Atchim
Não estou pra dizer que a medicina socializada brasileira é a oitava maravilha do mundo, quero simplesmente levantar a questão mais fomentada na mídia nos últimos tempos nos EUA.
Não vou babar o ovo do Obama também, até porque tenho um post que estou acabando sobre ele que quem gosta dele não vai gostar.
Meu propósito aqui não é nem mesmo apontar pensamento político, é apenas uma análise do discurso que anda sendo jogado pra todos os lados principalmente pelos republicanos.
Vendo os senadores (principalmente) falando na CSPAN, exaltados nos recortes da CNN e do Daily Show, eu não consigo evitar de ficar totalmente chocado. E não é um choque político, é um choque moral. A imoralidade (porque quem quer que leia vai ter que me desculpar, é a única palavra que cabe nessa situação) desses homens e mulheres ultrapassa todos os limites. A maior parte deles, os mais vocais, pra dizer a verdade, emitem o seguinte argumento: a proposta de Obama consiste numa burocratização do sistema de saúde, aonde um burocrata estará a cargo dos serviços de saúde da população e, por causa disso, você passará por um processo de seleção e não conseguirá o tratamento (sejam cirurgias necessárias, eletivas ou apenas remédios).
A questão é a seguinte: não sou um adorador de Michael Moore. Tendo feito meu trabalho de conclusão da graduação sobre um de seus filmes e o tendo pesquisado extensamente, o acho um idiota. Um simplista que procura usar as mesmas armas da direita conservadora para provar argumentos da esquerda liberal. Não passa, portanto, de mais um ideologistazinho despreperado. Mas é divertido, não posso negar. Seu filme Sicko, na verdade, não é nenhuma novidade (fora os exageros e mentiras grosseiras): há muito já se sabia, através até mesmo de sériezinhas de TV que o sistema de saúde norte-americano tem problemas graves da ordem humanística. Ela consiste, simplesmente, no fato de que num determinado momento se optou pela forma privada de saúde: ao invés de um sistema pública, pago através de impostos, cada pessoa escolhe sua própria seguradora. Até aí, tudo bem. O que me incomoda é que não é nada difícil encontrar corroboração para histórias parecidas com que Moore espetaculariza: o sistema vigente HOJE nos Estados Unidos consiste na falta de liberdade de escolha e de acesso, pois existem dezenas de processos de seleção e avaliação executados por burocratas.
Ou seja, os senadores republicanos, oposicionistas ao plano de saúde universal, estão alertando, na verdade, para uma realidade que não é latente, nem virtual; o sistema de saúde privada já funciona dessa forma. A prioridade do lucro faz com que burocratas que agenciam a saúde da população busquem formas de negar atendimento, de todas as formas, geralmente resultando em danos irreversíveis à saúde.
Eu poderia me lixar ainda menos pra isso. O mundo em que vivemos, que, na verdade, aristotelicamente falando, é o mundo que construímos para nós mesmos, é inegavelmente cruel. Não apenas na sua natureza inevitável (morte, doença, as fragilidades e limitações do homem), mas também na sua ordem racional engendrada por nós. Eu me lixo, falando assim coloquialmente, para o que em certo tempo poderia ter sido chamado de discurso do aburso ou discurso absurdo (Camus), mas que eu chamaria de discurso esquizoide. O que talvez pudesse ser chamado de trégua ideológica (Adorno/Horkheimer) aparece mais, na contemporaneidade, como uma estranha esquizofrenia ideológica e discursiva, pra não dizer midiática.
O outro lado não é santificado, de forma alguma. Os apoiadores (inclusive o senhor Obama) colocam suas fichas na aposta de que ainda seria possível uma medicina universal nos EUA. E, mais do que isso, que sendo possível, isso seria a resolução de problemas incríveis e levaria a nação mais próxima de uma nova era de ouro.
Dã, é a única coisa que me vem a mente. O Brasil – e foi por isso que eu comecei fazendo aquela ressalva – possuí já o modelo que Obama pretende instalar: o SUS é o sistema único de saúde, gratuito e livre para todos. Entretanto, ainda existem os planos privados de saúde. A rede pública de saúde (hospitais, centro de saúde, laboratórios) é incrivelmente não coesa: existem hospitais públicos de renome e outros que só podem ser descritos como caindo aos pedaços, quando ainda existem pedaços. A rede privada possuí hospitais muito bons (e falo principalmente aqui em Porto Alegre). Ou seja, é um sistema misto.
O que nós vemos? Minha ressalva era exatamente sobre isso. O Brasil não tem uma admistração de recursos passível de ser assim, tão levianamente comparada com a norte-americana. E mesmo lá, nos EUA, temos a condição de que não sabemos ao certo como e quanto dinheiro ao longo de quanto tempo será a medida da constituição da rede pública. Existem duas instâncias: de um lado o Medicaid, que já é o sistema público que existe lá para os idosos, e de outro a lógica de que os segurados por esse sistema são atendidos na rede privada que é paga pelo governo.
A passividade é, na verdade, a de que a formatação e a construção mesmo de um sistema que nem esse acarreta a possibilidade inegavel de corrupção. O próprio Medicaid já mostra indícios claros disso. Daí caímos na realidade de que essa projeção pode não passar de um sonho utópico, de tolice digna de um blá, blá, blá obâmico (a tão falada demagogia).
O que me leva ao ponto principal do meu interesse: a loucura total que está sendo a discussão política desse programa. Geralmente podia-se dizer, mesmo inserido diretamente no joguete político norte-americano, que um dos lados estava agindo em plena inocência. Democratas E Republicanos já foram chamados disso, entretanto me escapa um dado histórico sobre se isso já aconteceu simultaneamente. É isso que ocorre agora. De um lado temos os Republicanos, os direitistas conservadores, clamando que o projeto acarretará uma realidade que já é, e do outro lado temos os Democratas, os (no máximo dos máximos) centro-direitistas liberais (e às vezes nem tanto, né, senhor Obama), clamando que o projeto acarretará a mais magnífica era de ouro dos Estados Unidos.
Pelo menos desde de Gore vs. Bush que temos essa crítica de que ambos os lados falam, na verdade, a mesma coisa.
Não cheguei à conclusões sobre isso. A mídia (a perna do banquinho que faltava) ainda me parece estranhamente insegura sobre esses assuntos. Ao mesmo tempo em que existem comentadores fervorosos de ambos os lados, também existe um certo ar de dúvida não resolvida. Coloco essa questão para quem quer que leia, na verdade, não para formular respostas rápidas ou uma grande dissertação assertiva, mas para que também levem no seu cotidiano essa dúvida e esse inquérito.
superman jr.
Eu assisto muita porcaria. Principalmente na TV. 
Hoje assistindo a um bizarro episódio antigo de Smallville no qual James Marsters (o infame Spike da infame série de TV da Buffy, com Sarah Michelle Gellar como Buffy), que interpreta o professor Milton Fine (detalhe: professor de história do Clark Kent na Universidade do Kansas, a qual, logo após esse incidente, parece que ele nunca mais cursou) se declara um kriptoniano, amigo de Clark.
Assustador. Mas isso é além do ponto. Quando o tal Fine diz para o Super-Homem que ele não deve confiar nos humanos, nem naqueles que ele ama, o garoto responde que pode sim, pois assim como os seres humanos podem ser incrivelmente terríveis, também podem ser incrivelmente bondosos e leais. Tudo bem. Neste ponto nosso querido Clark poderia ter dito a seguinte frase e nunca teríamos QUASE DUAS temporadas até o tal Fine – que finalmente descobrem ser o BRAINIAC, inteligência artificial que devorou Krypton – morrer de vez (e olhe lá, hein?): “Amo muito meus pais biológicos por terem salvo minha vida, mas minha vida na Terra quem decido sou eu, da melhor maneira que eu quiser”. Esse parece ser o motto do Super-Homem desde que eu me lembro. “Ele nasceu em Krypton, mas seu planeta tinha se condenado. Então seus pais corajosamente o colocam numa cápsula espacial que o salvou da explosão do planeta, levando-o até o Kansas e a condição de ser o último sobrevivente de seu espécie. Lá, um casal de velhinhos (de repente propositalmente) encontram esse garotinho dentro de uma nave espacial no meio de um milharal. Eles o criam como qualquer outra criança, achando que ele é algo tipo de milagre que atendeu as suas preces pedindo um filho. Criam-no com todo o amor até que descobrem que ele, na verdade, possuí superforça, capacidade de voar espontaneamente (como nada que exista no mundo), lança rajadas de calor dos olhos, pode ver através de tudo menos chumbo e com um sopro pode congelar à temperaturas ridiculamente baixas uma sala inteira. Então seguem, esforçando-se para que seus poderes permaneçam velados, criando o garoto e tentando ao máximo educá-lo: ’se você tem poderes incríveis, como esmagar a cabeça de um ser humano com uma de suas mãos, você deve ser responsável e usá-los para o bem’. Ou algo simplesmente como: não mate humanos, eles são legais e merecem viver. Todos eles.
Sei lá. Vejo uma relação perturbada com a realidade toda vez que eu assisto esse Smallville ou vejo qualquer (detesto essa palavra) deturpação do Super-Homem original. Claro, há a alarmante feminilização, que também assonla tantos personagens (até o Lanterna Verde tem mulher), não esquecemos de Super-Moça, Bat-Moça, Spiderwoman, Mulher Aranha (são personagens diferentes, hein), entre tantas outras, mas o que me preocupa é esse esvaziamento das decisões. Ele deve ser o maior herói de todos, mas convenhamos, é um banana. O Super-Homem nunca foi banana nem nos quadrinhos (pelo menos até os anos 90 quando tomou aquela surra do Apocalipse – Doomsday – e “morreu”), nem no cinema (até a Byan Cantor querer cantar filhinho do Super-Homem). Mesmo o primeiro Super-Homem, lá em 1952, interpretado por George Reeves, não era tão banana. Claro que era fim de carreira pro Reeves I, mas pelo menos ficou imortalizado.
Hoje em dia tudo é tão bonito, e legal. E os heróis sempre envoltos em decisões tão profundas. Os filmes do Homem-Aranha, os ótimos filmes do Cristopher Nolan do Batman, pelo amor de Deus, até o Super-Homem homoerótico do Bryan Singer teve que tomar decisões difíceis e fez coisas incríveis. O coitado do Tom Welling só vai super-rápido, fica parecendo que o tempo parou, ninguém se move. Daí ele desvia umas balas, salva todo mundo, saí correndo e toma um toco de kryptonita (que provavelmente já deve ter deixado até Jimmy Olsen estéril) e é salvo pela Chloe ou pela Lana ou pela Lois ou pela mamãezinha ou pelo papaizinho ou pelo Jor’el ou pelo Lex ou pelo Arqueiro Verde… ONDE ESTÁ O SUPER-HOMEM QUE SALVA AS PESSOAS?
Minha preocupação é devida a grande popularidade dessa série, já eternamente imortalizada como uma das representações mais lucrativas, duradouras e populares de um dos símbolos mais icônicos do séc. XX. Eu particularmente não sou fã do Super-Homem, mas aprecio-o e admiro muito. Percebo que desde a sua construção inicial, Shuster e Siegel almejaram a arquitetura de um herói que apelasse para a tradição mítica assim como para a igualdade com heróis futuristas, hiperintelectualizados como Flash Gordon. As características hérculeas do bondoso Clark Kent são icônicas em todas as suas representações (até nas babanices). Entretanto me assusta muito que o aspecto intelectual esteja sendo cada mais suprimido e subestimado.
Daft Internet
Retomando um pouco o que o falávamos referente ao Andrew Keen e o tal “Culto do Amador”.
O Daft Punk – que no bom português pode ser “desimportância sem sentido”, mas é claro se trata de uma boa gargalhada em cima do termo daft (que seria, formalmente, ’sem sentido’) e o estilo musical dos anos 70 -, talvez por serem um dos mais interessantes e criativos grupos de música eletrônica (na verdade dupla) desde o Kraftwerk (já ouvi muita gente chamando o Daft Punk de novo Kraftwerk ou herdeiros do Kraftwerk – concordo mais com a segunda) – se encontrou muito bem com os novos meios digitais. Seja por disponibilizarem suas músicas (e até um dos seus álbuns inteiros) na rede gratuitamente (muito antes do Arctic Monkeys e do Radiohead), seja por causarem uma certa revolução imagética, principalmente no YouTube.
Falo sobre isso porque (vi no blog da Gisele) o Weezer está lançando o seu primeiro clipe do “Álbum Vermelho” – seu mais novo disco, lançado há poucas semanas – e o clipe é uma coleção de menções à vídeos famosos no YouTube (para ver os 24 vídeos citados no clipe vá aqui em valleywag.com). Entretanto, desses 24 vídeos, dois são na verdade inteligentes brincadeiras com os jogos de palavras que o Daft Punk costumeiramente faz em suas músicas (como em Technologic, Harder, Better, Faster, Stronger e Around the World). Um desses clipes, feito por duas meninas usando “capacetes” de papel alúminio (uma barata imitação das roupas usadas no clipe de Around the World) tenta recriar através do movimento de seus corpos as brincadeiras com as palavras de Harder, Better, Faster, Stronger.
Então percebe-se algo que Keen parece realmente não perceber: o mainstream, os meios antigos, não só contribuem para esses novos meios como de certa forma – ênfase nesse ‘certa forma’ – até trabalham realmente como gatekeepers, dando espécie de matéria-prima para o trabalho do amador. O vídeo esse das meninas (que segue embed no fim deste post) é simplesmente demais. Além do fato delas serem bonitinhas de corpo (seus rostos não aparecem), elas fazem a sincronia com as palavras ditas na música e seus corpos (que tem em suas coxas, ombros, braços e torso escrito as palavras da música) de forma bem engraçada e divertida.
Por outro lado (como mencionado no post anterior) o Sigur Rós lançou seu clipe de Gobbledibook e ao disponibizá-lo no YouTube encontrou a restrição de idade.
Enquanto os amadores fazem o que querem na Internet (nota especial para as centenas de sites de pornografia amadora que se acha na internet facilmente questionando o Google com palavra como “amateur” e “free porn”) os MainStream tão queridos de Keen são cada vez mais barrados. É fácil fazer um clipe com pessoas correndo nuas quando ninguém nunca ouviu falar do teu site, da tua produtora, da tua banda, etc.
O ponto central para Keen parece ser além: se temos esses meios, deveríamos ter algo à dizer; e não temos. O clipe das meninas é uma pura replicação, enquanto que liberdade de conteúdo da Internet, usada ao extremo pelos rapazes islandeses do Sigur Rós não encontra o eco dessa liberdade digital. O que se vê – pelo menos em maior grau – são realmente replicações. Talvez Ridley Scott estivesse certo e o futuro é de espaço-naves solitárias e replicantes. Replicar uma idéia em videozinhos engraçados até o infinito parece ser o motto de uma geração engasgada com sexualidade pugente e que abraça um moralismo manco.
O clipe do Sigur Rós (que linkei novamente neste post) é lindo; como todos os do Sigur Rós. E, ao contrário de mulheres insidiosas e homens ’sarados’ (abomino esse termo), mostra pessoas de verdade vivendo numa comunidade quase “Sociedade Alternativa”, todos nus, em volta de fogueiras, brincando, como se fosse a infância da humanidade novamente. Parece um pouco brega, mas na verdade, pelo menos pra mim, é um insight para essas questões digitais: estamos mais próximos do que nunca mas na verdade vemos cada vez menos do outro. O que era os ‘bons costumes’ agora são representações eletrônicas enviadas à velocidade da luz para qualquer canto do mundo.
E pergunto novamente: é uma vida mediada ou por procuração?
A simplicidade podia ser o motto. Talvez se nos entregassemos mais…
My Screen Name is Ubiquity
Estou lendo artigos e matérias sobre e do autor Andrew Keen para um trabalho para a cadeira do Alex Primo.
Ele clama que a Internet estaria destruindo nossa cultura, principalmente a chamada Web 2.0 por destruir o conceito de gatekeeping (que seriam os guardiões do conteúdo; as pessoas – editores, produtores musicais, companhias de transmissão que decidem o que “vai ao ar” e o que fica na gaveta) e, permitindo que todos sejam produtores (user produced content), na verdade não haveria mais autoridade ou credibilidade nas informações. Tudo se tornaria, essencialmente, miscelânea.
O contraste com meu post anterior: há 44 anos atrás Marshall McLuhan temia o fim do mundo escrito, enquanto que Keen teme que nos afoguemos na infinitude da página digital.
Vou ao meu ponto: antes mesmo da Internet (eu me lembro, lá nos meus 11, 12 anos) a mídia, as formas literárias e artísticas, todas (ao mesmo tempo) anteviam um caótico mundo futuro e um presente afogado em miséria, violência, perversão. Como dito antes, faz quase meio século do estudo de McLuhan, entretanto a noção ainda permanece: os meios (tecnológicos de todos tipos) são, de fato, extensões da humanidade.
Keen parece ser um dos poucos pensadores que, deixando de lado sua louca apologia aos meios tradicionais (louca por ser descontextual: não dá pra desinventar a Internet e seu impacto na sociedade; materialidade histórica, né?), parece realmente (ênfase nesse REALMENTE) perceber que junto para o ‘ciberespaço’ de W. Gibson carregamos nossas inequações. Porém mesmo percebendo isso, ele parece não entender.
Muito de seu livro preocupa-se com o tal “Culto ao Amador”, que parece ser o motto da Web 2.0. Este “Culto” não seria nada mais do que a ubiqüidade de acesso e produção dentro dos novos espaços da Internet. Entretanto o autor caí facilmente no “Culto ao Editor”. Falha em perceber (se vocês tiverem saco de assistir a entrevista dele no Authors@Google de uma hora verão isso claramente) que assim como há uma confusão em relação aos limites entre conteúdo e publicidade dentro dos espaços Web 2.0, este nublado sobre as linhas também se estende até os meios clássicos (nenhum jornal vai denunciar seus anunciantes). Na televisão se vê isso (muito devido ao advento do TiVo e da programação acessível na Internet – seja ela em downloads ou streaming) de forma cada vez mais premente: na série de televisão House os aparelhos de escaneamento e análise médica mudaram repentinamente de marca, todos eles. Product placement agora não é mais publicidade? Os editores e produtores dos grandes meios fazem há anos (e isso no meu ver não é denúncia, mas afirmar uma obviedade) esse tipo de publicidade e relacionam seus produtos cultuais com produtos físicos: os tênis Nike e as múltiplas menções à Pepsi nos filmes De Volta para o Futuro, os mundos Ford, GM e Chrysler das séries de televisão (onde todos parecem dirigir modelos da mesma marca), os cigarros nos filmes preto-e-branco (Hitchcock vendeu câncer durante anos).
Ele menciona a credibilidade do MainStream por anomalias como os Beatles, Bob Dylan, entretanto, em entrevista no rádio, reconhece o sucesso de bandas como Arctic Monkeys, que só chegaram ao estrondoso sucesso porque pegaram as ferramentas de divulgação de música em suas próprias mãos. Em algumas entrevistas eles até falam que o interesse de grandes gravadoras só veio depois do reconhecimento dos fãs. Keen fala do talento; como este sistema não tem experts que possam reconhecer e “polir os talentos” (palavras dele mesmo na entrevista mencionada anteriormente para um rádio de São Francisco, Califórnia) quem vence na Internet são os experts em vendas e marketing. (Ensurdecedor barulho de frenagem) Peraí… alguns dos caras do Arctic Monkeys não tinham nem 20 anos quando estouraram: ficamos no impasse entre “será que eles realmente são não só muito bons como já estavam totalmente prontos pro sucesso” ou “com certeza, então, eles são os mais inatos ‘marketeiros’ de todos os tempos”.
A democratização das ferramentas é uma grande ilusão.
Obviamente a Internet não é democrática. Não ao pé da letra. A humanidade não é democrática, e como o próprio autor diz: “eu vejo a internet como um espelho da sociedade e não podemos cair numa espécie de narcisismo digital”; parece-me, em contrapartida, que é exatamente isso que ele faz. Caí numa Narcose (como Narciso) em relação a função de intermediação dos meios clássicos como asseguradora da visibilidade e manutenção dos talentos (remeto aos três posts sobre o Debord: 1, 2 e 3). Os gatekeepers tem a palavra keep no nome por uma razão bem clara: para reter, deter alguns de passarem pela porta. A Web 2.0 é obviamente falha, pois com os portões derrubados qualquer um pode entrar e como são portões imateriais, pode-se cruzá-los mais de uma vez com diversas identidades, percepções e objetivos. Abre-se o canal para que como por uma extensão elétrica o aparelho eletrônico receba energia de uma tomada mais distante do que seu pequeno braço de cobre encoberto por plástico e borracha possa alcançar; extende-se a humanidade até o reino de Gibson e com ela vão, logicamente, suas idiossincrasias já que não existem filtros (a não ser os autopoiéticos).
Novamente o contraste: o que McLuhan percebeu tão bem, Keen parece falhar em ver. A Internet, sendo o que ela se tornou, é essencialmente uma extensão da sociedade que a utiliza. A busca por anonimato e as perversões ali feitas são, ao meu ver, intrínsecas de um sistema que precede e a Internet e seu enclave ubíquo. Este mundo pré-existente credita e legitma formas de pensamento das mais variadas e com as mais diversas justificativas. Keen questiona Chris Anderson (autor de A Cauda Longa da Internet): diz que ele tem uma visão prometeíca das novas tecnologias. Anderson vê que qualquer tropeço (econômico e social) seria apenas um desafio para a eventual (e certa) libertação máxima através destes meios.
Não quero soar fáustico, mas não vejo dessa forma. A rede carrega consigo seus usuários, de forma que este braço mecânico (anônimo ou não) é criado por seres humanos, concordo quando Keen afiram que devemos lidar com as conseqüências destas tecnologias que criamos, entretanto não vejo que elas – assim como a técnica em geral – possam ser delimitadas como objetivo final. Em parte, nos definimos por seu uso, pois essas tecnologias (à lá McLuhan) com certeza absoluta são uma extensão de nossos sistemas nervosos (assim como nossa visão e audição contribuem prementemente para nossa formação identitária), entretanto também nos definimos por sensações, percepções, desejos, ligações e ideologias que são essencialmente exteriores à rede. Nossos olhos, ouvidos e mãos é que apreendem e modificam a rede, entretanto sempre de forma externa; ainda não há como entrar, materialmente, na Internet. Somos sujeitos à ela, e suas qualidades serão sempre, essencialmente, as qualidades externas que denotamos. Uma conotação absurda é pensar prometeicamente; não há salvação mágina, entretanto também não é (exagerando) o fim do mundo ou, como o subtítulo da obra de Keen diz, a morte da cultura. Cultura é sempre pré. Pré-condição, pré-existente; o que nasce é realmente uma nova cultura. Se ela é da descrença, da mentira, e do analfabetismo midiático não seria a primeira.
Em nossas vidas privadas e pessoais, mesmo fora do mundo de Gibson, percebemos a intrusão. As mentiras, boatos, inverdades, circulam por aí muito antes da Arpanet. A publicação de obras sérias e creditadas cheias de mentiras e inverdades (volto-me para um post passado sobre esse assunto no que toca a atualidade) acontece desde o primeiro livro já impresso, que caso vocês não saibam foi A Bíblia – Constantine Edition: legitimada há pelo menos mil e quinhentos anos como verdade absoluta da vida e da morte na esmagadora maior parte do mundo Ocidental e em considerável parte do Oriental e, senhor Keen, TOTALMENTE ANÔNIMA. Sabe-se lá se aquelas coisas realmente aconteceram, quem realmente escreveu aquilo. E vejamos bem: a Bíblia teve um dos mais icônicos gatekeepers de toda a história, um conselho de editorial regido por um Imperador Romano. A lenda, o mito, a mentira, the deception, poderia-se dizer, são condições da humanidade há muito mais de dez séculos. Constantino não deixaria nada na Bíblia que ofendesse, prejudicasse ou representasse mal o seu governo e suas idéias.
Talvez seja porque ando lendo muito Rüdiger (e suas idéias sobre um modo de pensar o mundo invadido pela máquina), Sfez (e sua visão certeira de que há uma migração dos relatos ficcionais utópicos para projetos reais utópicos) e McLuhan, mas minha visão, de repente, seja a mesma de alguém que está de fora: a Internet prolonga a vida offline; não há verdadeiramente nada novo, só a extensão imaterial de nossas qualidades externas. McLuhan achava que a escrita especializada desapareceria (e me corrijo aqui em relação ao post passado) e na verdade o que aconteceu é o oposto: a escrita se tornou essencialmente especializada. Meu blog, como em vários outros casos, é especializado (claro que em fazer posts gigantescos sobre devaneios filosóficos e idiotices). Tudo na Internet só procura a especialização. Há quem acredite que é o conteúdo que está de fato desaparecendo; entretanto é só o que se vê. Keen acha que são as linhas entre publicidade e conteúdo que estão desaparecendo. Talvez eu esteja sendo heideggeriano demais, mas temo que o que realmente está em fase de desaparecimento é o homem em si: a preocupação com o homem, o antrapocentrismo..
Teria McLuhan sido curto em sua tese? Estaríamos nós não só extendendo-nos nos meios como, de certa forma, deixando nossa apreensão numa estranha situação de “por procuração”? Estaríamos apreendendo um mundo digerido pela Internet ao invés que de um que ecoa pela Internet? Será que nossos processos de consciência estão “ao estilo da Internet” mais do que mediados por ela? O meio é a mensagem mas a mensagem parece ser cada vez menos uma interação ou mediação, uma troca cultural, e cada vez mais uma percepção, um processo de formação de consciência e de identificação.
Tecnologia Longe da Perfeição
Há mais ou menos 12 anos, quando a Internet chegou mesmo no Brasil e em outros países, ela logo foi maculada (e de forma premente) por sua faliabilidade técnica. Claro que estas falhas eram originárias de uma tecnologia que não estava preparada para o advento da troca de dados (que afinal de conta é, per se, o que a Internet realmente é: indiferentemente dos conteúdos, a rede mundial de computadores consiste em impulsos eletrônicos sendo trocados, replicados). Uma conexão de 128 kbytes/sec era luxo. Imagine hoje, 12 ou 13 anos depois, vou uploader esse texto com uma conexão banda larga de 2 Mb. E este tipo de conexão, em alguns países, como o Japão, é considerado ultrapassado.
Entretanto a conexão não era o único problema. Mesmo com nossas conexões discadas íamos e tentávamos nos conectar (dessa vez, a princípio a segunda). ICQ, mIRC, ah! os primeiros. Lembra como era? A conexão já era ruim, e os servidores de mIRCs, ICQs e mesmo de sites que começavam a ganhar a denominação de portais simplesmente caiam por dias. Eu me lembro do inverno de 1998, mais ou menos essa época, e um amigo ficou de me mandar uma coisa por e-mail. Ele, de fato, enviou, entretanto meu e-mail do Hotmail estava completa e irremediavelmente fora do ar. E assim permaneceu durante vários e vários dias.
Quando apareceram as primeiras mp3 – e pela falta de informação e ação dos sistemas legisladores – haviam dezenas de sites dos quais se podia baixá-las diretamente. Claro que só uma por vez (coisa que às vezes demorava mais do que aquelas horas que se passava conectado. na verdade, geralmente para baixar 4 ou 5 Mb tinha-se que ter a sorte de naquele determinado dia o tempo estar bom e ser uma hora de baixo fluxo, como pela de manhã, pra que a velocidade de download chega-se à 1.5 kb/s; hoje, casualmente, eu baixo a 125 kb/s). E mesmo esses sites, geralmente de domínio realmente privado (pertencentes à uma pessoa ou pequeno grupo de pessoas) caiam constantemente. Quando do aparecimento do Napster, até ele ficava horas (ocasionalmente um dia inteiro) fora do ar.
Essas falhas – ou melhor, limites dos sistemas – foram gradativamente sendo superadas. Hoje pouco se fala de páginas fora do ar (a não ser pela atuação de modelos/atrizes/namoradas de jogador de futebol e suas loucuras desvairadas; o vídeo e a repercussão), pouco se fala de programas ou redes de download – como eMule, Soulseek e até os torrents – que ficam inesperadamente fora do ar. O que talvez se veja é o funcionamento incorreto das tão avançadas ferramentas on-line.
Neste exato momento: o WordPress (incrível host) experiencia o problema de sua página de postagem estar reduzida a como ela seria há quase 5 ou 6 anos atrás. O autor se vê obrigado a digitar tudo com aquelas chatices de < e >com negrito sendo strong e itálico um pequeno i. Pra postar uma imagem é um saco, ao invés de tu mover e redimensionar a foto como faria na interface de qualquer editor cagado de texto fica uma imensa frase entre colchetes. E justificado ainda permanece um segredo. Tudo bem, gente. Eu entendo que no fundo é assim mesmo, mas francamente…
O último episódio veiculado até agora da décima segunda temporada de South Park (o sexto), chamado Over Logging (não me arrisco à traduções), toca exatamente nesse assunto. Certo dia as famílias de South Park vão para suas camas e ao acordarem no dia seguinte descobrem-se totalmente desprovidas de conexão (ainda a segunda). Nem mesmo a cafeteria StarBucks (famosa por ser uma zona de free wi-fi) tem. E eles se vêem literalmente desplugados do mundo: sua principal fonte de conexão (daí a verdadeira) com o mundo era pela via Internet. O pai de Stan diz: “Where did we go for news before de Internet? … Oh… TELEVISION”, entretanto nem as emissoras de TV tem notícias – claro, eles também se conectam com o mundo via Internet (lembra daquele tempo que as notícias chegavam por telégrafo, Herbie?). O pai de Stan resolve – depois de oito dias – colocar as coisas no carro “and go West. They say there is Internet there”. Então eles vão pra Califórnia, como que numa corrida pelo ouro que culmina com um imenso “internet refugee camp” no qual cada pessoa tem direito há quarenta segundos de Internet. Enquanto isso, Kyle, que ficou no Colorado, acompanha as notícias pela televisão (que agora recebe notícias via fax) e pensa ter descoberto como resolver o problema da Internet (transformada em matéria na foram de um imenso modem wi-fi daqueles azuis com luzes verdes escondido numa base militar secreta no meio do deserto). O governo não consegue se comunicar com a internet e nem descobrir o que ela quer para voltar a funcionar (novamente afirmando a naturalização). Então Kyle propõe sua idéia e pela falta de idéias e completo desepero permitem que ele tente. Kyle respira fundo, vai até a tomada do gigantesco modem azul e o desliga da parede, religando em seguida. A luz vermelha que denotava a falha do aparelho volta a acender verde brilhante e todos recuperam a internet.
O episódio é ótimo. E toca – da maneira forte e sem meias palavras do South Park – numa questão fundamental que foi vista até por McLuhan: nossa dependência dos meios e, mais, nossa incrível capacidade de naturalização. A Internet está totalmente naturalizada mas, como o episódio esse busca mostrar, estaríamos naturalizados às suas falhas? Se ela, de fato, um dia viesse a experienciar uma colossal falha saberíamos nós, mesmo os mais inteligentes, como realmente consertá-la? E isso já não aconteceu? O modem da moral e do bom uso certamente há anos pisca com um avermelhado fogo. E não estou sendo moralista (o pai do Stan tem o direito de ver estudantes asiáticas trocando vômito), entretanto é a imperfeição quanto à lesões (tanto sociais como econômicas) que de fato me assusta. A fragilidade do castelo de cartas é um tanto quanto evidente. Como com a irmã de Stan e seu namoradinho virtual Amir, nossos laços através dessas incríveis extensões são realmente magníficos, diria até fortíssimos. Ao mesmo tempo também parecem ser (de maneira bastante presente) laços tristes. Não pela distância; mas pelo verdadeiro mal uso dos próprios laços e possibilidades que esses laços trazem.
Disseram-me hoje que tá rolando golpe até no Orkut. Bom, pedofilia e comunidade de gangue já tinha; completou.
Quem quiser ver os episódios do South Park de graça, em streaming, com uma ótima qualidade é só ir no SouthParkStudios.com que tem todos de todas as temporadas.
twilight zone (ou A continuação de Boi Dormindo)
o plágio.
hehehehe… vale a pena. Encontrei hoje. Pelo que entendi é a edição de um fã.
Mas na boa, parece muito real. Bom Tim Burton que me desculpe, mas alguém deve ter feito isso num mac cagadinho tomando nescau e não precisou gastar milhões de dólares – nem dar camera time para o Marky Mark – pra fazer uma coisa ótima.
Planet of the Apes original como um episódio de 24 minutos do Twilight Zone original de 1959:
PARTE 01
PARTE 02
PARTE 03
vale a pena assistir.
eu to com todos os 156 episódios originais e descobri como converter pra DVD e assistir no DVD player, então tô bem feliz. Com legenda e tudo mais. Só precisava descobrir onde achar as legendas dos últimos episódios. Se alguém souber onde se encontra do ep. 36 em diante, agradeceria.

