“A tarefa e grandeza potenciais dos mortais têm a ver com sua capacidade de produzir coisas – obras e feitos e palavras – que mereceriam pertencer e, pelo menos até certo ponto, pertencem à eternidade. [...] Por sua capacidade de feitos imortais, por poderem deixar atrás de si vestígios imorredouros, os homens, a despeito de sua mortalidade individual, atingem o seu próprio tipo de imortalidade e demonstram sua natureza divina”.
(ARENDT, 2008 [1958])
apó mēchanēs theós
deus vindo através da máquina.
não simplesmente em socorro do homem, herói ou trama. sua forma de chegada é através do guindaste, do elevador, de um prop cenográfico, um mēkhanē.
não é a máquina o próprio deus, ela é apenas sua carruagem. o conhecimento do universo, da verdade, que engendra a técnica, não é o que faz do deus um deus.
ele é deus como o homem era antes do fogo. simplesmente sendo.
A cultura de massa do homem-máquina
Estou concluindo, como disse anteriormente, meu trabalho de conclusão do mestrado. E para tal, estou complementando as leituras nessas últimas 8 semanas de prazo para a fatal entrega lá na primeira semana de março.
Para tanto, estou lendo diversos livros sobre ficção científica. Desde Muniz Sodré até o (podemos dizer) icônico A Religião das Máquinas do nosso querido Erick Felinto. Entretanto, faço valer esse espaço de divagação metodológica e filosófica pra apontar certas constatações a priori sobre os artigos expostos por Felinto em seu livro que ecoam em diversas outras obras de mesmo cunho, na qual o filme Matrix é colocado num patamar de inovação e revelação da época atual.
Já no começo, o autor expõe as considerações de Nietzsche acerca da memória – ou melhor, do esquecimento – que o pensador alemão imputa ao chamado sobre-homem. Parece-me, porém, que Felinto também sofre desse mal (ou bem, depende se você é nietzscheano): ao falar sobre Matrix (1999) o autor parece esquecer certas premissas básicas do estudo de qualquer forma cultural, uma delas, apontada, inclusive, por Barthes e por vários autores dos estudos culturais – o meu favorito seria Douglas Kellner – que aponta que todo produto cultural sobre influência magnânima de seu “horizonte social” (KELLNER, 2001). É o tal do ethos que todo mundo gosta tanto de abusar: o espírito de um era. ACONTECE que a maior parte dos teóricos, pensadores e analistas da cultura de massa se esquece que ela é de massa não só para as pessoas, mas para os produtores também.
Falemos dos irmãos Wachowski. Como dois bons geeks norte-americanos, que viveram sua juventudes durante o final dos anos 70 e início dos anos 80, esses dois espécimes da tecnocracia capitalista de mercado vivenciaram o boom do animé em seu prime, em sua primazia. Esses caras não adaptaram Speed Racer (2008) porque acharam divertido: eles adaptaram um dos mais famosos animés de todos os tempos porque assistiam no sábado de manhã na TV em suas confortáveis casas de classe média norte-americana enquanto seus pais discutiam os distantes pagamentos de hipotecas e que xarope de bordô colocar sobre as panquecas.
Pensar por um segundo que esses dois indivíduos não continuaram assistindo produtos culturais de massa produzidos no Japão e exportados para a TV matinal norte-americana é simplesmente rísivel. Porém, não mais risível é supor que há algo de realmente novo em termos de cultura de massa e cultura da mídia em Matrix. Os efeitos especiais até podem ser considerados como algo, de fato, inovador, apesar de serem apenas novos usos para tecnologias mais antigas do que guaraná de rolha. E vou aqui, em poucas linhas, comprovar.
Em seu ótimo artigo, Felinto – até pelo nome do livro no qual se encontra – se debruça sobre o aspecto mais, digamos, esotérico de Matrix. Com a sublimação de religiões ocidentais e filosofias de iluminação orientais com a tecnologia e a própria noção de superação do homem. Pois bem, nosso querido Erick, como erudito e catedrático acadêmico, jamais deve ter assistido em sua integralidade ao desenho japonês de muito sucesso (e talvez principal responsável, no Brasil, pela febre do animé e do manga) Shin Seiki Evangerion, ou como ficou conhecido no Ocidente, Neon Genesis Evangelion. Nesse desenho animado de 24 episódio, mais dois ou três filmes, que agora começa a ganhar uma nova versão em episódios gigantescos de uma hora e meia, todo reanimado, um garoto de 14 anos acaba sendo chamado por uma insituição governamental para pilotar um robô gigante na luta contra gigantescos monstros que ameaçam a humanidade. Este é o plot da série e que não a distancia de tantas outras babaquices massificadas e copiadas ao extremo por quadrinhistas japoneses não tão competentes ou criativos quanto se imagina. Entretanto, toda a história começa quando no suposto ano 2000 da série, um grupo de arqueólogos encontra um homem gigante no ártico e, ao encontrá-lo, desencadea-se uma liberação de energia que praticamente destrói o planeta (na série essa energia é chamada de AT Field, ou campo de terror absoluto; num determinado ponto, o anjo em forma de menino diz que os humanos não entendem que esse AT Field na verdade é a própria alma). Esse encontro foi mascarado pelos governos como a queda de um asteróide, entretanto se tratava de um ser mitológico tratado nas religiões judaíco-cristãs: era Lilith. A primeira mulher. E a partir desse ser é que se fazem os robos gigantes, que, na verdade são ciborgues: seres biológicos ligados a máquinas. Ou seja, todas a religião, principalmente cristã, está certa, só que se trata da escritura de uma fantástica realidade que não caberia aos pobres vagantes do deserto entenderem.
Mas não são homens. Não é necessariamente a sublimação do homem e da máquina. Porque esse ser gigante é na verdade uma criatura de origem divina, assim como os monstros gigantes que são – ironicamente – chamados de anjos. Dessacraliza-se tanto o divino ao ponto de controlá-lo através da tecnologia.
Quem assistiu o desenho na íntegra sabe que vai mais profundamente. Vai até o ponto de episódios inteiros com apenas diálogos puramente filosóficos contestando a existência e a validade da humanidade. O próprio plano da Seele, agência por trás da Nerv e que articula todos os acontecimentos, é a instrumentalização da humanidade: o übermensch nietzscheano.
Esse desenho é de 1995.
E também em 1995 temos Ghost in the Shell. Sucesso nos EUA, trata-se do resumo do manga de mesmo nome no qual uma agente da polícia que é, na verdade, um ciborgue com apenas um décimo de cérebro orgânico, procura um terrorista conhecido como Senhor dos Fantoches e que, na verdade, se trata de uma consciência artificial procurando uma forma de completar seu ciclo de vida através da reprodução. Hmmmm… onde será que eu já vi isso?
De repente num romance que precede Matrix em 15 anos de um carinha qualquer aí chamado William Gibson. Mas é claro que não se trata de apenas um livro que poderia ser facilmente esquecido. São três livros. Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive. O último (Mona Lisa) antecede Matrix em 11 anos. E, desculpe quem não leu, eu li Raymond Williams e literatura (apesar de Muniz Sodré deixar bem claro que Ficção Científica não é literatura) também é produto cultural e é cultura de massa. Ainda mais num país altamente editorial como os EUA do séc. XX.
Então fica muito cansativo ver percursos teóricos e metodológicos magníficos sendo gastos com uma coisa que, na verdade, é, aos moldes do que Frederic Jameson diz “repetição que constitui ainda outro aspecto da situação contraditória da produção estética a qual tanto o modernismo quanto a cultura de massa, de um jeito ou de outro, não pode fazer outra coisa se não reagir” (1979, p.135).
A cultura de massa é por excelência a replicação de conceitos. Entretanto, um dos seus maiores expoentes, Hollywood, é indelevelmente marcada pela repetição de histórias. Matrix não passa de uma incrível e espetacular colagem: o escolhido é levado ao extremo em mais de cem animés. A sublimação da tecnologia e do homem, pelo amor de Deus, tu encontra em Donna Haraway e a máquina que possui características humanas no também icônico Blade Runner: “Deckard quer amor”. Matrix é só mais um lixo meta-ideológico que se vale de coisas tratadas seriamente por pessoas sérias em produtos culturais sérios. Em certo momento Felinto se refere aos simbolismos do filme como uma “brincadeira séria” e eu, infelizmente, discordo totalmente. É uma brincadeira boba e tratada de forma tão leviana que fica indelevelmente marcada nas duas continuações (na verdade, essencialmente no final da trilogia onde Oráculo e Arquiteto sentam-se num banco de praça para verem o nascer do sol virtual no horizonte à lá E o vento levou…). É um filme bobo, interpretado por péssimos atores (com enfase para o “bodoso” Fishburne) e simbolismos tolos oriundos de entendimento torto e economicista da filosofia de Nietzsche e da própria modernidade tecnológica. Humanos escravos de máquinas é um temas mais antigos da ficção científica e o futuro pós-apocalíptico de um pequena resistência humana que interpela a tecnologia para vencer os seres elétricos criados por ela mesma já tinha sido exaurido em 1992 com a continuaçao de Terminator ao som de Guns’n'Roses onde o sobre-homem físico encarnava a máquina. A máquina-homem já se exauria nos episódios e filmes soturnos de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração na qual uma civilização inteira era chamada de Borgs. A carne transformada em interface já pre-existia Matrix em dez anos. Talvez até mais. Forge e Cable, dos X-Men. A própria Falange, também dos X-Men e do universo Marvel: seres eletrônicos nanotecnológicos que absorvem matéria de qualquer tipo, orgânica ou inorgânica.
O que me presto aqui é apontar um imenso déficit quanto ao estudo da cultura de massa: pouquíssimos estudiosos realmente conhecem a cultura de massa. Certa vez nos halls da Famecos ouvi: “É, faço trabalhos avacalhando novelas, até por isso não as assisto”. Boquiaberto, entendi pela primeira vez que se trata de um classismo, de um elitismo tolo que só consegue transformar em fenômeno analisável aquele produto que ultrapassa a barreira ainda tão fortemente mantida entre alta cultura e cultura popular. Existem centenas de Matrix antes de Matrix; o filme não é um evento, é, na verdade, somente um sintoma de um processo iniciado por produtos culturais que o antecedem em mais de duas décadas.
Até os figurinos (tirados de Blade Runner, Ghost in the Shell, Neuromancer, e uma infinidade de outros animés com homens de terno preto sendo malvados e soturnos) até a aparência das máquinas (tiradas de Giger) é uma replicação esvaziada e com a necessidade de se encaixar numa cultura que, na verdade, seu consumo nada alterou; só reforçou.
jesus ubermensch
A noção do Homem como conceito ultrapassável, obviamente, só pode acontecer a partir da idéia de Homem. Como nem sempre o que hoje chamamos de Homem foi ou pensou ser Homem[1], obviamente este que pode ser chamado de pré-humano não poderia projetar ou desejar ser mais do que Homem. Entretanto, em termos mais teológicos, tomando esse pós-humano como uma “pessoa” que, em relação ao que hoje percebemos como Homem, seria, de fato, se não o Próprio, pelo menos “um deus”[2].
Portanto, nesse pré-humano, podemos perceber, através do entendimento de certas noções de diversos autores[3] – alguns que se debruçaram sobre a cognição, antropologia, sociologia, entre tantas outras áreas que enfoquem, principalmente, a ancestralidade da humanidade como espécie – que revelam com bastante clareza que, se não toda, muito da vida desse que tantos chamam de selvagem ou primitivo era voltada para os deuses. Seja morrendo por eles, seja emulando suas características, tanto físicas quanto de personalidade. E nem precisamos ir tão longe, ainda hoje se ouve nas alcovas mais cristãs “o que Cristo faria?” ou o inesquecível lema da catequese “sejamos mais como o Cristo”. Não é de espanto para ninguém que existam aqueles que tomam essas noções futuristas, como ciborgues e máquinas com inteligência (e até senciência), transferências de consciência e eugenia através da engenharia genética, como dignas de um Relicário da Singularidade; como um novo caminho para a divinização coletiva.
E não deveria ser mesmo estranho. Parece-me que, como espécie, antes de necessariamente Homens, estamos sempre procurando a superação de nossas condições atuais. Claro, é errado, ou no mínimo duvidoso, acreditar que a espécie homo sapiens está fadada ao progresso como o conhecemos da perspectiva da História. O tempo (picking einstein´s brain) e nem mesmo a evolução civilizatória humana acontece em linha reta. Teologicamente falando, em todos os tempos da História (mesmo a Ocidental), até onde a vista chega se vêem os tão inacreditáveis deuses com as mais inimagináveis formas e qualidades. Até mesmo quando todos eles se unificam nas figuras mais conhecidas e pop do monoteísmo, vemos que a humanidade como civilização, como lógica de sociedade, sempre se apega a comparação e até medição através da entidade deusificada.
Penso, então, haver um certo caráter aproximável aí, mesmo que os registros sejam totalmente díspares. Há, em certa ótica, arriscaria-me a dizer antropológica, uma semelhança um tanto quanto assustadora sobre essas noções. Claro que, filosoficamente, o homem nem sempre foi o Homem que hoje entendemos e, deveras, somos. Entretanto, como espécie, o homem está colocado neste planeta a pelo menos 100 mil anos. Poderia-se argumentar que, como civilização amplamente planificada e regida, há pelo menos 15 mil anos. Deve-se procurar escapar de um certo determinismo biológico; como espécie de forma alguma deve-se supor que somos obrigados ou programados para tão amplo entendimento e planificação de nossa existência. De uma visão sociológica[4], estamos sim presos a sermos o predadores de nosso próprio futuro, devorando lenta, porém certamente, nossas próprias possibilidades de existência. Como escapar então de definir está caráter sob prisma, de certo, falhos ou incompletos?
Talvez tal pretensão se faça, ao final de uma análise mais interna sobre quem faz a pergunta (de si mesmo!), como parte derradeira dessa forma de pensar. O que preocupa-me é essa pretensão humana (desde a Grécia Antiga e a modernidade) e também pré-humana (medieval e coerente com a Antigüidade pré-Roma) que parece bastante clara de autosuperação em termos teológicos. Hoje, pretende-se o que poderíamos chamar de deus-máquina, entretanto, no passado, egípcio, por exemplo, imperava que, quando da morte, certamente andaríamos entre os deuses. Obviamente, o entendimento para essas superações em cada época é necessariamente e essencialmente diferente. Hoje, temos a superação do Homem. Antes, tínhamos, no máximo, a superação deste plano de existência ou mesmo da vida. Entretanto, há um caráter que permanece obscuro: o por quê de, materialmente, através de gestos, etiquetas, comportamento, vestuário, tanto o ser pré-humano quanto o Homem desejam parecer, emular ou mesmo planificar essa superação?
De certo, muito de grego tem o Jesus que hoje conhecemos. Interpelado pela Roma moribunda, o cristianismo tomou o mundo colocando, em todas as instâncias que pôde atingir, a figura maculada e rejeitada do super-homem definitivo, do completo transhumano, do Homem que consegue ser deus. O outro “supermonoteísmo adulterado”[5], confronta toda a sua crença com os pés ensandalhados do Profeta. Temos então, em ambas as religiões, um ser humano, na verdade, tomando que os romanos é que inventaram o Jesus que conhecemos, e que os muçulmanos foram os primeiros a investigarem os escritos e idéias da Grécia Antiga, um Homem, que nasce de uma Mulher (com eme maiúsculo para ficar claro que se trata de uma fêmea do entendimento do ser humano), e cresce e se desenvolve para ser, afinal, muito mais do que um simples Homem. E esse Homem, de forma alguma é o Deus. Ele morre. Para o Profeta é ainda mais. Ele casa, tem descendência.
Não estou aqui para colocar definitivamente que o aparente projeto, intensificado pelo que ficou conhecido como pós-modernidade, de procura tecnológica da superação do que o Ocidente pariu e chamou de Homem é, na verdade, eco de uma religiosidade natural à espécie. Nem mesmo estou aqui para colocar como senha a noção teológica à noção de pós-humanidade. Entretanto, ambas colocação parecem bastante pertinentes (fora rigidez filosófica). A superação da atual condição física e mental de cada ser humano, quando enfocada pelo imaginário, parece-me inexoravelmente intrínseca à todas as eras e épocas em que a humanidade viveu quase que completamente imersa em fantasmagorias e (por quê não?) fantasias de caráter certamente teológico.
Eu, quando fiz catequese, me lembro claramente do padre enunciando: “Aquele que é maior que o Homem”. E, vendo qualquer filme de ficção científica (fora o horrível A.I.) que aborde a máquina que se torna inteligente, podemos ouvir o agourento tilintar de algum sintetizador de voz ou tela de computador indicando aos presentes que o aparato chegou a conclusão de que é superior ao Homem em todos os aspectos.
Era Jesus um ciborgue?
[1] RÜDIGER, 2008.
[2] Como os tantos deuses que todas as religiões politeístas pariram ao longo dos mais de 10 séculos nos quais erraram pela terra.
[3] Lévy-Strauss seria o mais rápido a sair de qualquer cartola. Entretanto, qualquer trabalho de cunho antropológico, mesmo os produtos culturais mais fajutos produzidos pela indústria cultural esmagadoramente presente em todos os campos desde livros, até cinema, quadrinhos e música, feito durante as últimas décadas do séc. XX, principalmente os que enfocaram culturas pré-colombianas, aborígenes e indígenas, revela com bastante clareza, quando da existência de uma espécie de panteão divino, a interação contínua desses com seus deuses através de mitos e rituais (entre outras formas que podem incluir até a própria reprodução). Os deuses não eram simplesmente alcançáveis, eram, de certo, role models, modelos comportamento e de, de certo, se pudéssemos dizer tal coisa, até mesmo, estética.
[4] Mais especificamente, de Locke, Robespierre, Hobbes, talvez, até Maquiavel.
[5] Até porque, sabe-se, o islamismo que tomou a Europa de assalto há quase 5 séculos não pode ser, de forma alguma, o mesmo islamismo que há aí hoje. Apesar de, em certos termos, muitas das mais antigas regiões ditas muçulmanas tem certo caráter de séc. XVI que são, além de irrevogáveis, inegáveis. O que importa aqui é, essencialmente, o entendimento de que tanto quanto o cristianismo, a proposta religiosa original de ambas as religiões, como formuladas, digamos, por seus criadores, imperam de maneira no mínimo caquética frente a realidade do mundo ocidentalizado do séc. XXI.
Übermensch by Debord: edição olímpica
Este blog surgiu a partir da minha emergência pessoal em extravasar certas idiotices, tragédias, crimes, entre tantas outras coisas que acontecem normalmente no dito mundo do conhecimento que vivemos hoje.
Aquém da tecnologia e de suas repercussões práticas, sociais ou culturais, minha preocupação sobre as formas de transcendência do Homem não são exatamente ligadas aos fenômenos que ensejariam em si esse evento; minha ‘pulga atrás da orelha’ é sobre algo talvez muito mais complexo que se relacione diretamente com um imenso número de disciplinas e escolas de pensamento. Desde psiquiatria e psicologia (inclusive social), medicina, biologia, neurologia, sociologia, fisolofia, comunicação. Como pode? Simples. Minha preocupação tem suas raízes nas palavras do francês que disse muita besteira mas evocou o mundo do estudo aprofundado de tudo que é essencialmente Homem a decifrar uma senha irresistível: o espetáculo.
2008 será, com certeza, lembrado durante muito tempo como um dos anos mais fundamentais dessa década de 00 do séc. XXI e, coerentemente, esta década será lembrada – penso – como a derradeira parteira da lógica humana do esvaziamento espetacular. Claro, 2001 e seus prédios flamejantes ganham a corrida, entretanto 2008 reforça o que a fronteira final rompida no primeiro ano do século. O ano kubrickiano – se me permitem – anunciou não o nascimento da vida inteligente, nem o varar humano através do tecido do universo; ninguém mora na Lua, não há menir negro nem Hal. Nada foi vivido secretamente, acabando em psicodelia. O espetáculo foi para grande público; o menir, na verdade, existiu: de vidro, concreto e metal decretou que este século seria regado a muito sangue, muita guerra, muita tragédia, muito engodo, muitas meias verdades e verdades totalmente mentirosas. Três aviões, dizem, se chocaram contra pontos estratégicos naquele dia… mas ninguém fala muito daquele que aparentemente, ao se chocar, evaporou como a esperança de que o tão antecipado século XXI fosse de esperança, de descoberta, de superação.
Superação, por enquanto, só jamaicana. Tantos teóricos e suas teorias de remixes, de tragédias culturais, de redenção eletrônica e o mundo está crescentemente se admitindo falho e pesado demais: russos, americanos, chineses, japoneses… até mesmo franceses, espanhóis, alemães e tantas outras nações ditas evoluídas, cultural e tecnologicamente avançadas esbarram cada dia mais e mais nas idiossincrasias de seus povos e da própria humanidade. Até no Canadá – país reconhecido por seu pacifismo, retidão e bom senso – se afoga cada dia mais no que alguns chamam de vírus norte-americano mas que eu digo ser próprio do Homem.
E enquanto isso, continua o espetáculo do super-homem. Não, o übermensch de Zaratustra não vem para salvar, para redimir, ele nem mesmo veio para substituir o Homem. O Super-Homem veio realmente a cárater, veio com dança, show e ginga para divertir. Para o totalmente desnecessário. Um ônibus espacial, quando de seu lançamento, precisa atingir a absurda velocidade de ONZE QUILÔMETROS POR SEGUNDO para conseguir escapar da gravidade da Terra e se lançar ao espaço. Entretanto, grande assombro porque apenas um homem – que não é Homem – consegue correr 200 metros em menos de 20 segundos. São 10 metros por segundo. Claro, é absurdo e, em termos, muito louvável. Como superação dos limites, prova da irrefutável capacidade não só evolutiva como emocional e física do Homem – e do homem, Usain Bolt. Mas o que fica, pelo menos para mim, é sempre a contínua espetacularização.
Repórteres nas cidades desertas da Ossétia do Sul, praticamente aos prantos contidos. O recorde histórico de Bolt fica obscurecido pelas acusações de dopping, pela sua, segundo críticos, falta de sentimento desportivo, ao comemorar sua vitória nos 100m antes mesmo de cruzar a linha, pela comparação inevitável com Michael Johnson. Libertem o Tíbete. Satélite iraniano. Milhares de baixas militares americanas no Iraque. O invade/não-invade da Geórgia. As repercussões reais, e diretas, desses eventos raramente são sentidas pela população em si. E quando Chávez toma a fábrica de cimento ou a refinaria de petróleo, o povo continua pobre, continua tendo que trabalhar, porém fica a imagem do povo celebrando, do show da democracia torta. E tudo é show. Britney no seu melhor: show. No seu pior: show. A mediação entre nós deixou de ser sobre aspectos realmente FULMINANTES. O aspecto volátil do Homem se reconstrói na repetição à exaustão de imagens, ditas pelos próprios narradores e apresentadores, como espetaculares. E o que, penso eu, poucos teóricos prestam atenção é no fato de que isso, assim como qualquer tipo de diarréia, espirra pelo vaso inteiro e se for no chão, bá, daí escorre pra todo lado. A gravidade insuperável das citadas idiossincrasias do Homem leva tudo para todos: o espetáculo esguicha para a vida cotidiana, plural e simples das pessoas. A roupa, o cabelo, o marido, o carro, a casa, o emprego, estudos, os amigos, jantares, festas, conhecidos, comidas, bebidas, drogas, música, gostos, atitudes, pensamentos, idéias, sonhos, aspirações, ambições, desafios, dificuldades, doenças, religião, lazer, entretenimento, cultura, consumo, arrependimentos, orgulhos, até a maldita pasta de dente, tudo se torna, essencialmente espetáculo. Se não totalmente, pelo menos sujo e corrompido por ele.
“Minha roupa é um show para os outros”, eu ouvi certa vez quando recém começava a sair, beber, namorar. Esse individualismo que todos falam não pode estar mais distante de ser verdade: precisamos desesperadamente dos outros. Seja para validação, seja pela inveja. O sexto pecado capital, tão dificilmente comprovado – até porque raramente se vê alguém dizendo “fiz tal coisa por inveja”, “tenho inveja de fulano” – corrobora, em certos pontos, a minha tese. Ninguém quer ser o Super-Homem, ninguém – a não ser por alguns atletas muy bien intencionados – que ser Usain Bolt. Queremos olhá-lo à exaustão. Queremos gastar sua imagem com nossos olhos, corroer seus méritos com nossa admiração/inveja, axioma nominal da contemporaneidade.
Então, o ciborgue, messias filosófico, inteligência artificial, ser de energia, espírito iluminado, Buddha, Jesus, pra mencionar a predição broadwaydiana, se tornou espetáculo, show, concerto, peça, evento. O Fait Divers de Barthes, com o relógio dos Power Rangers, diz: “It’s morphing time” e tudo que era fato diverso, buraco na rua, homem morde cachorro, pode potencialmente se tornar o maior espetáculo do mundo, ou no mínimo da nação. Isabela. Semanas antes de seu pai e madrasta a precipitarem pela grade da janela, outra menina, em algum lugar esquecível do país, era libertada de um cativeiro de anos onde era torturada, humilhada, tratada como escrava. Isabela caiu para a morte, rápida e midiaticamente interessante. A pobre garota sem nome, carregará para sempre as cicatrizes de seu sofrimento. Mas ela era pobre. Ou pelo menos pouco mais que pobre. Isabela era neta de gente importante. Filha de playboy. Eu também posso me definir como playboy, mas pelo menos estudo. Diferente do pai de Isabela, que por não se formar em Direito – ou talvez esse seja a exata razão de não ter se formado – não conseguiu mentir suficientemente bem. Mas isso é além do ponto. Quero é definir a questão de que ele, o papai e a madrasta malvada, são o pós-humano também. “O que eles fizeram com a filha nenhum ser humano faz”, dizia uma velhinha em protesto, na época, em frente a casa em que estavam os algozes da menina. Isabela era humana, mas seus pais não. Eles eram o que convencionei chamar de Übermensch by Debord, o espetacular super-homem. Além dos limites da compreensão social, cultural, científica, assim como os tantos assassinos seriais, assim como as tropas russas posando para as fotos da BBC mostrando seus possantes tanques, carteiras de cigarro, pistolas e infímos órgãos sexuais.
E fica o show de Bolt, repetido ao infinito, para retornar, como tudo retorna desde o séc. XVII, quando outro Johnson, outro Bolt, outro qualquer superar…
Mamíferos com motor de combustão
Pra quem fica nesse tira-teima entre homem e animal, e as repercussões imensas das tão aceitas premissas de que o homem é diferente dos animais, duas notícias do site da BBC:
Golfinhos selvagens ensinam uns aos outros como andar com a cauda sobre a água
Na costa da Austrália, perto de Adelaide, biólogos descobriram uma comunidade de golfinhos selvagens que faz truques que, até então, se presumia que só fizessem depois de treinados. Uma das golfinhas do grupo, Billie, passou um tempo num dolphinarium, mas não foi treinada. Os biólogos estão conjecturando que ela tenha aprendido o truque de outros golfinhos que também viviam lá e, estes sim, eram treinados.
Chimpanzés usam lanças para caçar
Essa é mais antiga, do início de 2007, entretanto muito mais compravada. Em mais de vinte casos, eles não pegam pedaços de madeira com o formato de lanças como as constróem a partir de pedaços com formatos diferentes.
Demais. Pra não deixar dúvidas de que somos sim seres terrestes…
Qualificação: 2 dias e contando mais do que dias; contando frustrações humanísticas
Quinta agora, dia 21 desse frio agosto, às 14hs, lá na querida PUC, enfrento a primeira parte do meu desafio, com a minha banca de qualificação. Estou bem confiante e ansioso pelo feedback da banca, principalmente por dicas em relação a literatura e composição do trabalho.
Então hoje fui na minha derradeira orientação antes dessa cerimônia de passagem e conversando com minha orientadora vieram à tona muitos dos assuntos que trato aqui.
Há, deveras, uma imensa multiplicidade ideológica e cultural no mundo hoje em dia. De certo, mergulhado nas páginas de autores mortos há muito, se vê a concretização, nem que parcial, de muitas das previsões e visões que se traçaram ainda no despontar do século passado. De tanto em tanto, o homem se tornou o ciborgue que se esperava que, em meados do século XXI, ele se tornasse. Claro, os cabos, fios e parafernálias não se conectam diretamente a nossos cérebros e corpos… não? Esse preciosismo tecnológico realmente não consegue perceber que não se precisa inventar uma interface computador/cérebro; ela já existe! Se chamam MÃOS E OLHOS. Hoje, esperando pela chegada da professora, e mesmo antes, quando na biblioteca da PUC, comecei a olhar as pessoas trabalhando. Talvez por infelizmente não pertencer a essa parcela produtiva de fato da sociedade eu tenha uma certa mistura de inveja e interesse pelas pessoas que saem de suas casas, vão até seus locais de trabalho, sentam-se em mesas ao lado de seus colegas e passam o dia com as caras e mãos voltadas para monitores. Propagando o termo de Bukatman, é uma terminalização da vida: tudo passa através dos infindáveis terminais de dados hoje em dia, gerando um número ainda mais infinito de dados. E se pensa de maneira tão obtusa: um futuro onde ‘plugues’ ligarão cérebro e máquina? Isso já acontece. Hoje, vendo as pessoas da secretaria da Famecos, via pessoas absortas em seus terminais, como se suas consciências, a cada grupo mínimo de minutos, se desconectasse da realidade que os rodeia e entrasse, como Gibson tanto ensejou, num mundo paralelo porém dependente deste, onde o que importa são dados, informações, interações, trocas rápidas de ‘bolos de uns e zeros’ através de um complicado sistema de tradução destes em informações humanas.
Falavámos, eu e minha professora, sobre o rasteiro trajeto de muitas pesquisas feitas hoje em dia. Durante anos, cientistas sociais das mais diversas escolas pensaram, pesquisaram, buscaram compreender a condição conhecida como interação humana. Entretanto, hoje, enseja-se pensar que o que é feito pelo (e através do) computador pertence a uma outra realidade, constituída por outros seres, com outros objetivos e outras estruturas. A fragmentação do sujeito, da qual tanto se fala nos espaços do pensamento ciberculturalista, falha em se revelar através das pesquisas e estas, essencialmente, falham por deixarem de lados categorias, noções e idéias já muito bem aprofundadas por estudiosos que nunca nem sonharam que um dia as pessoas teriam MSN Messenger ou uma página no MySpace. No post anterior eu critiquei o Chris Anderson exatamente por isso. Pretende-se, nessa, e eu acho de muito bom tom chamar assim mesmo, nova Utopia que permeia de blogueiros à cientistas, de escritores a economistas, uma renovação do mundo aos moldes da unificação da China: destruam o passado, só o que importa é o que é feito de agora em diante. E, mesmo assim, o cordão umbilical do passado, que eu preferiria chamar de feeding tube, se mantém forte e conciso numa cultura que se pretende do remix e só consegue mesmo ser do redux.
Em A Condição Humana, Hannah Arendt, carinhosamente diz uma coisa de extrema importância para esse meu argumento:
Mas hoje podemos quase dizer que já demonstramos, até mesmo cientificamente, que, embora vivamos agora, e talvez tenhamos que viver sempre, sob condições terrenas, não somos meras criaturas terrenas (p.19).
Anderson, e todo seu séquito – extendido até as costas brazucas nas centenas de universidades brasileiras e seus programas de pós-graduação em cibercultura -, pretendem um mundo sem o homem, e isso fica muito claro nas entrelinhas. Porém soma-se a isso, tolamente, a idéia de um mundo sem razão, um mundo regido pela lógica mais que instrumental, por uma matemática aplicada servindo como epítome divina; ao invés de sacrifícios, palavras mágicas temos cálculos e estatística. Ele clama pelo fim da teoria e como muitos de seus seguidores, até mesmo os mais versados, parece esquecer que, apesar do diagnóstico precoce de Arendt – que entende um mundo crescentemente perdido através na diminuição do poder da palavra – as palavras tem sim mais do que poder. Mais do que os cálculos de algorítimos e engenheiros, é o que verdadeiramente constrói o mundo; a fábula de Babel é a própria condição humana:
O motivo pelo qual talvez seja prudente duvidar do julgamento político de cientistas enquanto cientistas não é, em primeiro lugar, a sua falta de ‘caráter’ – o fato de não se terem recusado a criar armas atômicas – nem a sua ingenuidade – o fato de não terem compreendido que, uma vez criadas tais armas, eles eriam os últimos a ser consultados quanto ao seu emprego -, mas precisamente o fato de que habitam um mundo no qual as palavras [parece] perderam seu poder. E tudo o que os homens fazem, sabem ou experimentam só tem sentido na medida em que pode ser discutido. Haverá talvez verdades que ficam além da linguagem e que podem ser de grande relevância para o homem no singular, isto é, para o homem que, seja o que for, não é um ser político. Mas os homens no plural, isto é, os homens que vivem e se movem e agem neste mundo, só podem experimentar o significado das coisas por poderem falar e ser inteligíveis entre si e consigo mesmos (p.12).
Apesar de seus very keen writings parece ignorar totalmente que Aristóteles – sim, aquele mesmo – quando cunhou o que hoje conhecemos como teoria (theoria) queria dizer contemplação. E, ainda hoje, em nossos dicionários se mantém o mesmo sentido a que remetia o grande pensador da antigüidade: “considerar com admiração ou com amor”. E que amor há em máquinas mastigando dados se não existem seres humanos para percebê-los? Anderson clama por um mundo afogado em dados que seriam impossíveis de serem escrutinados por homens e mulheres normais. Mas quem mais além do homem pode criar sentido? Não seria mesmo a ‘máquina-de-sentido’ um sentido criado pelo homem?
Concluo meu pensamento com outra (longa) citação da obra de Arendt, mas que penso, apesar das incongruências de seu pensamento, revelar exatamente o objetivo final de todos esses arautos da tecnologia. Ninguém está aqui clamando por um estilo Amish de vida, mas para que, nesse amanhecer do século XXI, antes que seja tarde demais, nos voltemos praquilo que realmente importa e sem o qual o mundo realmente não faria sentido: o Homem. E complementando a citação da autora, claro que esses processo descritos por ela hoje se ensejam ainda mais definitivos do que em 1958, apesar de muitas das ditas tecnologias terem se voltado para as comunicações. O satélite que remete a Arendt a seu argumento, hoje é um satélite de comunicações, orbitando o planeta com a finalidade de mandar uns e zeros para todos os locais porém, mesmo assim, anexando a estes um quê próprio de humanidade e de sua necessidade (tão alardeada pela autora) desesperada de superar todas as restrições de sua condição, mesmo que isso signifique superar a si mesmo.
O problema tem a ver com o fato de que as ‘verdades’ da moderna visão científica do mundo, embora possam ser demonstradas em fórmulas matemáticas e comprovadas pela tecnologia, já não se prestam à expressão normal da fala e do raciocínio. Quem quer que procure falar conceitual e coerentemente dessas ‘verdades’, emitirá frases que serão ‘talvez não tão desprovidas de significado como um ‘círculo tringular’, mas muito mais absurdas que ‘um leão alado” (Erwin Schrödinger). Ainda não sabemos se esta situação é definitiva; mas pode vir a suceder que nós, criaturas humanas que nos pusemos a agir como habitantes do universo, jamais cheguemos a compreender, isto é, a pensar e a falar sobre aquilo que, no entanto, somos capazes de fazer. Neste caso, seria como se o nosso cérebro, condição material e física do pensamento, não pudesse acompanhar o que fazemos, de modo que, de agora em diante, necessitaríamos realmente de máquinas que pensassem e falassem por nós. Se realmente for comprovado esse divórcio definitivo entre o conhecimento (no sentido moderno de Know-How) e o pensamento, então passaremos, sem dúvida à condição de escravos indefesos, não tanto de nossas máquinas quanto do nosso Know-How, criaturas desprovidas de raciocínio, à mercê de qualquer engenhoca tecnicamente possível, por mais mortífera que seja (p.11).
Absolutos, exemplos, extrapolação – parte 2
Então lendo o blog Tekhnè me pego lendo na Wired um texto do (monstro/anjo) Chris Anderson e me percebo lendo, na verdade, a contrapartida do que falava no outro post.
Anderson clama nesse texto, seguindo os passos de Norvig, chefe de pesquisas da Google, que os modelos científicos se exauriram e que a ciência – assim como a própria operacionalidade da rede e sua evolução – não dependem e nem devem depender mais deles.
De fato, eu (dis)concordo. O montante de dados em fluxo hoje em dia seria enlouquecedor se não existissem os mágicos algorítimos da Google para ordenar? É uma colocação perigosa demais, a meu ver, a que Anderson coloca:
This is a world where massive amounts of data and applied mathematics replace every other tool that might be brought to bear. Out with every theory of human behavior, from linguistics to sociology. Forget taxonomy, ontology, and psychology. Who knows why people do what they do? The point is they do it, and we can track and measure it with unprecedented fidelity. With enough data, the numbers speak for themselves.
A ontologia, a psicologia, a sociologia e, em termos, até a teologia está profundamente envolvida nessa forma de pensar, ordenar e planejar o mundo. Quando ele diz:
There is now a better way. Petabytes allow us to say: “Correlation is enough.” We can stop looking for models. We can analyze the data without hypotheses about what it might show. We can throw the numbers into the biggest computing clusters the world has ever seen and let statistical algorithms find patterns where science cannot.
ele entra de mansinho num universo ontológico muito perigoso, adentra uma lógica na qual o homem é meramente coletor e leitor de dados. Não é necessário imaginação ou pesquisa, os computadores e seus calculos inimagináveis farão todo o trabalho pela gente, deixando-nos – como quando ele se refere ao trabalho do biológico Venter – a mercê da descoberta mas sem a necessária compreensão fundamental daquele fenômeno; ficamos somente no cálculo. Somente na premissa de que se determinado aspecto, mesmo cultural e comportamental, pode ser calculado, isso basta.
Ninguém está aqui dizendo que a matemática aplicada é o demônio. Ela propiciou fundamentalmente a vida que todos os seres humanos em todos os cantos do planeta vivem. Meu pai costumava dizer pra mim que “tudo é matemática” e, de certa forma, ele está sim correto. Acontece que as coisas não se limitam a isso. A frustração em relação aos tais mágicos algorítimos da Google permeia em muito não só o uso da Internet como diversos pensadores desse, podemos chamar, fenômeno de consolidação de um mundo que não precisa mais dos homens.
Perigosamente ele afirma “There’s no reason to cling to our old ways“. Mas acho que também não razão, além de ser absurdamente desproporcional, simplesmente esquecer o passado e divinizar a Google.
Qualifico-me
Bom, imitando o Márcio, também me anuncio.
Hoje fui lá e apesar da minha gripe ferrenha (que eu sabia previamente que contrairia assim que terminasse meu relatório), gastei a grana pretíssima que foi imprimir, imprimir as imagens coloridas e encadernar meu relatório de qualificação e ele já está devidamente entregue.
Dia 21 de agosto é o meu dia D. Banca de qualificação. Francisco Rüdiger e Bernardo Lewgoy.
Grandes expectativas. No interesse da transparência, se alguém se interessar em dar uma olhada (não aceito críticas
) eu disponibilizo aqui (são 98 páginas…).
Foi uma caminhada interessante até aqui, tendo a vantagem de já ter começado a análise e a pesquisa em si (tanto bibliográfica quanto da série) muito tempo antes. Estou orgulhoso de mim mesmo e espero ótimos resultados dessa empreitada.
Corpo Defeituoso, Completo Sedentário ou Máquina Humana?
Como um dos meus únicos leitores já antecipou, esse post tem como cerne o outro lado da moeda sobre essa questão do corpo.
Há algum tempo arqueólogos e egiptólogos descobriram algo que faria os butiás cairem dos bolsos de Marx. A sua glorificada massa operária, na verdade, já existia mais de três mil anos antes dele nascer. Os construtores de pirâmides, tidos, pelo conhecimento popular e mesmo pelos livros de história da minha época de colégio, como escravos numa sofrida e árdua tarefa de divinização de seus líderes na verdade eram empregos classe A. Tinha alimentação farta e incondicional (coisa que há três mil anos era algo do tipo ‘você planta pra poder comer, se não plantar, não tem, e só tem o que se planta’), que contava com frutas frescas, peixe e vinho. Muito mais do que qualquer trabalhador da classe plebéia em qualquer função (mesmo alguns escribas). Tinham, apesar disso parecer estranho, seguro-saúde: se eles se machucavam ou ficavam enfermos, eram tratados pelos melhores “médicos” e tinham completa assistência e recebiam os valores dos dias que não puderam trabalhar. Era um emprego, de fato, cobiçadíssimo. Afinal, era o único emprego, que se saiba, no Egito Antigo, que possuía a noção de folga e horário de trabalho. Até a banhos públi
cos os trabalhadores tinham direito. Além, é claro, de aulas e instrução. Ao contrário do que, pelo menos na minha época, se ensina nos colégios, os tais escribas não eram os únicos que tinham contato e domínio sobre o complicado alfabeto hieroglífico; as comunidades construtoras de pirâmides tinham aulas de escrita, desenho de engenharia e técnicas de construção, usavam as sobras das pedras-calcário para enviar mensagens, cartas, para fazerem contabilidade e controle de materiais. Ou seja, a vida forçosa e física que imaginávamos que esse povo incrível tinha é, de fato, pura imaginação.
E então nos remetemos ao tema em si: a vida física, braçal, se prefererim, do homem é apenas um dos níveis de existência. Como Heidegger bem aponta, o SER do humano é mais complexo, sub-dividido em vários níveis e várias esferas. Claro que Heidegger, assim como muitos filósofos e pensadores, relegam o Egito Antigo à antigüidade esquecível, sem grandes reverberações na nossa vida. Pois eu, na minha humilde posição de aprendiz, já me coloco em outra esfera. Eles, os Egípcios antigos, tinham as mesmas noções que os gregos da antigüidade sobre a funcionalidade do ser humano. Aos construtores que ficavam irremediavelmente feridos não era reservado o esquecimento; eles viraram mestres. Ensinavam os novos trabalhadores que chegavam todas as semanas como era o funcionamento. Sim, Heidegger e Rüdiger, existia técnica, e a mesma técnia que dizem ter sido criada pelos gregos, ali no Egito. Mais de 1500 anos antes do Helenismo grego ou das guerras do Peloponeso. Salas de aula, minha gente.
A vida humana su
pera em muito o campo físico. Como bem mencionou o meu leito Cleon, o que diria Stephen Hawking de uma Utopia do Corpo e da Saúde? Creio que provavelmente ele aprovaria, desde que esta lhe conferisse um novo corpo. Brincadeira…
Aí está o exemplo: um ser humano totalmente impossibilitado fisicamente que tem um dos maiores Q.I’s do mundo. Claro, sua vida é muito mais do que a carne, músculos e nervos que possibilitam, materialmente, a vida física do ser humano. O que nos leva a crer que a vida física é secundária, ou, no mínimo, periférica. Entretanto, ela é também inextrincável. Claro que os lesionados trabalhadores egípcios tinham função e a exerciam como forma de manutenção da estrutura funcional. A operacionalização de toda a construção de uma pirâmide, que poderia durar décadas, estava fortemente enredada com o aprendizado e treinamento de cada vez mais trabalhadores, e este aprendizado em si, a apreensão de conhecimento, só
tem a ver com duas ou três esferas materias e físicas da vida humana, o resto de passa na heideggeriana metafísica. Mais ou menos como é hoje em dia em todos os aspectos da vida econômica do mundo. Vemos com clareza que engenheiros são treinados todos os dias, assim como arquitetos, lixeiros, médicos, jornalistas…
Mas o ponto é que nossa existência nesse planetóide de água se limita aos nossos corpos. Claro, nossos legados intelectuais – como os escritos de Marx ou Heidegger – e físicos – como as próprias pirâmides – sobrevivem muito mais do que nossos arranjos celulares. Nosso querido Dr. Hawking já quase morreu diversas vezes em conseqüências das ramificações de sua doença, Esclerose Lateral Amiotrópica, ou ELA, em inglês, ALS, também conhecido como Lou Gehrig’s Disease (famoso jogador de Baseball americano que, infelizmente, teve sua genial carreira encerrada por essa triste e debilitante doença).
Esta doença talvez seja um dos melhores exemplos para falarmos sobre trans-humanidade. Ela é uma deterioração neural progressiva causada pela morte dos neurônios motores. Os números dizem que de uma a duas pessoas em 100 mil irá desenvolver essa doença por ano. E se os números fossem maiores? Hawking é o exemplo de que ela não dissolve ou destrói nossa capacidade ser humanos, inteligentes, racionais, criativos, inteligentes. Entretanto, o nosso querido físico da teoria total de campo e do universo como um noz, estaria fadado a morrer muitos anos antes de suas teorias se tornarem profundamente e infinitamente relavantes se não fosse aquela amiga do Jacques Ellul, do Rüdiger, do Heidgger e minha também: a técnica moderna. Dezenas de aparatos tecnológicos – que na época do Egito Antigo nem era sonhados – sustentam Hawking vivo.
Então a equação se sublima: queremos qualidade e tempo de vida útil e hábil para exercemos sobre o mundo humano e natural nossos desejos (vontade de poder, sempre, sempre, né, Nietzsche?) e ambições, para desenvolvermos nossa única parte que realmente não conhece limites: o pensamento, a mente, o conhecimento. Ao chegarmos numa fase epocal que Heidegger caracteriza como o acabamento da metafísica, nos vemos cada vez mais voltados para a preservação do corpo. Nossos corpos podem não serem o que nos faz humanos, mas são o que nos limitam como tal. Somos humanos do momento em que nascemos até o momento em morremos. E nada mais. A concretude material de nossa existência e de nosso ser é mediada e limitada nesse
plano físico de existência através do nosso DNA ordenando nossa reprodução celular. Somos, em si, células, antes de mais nada. E estas células são, naturalmente, fadadas ao derradeiro fracasso. Jesus, Buddha, Maomé, todos morreram. A vida pós-morte (se existe) é de um critério e de um campo, em vida, inalcançável. Por isso mesmo é amendrontador. Apesar de ser criaturas imaginadas, pois em todos os momentos da vida utilizamos de nosso intelecto e as leituras de nossas percepções para, ativa e passivamente, construirmos a nós mesmos (somos criaturas metafísicas) também sabemos que nosso inevitável zéniti está ali, no horizonte tão próximo da predação do futuro. Exatamente por termos condições materiais (córtex pré-frontal) e metafísicas (conhecimento, abstração) de entender que o futuro é inescapável, jamais podemos deixar de sabê-lo.
Aí jaz a mola motora de todo o conceito de trans-humanismo. Nietzsche com seu übermensch, a ficção cinematográfica, Haraway e Warrick com seus ciborgues, Asimov com a máquina que ganha consciência, coração e vida (aos moldes de um homem), Mary Shelley com seu homem pós-morte, o cristianismo e tantas outras religiões com seus édens perdidos, reencarnações e espíritos, todos desejam sublimar a morte e o inexorável fim da carne humana em um sistema controlável, arquitetado, senciente e com um sentido prático/moral. Estudando Nietzsche, parteiro da pós-modernidade, percebe-se, eu considero que tr
istemente, que o que ele falava é verdade. Se o homem se superar, não será mais homem. E todas as superações almejadas pelas centenas de utopias veiculadas todos os dias em todos os canais, jornais, sites, boca a boca, desejam (e ensejam) o fim da humanidade. O fim do homem. Seu esmagamento pela igual premente nova forma de vida pura, estéril, jovem, superpoderosa que estaria somente (talvez) aquém do próprio ente Deus.
O jovem atleta chinês que treina a exaustão, destruindo seu próprio corpo a fim de chegar mais perto de limites ainda não traçados e o genial cientista americano com seu exorbitante Q.I. encerrado permanentemente numa cadeira de rodas ‘robotizada’ que permite que ele fale e se locomova mesmo que somente seus olhos possam fisicamente se mover são, a meu ver, a mesma coisa.
Heidegger e tantos outros se esforçaram em suas vidas tão fortemente p
ara entender o Ser do homem, e vejo, que a resposta é sorrateira na escuridão das ilusões que criamos para tornar os desafios de cada dia suportáveis. O homem é, eu penso, por definição a superação dos obstáculos. De descer das árvores até vencer as doenças mais invencíveis, de chegar na Lua até a cura do câncer. O homem procura e manufatura os desafios. E neste oximoro de superação o homem chega derradeiramente a conclusão de que deve vencer a morte (sua própria condição) e então se tornar algo mais. Pulando em varas e arcos, mesmo com os joelhos quase que inabilitados, ou reinventando a apreensão do mundo de uma cadeira de rodas.
Triste talvez seja perceber que somos tão lindos e nos damos tão pouco valor… Ao invés de percebermos que já somos Super-Homens, nos pretendemos, realmente, mais que isso… E será isso bom? Mencionando um dos meus favoritos: seríamos Hank Henshaw, o Superman Cyborg, ou seríamos Bizarro?
Francamente, prefiro a versão japonesa: See you, Space Cowboy…
…….Let’s leave this place entirely….


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