Utopia or Deuteranopia?
A utopia é uma amiga fiel da humanidade. Poderíamos até dizer que é parte fundamental do imaginário fundador da civilização. Afinal, estar junto (maffesoliano ou não) é uma necessidade quase-utópica da socieadade já que, desde a física até a sociologia, a impossibilidade da comutação total permeia a própria forma com que entendemos o mundo: queremos os outros, mas a uma distância segura.
Em Sfez, vamos ter uma confirmação: toda utopia é projeto e todo projeto almeja ser realidade. A blueprint proposta pretende-se prédio. A coisa é tal, resultado de uma construção, porque, fantasiada, revela-se como idéia diante do construtor, em Heidegger. A imagem é a própria forma da coisa. O pensamento nos permite a fantasia, nos permite o cálculo, a lógica, a esperança e o sonho. Permite-nos, como dizem os anais dos clichês, pensar um outro mundo; imaginar que há a possibilidade de se existir de outras formas.
Cidades, nações, civilizações… projetos utópicos trazidos ao mundo por gerações e gerações de sonhadores, poderia-se dizer; sonhando acordados com um mundo que ainda não existe.
Mas, em Morin, temos que a conclusão de um projeto para um novo mundo passa obrigatoriamente pela obliteração do projeto de mundo em curso.
Precisa-se perceber o mundo em seu curso atual para então mudar suas coordenadas. Por isso utopia: não-lugar. Fora dos lugares: outside the world, or, at least, outside THIS world.
Daí surge a questão: utopia ou deuteranopia? Não é percepção da construção de uma utopia, a demarcação de seus índices e a limitação de seus rumos, é a própria percepção de que seja possível uma utopia.
Deuteranopia é um dos tipos de color blindness, na verdade, é provavelmente a mais conhecida. Daltonismo para os íntimo. Incapacidade de processar algumas cores.
Então: pode alguém (ou todos) configurar uma utopia, um novo mundo possível decalcado por cima desse, sem conseguir apreender todos os índices do velho?
A transformação do mundo, se for direcionada (mesmo que apenas se pretenda isso), deve passar pelo conhecimento do mundo. Mas que mundo?, uma infinidade de autores nos alertará. Na década de 1970, junto Jean-François Lyotard, o mundo declarava a pós-modernidade. Esta, antes de projeto de mundo, emplacava (no sentido sedimentar) a percepção fluída de um mundo onde mundos coexistem. As grandes ideologias se tornaram meta-relatos: pulverizou-se e diversificou-se o maquinário utópico da civilização ocidental. Agora as máquinas de Deus estão nas mãos de todos em mais do que modos subjetivos e distantes: as fantasias utópicas que ora eram políticas, ora econômicas, ora militares, de sangue ou teológicas, se sublimam na imperatriz da variação. Utopia tecnológica. A cegueira da humanidade que impossibilitava a utopia social se articula na possibilidade de que TÉCNICA + CIÊNCIA vão desbravar esse diferencial insolúvel.
Mas não era a cegueira o empecilho anterior? E podem ter certeza – nas poucas coisas que se pode ter certeza – de que continua sendo. Obama, Apple, multiculturalismo, preservação do meio ambiente… vivemos, mais do que antes, eu diria, uma era de utopismos em atopismos. Evolucionismo ou atavismo? Estamos, na verdade, em estagnismo. Congelados como cervos, os faróis são a brilhante fantasia que se orquestra em todos os níveis da sociedade. A política se oblitera para abrir caminho para uma nova forma que ainda não tem forma. A economia convulsiona com a incerteza constante de transformações não-econômicas? Não. A economia segue a uma distância segura apoiando o mundo não atópico, obliterando as chances de transformação e conservando as articulações reumáticas de um mundo que parece cada dia mais próximo de uma forma limítrofe.
A cegueira, portanto, não é total. É verdadeiramente daltonismo: a incapacidade de se ver alguns índices da realidade. É a arrogância de trocar o azul pelo vermelho: troca-se a Terra por Marte, por um planeta novo capaz de ser totalmente terraformado pelo cálculo, pela matemática, pela lógica, pela comensura proporcionalizante.
Por isso a pergunta: a sublimação tecnológica não é ainda outra impossibilidade de se ver? Nas coisas e cálculos o ser perde um pouco mais de si e o Homem é transformado em mamífero cordado de inteligência superior: a humanidade se torna empreitada, aventura. Children are burning and we are watching it on our Ipods.
Eu não sou o maior fã de Oasis do mundo, mas em seu novo disco uma música, com o nome sinistro de Falling Down, nos aponta uma realidade latente da qual, de fato, músicos famosos devem ter informações privilegiadas: estamos vivendo um sonho moribundo. Um estranho sonho do séc. XVII, de máquinas voadoras e espíritos ligados por conduítes de ouro e estanho. Tungstênio inflamado de uma realidade tão possível, mas que escapou entre os dedos de tolas batalhas ideológicas e economicismos tacanhos.
Perdemos muito de nós mesmos ao ganharmos a era em que vivemos.
O mais estranho é que o jazz, os escritores beat, a arte do início do séc. XX (a semana de 22, Jackson Pollock), todos avisaram.
Ninguém quis escutar.
You’re hurting my hand!… Normally, I like that. But this time I can’t reciprocate your feelings.
Finalmente Coincidências
“Por quê esse título, Pedro?”
“É que ontem foi um dia repleto das mais incríveis coincidências… na verdade, essa última semana inteira”.
Essa semana foi simplesmente incrivelmente repleta das mais engraçadas coincidências.
E ontem foi o ponto alto:
Às sete da noite saio de casa e me dirijo para a Espaço Vídeo (locadora bobona e capitalista) e no que chego percebo que do outro lado da rua, na esquina da Fernandes Vieira com a Vasco (zona pobre) tem um QG Eleitoral de algum partidão B, acho que PSB. Tá, ignoro. Entro na locadora, devolvo meus filmes, pego outros, saio, e no que a porta de saída se abre e o som da rua me atinge também me atinge a voz microfonada que, assim ao vivo e a cores, há muito não ouvia: Manu Ela falava para as multidões sofredoras do Bom Fim (risos). Atravessei a rua e resolvi sacrificar 10 minutos da minha vida pra ouvir um pouco das propostas da candidata (muitos risos). Como ela estava no palanque as sete e meia, imagino que pelas cinco e meia ela estivesse em outro lugar e esse lugar podia ter sido – ou pelo menos passado por – uma outra coincidência probativa.
Essa primeira coincidência probativa: QG na esquina da Fernandes Vieira com a Vasco? COISA DE POBRE, ném? De desesperado.
A segunda coincidência probativa: estava retornando da PUC, subindo a Cristianho Fischer. Cinco e meia da tarde, início do horário de pico do trânsito transversal da cidade. Todo mundo está atravessando a cidade nessa hora, eu incluso. Na esquina da referida rua com a Protásio Alves, lá em cima, perto do lindíssimo viaduto hi-tech-escalada-rolante-elevador-três-andares, a EPTC e alguma empreiteira contratada estavam fazendo obras do corredor de ônibus da Protásio. ÀS CINCO E MEIA DA TARDE. A tranqueira na C. Fischer passava do Strike. Altamente probativo do desespero da atual gestão da prefeitura. Não basta fazer as obras, tem que fazer numa hora em que todo mundo possa ver que elas estão acontecendo. Se fizer durante a madrugada ninguém vai ver. Os caminhos recolocando cimento naquele corredor de ônibus trancavam o cruzamento atrapalhando o trânsito de ambas as vias e gerando uma quantidade de carros que não poderia jamais ser absorvida ao mesmo tempo pelas outras vias. O que aconteceu? Bom, tranqueira daquele ponto até a esquina da perimetral com a Plínio Brasil Milano.
Entretanto esta não foi a última coincidência probativa do desespero e falta de noção de nossos governantes e wannabe-governantes.
Obviamente, ontem, nesse horário, todas as obras do pastel Fogazza se mostraram altamente idióticas e sem resultados. Goethe, Nilo Peçanha, Mariante, Cristóvão Colombo, Farrapos… entre o período de cinco e meia e oito e meia são praticamente intransitáveis. A saída do túnel Conceição para a Farrapos/Alberto Bins simplesmente não suporta mais a quantidade de carros e a fila de carros para passar na sinaleira (que além de ter um tempo rídiculo abre caminho para um afunilamento da pista que, além dos óbvios acidentes, ainda tranca a Alberto Bins) entra no túnel e vai até onde ele acaba.
Ainda ontem fiquei sabendo que um dos meus grandes amigos passou por uma dificuldade inimaginável para com certeza a maior parte das pessoas que conheço. Este meu amigo, Peter Krause, quase foi asssassinado pelo seu colega de quarto e amigo da família que, sendo surdo, ninguém percebeu possuir sérios problemas psicológicos, um deles podendo ser, com muita certeza, esquizofrênia. Entretanto, isso figura como tragédia e não necessariamente como coincidência. O que é a coincidência do desespero que este estado vive é a demora no atendimento de emergência e a total incompetência do atendimento policial, que, a princípio, registrou o acontecido como uma simples briga. Eu imagino esse relatório: “ah, foi uma briga entre colegas de quarto na qual um deles tentou uma coisa bobinha como incendiar a cama do outro enquanto este ainda dormia nela”.
A população gaúcha parece, em sua maioria, um tanto quanto despreocupada com a seriedade das questões que estamos enfrentando. Fala-se de saúde mas não são necessariamente os indivíduos da cidade que precisam de saúde; é a cidade. Uma cidade doente, com uma doença circulatória que só tende a se agravar, com um trânsito crescentemente inconsequente, que agora se esconde atrás das (falsas) estatísticas do Detran e das agências de trânsito sobre diminuição dos acidentes. Ontem, na esquina da Luzitana com a Gen. Couto de Magalhães, um táxi e uma van da Chevrolet bateram num motoqueiro matando-o na hora. Ninguém tava bebâdo. O que aconteceu foi que não ensinaram pra eles que sinal vermelho é FECHADO. Mas a doença não pára aí. Além do problema de trânsito, a cidade (pra não dizer o estado) enfrentam a maior frente de comércio de drogas que já viu. Meu amigo Gustavo, que infelizmente trabalhava na rua da crackolândia municipal, está tendo que mudar seu escritório de lugar porque a prefeitura não faz e nem pretende fazer nada sobre a prostituição, consumo e venda de crack ao céu aberto, com dia claro, há apenas 4 quadras do centro da cidade e apenas 8 quadras da prefeitura.
Manu, Fogazza, Onyx, nenhuma dessas pessoas, nenhum dos candidatos tem força política, moral, intelectual, nem sequer tem vontade ou objetivam ajudar essa cidade. Em certos tempos, Porto Alegre já foi linda. Mas hoje? Hoje está afogada no patetismo generalizado. Oficiais da EPTC passeiam pelas ruas da cidade, conversando, fumando, falando nos celulares, enquanto do seu lado, na Terceira Perimetral, às seis da tarde, os doutores de mercedão passam no sinal vermelho. A polícia Militar se resume a procurar motoristas embrigados em blitz rídiculas nos lugares mais óbvios possíveis (como Lima e Silva). Passam diariamente na frente de dezenas (sim, dezenas) de pontos de drogas e quando tu vê mais parece que eles estão fazendo a proteção desses lugares do que qualquer outra coisa. Numa famigerada boca de drogas de Porto Alegre, de fácil acesso e que eu passo frequentemente na frente, esses dias tinham dois carros do exército brasileiro esperando que um dos ocupantes retornasse exatamente do beco onde fica esse ponto de drogas. Essa cidade não precisa de malabarismos ideológicos e discursivos. Não precisa de propostas, precisa de ações. Ações medidas, ponderadas e úteis. Metrô ou não metrô, a cidade tem só mais (extrapolando) 10 anos de vida antes de estar totalmente afogada no trânsito estático, nas drogas, na violência. Não dá mais pra esconder a tragédia que essa cidade está se tornando com “população politizada”, “melhor qualidade de vida” ou “a capital dos gaúchos”.
Absolutos, exemplos, extrapolação…
Neste domingo chato e chuvoso só vai dar pra falar de algum assunto chato e chuvoso.
Usain Bolt, a China hospedando as Olímpiadas, Guantanamo, Rússia que salva Ossétia do Sul vs. Rússia que invade a Geórgia, pesquisadores americanos investigando pesquisas americanas falsas ou com bogus data, aceleradores de partículas, novas espécies de insetos e de animais sendo descobertas, causas e conseqüências de mudanças climáticas e da ação do homem sendo finalmente desveladas… os últimos eventos mundiais provam um ponto que venho reforçando há muito em muitas das minhas discussões e pensamentos: realmente não existem absolutos, o que existe – e acaba se tornando uma forma de absoluto – são extrapolações, probabilidades, estatística.
Quando vendo um documentário sobre física quântica e o aclamado doutor em física em questão diz: nós vemos que não é só a luz que vive na dualidade entre matéria e onda, a própria matéria, como a conhecemos, se porta dessa maneira, partículas atômicas e sub-atômicas vibrando numa determinada freqüência, só que de maneiras e com conseqüências que ainda não conseguimos entender ou vislubrar totalmente, me peguei pensando como realmente vivemos uma época intelectualmente muito bonita (apesar das minas ao longo do campo…) na qual finalmente o ser humano, como espécie voltada para a busca de conhecimento e melhoria das suas condições, começa a entender que nem Deus e nem ciência; ninguém fornece respostas absolutas e os ditos absolutos, tais como os conhecíamos, se tornaram tão gradiosos e inalcançáveis que só nos resta perceber que eles são, essencialmente, insondáveis.
Obviamente há milhares anos, quando a população humana mal beirava o milhão, não existiam pesquisas de mercado, eleitorais ou mesmo demográficas; pelo menos não da maneira que elas existem hoje. Porém, se existissem, penso que elas dariam respostas muito diferentes das de hoje em dia, proporcionalmente, pois o corpo pesquisado poderia facilmente ser completa e fundamentalmente sondado. Pegam-se números de pesquisas todos os dias, que alteram vivências econômicas, sociais, políticas, de todas as formas e que são constituídas por extrapolações estatísticas e de probabilidade. O Ibope, por exemplo, jamais conseguiria fazer uma pesquisa de cunho absoluto: afinal não haveriam recursos ou mesmo logística para se fazer uma pesquisa desse tipo. Eu, em toda a minha vida, jamais recebi uma visita do censo brasileiro. E moro, a minha vida inteira, numa das principais capitais do Brasil. Voto desde os 18 anos e jamais fui entrevistado sobre meu voto por nenhuma forma de pesquisa.
O que se faz, em todos os campos, é um recorte: claro, investiga-se um fenômeno cultural, econômico, social (todos ao mesmo tempo, às vezes), humano, em si, e se recorta ele. Seja por um viés barthesiano, de que a menor parte do todo pode nos dar importantes informações e ponderações sobre o todo desde que devidamente recortada, ou mesmo o novelty viés sistêmico, e seu entendimento que todas as partes se relacionam de maneira ativa e fundamental, sempre entendemos as coisas através de exemplos e de extrapolações. Uma pesquisa sobre blogs, por exemplo, terá como seu objeto ora dados estatísticos, mesmo que sejam eles subjetivos, sobre inumeráveis blogs, ora apenas um blog ou grupo de blogs. É inegável que ambos os olhares nos darão – desde que competentemente executados – uma visão, diríamos, esclarecedora sobre o fenômeno em questão, a blogosfera, ou o chamado fenômeno dos blogs. Também é inegável que ambas recortam o objeto em si dos blogs. Este, é claro, é só um exemplo. Válido para diversos outros, ditos, fenômenos de cunho cultural, sociológico e talvez até econômico e político.
Há um horizonte, um macroverso, que só pode ser vislumbrado a partir de parcelas. É arrogância e inocência pensar que as falsas premissas ou hipóteses forçadas podem ser completamente deixadas de lado ou fundamentalmente evitadas. Como eu dizia em outro post, Isaac Newton partiu de uma premissa que, na época, era tida como insana ou, no mínimo, desconexa. Assim como Copérnico e tantos outros grandes pensadores. Ou mesmo como a Lua, e seu lado sempre escuro que só deixava espaço para cogitações e imaginários. Hoje mesmo, tentar ensinar relatividade pode ser um exercício de muita paciência: claro que a maior parte das pessoas entende aquele clássico exemplo dos carros (estamos andando num carro em alta velocidade, a paisagem parece se mover, ao pararmos o carro vemos que na verdade era o carro que se movia…) mas quando se extrapola essa premissa, e tenta-se elucidar o fato de que o universo inteiro funciona dessa forma, de que em outro canto da galáxia os corpos celestes estão se movendo mais rapida ou lentamente que a Terra, gerando uma diferença em relação a uma possível percepção do tempo, geralmente a explicação se torna incompreensível. E, para os mais ilustrados, às vezes até inaceitável. E hoje temos diversas comprovações materiais de que a relatividade é uma realidade não só do mundo físico como também do mundo metafísico: depende de onde e como de olha e de onde e como está o que se olha.
A partir dessa mudança de eixo diversas descobertas importantíssimas foram feitas, tanto nas ciências ditas “duras” como nas ciências sociais e humanas. O advento da percepção do microverso nos levou aos campos teóricos que conhecemos hoje. Em termos, hoje a percepção da funcionalidade e materialidade do microverso dita o comportamento humano, (ou talvez exatamente o contrário) sendo seguidamente confundido com as tais esferas pública e privada. Tantos, mas tantos autores, pensadores e mesmo pessoas comuns em suas conversas e discussões diárias percebem claramente que vivemos em pequenos grupos sociais, microversos como engrenagens de um maquinário civilizatório muito maior e, necessariamente, além do nosso controle direto. Indiretamente as forças destas tribalizações, para citar o chatonildo do Maffesoli, refletem-se em poderosos vetores decisórios e modificadores do que se poderia entender como macroverso social. Como a queda do muro de Berlim, partes atomizadas juntaram seus vetores para que estes pudessem causar uma ruptura visível em todo o corpo da sociedade não só berlinense, nem alemã, mas ocidental (no mínimo). Claro que hoje se privilegia um cartesianismo transcendental, aos moldes de outro chatonildo, o Kant, causa e conseqüência, causa e conseqüência, causa e conseqüência, mas mesmo pensando sob um viés mais holístico, integrador, eu diria até quântico-sistêmico, podemos ver que as coisas ainda assim acontecem, mesmo que levadas por forças maiores que o próprio evento, de maneira pontual.
Penso, sustentado por diversos autores que fazem parte do meu corpus teórico, que exemplos atomizados tem sim sua validade e não te levam direta e necessariamente para falsas premissas e erro. Filmes, programas de TV, livros, histórias em quadrinhos, acontecimentos históricos, eventos artísticos, interações mediadas pelas mais diversas formas, diálogos informais, discursos, brigas conjugais, entre etnias, entre religiões, todos esses exemplos e muitos outros de ordem, novamente, política, social, cultural, e mesmo existencial possuem mais facetas, repercussões e “pano pra manga” do que qualquer tipo de percepção, por mais abrangente que seja, possa vir a contemplar. e podem sim te levar a conclusões fundamentadas e o entendimento de fenômenos. Sobra-nos , portanto, nos debruçarmos sobre eventos, fenômenos e categorias a partir de recortes que nos parecem, ou para nossos pares e mentores, importantes, diagnósticas ou pelo menos interessantes. Como Hannah Arendt colocaria, antes de mais nada, somos humanos exisitindo de uma determinada forma quase-insondável, perseguindo weberianamente nossos interesses mais queridos e irrevogáveis através das formas que conhecemos, que definimos como condição humana. Essencialmente, quando não estamos falando do comportamento de partículas sub-atômicas ou da expansão das galáxias, estamos falando sobre o ser humano, sobre sujeito e objeto.
Impossível perceber a totalidade de qualquer coisa, impossível ter certezas absolutas, impossível não recortar o veludo do universo para conseguir, através daquele pequeno farrapo, entender do que é feito o universo. Afinal, uma gota de água ainda é água, ainda que não seja o oceano.
provérbios 25:2
A glória de Deus é ocultar as coisas, e a glória dos reis é pesquisá-las. A altura do céu, a profundidade da terra e a mente dos reis são coisas insondáveis.
Novamente spoilers.
Bom, assisti hoje no início da noite ao segundo filme do Arquivo X, X-Files: I Want to Believe. Espantei-me ao perceber, logo nos primeiros minutos, que este filme não seria sobre abduções, conspirações alienígenas/governamentais nem espíritos do além ou avanços tecnológicos ameançando a sobrevivência da humanidade. Bem pelo contrário. O filme aborda uma temática muito, mas muito comum mesmo nas formas de ficção fantástica hoje evidenciadas à extensões assutadoras na televisão e entre certas camadas da humanidade: mediunidade. A habilidade de perceber o passado jamais vivido, de entender o futuro indizível. Séries como Medium, protagonizada por Patricia Arquette (e que este que vos fala assistiria ininterruptamente, em parte pela própria Patricia, que eu adoro e sempre adorarei – gótica, em Stigmata, perfeita em Lost Highway, melhor filme do Lynch, e mãe de família genial, querida, afetuosa e fogosa na série), vê-se esse tipo de coisa o tempo todo. Há outras séries e até programas no Discovery e History Channel. Pessoas com uma afinidade especial com o universo. Eles não são mutantes nem híbridos com alienígenas e muito menos são robôs ou inteligências artificiais. Como o próprio personagem Padre Joe (assustadoramente: Father Joseph Crissman), interpretado pelo genial Billy Connoly, que é um pedófilo condenado que estuprou 37 coroinhas (entre eles, o próprio vilão do filme), são pessoas com defeitos, pecados, pouca inteligência (Ghost Whisperer); pessoas falhas. Enfâse em pessoas.
Como alguns sabem, meu objeto de pesquisa é a série de TV Arquivo X, principalmente a maneira como a série articula e revela certos aspectos de uma nova e premente ideologia que parece afetar todas as camadas da sociedade e muitas, mas muitas das culturas do mundo, sendo percebida, até, como uma Nova Utopia. Na verdade, meu objeto de pesquisa é, em si, a maneira como todos nós lidamos com as novas tecnologias. Os avanços da humanidade, sejam eles quais forem, acabam por (in)advertidamente transformarem fundamentalmente a maneira como vemos o mundo. E, penso eu, muito da maneira como vemos, compreendemos e apreendemos o mundo se revela através dos construtos midiáticos e dos produtos culturais (mesmo aqueles que, para alguns, nefastamente, vem da malvadona indústria cultural). Entretanto, certos avanços já em curso no mundo – a ubiqüidade da Internet, um exemplo simplesmente muito simples – figuravam até algumas décadas como sonhos, figuras de uma imaginação fantástica, zénitis de um pensamento utópico que sonhava soluções fantasmáticas para as questões humanas. Mas, como posto, certos avanços se tornam fundamentalmente reais. A cura de doenças, verdadeiros manuais para a longevidade e maiores potencialidades de vida, de produtividade e de progresso (?), além, é claro, da esmagadora presença total da idéia de saúde perfeita.
Minha premissa pessoal sempre foi a mesma. E me vejo respaldado em certos autores e pensadores (mesmo alguns tão distantes quanto Platão): EXISTE UMA COISA CHAMADA CONDIÇÃO HUMANA. Somos seres humanos. SOMOS humanos. E isto nos define. Os avanços e suas repercussões são CONDIÇÕES DE HUMANIDADE.
Digo isso, pois, o filme, em questão, mostra exatamente isso. As visões do Father Joe são altamente morais. O mundo humano é moral. Ele procurava sua própria redenção, inclusive admitindo ter se castrado aos vinte e tantos anos, por entender, em sua alma (se me leitor permitir), que aqueles “desejos sujos” – como ele mesmo coloca – eram errados e deveriam ser ceifados. Suas previsões eram sobre pessoas (a ligação dele com elas era que o ‘chefe’ foi uma de suas vítimas) usando experiências com células troncos e desenvolvimento celular para conseguir fazerem operações de transplante de corpos inteiros (tira-se a cabeça de um corpo e inserem ela em outro); the catch: os corpos usados eram de pessoas inocentes seqüestradas. It’s not Frankenstein, it’s human bodychop.
O uso que fazemos daquilo que nos é dado o
u que inventamos é humano. Sofro ao ver certas pessoas chamando coisas como tortura e irresponsabilidade como ‘desumanas’. Vlad, o Impalador, que ganhou o mundo com a lenda do Drácula, era humano. Nasceu, como diriam os antigos, das entranhas de uma mulher. E sabemos hoje que nada nasce das ‘entranhas’ de uma mulher e não é humano. Sabemos que serpentes não são homens. Penso no caso daquele garoto que os ladrões, ao roubarem o carro de sua mãe, falharam ou simplesmente ignoraram o fato de que ele ficara pendurado pelo cinto de segurança e fora arrastado por algumas quadras. Isso é humano. Claro que bondade, solidariedade e sacrifício também são inerentes ao SER do humano, porém certos aspectos menos contemporaneamente aceitáveis também são. Tortura, assassinato, chacinas, estupro, ganância, preconceito, vingança, inveja, ciúme. O homem é mais do que o próprio homem pode conseguir explicar. Entristeço-me ao ver programas como Fantástico e extensas séries de documentários do Discovery e de outros tantos canais como BBC descrevendo homens, mulheres, crianças que ainda nem sabem escrever como fatos calculáveis e predizíveis. Toda a vida é imprevisível. Talvez este seja o porém de ter ganho tal nome: Vida. O humano é algo complexo, definido por jogos constantes de poder, de inteligência e, por mais que certos neguem, de emoção. Gostamos das coisas. Das pessoas. Dos dias. Das noites. De doce. De salgado. E mais do que isso, gostamos de gostar. Gostamos tanto de gostar e desejamos tanto desejar que nos definimos por isso. Muitos negam, mas o humano é interesse. Não aquele interesse bobo que colocam na palavra interesseiro. Todos somos interesseiros. “Meu interesse é continuar vivendo, por isso como”. Um dos nossos maiores interesses, este mesmo, continuar vivo, está intrinsecamente disposto no próprio mecanismo de nossos cérebros. Entretanto, mesmo que este seja mesmo um mecanismo, o transpomos. Na verdade, o transpassamos. Ultrapassamos o – como dizem esses tão prolixos tecnófilos – nosso software e o nosso hardware. Somos mais. Assim como lobos, somos capazes de amputarmos nossas pernas e braços para sobreviver, assim como somos capazes de devorar nossos iguais a fim de que possamos procriar mais uma geração, mesmo que ainda existam outros seis bilhões de espécimes humanos. Entretanto, a natureza, antes, talvez, do próprio Deus, nos deu a capacidade de abstrair. E abstraindo…
Daí decapitar uma mulher que jamais conhecemos para que possamos reanimar um ente querido se torna fácil. Exterminar sistematicamente uma outra raça, credo, classe social se torna realmente muito fácil. “Os judeus é que são o problema”, era muito dito há 70 anos atrás e ainda é dito hoje em dia (once a nazi, always a nazi).
Talvez eu tenha essa percepção de maneira ainda apressada. Talvez a pesquisa realmente valide outras idéias. Entretanto, no momento, penso o seguinte, calcado em minhas conclusões prévias:
Abstraindo o homem chegou até onde está.
Entretanto, de tanto abstrair, acabou abstraindo a si próprio e descobrindo que o mundo pode continuar existindo com inteligência, cultura, tecnologia e progresso sem que sua existência seja um requisito.
Eu não sou o mais carola. Nem me considero ateu. Mas penso que a existência ontológica de Deus, de certa forma, nos coloca em nossos lugares. Pecadores inadvertidos que parecem almejar a próprio destruição. Vejo que muitos imaginam nossa existência como algo supra-natural. Como se o que fizéssemos transpassasse ou superasse a natureza. Nós, homens, somos a natureza. Aquecimento global, destruição do meio ambiente, tantas outras tormentas naturais fizeram isso, eliminaram milhares de espécies. Não sei, penso como no provérbio. Deus, ou o próprio universo, tem a qualidade essencial de ser o mistério…
Nós é que devíamos ter mais a qualidade essencial de desvendá-los, ao invés de simplesmente utilizá-los…
that’s what happen when an unstoppable force meets an immovable object
**SPOILERS**
Quase 20 anos depois de Tim Burton, continuando o que vários fãs chamam de a nova saga do Batman, Cristopher Nolan martiriza o clássico herói dos quadrinhos num filme digno do nome que ganhou e que honra em muito não o clássico herói de uniforme cinza e azul, mas aquele frank-milleriano Batman das páginas das graphic novels, com mocinhos mortos ou levados a loucura.
Como detesto multidões só vi o filme ontem. E só tenho uma coisa a dizer: o melhor filme de super-herói dos últimos tempos é IronMan, porque esse filme, Batman: The Dark Knight, simplesmente não é um filme de super-herói. É simplesmente um filme. Não foram utilizadas fórmulas e as idiossincrasias dos personagens foram levadas ao extremo.
Muita gente vem falando do Coringa, interpretado pela já falecido Heath Ledger, entretanto o personagem, como no universo Batman de tantas aclamadas graphic novels, ele é uma parte do quebra-cabeça e sua performance ressoa nos outros personagens. Claro, quando ele aparece vestido de enfermeira é simplesmente genial. É aquele tipo de coisa que quando tu vê tu pensa: claro, mas é claro! Entretanto, isso é só uma parcela. Christian Bale consegue SER BATMAN E BRUCE WAYNE. Aaron Eckhart, o promotor Harvey Dent, consegue ser o heróico advogado e, no final do filme, ultrapassa os efeitos efeitos especiais que desenham sua face corrompida para realmente ser, desde o olhar até o coin toss, o famigerado Duas-Caras. Gary Oldman, o primeiro detetive e depois comissário Gordon, tem mais espaço no filme e consegue levar o personagem à lugares jamais levados nem nos quadrinhos nem na série de TV ou em outros filmes do Burton e do Cameron. Um lugar de destaque, fazendo o papel da cola, do herói de verdade. Indaga-se no filme que Gotham precisa de um herói de verdade, entretanto ninguém parece perceber que esse herói é Jim Gordon, andando na corda bamba entre a promotoria e o vigilantismo de Batman, levando a cabo o plano de Batman para imortalizar a fama de Dent, quando esse surta e se torna o Duas-Caras.
Alguns blogs falam do Coringa como ele sendo um marco da pós-modernidade. Eu penso totalizado: o filme é isso. Quando da cena das barcas, a dignidade do preso em amendrontar o oficial para que ele lhe entregue o detonador e sua completa falta de hesitação em simplesmente atirar o aparelho pela janela, virar-se, sentar junto aos outros prisioneiros e rezar, e o discurso do homem na outra balsa seguido por sua total hesitação em detonar a balsa dos presidiários é simplesmente incrível e de uma sensibilidade digna de filmes como No Country for Old Men ou The English Patient. Penso que parece coerente – apesar de trágico, pois o Coringa não morre e com certeza haverá uma continuação para esse filme que sofrerá as conseqüência ou de um novo Coringa (dificilmente melhor que o de Ledger) ou a simples ausência do personagem – que Ledger tenha morrido ainda durante a pós-produção do filme, já que aparentemente atingiu seu zéniti: e qual melhor ápice de uma carreira masculina hollywoodiana do que superar um dos maiores mestres dessa forma de arte, Jack Nicholson, incorporando um de seus tão famosos personagens e, inevitavelmente, superando-o.
O filme superou minhas expectativas em muito. Faz juz ao personagem exaltando não suas características de ‘lutinhas super-heróicas’, mas sua inteligência e obstinação. Faz juz aos seus vilões, retrantando-os como loucos mentirosos e não gananciosos fantasiados. O Coringa não ganha nome verdadeiro, e ele conta duas vezes, de maneiras diferentes, a história de suas cicatrizes, que na verdade figuram como sua origem, sempre, obviamente, mentindo e sempre ofendendo e diminuindo a figura de sua mãe. Seja por ela sendo humilhada e morta por seu pai, seja ela sendo deformada por traficantes ou mafiosos. Ora suas cicatrizes foram feitas por seu pai, ora por ele mesmo. Como Jesus, ele parece se imaginar como seu pai e sua mãe, e muito diferentemente do filme de Burton, aqui o Joker faz piadas inteligentes. Sua inteligência é sua arma. Sua inteligência e sua frieza. Um Coringa capaz de enfrentar até o Super-Homem ou o Lanterna Verde. Maldoso e insano, mas jamais desesperado e burro como Nicholson.
Entretanto, de forma alguma ele é o cerne do filme. O filme é sobre heróis. Não super-heróis. Mas heróis. É sobre tomar uma atitude, sem ter medo, de arcar com as conseqüências de um mundo continuamente imerso em corrupção, crime, tragédia e desesperança. Gotham podia ser o Brasil. Dent é retratado como o Cavaleiro Alvo de Gotham (isso não tem no Brasil) e o Batman como o Cavaleiro Negro. O filme é sobre o modo com que lidamos com a esperança e a desilusão, o modo como permitimos que a corrupção, o crime, a desonestidade toma conta da nossa vida social e alcance até os mais altos escalões do poder e da moralidade. No fundo, o filme é sim um ode aos paradoxos da modernidade (P da M), é um reclame a um mundo que permite Bushs, China e Córeias…
Pirataria – dos saqueador ingleses do séc. XVI até os saqueadores ideológicos da china do séc. XXI
Hoje se fala muito em pirataria. DVDs piratas, programas piratas, tênis piratas, roupas, bolsas, you name it. E quando se fala em falsificações o primeiro nome que vem a cabeça é China.
No séc. XV, depois de viajar por alguns lugares do Oriente, convenientemente, nosso querido Gutemberg inventa a prensa. Égide máxima do que ficou conhecido através da Escola de Frankfurt como indústria cultural: a reprodução massiva de obras de arte, textos, imagens que outrora só poderiam ser visto presencialmente. A China copia há séculos. Em parte, a cultura milenar da China é centralmente marcada pela reprodutibilidade, seja manual ou técnica. O próprio aprendizado de seu alfabeto se dá pela cópia incansável da ortografia do mestre e a cópia de obras de arte remonta há muitos séculos.
Nos séculos passsados, pirataria estava ligada aos controversos aventureiros marítimos – principalmente ingleses – que saqueavam navios espanhóis, italianos e portugueses, entre tantos outros, em busca dos tesouros encontrados no Novo Mundo. Hoje pirataria é sinônimo (apesar do Jack Sparrow) de produtos falsificados produzidos principalmente no leste asiático. Governos ocidentais de todas as ordens procuram com campanhas e ações policiais coibir e inibir o comércio dessas falsificações, inclusive contando com a colaboração das empresas que originalmente produzem esses produtos, em congressos e associações internacionais de combate a essas práticas.
Entretanto há uma similitude assombrosa com a lógica da pirataria do séc. XV e XVI com a lógica da moderna pirataria manufaturada: assim como os piratas eram protegidos e defendidos pela coroa inglesa, mesmo que só veladamente, os ‘pirateiros’ de hoje em dia são amplamente defendidos pelo governo chinês, que, abertamente os combate, mas veladamente os apóia pois são imensos geradores de renda para as populações mais carentes (que, admitamos, é a maioria sempre). E as empresas, de certa forma como a Espanha e a Itália, não combatem e criticam abertamente o governo chinês pois esse, do outro lado da moeda, beneficia os negócios dessas companhias multinacionais que dependem da força de trabalho quase escrava da China pra produzir seus produtos com preços competitivos.
No GNT está dando um documentário sobre isso, claro que na linha do interesse global pela China nesse amanhecer dos Jogos Olímpicos. Evento esportivo mundial de confraternização dos povos que, a meu ver, está servindo para legitimar um dos mais injustos e cruéis sistemas de controle e gestão social de todos os tempos. Um imenso país com mais de dois bilhões de pessoas (pouco menos de 1/3 do mundo) onde inexistem completamente regulamentações referentes ao trabalho. Um país que se diz comandado e gerido por um partido dos e para os trabalhadores que fomenta a existência de fábrica ilegais, onde não há garantia de pagamento devido, de acúmulo de horas extras ou mesmo das mínimas condições de trabalho. Voltamos ao sécs. XVII e XVIII, voltamos à Revolução Industrial, de tetos baixos, toxinas envenenando bebês que ainda nem nasceram, voltamos, mas em termos. Essa máquina do tempo distorce o tempo e faz da imensidão chinesa um séc. XV, XVI juntamente com os séculos XVII e XVIII.
Aterrorizados pelo esquecimento do campo, os jovens deixam as comunidades periféricas da China e rumam para os centros industrializados onde os que têm algum tipo de instrução ou qualificação são engolidos pela manufatura de produtos originais de empresas com fábricas naquele país – como Nike, Louis Vitton, Chloé, Adidas, entre tantas outras – e os que não figuram como mão de obra qualificada são absorvidos pelo mercado paralelo para produzirem os mesmíssimos produtos.
Porém vejo, que até certo ponto, este fenômeno tem reverberações em diversas outras áreas, mesmo econômicas, da vida cotidiana. Vou na loja, compro o DVD do novo Indiana Jones e o disponibilizo nas redes P2P – que são muitas – fazendo com que logo, logo ele exista em diversos PCs e servidores ao redor do globo. Adorno, Horkheimer, Benjamin, esses frankfurtianos originais temiam o fim da “aura” da obra de arte, temiam que grandes artistas se tornassem banalizados (o que, de fato, até certo ponto, realmente aconteceu, né, Dan Brown?), entretanto a era da reprodutibilidade técnica encontrou formas e conteúdos mais, digamos, economicamente interessantes. As canecas com a imagem de Gioconda ainda estão aí, existindo no breu perdido dos brindes e dos nic-nacs vendidos popularmente a 1,99. A indústria mesmo da reprodutibilidade se voltou para os tênis, bolsas, DVDs, programas de computador. Encontrou na própria população que os produz, os menos favorecidos economicamente, um nicho de mercado muito aconchegante: eu trabalho por menos de um dólar a hora, jamais vou ter dinheiro suficiente para comprar um tênis nike de 200 dólares ou uma bolsa Chloé de 2 mil.
Agora, quando a lindíssima e super na moda bolsa Chloé custa menos de 30 dólares, daí se consegue comprá-la. Um PlayStation 2, que original ainda custa 600 reais, na fronteira amiga entre Brasil e Paraguai se acha por menos de 200. O Nintendo Wii, sensação videogamica, que custa quase três mil na Mega Mídia do Bourbon, foi comprado pro alguém próximo de mim por menos de mil. Na verdade, mil reais com todos os controles e dezenas de jogos. E funciona perfeitamente.
A arte, de certa forma, foi de fato perdendo parte de sua aura. A reprotubilidade técnica oriunda das novas tecnologias nos levou ao apogeu conhecido como Internet. Banco de dados de pelo menos 95% de todas as músicas já gravadas. Receptáculo de conhecimento e de todos os lançamentos Hollywoodianos… Mas é nos bens de consumo que a pós-modernidade acaba encontrando o zéniti da reprodutibilidade.
Claro que há validade na controvérsia de produtos absurdos (como o ovo falsificado mostrado pelo programa esse do GNT e os remédios, até mesmo para câncer, falsificados). Entretanto há também validade no absurdo dos valores cobrados pelos produtos originais. Mão de obra semi-escrava e um maldito tênis Nike ainda custa mais de 200 reais. E há outras questões: mesmo as empresas oficiais obedecem às rídiculas normas e legislações ambientais da China, o que se dirá das fábricas ilegais?
Mas enquanto a delegação americana exige “american food” para os atletas eu só exijo que durante o curso dessas Olímpiadas crianças, pessoas doentes e incapacitadas possam ter o direito de assistir aos jogos e não trabalhar costurando tênis Nike falsificado.
Essa é talvez uma das características mais esquecidas da época em que vivemos, que se ilude com termos franceses de justiça, solidariedade, fraternidade, mas ao mesmo tempo manda centenas de milhões de dólares e euros para países como China e Tailândia, onde favorecem uma absurda minoria que só reforça ainda mais as estruturas de poder e de opressão. Mas como bons greco-ocidentais, nos retorcemos nas formas artisticas para, de certa forma, exorcizarmos nossos dogmas de terror e impunidade.
Eu cito Arctic Monkeys.
Well oh they might wear classic Reeboks
Or knackered Converse
Or tracky bottoms tucked in socks
But all of that’s what the point is not
The point’s that there is no romance around there
And there’s the truth that they can’t see
They’d probably like to throw a punch at me
And if you could only see them, then you would agree
Agree that there ain’t no romance around there
it’s a funny thing you know
We’ll tell them if you like
We’ll tell them all tonight
They’ll never listen
Because their minds are made up
And course it’s all OK to carry on that way
Over there there’s broken bones
There’s only music, so that there’s new ringtones
And it doesn’t take no Sherlock Holmes
To see it’s a little different around here
Don’t get me wrong though there’s boys in bands
And kids who like to scrap with pool cues in their hands
And just cause he’s had a couple of cans
He thinks it’s alright to act like a dickhead
Don’t you know, oh it’s a funny thing you know
We’ll tell them if you like
We’ll tell them all tonight
They’ll never listen
Because their minds are made up
And of course it’s all OK to carry on that way
But I said no, oh no!
Well oh, you want get me to go
No anyway, no anywhere
No, I won’t go, oh no, no?
Well over there there’s friends of mine
What can I say, I’ve known them for a long long time
And they might overstep the line
But you just cannot get angry in the same way
They’d probably like to throw a punch at me
And if you could only see them, then you would agree
Agree that there ain’t no romance around there
We’ll tell them if you like
We’ll tell them all tonight
They’ll never listen
Because their minds are made up
And course it’s all OK to carry on that way
There’s only music, so that there’s new ringtones
And it doesn’t take no Sherlock Holmes
To see it’s a little different around here
And kids who like to scrap with pool cues in their hands
And just cause he’s had a couple of cans
He thinks it’s alright to act like a dickhead
We’ll tell them if you like
We’ll tell them all tonight
They’ll never listen
Because their minds are made up
And of course it’s all OK to carry on that way
But I said no, oh no!
Well oh, you want get me to go
No anyway, no anywhere
No, I won’t go, oh no, no?
What can I say, I’ve known them for a long long time
And they might overstep the line
But you just cannot get angry in the same way
Notícia que não saí no Jornal
Recomeça a corrida pela Prefeitura de Porto Alegre e todos os candidatos parecem completamente perdidos numa cegueira intrínseca. Uns prometem metrô enquanto que o já prefeito declara que “A cidade pode ter a audácia da esperança”. Há nesse estado um estranho moralismo, as questões realmente fundamentais não são realmente abordadas, como se fossem algum tipo de tabu.
Ao invés de projetos em melhorias para o trânsito de Porto Alegre (como a simples melhoria do tempo dos semáforos nas regiões mais movimentadas da Assis Brasil, Goethe, etc.) desvia-se totalmente da questão usando o metrô (que demorará vários anos, provavelmente mais de um mandato, para ser concluído completamente) como solução divina para o problema. Fala-se muito demagogicamente de esperança, mas em vários fronts a batalha parece perdida.
Neste ano de 2008, nossa querida polícia e seus adendos fizeram o que se chamou de “limpa” das zonas onde estaria acontecendo, sabidamente, tráfico e consumo generalizado de drogas. Um dos meus grandes amigos trabalha próxima a uma dessas localidades na sua agência de publicidade. O nome da rua é Comendador Azevedo, no bairro Floresta, que fica há pouco mais do que dez quadras do Centro (na verdade umas quinze quadras da própria Prefeitura Municipal). Claro que a polícia realmente foi até ali com suas armas, uniformes, carros e caminhotes. Sim, eles prenderam dezenas de pessoas. Entretanto hoje, muito menos do que um ano depois, ainda no mandato de mesmo governador e de mesmo prefeito, todos os dias estão ali na mesma esquina (com a Voluntários da Pátria) vendendo, consumindo e se prostituindo para consumir e vender crack. Incluindo diversos menores. Não é maconha, cocaína ou essas designer drugs que se apreendem em aeroportos, rodoviárias e afins todos os dias de todos os anos em tantos lugares: é CRACK. Cansamos de ouvir “PF apreende X quilos de cocaína…”, “Brigada encontra Y quilos de maconha…”, e o crack? O crack que segundo uma incrível (notem o sarcasmo) série de matérias da Zero Hora invade até as cidades do interior e as classes média e alta.
Desculpa dizer isso, mas em comparação com outras drogas é que se percebe que droga, que arruina a sociedade, famílias, empregos, que gera criminalidade, que corrompe o desenvolvimento econômico de um país é o crack, e não maconha, cocaína ou ácido e E.
Na semana passada numa das “bocas de tráfico” mais conhecidas de Porto Alegre teve uma batida da polícia militar, nossa querida e eficiente Brigada. O mesmo de sempre: soldados do tráfico com as mãos nas paredes, sacolas com cocaína e maconha pelo chão, policiais nervosos com escopetas calibre .12 apontadas ininterruptamente para a cabeça de garotos de não mais do que 20 anos. Isso foi, se não me engano, na quarta-feira. Sábado a franquia do tráfico funcionava normalmente, com carros da Brigada parados a menos de cinco quadras do local.
Ontem, domingo, andando numa das muitas avenidas de três pistas da cidade (sarcasmooooo), vou dirigindo seguindo um Audi A3 preto, muito bonito, modelo novo, com rodas personalizadas, vidros escuros. Só consigo mesmo ver que quem dirige é um jovem (de não mais que 25 anos), sozinho. O carro move-se devagar – em comparação com a velocidade dos outros carros – e erraticamente. De repente, ele que dirigia pela pista central, troca de pista para a pista da direita, sem dar sinal, sem olhar no espelho, sem nada, e por muito, realmente muito pouco não se choca contra um Fiesta modelo dos mais novos, vermelho, dirigido por um pai de família, com sua esposa e filhos. Foi realmente por muito, muito pouco. O homem do Fiesta freiou bruscamente e meteu a mão na buzina, o jovem do Audi se assustou tanto que quase perdeu o controle do carro. Eu e minha mulher também nos assustamos muito, pois tudo aconteceu literalmente do lado do nosso carro. Nenhum de nós estava dirigindo a mais do que 50 Km/h. E esse nem é o maior absurdo que presenciei nos últimos sete dias: a minha rua intersecciona com outra e há uma sinaleira. Em todas as horas do dia ela é ignorada; por pessoas comuns em seus carros, por motoboys, por ônibus de linha e ônibus alugado, por taxistas, por mãe de família com os filhos que acabou de pegar em um dos vários colégios perto da minha casa, por funcionários dirigindo o carro da empresa. Na esquina da Plínio Brasil Milano com a Terceira Perimetral um motoboy resolve avançar o sinal ÀS SETE HORAS DA NOITE, quase perde o controle da moto por que ainda vinham carros pela Perimetral (ele cortava ela pela Plínio), caí da moto e por muito pouco não é atingido pelo ônibus Iguatemi/Vila Jardim.
Há muito o que ser feito em Porto Alegre, e parece ser cada vez mais distante o momento em que construções, obras ou reformas físicas é que vão melhorar o andamento da cidade. Isabel I de Inglaterra costumava dizer video et taceo, pelo menos ela ficava de boca fechada, não ficava falando demagogia e inutilidade. Todos os candidatos (e a candidata) parecem presos pela inércia total da incompetência. O centro da cidade é dominado por uma verdadeira máfia, não é difícil de encontrar uma Área Azul de estacionamento pago (um dos maiores absurdos de todos os tempos. Pelo amor de Deus, o cara já paga IPVA…) onde além do ticket você precisa da aprovação financeira de um flanelinha. Aliás, a profissão que mais cresce em Porto Alegre, Fogacinha. Em muitas ruas, em todas as horas, desde a Padre Chagas, nos barzinhos de ceva de 9 reais, até na Barros Cassal, na esquina do Bambu’s, onde a Brigada ignora o consumo premente de drogas e bebidas alcoólicas mesmo passando ali toda a madrugada de sexta-feira (ora de pico de movimento) e param para pegar um xis.
E enquanto isso o coitado do homem honesto, que sustenta a sociedade, tem que pegar dois ônibus lotados até o último espaço por uma passagem simplesmente abusiva e viagens que demoram mais de duas horas em engarrafamentos DENTRO DOS CORREDORES DE ÔNIBUS NA ASSIS BRASIL.
PT, PSDB, PMDB, francamente, tanto faz…
BOTA ALGEMA – Parte 2
Então hoje pela manhã nosso digníssimo Tribunal Superior Federal soltou Daniel Dantas, a irmãzinha e outros 11 presos. A notícia tá aí pra quem quiser ver.
Segundo o juiz não há motivo para mantê-los presos. Interessante a lógica judiciária desse país. Bebeu três copos de ceva, cadeia. Roubou 2 bilhões de reais, habeas corpus.
A NovaCorja tava falando sobre o Simon e seu protesto contra as prisões. Eu me permito uma certa latitude aqui que os rapazes desse ótimo blog mantém para si, então pensem comigo: 2 BILHÕES DE REAIS. Aposto meu traseiro que tem MUITA, MAS MUITA MAIS GENTE ENVOLVIDA NISSO AÍ.
No momento que a maior rede de desvio de dinheiro, corrupção ativa, gestão fraudulenta, evasão de divisas, uso ilícito de informações privilegiadas, entre tantos outros crimes, é pega, quem aparecer pra defendê-los, pode ter certeza, tem o rabo preso.
Esse país é uma piada, regido pelos maiores comediantes da história do Ocidente. Como é que alguém fica tanto tempo no poder, como o Simon? Eu aposto meus dedos em corrupção, o famoso rabo preso. Mas não há provas, nem o interesse em desvendá-las, até porque, como essa operação da PF, nunca vai dar em nada. Dantas, Pitta, Najas, podem ser tudo preso, amanhã pode ter certeza que outro já estará comando o navio do desvio.
Esses três homens, juntamente com familiares e associados, não lesaram uma empresa, um Estado, uma pessoa ou grupo de pessoas. Eles lesaram a totalizada da República Federativa do Brasil. Lesaram não só os cofres públicos como, indiretamente, são responsáveis por um incrível e assustador número de mortes por falta de recursos (e isso só em hospitais). Traíram juntamente com seus incontáveis comparsas e lacaios a confiança do povo brasileiro, o sistema judiciário e legislativo do país inteiro.
Enquanto Azeredo quer três anos de cadeia por enviar arquivo por MSN, nossos juristas incompetentes deixam pessoas com VASTÍSSIMOS RECURSOS USURPADOS DA POPULAÇÃO em liberdade.
TEM QUE BOTAR ALGEMA, SIM! TEM QUE HUMILHAR, TEM QUE FAZER CORREDOR POLONÊS DE JORNALISTA MOSTRANDO A HUMILHAÇÃO NA CARA DE TACHO… o povo desse país já foi humilhado na pobreza e doença e algemado nos grilhões da ignorância e da injustiça tempo demais.
Deixem a América para os Americanos
Então que hoje, chafurdando blogs e afins, me deparo com o sempre divertido blog da Gisele H. Este post linkado aí é ótimo.
A gente não esquece as gafes de Bush e outros ao indicarem Buenos Aires como capital do Brasil e outras demonstrações claras da total ignorância dos norte-americanos. Este vídeo, porém, que vou colocar no fim do post, é simplesmente revoltante.
Venho falando do Senador Azeredo e sua ignorância em relação a Internet e fica a pergunta:
É possível legislar ou decidir sobre assuntos e temas os quais desconhecemos totalmente?
A maior nação do mundo (segundo eles mesmos) não possui nem conhecimento sobre sua própria nação. Um dos entrevistas aponta a California e outros estados americanos como tendo feito parte do Eixo do Mal. Um senhor, já bem idoso, aponta que foram três guerras mundiais e que Hiroshima e Nagasaki são conhecidas por seus lutadores de judô. Num mundo crescentemente conectado que auto-declarada vivendo a ‘era do conhecimento’, a mais cega ignorância persevera em todos os fronts da vida cotidiana.
Há alguns anos já se promulga “gavetear o marxismo”, torná-lo naquilo que muitos chamam de “marxismo de gaveta”. Eu concordo. Esgotadas as teorias e práticas propostas por Karl se encontram num mundo crescentemente tecnológico onde amadores e garotinhas tem participação ativa na constituição das formas comunicacionais. Entretanto há uma parcela do marxismo clássico que eu julgo imprescindível: a materialidade histórica. As coisas de fato aconteceram. Em 6 de Agosto de 1945 o governo americano assassinou indiscrimidamente um quarto de milhão de japoneses em Hiroshima. Em 13 de Agosto de 1961, durante a madrugada, o muro de Berlim foi erguido dividindo a capital alemã em comunistas e capitalistas. Em 9 de Novembro de 1989 o muro caiu. E essas coisas aconteceram de verdade. E mesmo que esqueçamos que elas aconteceram, suas conseqüências sistêmicas invadem nosso dia-a-dia em todos os aspectos. O mundo à nossa volta foi erigido com os tijolos e cimentos de milhares de ano de história e de centenas de acontecimentos.
Logro em ver novamente absurdos como ditaduras e totalitarismo sendo erigidos com os tijolos da ignorância e da inércia. Certa vez ouvi: “Ai, de que me importa aprender essas coisas” em relação à uma importante aula de história sobre a Revolução Francesa. A importância está em preservar os ideias nos quais nosso mundo de liberdade foi fundado e barrar permanentemente a reincidência de monstros.
Que mundo é esse que parou de honrar aqueles que morreram para que pudéssemos estar aqui hoje?
Esse é um dos verdadeiros Paradoxos da Modernidade (é isto que me refiro nas tags P da M). Somos um mundo da efemeridade onde o que conta é o agora, onde conhecemos profundamente apenas um aspecto da realidade e ignoramos totalmente os outros. Estamos esmagados pela velocidade das nossas condições sociais e econômicas de vida e não temos tempo nem espaço para perceber as inequidades latentes de nossos sistemas, para reivindicar as liberdades prometeícas de nossas constituições e leis esmagadas por governantes corruptos e que não representam a população que os elege mas sim interesses privados de grupos financeiros (a nova ideologia) que se pretendem Rei Absolutistas, com direitos divinos sobre o mundo no qual vivemos. Somos escravos de sistemas que promulgam e proconizam a ignorância e a distorção. Houve um tempo (anos 60) no qual se acreditava que se mais pessoas chegassem ao ensino superior essas condições melhorariam, mas o que se vê hoje, mais de 40 anos depois, é que as universidades são “gordura de currículo” e a maior parte dos alunos e professores realmente não tem a menor preocupação com perceber e entender o mundo. A preocupação é, como dito antes, a velocidade das nossas condições sociais e econômicas.
Estamos mais preocupados em trabalhar pra pagar nossos almoços do que em entender que existem forças nos empurrando para estas lógicas.
Chinese DemoCRAZY* – Ten Years
Então não é que depois de 10 anos de espera informal – e seis anos de atrasos – nosso querido e já tão passado Axl Rosa lança seu tão caro Chinese Democracy.
Baixei e agora enquanto vos falo estou escutando este pecado da música.
13 milhões de dólares pra fazer um disco de hard rock. Only in America…
Como era, claro, de se esperar o disco é uma verdadeira verborragia do post-poser. As guitarras são tão distorcidas que mal se consegue ouvir os ganidos do Sr. Rosa – que aliás está no pior de sua forma. Músicas totalmente inexpressivas, emulando tristemente um mundo que morreu faz tanto, tanto, tanto tempo…
Uma música que pode até ser considerada como somente lipossolúvel. Aquela energia toda do Guns ou era oriunda de seus outros integrantes ou simplesmente se afogou nos McLanches e sorvetes que o Sr. Rosa certamente anda comendo industrialmente. Mesmo com a participação do guitarrista do Queen o disco é no mínimo desimportante. De forma alguma reflete um classicismo em termos de Rock. Tenta ser bonito, entretanto os riffs de guitarra são “tardios” e, na falta de uma melhor expressão, realmente inexpressivos. Solos sem graça (que remontam até as nossas conterrâneas e falhas bandinhas de hard rock).
O disco fica bem como lápide. Lápide de uma era MTV que se deteriorou na velocidade do consumo das essências: as coisas perdem seu sentido rapidamente hoje em dia, e coisas sem sentido, estranhamente, não ganham novos sentidos. Ironicamente há uma música chamada “There Was a Time”, com um solo de quase três minutos daqueles que não se consegue entender nem ao menos uma nota. Eco profundo da deterioração de uma geração de calças tão apertadas que torcemos para uma não-reprodução. Remontando um ‘modernismo blues’, as faixas são todas iguais. Indago-me como demorou tanto tempo pra lançar um disco que parece ser só ganidos e solos indecifráveis de guitarristas verborrágicos: duas características do Rock que prefiro deixar para Black Sabbath, Led e Queen; eles faziam (e nos Ipods ao redor do mundo) e ainda fazem.
Sr. Rosa, por favor… aposente-se. Contente-se com o fatídico esquecimento reservado a todos os medíocres que tiveram a sorte de enriquecer vertiginosamente durante a década de 90. Até o Bill Gates já pendurou as chuteiras, ou seja, acabou-se a era dos usurpadores. A era da tragédia MTV terminou com uma imensa explosão chamada INTERNET.
* Esta brincadeira é na verdade o suposto nome que o Offspring colocaria em um de seus discos recentes, gozando dos múltiplos atrasos do disco do sr. Rosa.





