Ubermensch by Debord

Ideologia não é coisa do passado e não, nós não vivemos num mundo pós-ideológico nem muito menos numa ‘trégua ideológica’

Publicado em despise for humans por pedro em 08/29/2009

By way of a simple reflection on how the horizon of historical imagination is subjected to change, we find ourselves in medias res, compelled to accept the unrelenting pertinence of the notion of ideology. Up to a decade or two ago, the system production-nature (man’s productive-exploitative relationship with nature and its resources) was perceived as a constant, whereas everybody was busy imagining different forms of the social organization of production and commerce (Fascism or Communism as alternatives to liberal capitalism); today, as Fredric Jameson perspicaciously remarked, nobody seriously considers possible alternatives to capitalism any longer, whereas popular imagination is persecuted by the visions of the forthcoming ‘breakdown of nature’, of the stoppage of all life on earth — it seems easier to imagine the ‘end of the world’ than a far more modest change in the mode of production, as if liberal capitalism is the ‘real’ that will somehow survive even under conditions of a global ecological catastrophe . . . . One can thus categorically assert the existence of ideology qua generative matrix that regulates the relationship between visible and non-visible, between imaginable and nonimaginable, as well as the changes in this relationship.

Isso é um excerto da introdução de Mapping Ideology, um livro organizado e escrito por Slavoj Zizek. Esse livro fala sobre ideologia e conta com ‘participações’ de gigantes da area, como Frederic Jameson, Louis Althusser, Pierre Bourdieu e Theodor Adorno.

Quem quiser encontra o texto em

http://bit.ly/s2DcA

Special thanx do @fabiofernandes que retwitou essa pérola

Mea Culpa, Tua Culpa

Publicado em despise for humans por pedro em 07/02/2009

“Uma das lições que a era hitlerista nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente. Quantos não foram os argumentos bem fundamentados com que os judeus negaram as chances de Hitler chegar no poder, quando sua ascensão já estava clara como o dia! Tenho na lembrança uma conversa com um economista em que ele provava, com base nos interesses dos cervejeiros bávaros, a impossibilidade da uniformização da Alemanha. Depois, os inteligentes disseram que o fascismo era impossível no Ocidente. Os inteligentes sempre facilitaram as coisas para os bárbaros, porque são tão estúpidos. São os juízos bem informados e perspicazes, os prognósticos baseados na estatística e na experiência, as declarações começando com as palavras: ‘Afinal de contas, disso eu entendo’, são os statements conclusivos e sólidos que são falsos.

Hitler era contra o espírito e anti-humano. Mas há ume espírito que é também anti-humano: sua marca é a superioridade bem informada”.

Talvez, de repente, o questionamento, o levante das dúvidas, jamais a afirmação. Isso é mais do que um método, mais do que uma opinião. Desfraldada como princípio para a verdade, a realidade aparece como imprevisível, como algo que é impossível tocar. De fato, a existência de uma realidade, de uma fenomenologia do real, como evento tácito e tangível, tornou-se de fato uma “utopia extravagante, um desvia sectarista”, geralmente ancorado, sustentado, amparado, pela ideologia pré-pronta de microondas.

“Escolha um ticket, ao contrário, significa adaptar-se a uma aparência petrificada como uma realidade e que se prolonga a perder de vista graças a essa adaptação. Por isso mesmo, quem hesita (ou simplesmente não cede a escolha fácil e pré-pronta) se vê proscrito como um desertor”.

Publicado em despise for humans por pedro em 06/28/2009

“O realismo incondicional da humanidade, que culmina no fascismo, é um caso especial de delírio paranóico, que despovoa a natureza e, ao fim e ao cabo, os próprios povos. É nesse abismo de incerteza, que todo ato objetivador tem de atravessar, que se aninha a paranóia. Como não há um argumento absolutamente convincente contra os juízos materialmente falsos, não é possível curar a percepção distorcida em que eles surgem. Toda percepção contém elementos conceituais inconscientes, assim como todo juízo contém elementos fenomenalmente não aclarados. Por conseguinte, como a verdade implica a imaginação, pode sempre ocorrer que, para as pessoas cuja imaginação foi lesada, a verdade seja algo de fantástico e sua ilusão, a verdade”

“Por mais universal que seja sua atividade, quem absolutiza ingenuamente é um doente, vítima do poder ofuscante da falsa imediatidade

De A dialética do esclarecimento, um “impecilho” para gente imbecil.

Publicado em despise for humans por pedro em 06/15/2009

“Quem ainda duvida do poderio da monotonia [ou da completa... ] não passa de um tolo. A indústria cultrual [e mais fortemente essa cultura que está aí, através de estratégias diferentes, mas com a mesma finalidade] derruba qualquer objeção que lhe é feita com a mesma facilidade com que derruba a objeção ao mundo que ela duplica [não só através da grande mídia, mas também através da revolução tecnológica que se perpetra através da rede] com impacialidade.”

“O que é salutar é o que se repete, como os processos cíclicos da natureza e da indústria. Eternamente sorriam os mesmos bebês nas revistas [e os mesmos jovens e velhos saudáveis e alegres nas propagandas de produtos de beleza e higiene], eternamente ecoa o estrondo da máquina [de rap, hip-hop]. Apesar de todo o progresso da técnica de representação [ainda mais agora, com a popularização das formas de criação e consumo dessas mesmas técnicas de representação], das regras e das especialidades, apesar de toda a atividade trepidante, o pão com que a indústria cultural alimenta os homens continua a ser a pedra da estereotipia. Ela se nutre do ciclo, do assombro – sem dúvida justificado – de que as mães apesar de tudo continuem a parir filhos [consumidores], de que as rodas ainda não tenham parado. É isso que fortalece a imutabilidade das situações”.

*[ ] = notas minhas.

Sociedade Industrial da Cultura ou Indústria da Sociedade Cultural ou Cultura da Indústria Social?

Publicado em despise for humans por pedro em 06/05/2009

“A competência e a perícia são proscritas como arrogância de quem se acha melhor que os outros, quando a cultura distribui tão democraticamente seu privilégio. Em face da trégua ideológica, o conformismo dos compradores, assim como descaramento da produção que eles mantêm em marcha, adquire boa consciência”

[...]

“Pois só a vitória universal do ritmo de produção e reprodução mecânica é a garantia de que nada mudará, de que nada surgirá que não se adapte”

Para que uma indústria se diversifique absolutamente é preciso uma mão-de-obra também absoluta. E que mão-de-obra poderia vir a se tornar absoluta?

Para o bem e para o mal, fazendo um mea culpa – por escrever num blog e ter perfil no Orkut e Facebook, a força de trabalho envolvida nesta fase, nem tão diferente, da indústria cultural somos todos nós.

Sociedade de fato marcada por uma cultura da mídia, mais do que cibercultura: esta é apenas a ferramenta, o sentido, que parece se perder (Baudrillard), é na verdade é da democratização total da mídia. Digg, Facebook, YouTube: as formas são as mesmas (músicas, vídeos, sons, imagens, palavras, linguagem), os meios, de certo, também (a despeito de sua natureza digital, que merece um post exclusivo). Entretanto escapamos dos ditos de adornianos/horkheimerianos pois não há mais o manager, não há mais a cabeça no controle de uma perspectiva economicista ou coorporativa (a não ser na orientação do meio de natureza digital. Por exemplo? O cara do Facebook ou o seu Orkut): somos nós os controladores.

Gatekeepers?, perguntariam alguns ciberculturologistas. Mas é além.

A democratização é tamanha que não se tem mais gate: tudo vale. Tudo entra. Pra que profissionais treinados em repetição se já temos aí três gerações altamente treinadas nisso? No Canal Futura esses dias o cara do CQC falava: “essa geração de hoje é mais treinada”, complementado por Washington Olivetto: “eles não aceitam qualquer coisa. É um desafio”.

O desafio, Uáxintom, é se manter relevante.

post   igual   em:  HTTP://OMELHORDOPEOR.BLOGSPOT.COM
http://www.mininova.org/tor/2389067

Enlightment or Extermination?

Publicado em despise for humans por pedro em 06/05/2009

“Estou a ponto”, diz Juliette ao papa, “de desejar como Tibério que o gênero humano só tenha uma cabeça para ter o prazer de cortá-la com um só golpe”

Essa frase foi tirada de A Dialética do Esclarecimento, de Adorno e Horkheimer, Excurso II, página93, da edição brasileira de 2006.

Como eu disse a alguns posts atrás, este é só um dos livros que ando lendo. Entretanto, de forma um pouco estranha, a maioria parece contemplar – mesmo que de perspectivas totalmente diferentes – o mesmo assunto: a condição humana, seja de perceber o universo, seja de governar a sociedade, a formação e deformação de uma forma de entender o mundo, seja de pensar a vida individual.

Nesse livro, em específico, a proposição reverbera em Lyotard e em Sfez; para construir um novo mundo é preciso primeiro ceifar este que aí está.

O problema do terrorismo: objetiva a destruição objetiva de uma realidade subjetiva através de medidas e pesos subjetivos. O medo, o terror, o pânico; finalmente, a morte.

A solução: vamos todos optar pela obliteração desse mundo. Nem me importo se eu for escolhido pra destruição. Prefiro as completudes absolutas; morte ou vida. Semi-vida, quase-morte, morto-vivo, vivo-morto…

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Publicado em despise for humans por pedro em 05/13/2009
“Na matematização galileana da natureza, a natureza ela própria é agora idealizada sob a égide da nova matemática, ou, para exprimi-lo de uma maneira moderna, ela se torna ela própria uma multiplicidade matemática. O pensar reifica-se num processo automático e autônomo, emulando a máquina que ele próprio produz para que ela possa finalmente substituí-lo. O esclarecimento pôs de lado a exigência clássica de pensar o pensamento – a filosofia de Fichte é o seu desdobramento mais radical – porque ela desviaria do imperativo de comandar a práxis, que o próprio Fichte no entanto queria obedecer. O procedimento matemático tornou-se, por assim dizer, o ritual do pensamento. Apesar da autolimitação axiomática, ele se instaura como necessário e objetivo: ele transforma o pensamento em coisa, em instrumento, como ele próprio o denomina. Mas, com essa mimese, na qual o pensamento se iguala ao mundo, o factual tornou-se agora a tal ponto a única referência, que até mesmo a negação de Deus sucumbe ao juízo sobre a metafísica. Para o positivismo que assumiu a magistratura da razão esclarecida, extravagar em mundos inteligíveis é não apenas proibido, mas é tido como um palavreado sem sentido. Ele não precisa – para sorte sua – ser ateu, porque o pensamento coisificado não pode sequer colocar a questão. De bom grado o censor positivista deixa passar o culto oficial, do mesmo modo que a arte, como um domínio particular da atividade social nada tendo a ver com o conhecimento; mas a negação que se apresenta ela própria com a pretensão de ser conhecimento, jamais. Para a mentalidade científica, o desinteresse do pensamento pela tarefa de preparar o factual, a transgressão da esfera da realidade é desvario e autodestruição, do mesmo modo que, para o feiticeiro do mundo primitivo, a transgressão do círculo mágico traçado para a invocação, e nos dois casos tomam-se providências para que a infração do tabu acabe realmente em desgraça para o sacrílego. A dominação da natureza traça o círculo dentro do qual A Crítica da razão pura baniu o pensamento. Kant combinou a doutrina da incessante e laboriosa progressão do pensamento ao infinito com a insistência em sua insuficiência e eterna limitação. Sua lição é um oráculo. Não há nenhum ser no mundo que a ciência não possa penetrar, mas o que pode ser penetrado pela ciência não é o ser. É o novo, segundo Kant, que o juízo filosófico visa e, no entanto, ele não conhece nada de novo, porque repete tão-somente o que a razão já colocou no objeto.”

A dialética do esclarecimento, Adorno e Horkheimer, 1944 [1969], (p.33-34).

Publicado em despise for humans por pedro em 05/12/2009
“não há nenhum ser no mundo que a ciência não possa penetrar, mas o que pode ser penetrado pela ciência não é o ser”

A dialética do esclarecimento, Adorno e Horkheimer, 1944 [1969], (p.33).

Leituras

Publicado em despise for humans por pedro em 05/09/2009

Alguém me perguntou ontem o que eu ando lendo. Lamentavelmente no momento não estou lendo quase nada de Ficção – estou esperando o Gustavo me emprestar o Crônicas Marcianas, do Bradbury, que eu dei pra ele de aniversário -, mas estou lendo 6 livros teóricos ao mesmo tempo.

O único ficcional que estou lendo é:

  • O Caso de Charles Dexter Ward

Esse é um dos mais conhecidos romances de H.P. Lovecraft. Quando reconstruí a história da ficção científica e fantástica para minha dissertação eu acabei vendo que o único autor ali que eu jamais tinha entrado em contato com era o Lovecraft. Daí encontrei esse em versão pocket e tem sido meu companheiro atual de literatura.

Mas no momento estou lendo:

  • Bem-Vindo ao Deserto do Real: cinco ensaios sobre 11 de setembro e datas relacionadas

Esse livro do Slavoj Zizek é de 2002. Zizek é um filósofo esloveno e essa coleção de ensaios é realmente muito boa. Ele fala muito sobre ficção científica e a relação mítica da ansiedade do catástrofe com a natureza própria da catástrofe 11 de setembro.

  • Lacrimae Rerun

Esse livro também é do Zizek, de 2008. Nele ele fala sobre as cineastas Kieslowski, Hitchcock, Lynch e Tarkowski. O livro é ótimo; parece também uma coleção de ensaios. E recomendo muito o sobre o Hitchcock.

  • Nascimento da biopolítica

As aulas de Michel Foucault no Collége de France de janeiro a abril de 1976. Recém comecei a ler: é longo e denso, mas é muito bom porque é em forma de aula, então ele gasta bastante tempo explicando bem a fundo e dando ótimos exemplos. É uma obra obrigatória sobre poder, estado, política, relações internacionais e sobre a própria condição humana, no que se refere ao estatuto da organização das sociedades.

  • As palavras e as coisas

Empréstimo do meu querido amigão Jayme Camargo, colega de grupo de pesquisa e mestrando ali na Famecos, esse livro é outro obrigatório. Queria ter lido ele há muito tempo, mas as leituras necessárias sempre ficavam na frente. É ótimo. Foucault fala de arte e da percepção humana.

  • Dialética do Esclarecimento

Essa obra clássica, fundadora, inclusive, de Adorno e Horkheimer é uma das leituras obrigatórias para quem tem interesse pela mídia e pelas transformações ideológicas da era pré, moderna e pós. Comprei ontem e já estou devorando. Era mais um daqueles livros que fazia muito tempo queria ler e nunca tinha tempo.

  • O Método 1: A natureza da natureza

Há algum tempo eu comprei numa promoção na Cultura todos os Métodos do Edgar Morin, mas, por sua densidade e pela falta de tempo, só tinha lido partes do Método 3 e 4 para fazer um trabalho para uma das disciplinas do mestrado. Morin em sua complexidade me fascinou desde o primeiro momento e ficou como aqueles livros pra ler depois da defesa. E foi o que eu fiz. É o livro no qual estou mais concentrado no momento.

  • A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria

Esse livro é de 1989, de Gaston Bachelard. Como eu tinha lido para minha dissertação todos os estudantes do Bachelard, resolvi que deveria lê-lo. Eu também comprei O ar e os sonhos e A poética do devaneio, mas ainda não comecei a ler.

Se alguém tiver alguma dica de ficção eu to aceitando. Nothing too classic or too novelty, please…