inveja. O sexto pecado capital, tão dificilmente comprovado – até porque raramente se vê alguém dizendo “fiz tal coisa por inveja”, “tenho inveja de fulano” – corrobora, em certos pontos, a minha tese. Ninguém quer ser o Super-Homem, ninguém – a não ser por alguns atletas muy bien intencionados – que ser Usain Bolt. Queremos olhá-lo à exaustão. Queremos gastar sua imagem com nossos olhos, corroer seus méritos com nossa admiração/inveja, axioma nominal da contemporaneidade.

Então, o ciborgue, messias filosófico, inteligência artificial, ser de energia, espírito iluminado, Buddha, Jesus, pra mencionar a predição broadwaydiana, se tornou espetáculo, show, concerto, peça, evento. O Fait Divers de Barthes, com o relógio dos Power Rangers, diz: “It’s morphing time” e tudo que era fato diverso, buraco na rua, homem morde cachorro, pode potencialmente se tornar o maior espetáculo do mundo, ou no mínimo da nação. Isabela. Semanas antes de seu pai e madrasta a precipitarem pela grade da janela, outra menina, em algum lugar esquecível do país, era libertada de um cativeiro de anos onde era torturada, humilhada, tratada como escrava. Isabela caiu para a morte, rápida e midiaticamente interessante. A pobre garota sem nome, carregará para sempre as cicatrizes de seu sofrimento. Mas ela era pobre. Ou pelo menos pouco mais que pobre. Isabela era neta de gente importante. Filha de playboy. Eu também posso me definir como playboy, mas pelo menos estudo. Diferente do pai de Isabela, que por não se formar em Direito – ou talvez esse seja a exata razão de não ter se formado – não conseguiu mentir suficientemente bem. Mas isso é além do ponto. Quero é definir a questão de que ele, o papai e a madrasta malvada, são o pós-humano também. “O que eles fizeram com a filha nenhum ser humano faz”, dizia uma velhinha em protesto, na época, em frente a casa em que estavam os algozes da menina. Isabela era humana, mas seus pais não. Eles eram o que convencionei chamar de Übermensch by Debord, o espetacular super-homem. Além dos limites da compreensão social, cultural, científica, assim como os tantos assassinos seriais, assim como as tropas russas posando para as fotos da BBC mostrando seus possantes tanques, carteiras de cigarro, pistolas e infímos órgãos sexuais.

E fica o show de Bolt, repetido ao infinito, para retornar, como tudo retorna desde o séc. XVII, quando outro Johnson, outro Bolt, outro qualquer superar…

Muito Legal

Publicado em despise for humans por pedro em 08/16/2008

Todo mundo que me conhece pessoalmente ou lê essa droga aqui (ou já teve a infelicidade de receber meus comentários) sabe que eu sou um baita dum chato que gosta de implicar com obviedades e questionamentos incomôdos, além de achar exemplos pra tudo.

Então pra mudar de tom vou falar bem.

Avacalhei até não poder mais essas Olímpiadas então agora vou falar de coisas legais.

Primeiramente, agora há pouco, o jamaicano Usain Bolt venceu os adversário e estranha situação de vários medalistas jamaicanos, todos naturalizados canadenses, ingleses, etc. Venceu nos 100m com 9s69, humilhando os adversário além de posar pra câmera e honrando sua nacionalidade e sua bandeira.

E hoje foi um dia vitorioso pro Brasil. No futebol masculino venceu o antigo algoz Camarões, por dois a zero, com dois gols simplesmente incríveis na prorrogação. No vôlei masculino de quadra passamos os poloneses e no de areia, numa virada incrível, Ricardo e Emanuel bateram os russos.

Não sou o cara mais entusiasta do mundo em relação a esportes, mas finalmente tá legal que o Brasil tá “mostrando serviço” – como diria uma das narradoras ‘ex-alguma coisa’ da Globo – e se encaminhando pra ganhar algumas medalhas em esportes tradicionalmente brasileiros.

Adoro vôlei, inclusive joguei nos tempos de colégio. Jogava mal, mas sempre adorei o esporte e hoje em dia tenho uma queda especial pelo vôlei de areia, que é um esporte difícil, penoso e de muita estratégia.

Ainda falta torcer pelas meninas, principalmente as do vôlei de quadra, que merecem trazer pra casa a medalha de ouro.

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Fog City?

Publicado em despise for humans por pedro em 08/07/2008

O grande estádio, praticamente engolido na eterna nuvem de poluição que toma conta da cidade

Até onde eu sabia, as Olímpiadas de 2012 é que deveriam ser na cidade da neblina, e não as desse ano. Entretanto, as imagens trazidas para nós pelos sites, emissoras e jornais mostram outra história.

Uma das discussão que mais veio à tona com esses jogos olímpicos de Pequim [sim, porque Beijing eu não sei onde fica...] foram os tais direitos humanos, a questão do Tibete. Porém, parece estar passando batida uma questão ainda mais fundamental, que afeta a todos nós e não só aos de nacionalidade chinesa [voluntária ou involuntária, né Dalai?]: a questão da poluição.

Esforcei-me nessa manhã, estranhamente parecida com as vistas de Pequim, para encontrar uma outra cidade [ou mesmo nação, porque vendo ontem imagens da Muralha da China a situação parecia igual] que possuísse uma visão igual a de Pequim. Não encontrei. Hoje, em matéria do JA, aquela repórter Streb mostrou o que, desde que começaram a mostrar Pequim, eu ainda não tinha visto: um céu azul. Mas não um céu azul em contrapartida à uma tarde chuvosa ou uma neblina londrina, não, era um céu azul em contraponto a uma triste, premente e contínua neblina de poluição que praticamente esconde a cidade.

É quase uma coisa vinda de filmes de ficção científica com aqueles futuros pós-apocalípticos.

Minha questão é: direitos humanos e seus tropeços são coisas que afetam diretamente a população da própria China, ou seja, no fim do dia o problema é deles. É um problema político que eles mesmos dizem se reservarem a resolver. Entretanto, o problema da poluição é transnacional. Os detritos e emissões poluentes da China navegam pelas correntes de ventos e afetam o clima do planeta como um todo. E em tempos de ser ecologicamente correto [coisa que foi absorvida pelo politicamente correto] me indago porque nenhum país fez objeções. O governo chinês diz que vai “resolver o problema” e magicamente hoje, em Pequim, não há neblina e o país, incrivelmente, não parou de funcionar. O que me leva a crer que o país poderia passar muito bem sem esse tipo de atraso moral, político, ecológico e humano.

Olímpiadas deveria ser a união dos povos, a maneira grega de entender que, na verdade, no fim do dia, somos todos humanos presos a nossos corpos materiais e seus tão claramente definidos limites. Entretanto, essa Olímpiada, diferentemente de outras, como a de Sidnei ou Atenas, não é sobre superação de limites e irmandade da humanidade: é sobre relações públicas. E sobre como esconder um país mergulhado numa concepção sócio-cultural arcaica e desumanizante, que faz de ‘flanelinhas’ e motoristas de ônibus espiões do governo. Um país que não tolera ser contrariado, que prende pessoas com camisetas e cartazes de “Tibete Livre” enquanto esmagam a população dessa região com bárbaros militarismos e a população mundial com as nefastas conseqüências da sua ignorância relativa a poluição.

Não vejo razões pra se comemorar essas Olímpiadas. E como aqui, no meu blog, não devo satisfações a editores e governos, destaco minha posição:

Essas Olímpiadas são a demonstração máxima do que há de pior no mundo hoje, a LEGITIMAÇÃO DOS MONSTROS. Assim como Bush e suas guerras, essa competição terá o mesmo teor amargo da enganação, do engodo, da validação de posições políticas absurdas. É uma imensa geração de renda e de legitimação mundial [principalmente entre as crianças, que adoram a mercantilização das olímpiadas e não tem o discernimento necessário para entender o que REALMENTE está acontecendo] que, graças ao pouco de inteligência do mundo, está fatalmente falhando. Os setores de turismo da China estão fazendo promoções pois as vagas que se esperavam estarem tomadas estão abertas, com centenas de hotéis e hospedarias com quartos vazios, aviões e ônibus parados esperando turistas que nunca chegarão. E mesmo que os meios de comunicação criem duzentas mil explicações, o motivo é óbvio. Quem quer ir pra China? Quem é que quer dar dinheiro prum país atrasado, que executa pessoas a esmo, que há várias décadas DOMINA regiões totalmente independentes? Que poluí tanto que o ar de cidades como Pequim e Xangai é perto do IRRESPIRÁVEL?

Talvez eu esteja enganado, quem sabe? Mas vejo essas Olímpiadas ficando marcada nos corações e mentes das pessoas como a de Berlim: jogos internacionais marcados pela opressão, pelo ‘arcaísmo’ político e moral num país preconceituoso, racista, atrasado e violento. Só que ao invés de nazismo, agora temos poluição desenfreada, nenhum direito trabalhista e violência desmedida. Para mim, essas Olímpiadas vão ficar marcadas como as Olímpiadas da poluição.

Pirataria – dos saqueador ingleses do séc. XVI até os saqueadores ideológicos da china do séc. XXI

Publicado em despise for humans por pedro em 07/22/2008

Hoje se fala muito em pirataria. DVDs piratas, programas piratas, tênis piratas, roupas, bolsas, you name it. E quando se fala em falsificações o primeiro nome que vem a cabeça é China.

No séc. XV, depois de viajar por alguns lugares do Oriente, convenientemente, nosso querido Gutemberg inventa a prensa. Égide máxima do que ficou conhecido através da Escola de Frankfurt como indústria cultural: a reprodução massiva de obras de arte, textos, imagens que outrora só poderiam ser visto presencialmente. A China copia há séculos. Em parte, a cultura milenar da China é centralmente marcada pela reprodutibilidade, seja manual ou técnica. O próprio aprendizado de seu alfabeto se dá pela cópia incansável da ortografia do mestre e a cópia de obras de arte remonta há muitos séculos.

Nos séculos passsados, pirataria estava ligada aos controversos aventureiros marítimos – principalmente ingleses – que saqueavam navios espanhóis, italianos e portugueses, entre tantos outros, em busca dos tesouros encontrados no Novo Mundo. Hoje pirataria é sinônimo (apesar do Jack Sparrow) de produtos falsificados produzidos principalmente no leste asiático. Governos ocidentais de todas as ordens procuram com campanhas e ações policiais coibir e inibir o comércio dessas falsificações, inclusive contando com a colaboração das empresas que originalmente produzem esses produtos, em congressos e associações internacionais de combate a essas práticas.

Entretanto há uma similitude assombrosa com a lógica da pirataria do séc. XV e XVI com a lógica da moderna pirataria manufaturada: assim como os piratas eram protegidos e defendidos pela coroa inglesa, mesmo que só veladamente, os ‘pirateiros’ de hoje em dia são amplamente defendidos pelo governo chinês, que, abertamente os combate, mas veladamente os apóia pois são imensos geradores de renda para as populações mais carentes (que, admitamos, é a maioria sempre). E as empresas, de certa forma como a Espanha e a Itália, não combatem e criticam abertamente o governo chinês pois  esse, do outro lado da moeda, beneficia os negócios dessas companhias multinacionais que dependem da força de trabalho quase escrava da China pra produzir seus produtos com preços competitivos.

No GNT está dando um documentário sobre isso, claro que na linha do interesse global pela China nesse amanhecer dos Jogos Olímpicos. Evento esportivo mundial de confraternização dos povos que, a meu ver, está servindo para legitimar um dos mais injustos e cruéis sistemas de controle e gestão social de todos os tempos. Um imenso país com mais de dois bilhões de pessoas (pouco menos de 1/3 do mundo) onde inexistem completamente regulamentações referentes ao trabalho. Um país que se diz comandado e gerido por um partido dos e para os trabalhadores que fomenta a existência de fábrica ilegais, onde não há garantia de pagamento devido, de acúmulo de horas extras ou mesmo das mínimas condições de trabalho. Voltamos ao sécs. XVII e XVIII, voltamos à Revolução Industrial, de tetos baixos, toxinas envenenando bebês que ainda nem nasceram, voltamos, mas em termos. Essa máquina do tempo distorce o tempo e faz da imensidão chinesa um séc. XV, XVI juntamente com os séculos XVII e XVIII.

Aterrorizados pelo esquecimento do campo, os jovens deixam as comunidades periféricas da China e rumam para os centros industrializados onde os que têm algum tipo de instrução ou qualificação são engolidos pela manufatura de produtos originais de empresas com fábricas naquele país – como Nike, Louis Vitton, Chloé, Adidas, entre tantas outras – e os que não figuram como mão de obra qualificada são absorvidos pelo mercado paralelo para produzirem os mesmíssimos produtos.

Porém vejo, que até certo ponto, este fenômeno tem reverberações em diversas outras áreas, mesmo econômicas, da vida cotidiana. Vou na loja, compro o DVD do novo Indiana Jones e o disponibilizo nas redes P2P – que são muitas – fazendo com que logo, logo ele exista em diversos PCs e servidores ao redor do globo. Adorno, Horkheimer, Benjamin, esses frankfurtianos originais temiam o fim da “aura” da obra de arte, temiam que grandes artistas se tornassem banalizados (o que, de fato, até certo ponto, realmente aconteceu, né, Dan Brown?), entretanto a era da reprodutibilidade técnica encontrou formas e conteúdos mais, digamos, economicamente interessantes. As canecas com a imagem de Gioconda ainda estão aí, existindo no breu perdido dos brindes e dos nic-nacs vendidos popularmente a 1,99. A indústria mesmo da reprodutibilidade se voltou para os tênis, bolsas, DVDs, programas de computador. Encontrou na própria população que os produz, os menos favorecidos economicamente, um nicho de mercado muito aconchegante: eu trabalho por menos de um dólar a hora, jamais vou ter dinheiro suficiente para comprar um tênis nike de 200 dólares ou uma bolsa Chloé de 2 mil.

Agora, quando a lindíssima e super na moda bolsa Chloé custa menos de 30 dólares, daí se consegue comprá-la. Um PlayStation 2, que original ainda custa 600 reais, na fronteira amiga entre Brasil e Paraguai se acha por menos de 200. O Nintendo Wii, sensação videogamica, que custa quase três mil na Mega Mídia do Bourbon, foi comprado pro alguém próximo de mim por menos de mil. Na verdade, mil reais com todos os controles e dezenas de jogos. E funciona perfeitamente.

A arte, de certa forma, foi de fato perdendo parte de sua aura. A reprotubilidade técnica oriunda das novas tecnologias nos levou ao apogeu conhecido como Internet. Banco de dados de pelo menos 95% de todas as músicas já gravadas. Receptáculo de conhecimento e de todos os lançamentos Hollywoodianos… Mas é nos bens de consumo que a pós-modernidade acaba encontrando o zéniti da reprodutibilidade.

Claro que há validade na controvérsia de produtos absurdos (como o ovo falsificado mostrado pelo programa esse do GNT e os remédios, até mesmo para câncer, falsificados). Entretanto há também validade no absurdo dos valores cobrados pelos produtos originais. Mão de obra semi-escrava e um maldito tênis Nike ainda custa mais de 200 reais. E há outras questões: mesmo as empresas oficiais obedecem às rídiculas normas e legislações ambientais da China, o que se dirá das fábricas ilegais?

Mas enquanto a delegação americana exige “american food” para os atletas eu só exijo que durante o curso dessas Olímpiadas crianças, pessoas doentes e incapacitadas possam ter o direito de assistir aos jogos e não trabalhar costurando tênis Nike falsificado.

Essa é talvez uma das características mais esquecidas da época em que vivemos, que se ilude com termos franceses de justiça, solidariedade, fraternidade, mas ao mesmo tempo manda centenas de milhões de dólares e euros para países como China e Tailândia, onde favorecem uma absurda minoria que só reforça ainda mais as estruturas de poder e de opressão. Mas como bons greco-ocidentais, nos retorcemos nas formas artisticas para, de certa forma, exorcizarmos nossos dogmas de terror e impunidade.

Eu cito Arctic Monkeys.

Well oh they might wear classic Reeboks
Or knackered Converse
Or tracky bottoms tucked in socks
But all of that’s what the point is not
The point’s that there is no romance around there

And there’s the truth that they can’t see
They’d probably like to throw a punch at me
And if you could only see them, then you would agree
Agree that there ain’t no romance around there

it’s a funny thing you know
We’ll tell them if you like
We’ll tell them all tonight
They’ll never listen
Because their minds are made up
And course it’s all OK to carry on that way

Over there there’s broken bones
There’s only music, so that there’s new ringtones
And it doesn’t take no Sherlock Holmes
To see it’s a little different around here

Don’t get me wrong though there’s boys in bands
And kids who like to scrap with pool cues in their hands
And just cause he’s had a couple of cans
He thinks it’s alright to act like a dickhead

Don’t you know, oh it’s a funny thing you know
We’ll tell them if you like
We’ll tell them all tonight
They’ll never listen
Because their minds are made up
And of course it’s all OK to carry on that way
But I said no, oh no!
Well oh, you want get me to go
No anyway, no anywhere
No, I won’t go, oh no, no?

Well over there there’s friends of mine
What can I say, I’ve known them for a long long time
And they might overstep the line
But you just cannot get angry in the same way

Corpo Perfeito, Atleta Perfeito ou Máquina Humana?

Publicado em despise for humans por pedro em 07/18/2008

Em 1997 eu fui atropelado andando de bicicleta no centro de Gramado. Danifiquei o menisco do meu joelho esquerdo e por mais que fizesse exercícios e fisioterapia, jamais voltou a ser o mesmo. Quando chove ou fica muito frio dói muito e fica rígido.

Esta história é um preâmbulo do assunto – prometido antes – deste post.

No Discovery e em vários outros canais e programas esportivos – além de publicações e sites também – só o que se fala ultimamente é das Olímpiadas. O Paradigma último da auto-superação chega ao seu segundo capítulo no séc. XXI e vemos um país inteiro, a China, voltado para isso. Nos documentários e programas o foco é seguidamente o árduo treinamento.

As Olimpíadas colocam em xeque, de certa forma, o meu assunto de interesse: a lógica da máquina invadindo o espaço não máquina da vida. Vendo os atletas chineses treinar me assustei profundamente. Termos como manutenção (ainda acompanhados de exemplos do tipo: Ah, é que nem um carro…), produtividade e eficiência sendo usados para o funcionamento do corpo.

E é seguidamente colocada a questão do corpo perfeito. O preparador físico pega e diz: “Fulaninho tem um físico perfeito…” mas daí, no seguimento do programa, vemos ele sofrendo em sessões praticamente diárias de fisioterapia para combater as inúmeras lesões causadas pelo esforço ininterrupto. Corpo Perfeito? Saúde Perfeita? Eu não vejo dessa forma. Ao forçarem o corpo biológico do homem a se portar como maquinário esportivo, ele atinge seu ápice cedo demais. O documentário mostra as crianças – não muito diferente daqui do Brasil – com apenas 4 ou cinco anos treinando para serem ginastas. Superação dos limites? É lindo, claro. E um objetivo quase que plenamente humanista: superarmos através do próprio corpo, do esforço e da determinação idiossincráticas ao ser humano nossa condição. Mas vejo também que há a penumbra do trans-humanismo cegando as pessoas: os corpos realmente deformados das crianças de 7 ou 8 anos são verdadeiramente assustadores. Meninas de 16 anos sem quadris e sem seios (e que não menstruam), meninos de 18 medindo menos de 1,60 metros.

Isso me levou a notar que a deformação sistemática do corpo humano é, em si, uma parte central de diversas e antigas culturas humanas (como os índios que modificam as cartilagens do corpo, como as tribos africanas que alongam os pescoços, como os pré-colombianos que deformavam os crânios dos bebês ou mesmo as chinesas que obliteravam seus pés para ficarem de acordo com a lógica da beleza). Não pode ser plenamente considerado como um aplainamento da condição humana. Entretanto, no que diz respeito ao treinamento dos atletas, eu vejo que é sim. Arquitetar o corpo humano para que desde de jovem ele produza seu melhor desempenho. Tudo bem. Até aí não vejo realmente nada de mal, vejo na verdade uma das partes mais práticas e fizíveis das Utopias do corpo, descritas por Lucien Sfez, entre outros. Devemos mesmo preservar nossos corpos para que eles tenham seu melhor desempenho e nos forneçam a melhor qualidade de vida possível. Mas daí chegamos verdadeiramente ao ponto: onde fica esse zéniti? As dores que o atleta chinês retratado no programa sentia não pareciam ser the proper health of the body. O atleta americano tinha que usar aqueles sedativos dérmicos para conseguir terminar seus exercícios nos aros, pois a cada queda no chão, se intensificava o dano aos seus joelhos e pernas.

O atleta americano esse cercado de técnicos usando sensores e monitores eletrônicos para entender o funcionamento dos seus músculos e corpo. O atleta chinês cercado de médicos e fisioterapeutas para amenizarem suas lesões e quantificar seu desempenho.

Há no próprio paradigma grego dos jogos uma vontade e desejo de superação humana. Mas, remetendo a Nietzsce, estaria essa superação latente no nosso corpo ou estaria ela esquecida em nossas mentes? O esforço do atleta é, também, mental. Mas o leva a ter uma mente além do homem? Ou seria a lógica da batalha contra o próprio corpo a exata lógica da qual falam os filósofos no que concerne o ser do homem?

Penso que nessa era em que usamos nossos artefatos maquinísticos para desvendar o corpo do homem e levá-lo ao seu zéniti funcional há de fato algo a ser tratado com delicadeza e conhecimento.

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Este post terá continuação…